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4. TEMPO DE POESIA: O PROCESSO CRIATIVO

4.3 NO MOVIMENTO DE JOGAR-CONTAR E CONTAR-JOGAR

4.3.3 Da cena improvisada à narrativa

Após as experiências com os jogos, vinha o espaço para as narrativas, configurando um momento do processo criativo mais rico em detalhes para todos, o que permitia preencher lacunas do que ainda não era “visível” em cena. Esse momento de construção de narrativas se iniciava na terceira parte da oficina, Jogos de Improvisação e Narração e, por vezes, se estendia até a quarta parte, Roda de avaliação/Escuta.

As narrações aconteciam com alguns objetivos: apresentar fatos e acontecimentos que complementavam ou traziam novas perspectivas para o que havíamos colocado em cena nas improvisações e privilegiar a oralidade dos sujeitos, entendendo com isso suas formas de enunciação, voz, ritmo da narrativa e a qualidade simbólica transmitida por essa forma de comunicação. Tais presenças foram percebidas respeitando o jeito peculiar, as qualidades e limitações de cada participante, sendo algumas vozes e fluências muito baixas, como um balbucio para si mesmo, lentas e pausadas, contrapondo-se a outras berrantes e eloquentes, além daqueles calados, ou, ainda, com gagueira e um outro com deficiência auditiva. Mesmo Mari que era muda se dispunha a narrar fatos, gesticulando freneticamente as mãos, com tentativas de sons e expressões faciais marcantes.

Diante dessa diversidade de possibilidades de narrações, vozes e enunciações, pouco a pouco fomos aprendendo a intercambiar experiências, uma faculdade própria da prática narrativa, adentrando no universo de cada um e conhecendo seus vocabulários, num esforço que logo se transformava em aprendizado, ao “abrir-se para relacionar-se empaticamente com o mundo a nossa volta [...] quando acessamos esta diversidade local, nosso salto perceptivo para o mundo decola muito e uma ponte entre o si mesmo e o outro ganha passagem. É um salto de consciência” (VARGENS, 2005, p.79).

Essa era a tônica dos exercícios: poder ouvir e contar histórias de cada um, com sotaques, vocabulário, maneirismos na fala que revelavam origens e costumes. Como exemplo, podemos citar Coló que sempre contava suas histórias, costurando-as, volta e meia, com um versinho de cantiga, samba ou chula. Ela lembrou que quando pequena, acompanhava o pai no meio do mato para “catá páia de licuri”, para depois ele vender na rua. No caminho da roça, cantavam para “distrair o tempo”:

O rio tá cheio piau, passa por cima do pau, piau. Passa por cima do pau, piau, passa por cima do pau, piau.

Eu tava no mato caçando; eu vi a carreira dum gato; se tu correr eu te atiro, se tu ficar eu te mato.

A menina do sobrado mandou me chamar pra ser criado; eu mandei dizer a ela que eu tava vaquejando meu gado; aê vaqueiro, eu só gosto do samba arrojado.

Pisa na linha levanta o boi; num deixa meu boi no chão, pisa na linha levanta o boi, num deixa meu boi no chão, São Cosme, São Damião.

Coló demonstrava ser devota de Cosme e Damião e, devido às boas festas e carurus aos santos gêmeos, parece guardar boas lembranças:

Cosme e Damião são dois meninos liá, panhou sua espada no rio foi vadiá, vadeia Cosme, vadeia, vadeia Cosme, vadeia.

São Cosme mandou fazer duas camisinhas azul, no dia da festa dele São Cosme quer caruru, vadeia Cosme, vadeia, vadeia Cosme, vadeia.

E dizia: “tudo isso eu sei, tudo isso”, tomando fôlego, depois de cair no samba, rodopiando a saia de um lado para o outro.

Ao contar sobre os ambientes por onde circulavam, os participantes mais idosos como Agenor e João revelavam, nas entrelinhas, suas artimanhas ao se relacionarem com a família em dias de festa. Diziam que festa não combinava com esposa, porque sempre saía confusão: “Lugar de mulher é melhor em casa mesmo” dizia Agenor; e João complementava o argumento do amigo: “é que tem os filhos pra tomar conta, né?”, prontamente rindo e puxando um verso de samba de roda que, segundo ele, cantava para a mulher, quando era noite de samba de roda:

Ô, nunca mais mulher, nunca mais mulher, nunca mais eu vou no samba pra levar mulher. Ô, fica aí mulher que eu vou no samba e venho já, se o samba lá tiver bom eu volto e venho te buscar.

E remendou João: “quando a gente voltava pra casa, dizia que a festa não tinha sido boa e só indo na próxima pra saber se ia ser melhor”, finalizando a história com o riso debochado que tentava encobrir com o seu chapéu de vaqueiro, deixando à mostra seus cabelos grisalhos, enquanto os penteava com mãos trêmulas.

Nesse ritmo leve, solto e descontraído, uma história ia puxando outra, dando oportunidade para que novos jogos fossem criados e uma variedade de possibilidades na estrutura dramática (o quê – quem – onde) fosse solicitada para atender a nossa orientação poética e investigativa. Além disso, o próprio exercício de ouvir e abrir-se para o outro, por si só, é relevante numa experiência teatral que se propõe a trabalhar com histórias de vida e construção de narrativas.

Por isso é fundamental desenvolver a capacidade de escuta mais apurada deste meio, destas pessoas. Acompanhar gráficos de fala em conversas. Escutar e registrar onomatopéias. Perceber a respiração acompanhando os pensamentos e atacando na fala. Observar a relação dos gestos com as palavras. Ver no outro o desenvolvimento de uma ideia sendo expressa. De um sentimento vindo à tona, sendo deflagrado. Perceber ritmos de diálogos. Perceber o que eles nos revelam das situações e das vidas de cada um (VARGENS, 2005, p. 80).