CAPÍTULO 3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
3.3 CENOGRAFIA E ETHOS DA PERSPECTIVA DA SEMÂNTICA GLOBAL
A Semântica Global é um modelo teórico-metodológico sobre o funcionamento discursivo que busca identificar o conjunto de regras que limitam as possibilidades de dizer de cada comunidade. Essas regras regem os planos do discurso e são aplicadas como um sistema de restrições semânticas a cada um desses planos, que não se sobressaem um em relação ao outro.
Ao se aplicar a Semântica Global a este estudo, procura-se verificar no
corpus a interação entre o plano verbal e o visual, enfatizando as noções de
cenografia e ethos. Tais noções são articuladas de forma entrelaçada, de modo a se depreender em que medida restringem os sentidos construídos, imprimindo-lhes certa direção.
Importa também dizer, para que melhor se compreenda a relevância da teoria de Maingueneau para esta análise, que o autor integra os discursos nas dimensões linguística, social e histórica. Desta forma, não se separam dos enunciados e textos analisados: (i) o caráter histórico da Educação no país; (ii) o momento atual no qual os Sistemas de Ensino–enunciadores se inserem; (iii) o fator social segundo o qual se faz parecer que a “Educação é um direito de todos e um dever do Estado”; e (iv) a adesão (ou não) a tal princípio.
3.3.1 CENOGRAFIA
Um texto não é um conjunto de signos inertes, mas o rastro deixado por um discurso em que cada fala é encenada.
Dominique Maingueneau
A enunciação sempre se dá no interior de um espaço instituído, marcado por um gênero do discurso: é o discurso que se coloca em cena e constrói seu próprio espaço de enunciação. É o que Maingueneau chama de cena de enunciação (ou cena enunciativa).
A cena de enunciação descreve o discurso que se mostra por si próprio, bem como sua finalidade, o tipo de discurso e o gênero de discurso.
Não empregamos aqui "cenografia” no sentido que tem seu uso teatral, mas dando-lhe um duplo valor: (1) Acrescentando à noção teatral de "cena” a de -grafia, da "inscrição": para além da oposição empírica entre o oral e o escrito, uma enunciação se caracteriza, de fato, por sua maneira específica de inscrever-se, de legitimar-se, prescrevendo-se um modo de existência no interdiscurso; (2) Não definimos a "cena enunciativa” em termos de "quadro", de decoração, como se o discurso se manifestasse no interior de um espaço já construído e independente desse discurso, mas consideramos o desenvolvimento da enunciação como a instauração progressiva de seu próprio dispositivo de fala. (...) apreendida ao mesmo tempo como quadro e como processo. (MAINGUENEAU, 1993:77)
Assim nos deparamos, ao mesmo tempo, com o “que se diz e o que se legitima por meio do dito”; é o dito e o dizer que se sustentam um ao outro no próprio vir-a-ser do discurso. A cena de enunciação constitui a representação da situação de enunciação. É definida por Maingueneau como o conjunto de “tempo, espaço, enunciador e co-enunciador no momento da enunciação” (2005:106).
A cena de enunciação é formada pela cena englobante, cena genérica e pela cenografia, noção que privilegiaremos durante a análise.
Cena englobante: é aquela que corresponde ao tipo de discurso
enunciado, como: político, religioso, publicitário (um dos eixos desta pesquisa), filosófico, hospitalar, etc.; e de onde surge o estatuto pragmático do texto, que, para Maingueneau, é a finalidade para a qual o discurso foi feito. (2005:86). É aquilo em nome de que se interpela o co-enunciador. Simultaneamente o discurso deve dar condições para que este co-enunciador identifique o “tipo de discurso” produzido. Nesses termos, o discurso político se vincula à cena englobante política; o discurso publicitário se vincula à cena englobante publicitária e assim por diante.
Assim, a noção de “cena englobante” é associada ao “tipo de discurso”, ao estatuto pragmático da enunciação ao qual a depreensão do enunciado
ocorre. Sozinha, essa cena não garante as especificações das atividades verbais, uma vez que todo discurso é enunciado, em verdade, pelo gênero do discurso.
Cena genérica: é aquela que diz respeito aos gêneros do discurso,
produções discursivas concretas que dependem de fatores históricos para existir. Os gêneros do discurso trazem à superfície discursiva posicionamentos e imagens determinados no interior dos campos nos quais os discursos se desenvolvem (político, religioso, publicitário, educacional, etc.). Alguns exemplos de gêneros do discurso: carta, poema, palestra, aula, reportagem, anúncios publicitários.
A cena genérica está associada às condições de enunciação e desta maneira é formulada a partir dos participantes, do lugar e do momento da realização do gênero. Assim, numa reunião de cunho religioso, o gênero do discurso restringe as escolhas lexicais às que se referem àquela religião.
A partir disso depreende-se que os tipos de discurso necessitam de um gênero de discurso que os tornem específicos, mas a cena de enunciação ainda não se encontra completa: o discurso, dentro de um processo que é dinâmico, se mostra e se justifica simultaneamente, tornando-se desta maneira o “centro em torno do qual gira a enunciação”, daí a noção de cenografia:
Cenografia: se refere aos elementos de construção textual
propriamente ditos, ao tratamento do intradiscurso. A cenografia produz a imagem que corresponde a uma dada situação enunciada, e que é singular em relação a todas as demais situações equivalentes construídas nos moldes daquele gênero. É a cenografia que estrutura o quadro específico a ser enunciado, remete às demais cenas enunciativas e valida a enunciação. É sempre composta por pessoas do discurso, e um tempo e lugar discursivos. Por meio da cenografia, o texto se mostra e se faz conhecer, toma forma; é o quadro (ceno) e o processo (grafia) de enunciação. A cenografia não se refere a um cenário ou arranjo a partir dos quais a enunciação ocorre; a cenografia é a própria enunciação que em si mesma se constitui e se desenvolve, a
cenografia é “ao mesmo tempo a fonte do discurso e aquilo que ela engendra” (MAINGUENEAU, 2005:87).
Assim sendo, as publicidades estudadas possuem mais que um pano de fundo ou um “cenário” para a situação enunciada; há mais que personagens aparentemente inertes; há um processo no qual cada gesto, cada indumentária e cada componente têm um papel específico nos enunciados e cooperam na construção do sentido.
Modalizações e itens lexicais
Se todo dizer é um fazer, é o modo desse fazer que é preciso levar em conta, inclusive a maneira como o seu agente se representa e representa o(s) outro(s) através desse fazer...
Ingedore Koch
Dedicamos uma parte deste item à modalização e aos itens lexicais, pois, assim como a relação enunciador e co-enunciador, e as noções de topografia e cronografia, as modalizações e os itens lexicais ajudam a depreender a cenografia.
Podemos descrever as modalizações como posicionamentos do locutor sobre sua fala. São a sua atitude do locutor, em discurso, em relação ao que enuncia.
A modalização implica a distinção entre o dito pelo enunciador e o modo como aquilo que se diz é dito (apesar da indissociabilidade entre dito e modo). Segundo Moura Neves (2006:154), a modalização é um recurso discursivo utilizado para “exprimir o ponto de vista do enunciador”.
Todo enunciado vem com marcas de modalização (mesmo quando o enunciado aparenta não estar modalizado) que podem refletir duas instâncias: na primeira delas, a marca reflete a atividade do enunciador perante seu dito. Isto se dá por meio do modo e tempos verbais utilizados, e também por
elementos como adjetivos e advérbios. Na segunda instância, a marca revela a relação enunciador/co-enunciador que o ato de enunciação pretende construir. É marcando a presença por meio daquilo que diz que o enunciador faz com que a palavra represente o mundo (MAINGUENEAU, 2002:74).
Estabelecer uma diferença entre “modalidade” e “modalização” é uma tarefa complexa, já que ambos os termos em certa medida se equivalem e se complementam. O primeiro designa a expressão da atitude do falante (ou alguém com quem ele fala) no que diz respeito à relação entre um predicado e aquilo que ele predica, vendo-a como um fato, uma possibilidade, um desejo, algo negativo ou positivo, ou algo a temer.
O segundo termo designa a
... marca com que o falante assinala seu enunciado, a fim de indicar sua relação com o conteúdo do mesmo [Pode ser: de conteúdo assumido inteiramente pelo falante, ou assumido com reservas, ou não assumido; pode marcar transparência ou opacidade do sujeito falante; pode indicar tensão entre locutor e interlocutor (locutor que deseja agir sobre o interlocutor e locutor que ignora seu interlocutor) etc.]13
As explicações acima se complementam e não se contradizem e são encontradas nos estudos dos autores aqui citados. O termo modalidade se refere ao tipo de comunicação: asserção, interrogação, ordem (o que se pretende destacar nas análises), tipos nos quais o modo do verbo é pista principal para que a distinção seja feita. Já o termo modalização mostra oposição entre o falante que assume seu dito e aquele que rejeita esse dito, aplicando a ele sinais de que a fala não é sua, a saber: a modalização em
discurso segundo ou tempos verbais que mostram dúvida, como o futuro do
pretérito e o modo subjuntivo.
Para Koch, as modalizações
(...) caracterizam os tipos de atos de fala que deseja desempenhar, revelam o maior ou menor grau de engajamento do falante com relação ao conteúdo proposicional veiculado, apontam as conclusões para as quais os diversos enunciados podem servir de argumento, selecionam os encadeamentos capazes de continuá-los, dão vida, enfim, aos diversos personagens cujas vozes se fazem ouvir no interior de cada discurso (1992:136).
Cervoni indica que o termo modalidade deve ser usado de maneira restritiva com pertinência à Linguística e para se chegar a esse resultado devem-se “efetuar exclusões, isto é, delimitar, no vasto campo da expressividade, um campo mais restritivo, ao qual reservamos a denominação ‘modalidades’” (1989:106).
Maingueneau define modalização como “a relação que se estabelece entre o sujeito da enunciação e seu enunciado” (1993:180). Nesse caso, leva- se em conta o quadro da instituição no qual o discurso é produzido: são as instituições que delimitam a enunciação, explicitando os fatores históricos e sociais que se cristalizam no discurso e mostrando o espaço criado pelo discurso. Eis-nos novamente diante daquilo que vem a ser a cenografia e as regulações sociais do enunciado.
É por meio do estudo da modalização que vemos as formas pelas quais o enunciador assume ou não seu enunciado, dando pistas sobre se o dito é de sua autoria ou retomado de outrem. Nos enunciados cujos verbos são flexionados no presente do indicativo, há assunção do enunciador pelo dito, mas nos que trazem o verbo no futuro do pretérito, a assunção por parte do enunciador se faz duvidosa e sem garantias de sua autoria e responsabilidade.
Para Maingueneau, “dizer é também se situar em relação a seu próprio dizer”, relação que coloca o enunciador frente a seu co-enunciador, inseridos em um tempo e em um espaço discursivos (situação de enunciação). Ainda segundo o autor, as marcas de modalização (advérbios, desinências verbais de
modo e tempo, entre outras) ajudam na construção do sentido na interlocução com o co-enunciador:
O discurso só é discurso enquanto remete a um sujeito, um EU, que se coloca como fonte de referências pessoais, temporais, espaciais e, ao mesmo tempo, indica que atitude está tomando em relação àquilo que diz em relação a seu co- enunciador (fenômeno de “modalização”). Ele indica, em particular, quem é responsável pelo que está dizendo: um enunciado simples como “Está chovendo” é colocado como verdadeiro pelo enunciador, que se apresenta como responsável pelo enunciado, como o fiador de sua veracidade. Mas esse enunciador poderia ter modalizado seu grau de adesão (“talvez esteja chovendo”), atribuindo a responsabilidade do enunciado a outra pessoa (“De acordo com Paulo, está chovendo”) ou comentado sua própria fala (“Falando francamente, está chovendo”) etc. Ele poderia até mostrar ao co-enunciador estar apenas fingindo assumi-lo. (2005:55)
A citação acima remete ao discurso ancorado na situação de enunciação, com marcas de pessoa, espaciais e temporais. A atitude do enunciador pode demonstrar a verdade, a possibilidade, a surpresa, afirmação, etc. Mas também pode ser objetiva e neutra, aquilo que Maingueneau chama de modalização zero, que é a ausência de traços do enunciador no enunciado e apresenta o enunciador como um narrador de fatos.
A seguir, será feita uma descrição dos tipos de modalização e, para ilustrá-las, serão dados exemplos a partir de excertos extraídos dos corpora desta pesquisa. As marcas referentes a cada modalização serão sublinhadas:
Assertivas: apresentam um enunciado como verdadeiro ou falso, coloca
um fato como certo sem deixar dúvida ou espaço para questionamentos. É a expressão de uma crença no caráter verdadeiro ou falso do enunciado, definindo-se como validação ou não validação do dito.
Excerto extraído da publicidade do Sistema de Ensino Aprende Brasil:
“Onde muitos vêem apenas uma criança, nós vemos também um grande futuro. Com o Sistema de Ensino Aprende Brasil, sua cidade garante um futuro melhor para as crianças.”
Epistêmicas: estão relacionadas ao eixo da crença, à ausência de
certeza ou ao conhecimento que temos do referente, domínio do certo e do saber. Para Moura Neves (2006:160), este tipo de modalização está relacionado à necessidade e possibilidade e depende do conhecimento do falante sobre o mundo. É quantitativa, uma vez que oscila entre o menos provável ao mais certo em relação ao referente. É marcada por operadores lexicais de modalização tais como “é certo”, “é possível”, “é provável”, “é improvável”, “é seguro”, “parece-me que”, “tenho a impressão que”, entre outros.
Excerto extraído da publicidade do Sistema de Ensino Ético:
“Aprender é saber escolher. (isto é certo) A cada escolha (é certo que ocorra), um aprendizado. E a cada aprendizado, (é certo que ocorra) uma conquista.” –
As inserções feitas aqui entre parênteses pela pesquisadora mostram que os marcadores desta modalização encontram-se elípticos, mas mantém-se o efeito de sentindo da certeza que caracteriza este tipo de modalização.
Deônticas: as modalizações deônticas estão inseridas no campo da
obrigação, da conduta, da responsabilidade, da obrigação e da permissão. Atuam no nível do dever e da obrigação, não operam no nível da proposição, mas sim do dever. São marcadas por verbos no imperativo (como em textos prescritivos) e expressões impessoais como “é proibido”, “é necessário”. (MOURA NEVES, 2006:160). Estão ligadas ao nível da necessidade e permissão e nesse aspecto são marcadas pelos verbos “poder” e “dever” e aos demais verbos que sejam conjugados no enunciado no modo imperativo.
A modalização deôntica é aquela na qual o co-enunciador deve aderir ao enunciado (obediência); o enunciador nesse tipo de discurso é o que sabe e o co-enunciador é aquele que deve aprender.
“Seus alunos têm muitas escolhas importantes para fazer na vida. Faça a primeira delas. Escolha FTD – Sistema de Ensino.”
Avaliativas (ou apreciativas): apresentam no enunciado um julgamento
de valor do referente, é qualitativa na medida em que coloca este referente como “bom ou ruim”, traz marca de julgamento de valor por meio de operadores lexicais de modalização que podem ser advérbios, interjeições e adjetivos que podem atribuir valor apreciativo ou depreciativo em relação ao dito. Referem-se a julgamentos, normas e critérios sociais.
Excerto extraído da publicidade do Sistema de Ensino Objetivo:
“O Objetivo conjuga inovações tecnológicas com solidez de sua longa experiência, com mais de 40 anos de tradição, atuando no âmbito da Educação Infantil, do Ensino Fundamental, do Ensino Médio e da preparação para os vestibulares.”
3.3.2 ETHOS
Mediante sua fala, se dá uma identidade compatível com o mundo que ele faz surgir em seu enunciado. (...) o ethos está ligado a uma evolução das condições do
exercício da palavra publicamente proferida, particularmente com a pressão das mídias audiovisuais e da publicidade
Dominique Maingueneau
Quem faz uso da palavra, seja de forma falada ou escrita, ao fazê-lo passa obrigatoriamente ao(s) outro(s) com quem fala ou para quem escreve uma imagem de si: seu estilo de ser (ou estar no momento da enunciação), escolha lexical, postura corporal e vestimentas são fatores que levam o enunciador que faz um discurso a ter construída pelo outro, seu co-enunciador, uma “representação de si”. A construção do ethos é, pois, um processo também dinâmico que ocorre nas trocas verbais, principalmente quando a finalidade do discurso é persuadir.
Ao considerar que enunciador e co-enunciador encontram-se imersos em um contexto histórico e social que lhes é previamente determinado,
entendemos que a “imagem de si” está estreitamente associada a papéis sociais e a regras sócio-culturais e que vai para além da intencionalidade do sujeito que age e fala; está vinculada às formações dos sujeitos enunciadores (religiosas, médicas, políticas, educacionais, etc.) e aos sistemas de restrições já citados.
Causar boa impressão de si mesmo implica criar uma boa imagem de si e daquilo a que se refere e conquistar a consequente adesão de quem ouve; temos nessa situação o exercício da “fala como ação que visa a influenciar o
parceiro”.14
Faz-se pertinente ressaltar que os estereótipos conferem ao enunciador uma imagem prévia formada pelo co-enunciador, neste caso, o público leitor da revista Nova Escola, que, ao pensar na implantação de um Sistema de Ensino em sua unidade escolar, traz previamente em seu imaginário a imagem de oferta de serviço já formada pelas Editoras e cursinhos associados a esses Sistemas que se revelam na forma de publicidade, buscando adesão na forma de “compra” de seus “pacotes de ensino”.
Por meio da noção de ethos, avaliar qual imagem de sujeitos enunciadores os “Sistema de Ensino” mostram de si faz-se relevante porque não se busca determinar aqui o que o usuário final desses sistemas de ensino (alunos e professores) tem a dizer sobre o uso do material didático oferecido, mas busca-se saber que ethos se pode depreender desses enunciadores por meio dos anúncios publicitários veiculados.
Cada anúncio é singular, mas as maneiras por meio das quais o enunciador busca a adesão do co-enunciador ao dito é matéria dos estudos de argumentação e obedece a funcionamentos discursivos, ponto interessante nos estudos sobre ethos discursivos para esta pesquisa. É importante, dessa forma, conhecer não somente o enunciador e a situação de enunciação, mas também a finalidade dos enunciados formulados nos anúncios.
É com a contribuição trazida por Dominique Maingueneau à noção de
ethos que se torna possível depreender como as dimensões do discurso são
integradas e são reservados lugares para a enunciação que legitimam o que o enunciador tem a dizer, e o inserem numa situação institucional que determina a relação do que ele sabe com o que ele diz.
Para o autor, o ethos está vinculado à cena de enunciação, fator que facilita ao enunciador a escolha de um quadro no qual a enunciação se desenvolva. Temos aqui expresso o funcionamento do dinamismo da enunciação no qual ethos e cenografias não se dissociam quando a procura é por depreender a imagem discursiva do enunciador.
Maingueneau (1993, 2004, 2005, 2006a, 2006b, 2008a e 2008b) dá amplitude à noção de ethos em sua proposta de Análise do Discurso, na qual mostra que todo discurso, oral ou escrito15, pressupõe a representação do corpo do responsável, o enunciador que se responsabiliza pelo discurso (por si ou por meio do apoio de um fiador cuja notoriedade é publicamente conhecida, o que será observado quando da ocorrência dos anúncios que se apóiam na imagem de um fiador externo (re)conhecido).
Dessa forma, esse enunciador, que é responsável pelo seu discurso, tem a si atribuído um caráter (conjunto de traços psicológicos representados por modelos em nossos anúncios) e uma corporalidade (conjunto de características físicas, gestuais e indumentárias, da mesma forma), que se mostram indissociáveis e, juntos, legitimam o discurso.
O autor relaciona ao ethos o tom do enunciador, que remete tanto ao discurso escrito quanto ao falado. Temos então um enunciador a quem atribuímos características durante sua enunciação (seja ela escrita, oral, com leitores e ouvintes); ele tem um conjunto de atributos físicos e psicológicos e
15 Maingueneau traz uma grande contribuição aplicando a noção de ethos ao enunciador do texto escrito.
sua fala tem um tom; o discurso desse enunciador é legitimado por meio de uma cenografia, motivo pelo qual realizamos a análise dos corpora a partir da noção de ethos, associada à noção de cenografia. Então, teremos que:
"... todo discurso supõe um ethos, isto é, uma certa representação do corpo do enunciador, um caráter e uma corporalidade que atuam como elementos legitimadores do modo pelo qual se enuncia ..." SOUZA-E-SILVA, M.C.P. & ROCHA, D. (2000,p. 193-206)
Diante do até aqui exposto, podemos entender o funcionamento/dinamismo dos textos: o enunciador encontra-se inserido não apenas numa situação de enunciação, mas num contexto social e histórico, com filtros sociais que estabelecem aquilo que é permitido ou não dizer16 e cujo
discurso necessita ser eficiente quando se trata de persuadir o outro.
A representação subjetiva do enunciador construída pode ou não coincidir com os verdadeiros traços dele: o enunciador pode ser representado