Roda Viva foi um espetáculo, como muitos naquele período, vítima dos abusos da censura teatral. O texto e a cena foram inicialmente liberados, porém, depois do incidente em Porto Alegre, foi proibido em todo território nacional. A censura considerava o teatro uma manifestação artística profundamente marcada pela subversão e pelo questionamento do sistema ditatorial96. Em agosto de 1968, um ofício com a tarja “Confidencial”, intitulado: “O teatro e a subversão”, assinado pelo comandante da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais do Exército, General de Brigada José Pinto de Araújo, citava três cenas da peça, quais sejam:
Assunto: O teatro e a subversão.
1) Jovens de pouca idade em bacanais, onde representam cenas que jamais um pai ousou pensar de suas filhas.
2) Um coronel gordo, de uniforme amarrotado, tira o capacete, senta-se sobre o mesmo e representa uma cena completa de quem satisfaz necessidades fisiológicas.
3) Virgem Maria sobe no palco com manto e halo sagrado. Dois personagens entram em cena, tiram seu manto. Ela está de biquíni e é submetida, tanto pela frente como pelas costas, a atos lascivos, num desrespeito à dignidade humana.97
O segundo tópico não faz parte do espetáculo Roda Viva98. Nem o texto dramático, nem nas fotografias do espetáculo, nem as críticas fazem referência a nenhuma cena parecida com a descrição dada pelo general durante as apresentações de Roda Viva. O espetáculo desrespeitava a portaria de censura que liberou o texto e não o espetáculo. A nota da censura foi publicada na íntegra na Folha de São Paulo.
96 Não se trata de fazer uma “História da Censura” no Brasil. O tema é por demais complexo. Para saber mais,
consultar os trabalhos:
AQUINO, M. A. de. Censura, Imprensa e Estado Autoritário (1968-1978): o exercício da dominação e da resistência: O Estado de São Paulo e Movimento. Bauru: EDUSC, 1999.
BERG, C. Mecanismos do silêncio: expressões artísticas e censura no regime militar (1964-1984) São Carlos: EdUFSCar, 2002.
KHÉDE, S. S. Censores de pincenê e gravata – dois momentos da censura teatral no Brasil. Rio de Janeiro: Codecri, 1981.
97 GRILLO, C. General fez censura vetar Roda-viva. Folha de São Paulo, São Paulo, 03 jun. 1990.
98 O próprio Chico Buarque faz referência a esse episódio. Para ele, o C.C.C estava interessado em invadir um
A liberação de “Roda Viva” ocorreu sem qualquer anormalidade, pois que, o “script” e o ensaio geral apresentados ao SCDP para exame prévio não continham qualquer atentado contra os costumes.
A empresa teatral responsável pelo espetáculo, todavia, não acatou as determinações da Censura. Os artistas não respeitaram as marcações iniciais, promovendo improvisações – cujas sandices estiveram as raias do que seria permissível, em espetáculo de diversão pública.
Em cada espetáculo levado ao público, o “script” era modificado escandalosamente. A peça “Roda Viva” transformou-se, assim, em autêntico “show” depravado, numa constante sucessão de cenas atentatórias á moral e aos bons costumes. Toda a cena era apresentada no palco, culminando com um indiscutível ato sexual.
Como não bastasse, “conclama o público burguês a se levantar, incitando-o a derrubar a ditadura que se implantou no Brasil, objetivando a implantação de um governo popular”.
Num processo de ridicularização, apresenta artistas com indumentárias de sacerdote, soldados e, inclusive, a Virgem Maria sendo possuída pelo Anjo. Há cenas de “mulheres com mulheres” e de “homens com homens”...99 Na tentativa de barrar o espetáculo, uma série de argumentos são arrolados para justificar a proibição como sendo uma prática que, em última instância, está em conformidade legal com o sistema de valores da sociedade. É uma proibição que se pauta por valores morais e religiosos, bem como pela capacidade de se contrapor ao sistema ditatorial, conclamando o público a se contrapor ao sistema ditatorial. Em duas vertentes diferentes, o espetáculo subverte a ordem estabelecida, pois agride o sistema político e a sociedade civil.
A censura se contrapunha à obra do dramaturgo, considerando os perigos que esta oferecia ao público. O censor desqualificava o texto e se colocava como intermediário entre a obra e o público pois,
[...] depois que se assiste a esta “coisa” que denominaram peça teatral, temos a impressão de que o público é quem agora vai fazer uma greve contra a Censura, por não estar fazendo Censura. [...] Gritos histéricos de “ABAIXO A DITADURA”, “FORA COM OS GORILAS”, e um encaixe de 48 horas, que, no segundo ato é dito pelo bêbado, nestes termos: - “Meus senhores, um tenente do glorioso Exército Nacional deu voz de prisão à artista Tônia Carrero; será que ele não sabia fazer mais nada com ela, porra.100
99 “Roda Viva” era um “show de depravação”. Op. cit.
100 Parecer do censor Luiz Menezes. Seção de Censura Federal da Delegacia Regional do DPF/GB. RJ,
17/02/1968. Apud. CORDEIRO, S. S. A. A dramaturgia de Chico Buarque de Hollanda e o embate com a
censura (1968-1978). 2002. 208f. Dissertação (Mestrado em Teatro) – Centro de Letras e Artes, Uni-Rio, Rio de
Janeiro, 2002, p. 134. Todos os pareceres citados neste capítulo foram catalogados por esta pesquisadora. As citações referem-se a este trabalho de Mestrado.
O censor argumentava que o espetáculo divergia profundamente do governo instaurado. Interpondo-se entre público e obra de arte, o censor julgava o espetáculo como uma “coisa” e que a censura tinha o dever de se manifestar frente a este abuso dos artistas. Menezes inverte a sua posição de representante de um regime autoritário e se coloca como um indivíduo que reivindica atitudes mais drásticas do sistema em relação aos artistas.
Não se pode mais exercer o poder de polícia previsto na Constituição, porque a cada investida da autoridade policial ameaças são feitas ostensivamente de que vão recorrer a autoridade superiores e que novas greves de protesto vão derrubar aquilo que não somos nós que fazemos, as Leis, mas tão somente procuramos aplicar dentro de nossas estritas e formais atribuições. Ou reagimos com a Lei que ainda está do nosso lado, ou teremos de sucumbir diante de tanta retaliação desmoralizante [...]101
Menezes elabora um parecer em que sua função está sendo profundamente questionada pelos artistas, pois estes sempre recorrem às autoridades superiores para reverter o processo. As táticas da censura são profundamente questionadas pelos artistas. No entanto, os censores recorrem a uma sensibilização da população para que, em nome de pressupostos conservadores, justifique a sua atuação.
Acontece, entretanto, que a mencionada exibição vem provocando grande celeuma, ofendendo os sentimentos de setores ponderáveis da opinião pública paulista. Personalidades da sociedade e pessoas do povo, em comentários dos mais variados tons, desde a simples crítica até a condenação mais formal, estão reprovando a permanência do escândalo, e a indignação generalizada repercutiu em editorias incisivos de jornais e em declarações candentes de parlamentares.102
Dessa maneira, nota-se uma uniformidade da censura em se pronunciar sobre Roda
Viva. Nos comentários dos censores, o espetáculo é portador de elementos que têm como mensagem principal a subversão. Fica evidente a postura contrária ao governo aliada ao discurso moralizante que, ofendendo a “totalidade da sociedade”, o espetáculo atentava contra o público. Tal reação à cena estava evidenciada nos próprios jornais e nas declarações dos deputados. Essas considerações justificam a proibição do espetáculo, pois a censura tem que tomar alguma atitude – já que sua atuação está respaldada por setores importantes da sociedade – em relação ao espetáculo. Novamente, o censor justifica a existência do órgão repressor.
Esclarecemos a opinião pública em geral que, além do princípio básico constitucional, deve a Censura Federal atender às recomendações do Código
101 Ibid.
102 Ofício nº 327/68-GAB. Expedido pelo Delegado Regional do DPF/SP, General Sílvio C. de Andrade enviado
para o General Diretor-Geral do Departamento da Polícia Federal/DF, 24/06/68. Apud. CORDEIRO, S. S. A. O p. cit. p. 136.
Penal Brasileiro [...] Finalizando, esclarecemos que as irregularidades supra mencionadas ultrapassam aos limites da legislação vigente sobre censura de diversões públicas para atingir dispositivos penais e inconstitucionais. Eis pois, os verdadeiros motivos da atitude tomada pela direção do Departamento de Polícia Federal.103
A Censura insistia em esclarecer que sua atuação se pautava em normas legais e estabelecidas pela Constituição Federal. Porém, a existência legal não bastava para que os censores efetuassem os cortes e, às vezes, o veto. Mario Franciso Russomano afirma que o espetáculo atentava contra os interesses da sociedade.
Certo estava, como está, o colega Censor Luiz Menezes em seu parecer, que procurou dar exaltação à defesa da moral-social média, como se fosse um grito de alerta às autoridades públicas em geral, da mesma forma como empresários irresponsáveis permitem as exaltações imorais ou subversivas de peças teatrais que afrontam a sociedade104.
Russomano, além de concordar com o colega, aborda a questão tendo como objetivo a defesa da sociedade contra os “abusos” do espetáculo e conclama as autoridades em geral a se manifestarem contra a cena teatral. Naquele momento, entre a censura e os diversos artistas travava-se uma luta que se processava na obra de arte. “Enquanto “eles” sabem o que fazer e enquanto não houver firme diretriz censória, estaremos sempre lutando sem trincheiras, sentindo-se a falência da autoridade, como outrora, antes da Revolução de 31 de março”.105
O censor utiliza-se do contexto e dos referenciais históricos para analisar o espetáculo. Enquanto a sociedade se divide entre “eles” e “nós, os embates da censura com os artistas ganha contornos históricos, pois o recrudescimento do regime tinha uma explicação no contexto vivenciado por estes indivíduos. Na percepção do censor, se naquele momento a legislação censória não se impusesse de maneira definitiva, aconteceria uma “falência da autoridade” governamental, causando um atraso no processo histórico, ou seja, regredindo ao momento anterior à “revolução”.
Os pareceres mesclaram análises e pontos de vistas muito próximos. De uma maneira geral, pode-se perceber que os motivos elencados pela censura perpassava pelos valores conservadores até uma nítida proposta de contraposição ao sistema ditatorial engendrada pelo espetáculo. Ao mesmo tempo em que a censura justificava a sua existência legalizada pelo sistema ditatorial, existia a necessidade de convencer e de explicar para a população em geral que suas atitudes estavam ancoradas por diversos setores sociais. Mesmo proibindo, os
103 Nota à imprensa publicada pela Direção-Geral do Departamento de Polícia Federal, 04/10/68. Ibid., p. 140. 104 Parecer do censor Mario Francisco Russomano. São Paulo, 15/07/68. Ibid. p. 137.
censores apontavam os segmentos da sociedade que os apoiava. Era a justificativa para sua existência. Nesse sentido, interpunha-se entre a obra e o público, criando artifícios que “direcionavam” e “determinavam”, em última análise, o objeto artístico.
Em Roda Viva, mesmo que a censura tenha liberado o texto, o espetáculo fugia aos “padrões” estabelecidos pelos censores, tornando-se um importante pólo de resistência aos abusos do governo ditatorial. Dalva Janeiro e Antonio Celso V. Adelezzi apontavam como o espetáculo atuava nas brechas deixada pelos censores.
Tendo assistido por três vezes o espetáculo em tela, podemos afirmar que o mesmo vem sendo representado dia-a-dia de maneira diversa, em desacordo, portanto, com o texto original, aprovado pelo S.C.D.P e que só agora nos chega ás mãos.[...] Entre as alterações encaixadas no texto podemos citar, por exemplo: palavras e expressões de baixo calão [...] ofensas á platéia [...] expressões como “Abaixo a ditadura”. “Fora com os gorilas”. “Só o povo armado derruba a ditadura”.106
Roda Viva firmava-se cada vez mais como um espetáculo que tinha como principal objetivo fazer uma crítica ferrenha ao sistema ditatorial brasileiro. Escapava aos mecanismos da censura, modificando o texto original, com diversos slogans que questionavam profundamente a existência e a permanência de um governo ditatorial. Com uma estética agressiva, o espetáculo trazia para o palco as contradições do momento histórico, arregimentado em torno de si, diversas análises e possibilidades. Sem dúvida, muitos pareceres se assemelham aos comentários de diversos indivíduos que, pelos mesmos motivos conservadores e morais, condenaram veementemente a estética agressiva do diretor. Foi o caso da deputada Conceição das Neves e do radialista Randal Juliano.
Como Roda Viva foi analisado pelos trabalhos acadêmicos? Como estes trabalhos dialogaram com as críticas e construíram interpretações diversas sobre a cena teatral? Qual o lugar destinado a Roda Viva dentro da produção do diretor e do dramaturgo? São essas as questões discutidas a seguir.