CAPÍTULO 2. O ACERVO DA EMPRESA BRASIL DE COMUNICAÇÃO E O
2.3 A Central de Pesquisas e as questões que impactam os usos do acervo da EBC
Como veremos no próximo capítulo, em um diagnóstico mais aprofundado, alguns dos principais entraves à atuação da Central da Pesquisas são: os entendimentos jurídicos pouco claros quanto à propriedade dos documentos herdados pela EBC de outros veículos de comunicação, pois a lei de criação da empresa não é bem compreendida nesse sentido; a dificuldade em identificar ou confirmar a autoria da EBC ou de suas antecessoras em alguns documentos do acervo; as informações equivocadas encontradas no sistema de busca dos conteúdos das mídias; a equipe restrita responsável por conduzir todas as etapas do atendimento, e a obsolescência dos suportes e equipamentos.
Com relação aos dois últimos entraves apontados, é importante dizer que soluções evidentes, mas difíceis de alcançar, como o maior investimento orçamentário no setor, que proporcionaria recursos para contratação de mais profissionais, terceirizados ou concursados, e para manutenção e compra de equipamentos, poderiam significar a superação destas dificuldades. Vale dizer que estas dificuldades atingem o trabalho da gerência de acervo de TV e Rádio de forma ampla, pois prejudicam também a pesquisa e a liberação de arquivos de áudio e vídeo para as produções internas.
Quanto aos desafios referentes à confirmação de autoria dos materiais custodiados pela EBC, o trabalho necessário pode ser bastante simples ou mais complexo, dependendo da situação. Para identificação da propriedade dos documentos é possível, por exemplo, recorrer às fichas físicas guardadas dentro das caixas das mídias ou verificar os créditos nas imagens, exibidos no fim dos programas de TV, que muitas vezes possuem informações não transcritas para os sistemas de busca. Já os casos de maior dificuldade envolvem fitas que não têm sua identificação descrita nos sistemas, não possuem fichas físicas referentes aos conteúdos e cujas
imagens não possuem créditos. Estes casos tornam-se mais preocupantes quando envolvem solicitações feitas através da Central de Pesquisas, pois quando há pedido de licenciamento, dificulta-se ainda mais este processo, como relato abaixo ao discorrer sobre os entendimentos jurídicos pouco claros quanto ao patrimônio custodiado pela empresa.
No que tange aos entraves relativos à identificação inadequada ou às informações imprecisas sobre os documentos, seja nos sistemas de busca ou nas fichas catalográficas, é importante também que seja desenvolvida uma ação efetiva no âmbito da referida gerência para investigação, sistematização e atualização destes registros. Para esclarecer um pouco do que se tratam esses equívocos e imprecisões, é preciso dizer que as mudanças nos sistemas de busca da empresa, assim como as diferentes sistematizações às quais os registros dos documentos foram submetidos ao longo dos anos geraram indicações bastante confusas. Um bom exemplo seria a padronização feita à época da instalação do Iacervo com relação aos anos de produção dos programas de TV ou takes, que foram registrados como 1900. Provavelmente o padrão estabelecido para este ano seria uma maneira de uniformizar e, assim, migrar as informações de outra base de dados para o Iacervo, e mais à frente, este dado seria corrigido, o que não aconteceu em grande parte do material registrado na plataforma.
Certamente, a ampliação da equipe ou a contratação de profissionais temporários, que poderiam ser viabilizadas com mais recursos financeiros destinados ao setor, ajudariam à superação destas dificuldades. Da mesma forma, um planejamento de diretrizes para a execução de uma ação de investigação, sistematização e atualização de dados contidos nos sistemas de busca seria o caminho mais indicado.
A questão dos entendimentos jurídicos com relação à cessão dos documentos do Acervo da EBC é mais complexa. A dinâmica do trabalho da Central de Pesquisas é atingida particularmente no caso dos entendimentos jurídicos sobre o material histórico, pois seu licenciamento costuma ser dificultado pela consultoria jurídica (ConJur) da EBC, já que a redação da lei de criação da Empresa Brasil de Comunicação (11.652/2008) não define claramente, como veremos mais à frente, a propriedade da EBC sobre os programas de TV, arquivos audiovisuais, iconográficos e textuais das antigas emissoras. Portanto, a ConJur não reconhece estes fundos arquivísticos como patrimônio da Empresa Brasil de Comunicação, e, dessa forma, os pedidos de cessão de antigos documentos muitas vezes não são concedidos, pois, para autorizar o licenciamento, deveria estar claro o direito de propriedade dos acervos.
A falta de clareza da legislação faz com que as interpretações da área jurídica variem conforme a composição da equipe. Ocorre que esta possui profissionais de fora do quadro da empresa, em cargos comissionados, e, não obstante, em funções estratégicas para a definição
da viabilidade de licenciamento do material histórico. Por este motivo, ou seja, devido a entendimentos jurídicos diversos de profissionais que chefiam a ConJur, não raramente ocorrem casos de usuários da Central de Pesquisas conseguirem licenciar arquivos de imagens para um projeto em um determinado ano e, alguns anos depois, não poderem licenciar material bastante semelhante.
A título de exemplificação do que dispõe a lei de criação da EBC quanto ao patrimônio das empresas extintas, transcrevo a seguir dois parágrafos que fazem referência à antiga Radiobrás, bem como à ACERP. A redação do artigo 28º da Lei 11.652/2008 determina que “a Radiobrás será incorporada à EBC após sua regular constituição, nos termos do art. 5o desta
Lei” e ainda, em seu parágrafo único, especifica que “os bens e equipamentos integrantes do acervo da Radiobrás serão transferidos e incorporados ao patrimônio da EBC”. No artigo 9o,
mais uma menção ao patrimônio herdado pela EBC, que antes pertencia à Radiobrás, pode ser verificada no inciso 1º, que diz:
A integralização do capital da EBC será realizada com recursos oriundos de dotações consignadas no orçamento da União, destinadas ao suporte e operação dos serviços de radiodifusão pública, mediante a incorporação do patrimônio da RADIOBRÁS — Empresa Brasileira de Comunicação S.A., criada pela Lei no 6.301, de 15 de dezembro de 1975, e da incorporação de bens móveis e imóveis decorrentes do disposto no art. 26 desta Lei.
Com relação à incorporação dos arquivos produzidos pelas emissoras geridas anteriormente pela ACERP, a lei parece menos clara, o que pode explicar o fato do entendimento quanto à cessão dos arquivos das emissoras de televisão ser passível de questionamento jurídico. De acordo com o inciso 3º, do artigo 26º, da Lei 11652/2008, “reverterão à EBC os bens permitidos, cedidos ou transferidos para a ACERP pela União para os fins do cumprimento do contrato de gestão referido no caput deste artigo”. Já o inciso 4º do mesmo artigo determina que “serão incorporados ao patrimônio da União e transferidos para a EBC o patrimônio, os legados e as doações destinados à ACERP sujeitos ao disposto na alínea i do inciso I do caput do art. 2o da Lei nº 9.637, de 15 de maio de 1998”46. Por sua vez, a alínea i determina a:
previsão de incorporação integral do patrimônio, dos legados ou das doações que lhe foram destinados, bem como dos excedentes financeiros decorrentes de suas atividades, em caso de extinção ou desqualificação, ao patrimônio de outra organização social qualificada no âmbito da União, da mesma área de atuação, ou ao
46 PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA (Brasil). “Lei n. 9.637, de 15 de maio de 1998”. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9637.htm. Acesso em: 23 abr. 2019.
patrimônio da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios, na proporção dos recursos e bens por estes alocados.
Tanto o caput do artigo 26º a que se refere o inciso 3º quanto o inciso 4º recorrem à Lei 9.637/1998, que dispõe sobre “a qualificação de entidades como organizações sociais, a criação do Programa Nacional de Publicização, a extinção dos órgãos e entidades que menciona e a absorção de suas atividades por organizações sociais”.
O fato de a ACERP não ter sido extinta e nem ter sido desqualificada como Organização Social no ato da promulgação da lei de criação da EBC (11.652/2008) torna frágil o direito à incorporação dos acervos oriundos da Associação. Isto porque não há referência na lei à possibilidade de destinação do patrimônio — neste caso, do material produzido pelas emissoras de televisão geridas pela ACERP — para outra organização criada pelo Governo Federal com a mesma finalidade. A lei pode ser percebida como conflitante com a legislação de qualificação das OSs (Lei 9.637/1998), pois a primeira determina a incorporação, pela EBC, do patrimônio produzido pela ACERP, sem menção ao fato desta não ter sido desqualificada como Organização Social e nem extinta.
Os entraves jurídicos que impactam o trabalho da Central de Pesquisas não são incomuns no universo de instituições que detêm acervos documentais. Este tema foi abordado por Ana Maria Camargo e Silvana Goulart (2015). As autoras expõem algumas das preocupações que recorrentemente surgem no âmbito da Central de Pesquisas, ainda que não se apresentem de maneira idêntica:
Quanto à abertura do acervo para consulentes externos, observa-se alguma indecisão dos centros de memória sobre o tipo de material que será franqueado. Embora todos tenham a perspectiva de atender a este tipo de demanda, não há clareza em relação a direitos autorais, de imagem e de propriedade industrial. Até que ponto fotos antigas, sem identificação de autoria, podem ser exibidas livremente? As pessoas retratadas (e, em especial, as crianças) têm direitos sobre sua imagem? Os comerciais feitos por artistas conhecidos precisam de seu aval quando utilizados em produtos editoriais comemorativos? Há diferenças entre o uso institucional, acadêmico, publicitário ou editorial de um mesmo documento? Não existem respostas precisas a tais questões (Camargo e Goulart, 2015: 78).
Algumas das indagações feitas pelas autoras referem-se aos direitos autorais, direitos de imagem e às finalidades para as quais os documentos são solicitados. Também a Central de Pesquisas enfrenta estas questões quando procura dar acesso ao acervo da Empresa Brasil de Comunicação. No âmbito do trabalho da Central de Pesquisas há orientações distintas para a cessão de documentos de acordo com o perfil dos solicitantes e os objetivos da solicitação. No
caso de pesquisas cuja finalidade de utilização do material seja acadêmica, educativa ou acervo pessoal, por exemplo, o material requerido pode ser liberado pela gerência de acervo de TV e Rádio, de forma gratuita, desde que o solicitante formalize que o uso terá esses objetivos.
Já as solicitações de acervo que almejam a elaboração de outros produtos, com fins comerciais ou de ampla divulgação, tais como documentários, exposições ou matérias jornalísticas, passam por processo de licenciamento. Estas solicitações são analisadas pela consultoria jurídica, precificadas pela gerência de marketing e negócios e estão sujeitas às questões relatadas quanto a interpretações de propriedade no caso de materiais históricos oriundos de antigas emissoras.
No que tange aos direitos de imagem, a orientação é clara para os usuários da Central