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Centralidade comum: nem pública nem privada

No documento (Re) apropriando a centralidade na metrópole (páginas 124-128)

3 A produção de centralidades na RMBH

4.2 Centralidade comum: nem pública nem privada

Apesar do cenário de dominação capitalista, existem perspectivas otimistas. Para Negri (2005), quando o sistema capitalista passa a investir nas singularidades, cria-se, paradoxalmente, um meio de pluralidade, difícil de ser domesticado. Há uma inversão de sentido: não mais os poderes sobre a vida, mas a potência da vida como resposta a estes poderes. Esta inversão possibilita a insurreição, a proliferação da liberdade, a produção da subjetividade e a invenção de novas formas de luta. Para Pelbart (2011), o termo

biopolítica, deixa de ser o poder “sobre” a vida, e passa a ser o poder “da” vida. Negri (2005)101, resume da seguinte maneira:

É evidente que a chave está no próprio sistema, contudo, também é evidente que dentro desse tipo de controle há algo que falta: a capacidade de amarrar a potência do processo de singularização, do processo de invenção. Quando se fala de singularização, de invenção, se fala também, de maneira necessária e evidente, de resistência.

Portanto, o caráter revolucionário do trabalho imaterial está justamente no fato de que as formas de cooperação produtiva, as subjetividades, já não são criadas pelo capitalista, ou para o benefício da produção, mas emergem das energias produtivas do próprio sujeito do trabalho. Com a crescente valorização da produção imaterial, a principal fonte de valor passa a residir na capacidade inventiva do trabalhador e não mais na capacidade de produtividade da máquina. Lazzarato e Negri (2001) colocam ainda que a matéria prima do trabalho imaterial está não só na subjetividade, mas também no ambiente ideológico no qual esta subjetividade vive e se reproduz, com isto, o trabalhador joga, cada vez mais, um papel decisivo como parte integrante da própria forma de organizar o trabalho.

Assim, a emergência do trabalho imaterial desencadeia um movimento de capitalização e comercialização das subjetividades do trabalhador. Cada vez mais, o capitalista passa a exigir o engajamento e o comprometimento da subjetividade deste trabalhador na produção. No entanto, esta subjetividade, mesmo subordinada à lógica do capital, passa a ser portadora da emancipação, constituindo a própria potência contra a expropriação capitalista.

Desta forma, a organização do trabalho passa a carregar dentro de si o antagonismo, fundador novas lutas sociais (SANSON, 2009). Como a produção da riqueza (do capital) tornou-se a própria produção da vida social, cada trabalhador passou a se constituir como uma potência, capaz de criar mecanismos de resistência ao sistema.

Para Hardt e Negri (2012), a subjetividade produzida a partir da singularidade de cada indivíduo possibilita a produção de algo compartilhado por todos, que se manifesta através de processos sociais colaborativos: o comum - the common.

101

Extraído da sua fala na Conferência Inaugural do II Seminário Internacional Capitalismo Cognitivo – Economia do Conhecimento e a Constituição do Comum. 24 e 25 de outubro de 2005, Rio de Janeiro. Organizado pela Rede Universidade Nômade e pela Rede de Informações para o Terceiro Setor (RITS).

O aspecto central do paradigma da produção imaterial que precisamos apreender é a sua relação íntima com a cooperação, a colaboração e a comunicação – em suma, sua fundamentação no comum (HARDT e NEGRI, 2012, p. 195).

O “comum” (ou bens comuns) pode ser definido como algo gerado pela participação dos

muitos e múltiplos que constituem o tecido produtivo da metrópole contemporânea, incluindo recursos naturais, espaços públicos urbanos, obras criativas e conhecimentos que estão isentos de direitos autorais (SOTO, 2014). Quando a vida é posta para trabalhar a serviço do desenvolvimento capitalista a partir da produção de recursos imateriais há basicamente uma exploração do comum pelo capital.

De um lado, o comum designa o planeta e todos os recursos que lhes são associados: a terra, as florestas, a água, o ar, os minerais e assim por diante. Esta definição está estreitamente relacionada ao significado em inglês dos “commons” (no plural) no século XVII. De outro lado, o comum remete igualmente, como eu já havia dito, aos resultados da criatividade e do trabalho humanos, tais como as ideias, a linguagem, os afetos etc. Pode-se considerar o primeiro como o comum “natural” e o segundo como o comum “artificial”, mas, na realidade, tais divisões entre o natural e o artificial desaparecem rapidamente. E, de qualquer modo, o neoliberalismo procurou privatizar ambas as formas do comum (HARDT, 2010, p.7).

O comum é uma noção que vai além do privado e do público (HARDT e NEGRI, 2012), pois mesmo o conceito de público, ainda está atrelado à vigilância e ao controle por parte do Estado. Desde o início da atuação capitalista, a partir da revolução industrial, os espaços da coletividade, da construção do comum vem sendo expropriados e, com o neoliberalismo, o que é (ou deveria ser) comum passa a ser, cada vez mais, expropriado como riqueza privada, por meio de uma crescente pressão para a privatização e da constituição de parecerias-público-privadas (PPPs) etc.

O interesse comum, em outras palavras, é um interesse geral que não se torna abstrato no controle do Estado, sendo antes reapropriado pelas singularidades que cooperam na produção social biopolítica; é um interesse público que não está nas mãos de uma burocracia ... (HARDT e NEGRI, 2012, p.267).

Pode-se dizer que a centralidade, concebida como lugar de encontro e de reunião, também vem sendo expropriada a favor do capital, a partir da constituição de centros de decisão, de consumo e de poder. No entanto, a perspectiva trazida pelo conceito do comum pode ser utilizada para repensar (redescobrir) centralidades que emergem da comunicação, da criatividade coletiva e da cooperação. Centralidades construídas livre do projeto de homogeneidade da racionalidade industrial, cuja forma é definida pelo encontro, pela reunião e pela simultaneidade, como coloca Lefebvre (2007):

A verdade do espaço estabelece assim o que há de comum entre o espaço mental e o espaço social, e em consequência suas diferenças. Não uma separação entre

eles, mas uma distância. Não uma confusão, mas um momento ou elemento comum. A centralidade se descobre lugar comum ao conhecimento, à consciência, à prática social. Sem “realidade” sem uma concentração de energia, sem um foco ou núcleo e como resultado sem um movimento dialético: “centro- periferia”, “focalização-perda”, “condensação-irradiação”, “junção-saturação”, “concentração-estouro”, “implosão-explosão”. O “sujeito”? Um centro momentâneo. O “objeto”? Igualmente. O corpo? Um foco de energias ativas (produtivas). A cidade? O urbano? Igualmente (p. 623).

Figura 37: O sujeito? Um centro momentâneo.

Fonte: Urbe coletivo fotográfico. Disponível em <http://cargocollective.com/urbecoletivo/Marcha-das- Vadias-BH-2012>. Visualizado em 20/06/2014.

São centralidades construídas a partir das singularidades do agir comum, independentemente do privado ou do público (institucional). Que surgem por um reconhecimento do outro, por uma relação com o outro que se desenvolveu nessa realidade. Portanto, são centralidades que surgem a partir de uma práxis socioespacial, e que se apresentam como uma possibilidade de superação desta racionalidade que as estruturas – política, mercadológica e estatista – querem impor.

No documento (Re) apropriando a centralidade na metrópole (páginas 124-128)