11 Considerando os elementos básicos para proposição de planos e projetos como localização, perímetros, conceitos, objetos e objetivos de intervenção.
1.2. INTERPRETANDO OS CENTROS: DE SOLUÇÃO A PROBLEMA E DE TRANSIÇÃO DE PROBLEMA A SOLUÇÃO
1.2.2 Centro como problema: êxodo e congestionamento
"Os remédios são diferentes. Mas o problema e a percepção dele são similares dos dois lados do Atlântico. O problema é a cidade gigantesca" (HALL, 1995 p. 44).
A ruptura parcial com a interpretação romântica do centro surge logo após os anos de 1950. Nos discursos e nos textos, esse é o momento em que a área emerge como problema, devidamente justificada, por um lado, pelo êxodo populacional e seu conseqüente esvaziamento e, por outro, pela alta concentração de atividades e pessoas.
Apesar de comprovar o seu caráter de espaço diferenciado e único, tanto sob o aspecto simbólico como sob o aspecto funcional, os centros, por diversas razões e nos diferentes pontos do mundo, deixaram de participar plenamente da vida cotidiana das cidades, o que a literatura na língua inglesa tem identificado como perda de liveability11. O fenômeno que consolidou o desinteresse por esta área específica das cidades e que repetiu em diversos exemplos pelo globo tem seu ápice nos anos de 1960.
Os anos seguintes à Segunda Guerra Mundial trouxeram uma série de mudanças na organização das cidades, claramente na Europa e nos Estados Unidos, que contribuíram com o êxodo da população que habitava os centros e as áreas com influência direta desses. As novas estradas facilitaram a compra de
terras mais distantes e de menor valor, e a demanda habitacional foi ampliada nestas áreas. O crescimento na produção e a popularização do automóvel também foram fundamentais para esse processo. Como resultante, os subúrbios (suburbs) se expandiram. Este movimento, de êxodo populacional, logo se transformaria em problema para os centros.
Entretanto a solução para as cidades, naquele momento, era atribuída à expansão das áreas urbanas e à ampliação dos subúrbios ou periferias que, de modo espontâneo ou planejado, alteraram a posição política e a importância social desta área. O surgimento de uma rede de novas áreas de centralidades foi crescente, como demonstram os inúmeros exemplos norte-americanos, oriundos da migração populacional que se dirigiu aos subúrbios e que começa a carregar consigo os serviços, criando os Shopping Centers e colaborando com o esvaziamento de atividades e da população das áreas centrais (VARGAS, 1992), e, mais tarde, constituindo em um fenômeno inexorável: praticamente todo o comércio e os serviços também migraram para as áreas periféricas. A infra- estrutura do centro, incluindo transportes, instituições e equipamentos públicos, obsolesce pela ausência de usuários.
Uma outra abordagem, neste mesmo período, justificava a necessidade da criação de outros espaços para a expansão urbana devido à alta concentração de pessoas nas áreas centrais, ampliando o trânsito e dificultando a implantação de lançamentos imobiliários devido à inexistência de áreas livres. Esse aspecto, o da concentração, foi identificado como problema; e a ampliação dos subúrbios, uma solução. Exemplo concreto ocorreu na Europa, por meio da preocupação dirigida a solucionar o congestionamento urbano e com possibilidades de reconstrução em
áreas destruídas pela guerra. Em 1957, nos Estados Unidos, a Companhia de Seguro de Vida de Connecticut organizou uma conferência nacional sobre a Renovação Urbana com mais de 50 participantes, ocasião em que foi discutida a inoperância dos centros diante das demandas dos seus cidadãos, notadamente quanto ao tipo de habitação, ao traçado das ruas e aos usos urbanos. O desejo do grupo cuja alegação continha a eliminação do congestionamento das áreas foi a liberação de grandes espaços por onde pudessem passar grandes vias e para a construção de estacionamentos e instituições culturais (VARGAS; CASTILHO, 2006). Este breve relato ilustra algo que se repetirá junto aos exemplos deste estudo: o objeto problema é idêntico ao objeto da solução, são os interesses que os diferenciam.
A noção de Centro Urbano como tendência natural dos trajetos ou das necessidades cotidianas que facilitam o encontro, por exemplo, o abastecimento, além de outras atividades incorporadas como a religiosa, a de lazer, a política, a cultural, as atividades financeiras e de comando, foi desaparecendo do ideal para parcela considerável da sociedade da época. Também a característica do centro como um espaço distinto da estrutura da cidade foi fragilizada na medida em que o reconhecimento de seus limites, especialmente com relação às metrópoles, passou a ser de difícil apreensão.
Os anos de 1970 são indicados como o período em que as áreas centrais surgem como preocupação, e isso pode ser observado por meio do incremento das propostas de intervenções urbanas no âmbito internacional (BENFATTI, 2004, p. 9). As transformações que ocorreram no mundo desde meados da
década de 1970 caracterizam-se pela alteração das dinâmicas sociais, pela organização do território e também pela reestruturação das relações econômicas.
Nos Estados Unidos, o esvaziamento acentuado dos centros e a redução da vida útil do patrimônio existente (BALSAS, 2007, p. 235) os caracterizaram como obsoletos.
Conduzindo o raciocínio ao extremo, isto pode ser retratado como uma espiral do declínio ou da obsolescência que vem a ser caracterizado como o "urban doughnut effect"12 onde o orifício é o centro da cidade rodeado pelo desenvolvimento dos subúrbios (BALSAS, 2007, p. 235). Já na Europa, estas forças não foram tão intensas por causa de um maior controle da regulação urbana, além da política estatal no caso da Itália. Na Espanha e na França, a rigorosa legislação de preservação que congelava os monumentos afastou a burguesia industrial do centro, pois esta última almejava espaços compatíveis com as novas tecnologias (SUAREZ, 1991, p. 80). Em Portugal,13 a decadência de seus centros está associada à resposta política governamental, aos processos legais e sociais, à legislação inapropriada e às prioridades nacionais e locais.
Nos anos de 1980, os centros praticamente mantiveram algumas funções relacionadas aos serviços, e a habitação na área foi uma das que diminuiu drasticamente e por diversas motivações pelo mundo. Na América Latina, por exemplo, o esvaziamento da função residencial14 pode ser atribuído às causas complementares, nem sempre lembradas pela literatura americana ou européia.
12 Interpretação da autora: um efeito de recentralização.Segundo John Kasarda, diretor da Kenan Institute na Universidade da Carolina do Norte, os centros das cidades são como hole in the doughnut.
13 Sobre o assunto, ver Balsas, 2007.
14 Esta função no Centro das cidades não foi tão relevante quanto os serviços, o comércio e as instituições, especialmente no Brasil.
Estas causas são: a insegurança e a violência, o trânsito de automóveis, a poluição ambiental e sonora crescente, a especulação fundiária, dentre outras (BRANCALENTI, 2002, p. 60). Os centros também deixaram de oferecer os atrativos para a permanência dos habitantes tradicionais, que migraram para as periferias onde os aluguéis eram mais baixos e existiam áreas livres para estacionamento e lazer. A ausência da demanda habitacional fez com que vários empreendedores e investidores do mercado imobiliário decretassem a morte dos centros das cidades e partissem a investir cada vez mais e em áreas mais afastadas.
No Brasil, o aparente fenômeno de esvaziamento do centro adquiriu a qualificação de decadência, deterioração e/ou degradação urbana, terminologias correspondentes à perda de sua função, ao dano ou ruína das estruturas físicas ou mesmo ao rebaixamento do nível do valor das transações econômicas de um determinado lugar (VARGAS; CASTILHO, 2006). Estes processos também foram associados, especialmente por Villaça, ao resultado do abandono da área pelo grupo social de alta renda e, conseqüentemente, pelo comércio e pelos serviços (VILLAÇA, 1998b, p. 274). Em síntese, a referência aos espaços decadentes, deteriorados e degradados ocorre no momento em que não só as estruturas físicas perdem sua integridade física, mas os grupos sociais que permanecem ou procuram esses lugares como alternativa para viver são empobrecidos e marginalizados. Com base na percepção ideológica ou não, este movimento é identificado por meio da imagem que produz. Em outra oportunidade, fizemos a seguinte reflexão:
Essa imagem da deterioração/degradação e seus efeitos afetam os diferentes atores envolvidos de forma distinta, de acordo com os
respectivos interesses e segundo a conjuntura local, cada vez mais internacionalizada. As intervenções urbanas propostas e executadas de modo a conter esse processo têm apresentado diversos objetivos e estratégias, com resultados, algumas vezes, inesperados, surpreendentes ou mesmo distantes dos objetivos iniciais (...) (VARGAS; CASTILHO, 2006, p. 4).
A proposição de Del Rio (2001) é que somente ações que substituam a imagem de deterioração/degradação do centro ou de áreas portuárias, como a revitalização ou a renovação, podem auxiliar na solução do problema.
A manifestação constante do centro como um problema o transformou em uma área complexa, pois sua infra-estrutura, na maioria dos casos, passou a ser subutilizada. Em outros, entretanto, o problema vem a existir devido aos grupos sociais que se apropriam de seu espaço.