3 ANÁLISE DE CONTEÚDO
3.6 Instituições responsáveis pela publicação das obras de Albert Löfgren
3.6.4 Centro de Ciências, Letras e Artes de Campinas (CCLA)
O CCLA, fundado em 31 de outubro de 1901, nasceu a partir das reuniões e saraus realizados, primeiramente, na residência de Henrique Maximiliano Coelho Netto, depois transferidos para o salão da Casa Livro Azul, que reuniam os intelectuais e cientistas da cidade (MATOS, 1976).
De acordo com Barreto (1994, p. 2), a origem do CCLA está vinculada à “conjunção de condições históricas e sociológicas” tais como: a difusão do positivismo e do evolucionismo; a acumulação de capitais propiciada pela cafeicultura e a localização estratégica da cidade como entroncamento ferroviário, que atraiam profissionais liberais e uma população urbana em expansão; e, os surtos de febre amarela que estimularam a realização de experimentos médicos e sanitários.
Albert Löfgren participou da fundação do CCLA, junto com:
[...] Henrique Maximiliano Coelho Netto, João César Bueno Bierrenbach, José de Campos Novais, Ângelo Jacinto Simões, Henrique de Barcelos, Ezequiel Cândido de Souza Brito, Edmundo Krug, Alexandre Krug, Henri Potel, Adolfo Hempel e Ernesto Sixt (GOMES, 2009, p. 19).
Devido à heterogeneidade de seus membros, o CCLA foi estruturado nas seguintes Comissões Auxiliares (GOMES, 2009):
Matemática e astronomia: engenheiros Candido Gonçalves Domingues e Carlos W. Stevenson, e Ernesto de Oliveira, Lente do Gymnasio de Campinas;
Botânica: José de Campos Novaes (Linnean Society), Agostinho Lourenço (Lente do Gymnasio de Campinas) e Gustavo D’Utra (diretor do IAC);
Zoologia: Adolpho Hempel (fitopatologista do IAC), José de Campos Novaes e Ponciano Cabral (médico legista);
Agricultura e Zootecnia: Gustavo D’Utra e os agricultores Barão Geraldo de Rezende e Barão Ataliba Nogueira;
Geografia, História e Demografia: Alvaro Miller, Gustavo Enge e João Cesar Bierrembach, Lentes do Gymnasio de Campinas;
Física, Química e Mineralogia: Henrique Patel (químico do IAC), Ernesto Sixt (meteorologista do IAC), Lothario Novaes (farmacêutico);
Ciências Médicas: Clemente de Toffoli, Angelo Simões e Ezequiel de Souza Brito (médicos);
Ciências Sociais e Econômicas: Alberto Sarmento, Druso Pompeo do Amaral e Candido Ferreira da Silva Camargo (advogados);
Ciências Jurídicas: Francisco de Assis Vietra Bueno, Francisco de Assis Barros Penteado e Tito Joaquim de Lemos (advogados);
Letras: Henrique de Barcellos, Raphael Duarte e Benedicto Octavio (literatos);
Filosofia: Benedicto Octavio, Henrique Augusto Vogel e Camilo Vanzollim (Lentes do Gymnasio de Campinas);
Artes: Joaquim Alvaro de S. Camargo (advogado), Emilio Steudel e Sant’Anna Gomes (maestros);
Biblioteca e Museu: Ezequiel de Souza Brito, Adolpho Hempel e Abilio Alvaro Miller;
Justiça e Contas: João Nogueira Ferraz Filho (funcionário público), Alfredo Pery e Phelippe Gonçalves (advogado);
Sindicância: Angelo Simões, Octaviano Pompeu do Amaral (agricultor) e Felix da Cunha.
Na comemoração do primeiro ano de sua fundação, foi criada a Revista do Centro de
Sciencias, Letras e Artes, sendo o primeiro número publicado em 31 de outubro de 1902. A
Revista tinha por finalidade levar à publicidade os trabalhos lidos nas sessões e que fossem julgados pertinentes. Dado o caráter enciclopédico do CCLA, a Revista também assume um caráter eclético voltado a um público leitor que busca a ilustração, reunindo, num mesmo volume:
[...] estudos, discussões e palestras abrangentes às ciências, às letras e às artes, que ora almejam ser fonte de um conhecimento ilustrado; ora comprometem-se em divulgar a esfera pragmática, especialmente, dos estudos científicos; além de serem veículo de uma produção especializada em uma determinada área do saber. (GOMES, 2009, p. 35).
Gomes (2009, p. 105-106) identifica três tipos de artigos de cunho científico publicados na Revista: os destinados à vulgarização das ciências naturais, redigidos de forma a proporcionar a compreensão do público leitor não especializado; os que divulgam a esfera pragmática dos estudos científicos, abordando a aplicação direta das ciências como agentes solucionadores de problemas contemporâneos e locais; e, os ensaios específicos de uma determinada área do saber científico.
A Revista do Centro publicou seis trabalhos de Löfgren. Dois deles contêm ilustrações, fato raro na Revista. Rhipsalis pilocarpa n.s.p., publicado no número 4, em 1903, apresenta uma estampa da espécie descrita; La Flore de St. Paul, publicado em francês no número 10, em 1906, traz um diagrama da classificação da vegetação do estado feita por Löfgren.
O número 11, também publicado em 1906, apresenta dois artigos de Löfgren. Nova
Chave para as Rhipsalideas Paulistas, um ensaio sobre essa tribo de Cactaceae bem
representada na flora paulista, e Sobre a Destruição das Matas, dirigido a José de Campos Novaes solicitando, em forma de manifesto, que o CCLA apoiasse a realização de um “[...] movimento reaccionário no sentido de regularisar as derrubadas onde ainda há mattas e influir para a replantação onde já não existem mais” (LÖFGREN, 1906h, p. 127).
Nas 21 páginas de Ensaio Preliminar para uma Phytogeographia Brasileira, publicado no número 29 da Revista, em 1912, Löfgren aplicou o “novo método” de classificação ecológica dos vegetais proposto por Warming e aperfeiçoado por Schimper e Clements, na classificação fitogeográfica do Brasil. O detalhamento dos conceitos ecológicos apareceu no número 34 da Revista, publicado em 1914, sob o título de Ensaio para uma
Introdução da Ecologia Botânica.
3.6.5 3º Congresso Scientifico Latino-Americano
Atividade importante para o desenvolvimento da ciência, a realização de exposições e de eventos científicos possibilitando a atualização dos especialistas das diversas áreas e
favorecendo o estabelecimento de redes de cooperação, já era prática comum na Europa (VERGARA, 2004).
Em abril de 1898, a cidade de Buenos Aires sediou a 1ª Reunião do Congresso Scientifico Latino-Americano, do qual o Brasil não participou. Para a 2ª Reunião, realizada em 1901 em Montevidéu, o Brasil enviou cinco representantes. No encerramento desta reunião, a cidade do Rio de Janeiro foi escolhida para sediar a 3º Reunião em 1905 (SUPPO, 2003).
Para o governo brasileiro, a realização desse congresso era tida como um meio de propaganda nacional:
[...] Todo o investimento tinha por fim demonstrar, para as delegações estrangeiras, o esforço brasileiro para a constituição de uma identidade mais americana do que latina para o continente e a importância da cooperação entre os países. O ideal de universalismo da ciência era perfeito para que o intercâmbio nesse campo se mostrasse exemplar para o novo projeto de política externa brasileira (ANDRADE, 2005, p. 275).
Apesar dos preparativos do evento terem se iniciado em 1901, a organização do evento foi marcada por várias falhas como o atraso no envio das correspondências, a falta de circulares e o recebimento de trabalhos as vésperas do evento. Estes deveriam versar sobre as seguintes questões:
[...] a procura do método mais eficaz para a confecção de um mapa geral dos países latino-americanos; o estudo das fontes de energia hidráulica na América meridional, com objetivo de produzir energia elétrica; o estudo das causas do desaparecimento do volume das águas e dos mananciais no Brasil; a conservação das matas e seu controle; os projetos de ligação possível das bacias de navegação dos rios da Prata, Amazonas e Orinoco; o traçado de grandes vias férreas latino-americanas; o desenvolvimento das ciências médicas e cirúrgicas; as questões relativas à criminologia; o estudo das principais famílias linguísticas da América Latina (ANDRADE, 2005, p. 279-280).
Muitos inscritos não compareceram ao congresso nem enviaram trabalhos para publicação, entre eles Oswaldo Cruz, Santos Dumont e importantes cientistas estrangeiros que trabalhavam no Brasil como Hermann von Ihering (Museu Paulista) e o geólogo americano Orville Derby (CGG). Albert Löfgren também não compareceu ao evento apesar de ter enviado um trabalho, escrito em francês (ANDRADE, 2005).
A ausência destes importantes pesquisadores no congresso é significativa, mas como no Relatório Geral não aparecem comentários sobre o fato, só podemos especular sobre o que motivou suas ausências:
[...] disputas na constituição do incipiente campo científico no Brasil? Descrença na iniciativa? O fato de serem estrangeiros? Ou simplesmente
dificuldades relacionadas com a viagem (distância, desconforto, falta de auxílio financeiro)? (ANDRADE, 2005, p. 282).
O Relatório Geral da 3ª Reunião do Congresso Scientifico demorou a ser publicado. Os 12 volumes que compõem os anais foram publicados entre 1906 e 1910, sendo que cada um deles teve um organizador diferente. O trabalho de Löfgren, Géographie Botanique de la
Flore de Saint Paul, foi publicado em 1909 no Tomo 3.