5 DUALIDADE COMPLEMENTAR: O BINÔMIO PÚBLICO PRIVADO NO MODELO BRASILEIRO DE COOPERAÇÃO
5.1 APERFEIÇOAMENTO PROFISSIONAL E INICIATIVAS PARA O DESENVOLVIMENTO ANGOLANO
5.1.1 Centro de Formação Profissional do Cazenga
A modalidade de “aperfeiçoamento profissional”, já era prevista no Acordo de Cooperação de 1980, que apresentava um tímido intercâmbio cooperativo “mediante programas de visitas ou estágios de especialização técnica”180 e evoluiu à medida em que o Estado brasileiro conferia maior relevância e assumia novas responsabilidades diante da CID.
Em novembro de 1996, por meio de ajuste complementar ao Acordo de Cooperação Técnica, o Brasil firmou o compromisso de implementação do “Projeto Centro Móvel de Formação Profissional” (Artigo I) para a República de Angola. Incorporou-se tal projeto ao contexto do programa de “Cooperação Brasil-Angola para a formação profissional na área industrial”181. A intenção do acordo era a de atender às demandas do mercado de trabalho e contribuir para a reinserção social do cidadão angolano e reconstrução do país.
Para a execução e coordenação do projeto, dois órgãos de cada um dos países foram selecionados. O Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) e a Agência Brasileira de Cooperação (ABC) pelo Brasil, e o Instituto Nacional de Formação Profissional (INAFOP) e o Ministério da Administração Pública, Emprego e Segurança Social (MAPESS) por Angola.
O resultado da parceria prevista no acordo deu origem ao Centro de Formação Profissional do Cazenga, na capital angolana, Luanda. De acordo com a ABC, até que o centro pudesse ser instalado e entrar em funcionamento, ocorreram várias etapas; dentre estas, intercâmbio de técnicos, visitas e treinamentos. Em janeiro de 2000, efetivamente, os cursos no Centro de Formação foram iniciados, tendo primeira turma se graduado no mesmo ano, com 144 formandos182.
180 BRASIL, 1980, artigo II alínea “b”
181 Ibid. Ajuste complementar, artigo 1, 1996.
182 Agência Brasileira de Cooperação: Centro de Formação Brasil-Angola, disponível em:
Atualmente, em 2019, o controle do centro encontra-se sob responsabilidade da República de Angola, pois o acordo foi formalmente concluído com a transferência integral de sua administração - efetuada entre os meses de maio e agosto do ano de 2005.
Atrofiada sob regime colonial, até 1975, data de sua independência, Angola carecia de mão-de-obra qualificada para o desenvolvimento de uma industrialização pós- independência que potencializasse suas forças produtivas, ainda extremamente inferiores aos padrões internacionais, e acelerasse o processo de recuperação e de estabilização econômica e social. A subescolarização e as taxas de analfabetismo reais eram desanimadoras: 80% dos angolanos não sabiam ler, nem escrever e manipulavam técnicas de pouca produtividade. Dos 20% restantes, “[...] boa parte possuía apenas habilitações de base inferior a quatro anos de escolaridade”. (ANGOLA, 2001, p. 32).
Diante desse cenário, em março de 1987, realizou-se o “lº Encontro Nacional de Formação Profissional”, ferramenta condutora do Subsistema de Formação Profissional de Angola, que atendia à recomendação da “[...] adoção de critérios mais flexíveis na execução das ações de formação profissional em conformidade com as necessidades de força de trabalho”. (ANGOLA, 2001, p. 33).
Ressalta-se que o primeiro acordo de cooperação técnica estabelecido entre Brasil e Angola ocorreu em junho de 1980 e já abrangia o aperfeiçoamento profissional, mediante programas de visitas ou estágios de especialização, bem como concessão de bolsas de estudo para a especialização técnica (BRASIL, ITAMARATY, 1980). Desde então, o Brasil, associado ao esforço conducente de políticas voltadas para o aperfeiçoamento técnico por parte de Angola, tem estabelecido acordos de cooperação dirigidas à profissionalização dos nacionais angolanos.
Até o ano de 1998, segundo o relatório do PNUD, Angola ainda se situava na 156ª “[...] posição mundial, com um Índice de Desenvolvimento Humano de 0.355, uma taxa de analfabetismo de 42,5 % e uma taxa de mortalidade infantil da ordem dos 120 em 1000 nascidos vivos” (ANGOLA, 2001, p. 34).
Esse índice, somado à delicada situação humanitária na qual se encontrava, desembocava numa perspectiva pessimista em relação à utilização de mão-de-obra para a projeção econômica angolana pós-Independência e pós-Guerra Civil. Apesar da
abundante riqueza natural e de ser considerada uma das economias mais relevantes do continente africano, mesmo com suas potencialidades ainda não exploradas, Angola não predispunha, à época, de recursos humanos qualificados para o projeto de crescimento econômico pautado na diversificação da indústria e na inovação tecnológica.
Por conseguinte, tornou-se indispensável assegurar a capacitação da classe trabalhadora, recorrendo aos meios disponíveis em âmbito nacional e internacional, tanto nos setores públicos, quanto privados. O reconhecimento da necessidade de motivação e remanejamento da capacidade produtiva, criatividade e talento da população angolana, somou-se à urgência de consubstanciar a defesa e a produção nacionais. Isso por processos de otimização do tempo e racionamento de recursos. (ANGOLA, 2001, p. 34).
A dimensão humana é coeficiente medular para o desenvolvimento. Assim sendo, Angola reconheceu que as vicissitudes nacionais deveriam ser reflexionadas pesando as expressões, causas e efeitos da condição de seus habitantes. Essa consciência foi determinante para o planejamento nacional que, por sua vez, antepôs práticas de normalização e melhoria da qualidade de vida da população.
Considerando a necessidade de capacitar o trabalhador para ocupar os empregos disponíveis e para trabalhar no processo de reconstrução do país, o governo angolano, via Ministério da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social (MAPESS), solicitou ao governo brasileiro, por intermédio da ABC, a realização de projeto de cooperação técnica na área de formação profissional.
Através do ajuste complementar amparado pelo Acordo de Cooperação Econômica, Científica e Técnica entre ambos os países, o projeto tinha como objeto a implementação de um “Centro Móvel de Formação Profissional”, localizado em Luanda e inserido “no contexto do programa de Cooperação Brasil-Angola para a formação profissional na área industrial”. (BRASIL, ITAMARATY, 1996, Título I artigo 1º).
O plano era atender às demandas do mercado de trabalho angolano e auxiliar na reinserção social e na reconstrução nacional do país. Para a sua execução foram acionados, do lado brasileiro, o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI183),
183 “O Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) é uma entidade de direito privado, sem
fins lucrativos, vinculado ao sistema sindical. Foi criado pelo Decreto-Lei 4.048, de 22 de janeiro de 1942, para promover a formação profissional de trabalhadores e cooperar no desenvolvimento de
e, do lado angolano, o Instituto Nacional de Emprego Formação Profissional (INEFOP)184. Efetivamente, a cooperação técnica bilateral com Angola iniciou-se a partir do projeto do Centro Móvel de Formação Profissional, “juntamente com projeto na área de HIV / AIDS, na visita realizada ao País no âmbito da avaliação do Projeto BRA/98/004”. (MARTINS; SILVEIRA, 2005, p. 48).
Pretendeu-se, primeiramente, construir um centro móvel, porquanto os recursos e prazos para a edificação de estruturas físicas seriam desproporcionais às possibilidades e demanda urgentes. De acordo com informe técnico, elaborado pela unidade de Relações Internacionais da Confederação Nacional da Indústria (CNI), sob à qual o SENAI submete sua organização e administração, a facilitação do deslocamento do centro facilitaria sua operacionalidade. No entanto, mesmo diante da necessidade de conduzir o centro aos locais sem condições de abrigar uma construção do tipo, o projeto teve de ser revisto por motivos de segurança. Os resquícios da guerra e a instabilidade política foram decisivos para o abandono da ideia de dar mobilidade ao centro, posteriormente construído. (CNI, 2016, p. 1).
Sendo assim, ao considerar a necessidade de dar continuidade às ações de cooperação, o projeto do “Centro de Formação Profissional de Cazenga” foi ajustado em 1999, delimitando as funções de cada instituição executora, cabendo ao governo angolano, dentre outras coisas, arcar com as despesas de transporte dos equipamentos e dos materiais em solo angolano, bem como montar dois pavilhões em Luanda185. Fundamentalmente, pode-se dizer que Angola ficaria responsável pelo custeio da manutenção do centro e pela infraestrutura física. O INEFOP se responsabilizava pelo gerenciamento e pelos recursos humanos dos cursos oferecidos. Ao governo brasileiro, caberia designar especialistas do SENAI e dar apoio à implementação do projeto, bem como à conclusão do treinamento de técnicos angolanos no Brasil186. Já ao SENAI era atribuída a função de produzir o layout da infraestrutura e do maquinário, bem como
pesquisas tecnológicas de interesses para a indústria e atividades assemelhadas. O SENAI tem um regime de unidade normativa e de descentralização executiva. Para realização de suas atividades, são constituídos órgãos normativos e órgãos de administração nacional e regional, sob a organização e administração da Confederação Nacional da Indústria - CNI e das Federações das Indústrias.” (SENAI. Estrutura Institucional, 2019).
Disponível em: http://www.portaldaindustria.com.br/senai/institucional/estrutura/)
184 (BRASIL, 1996, Título I artigo 2º).
185 (BRASIL, ITAMARATY, 1999, Título IV artigo 5º, alínea “b”). 186 BRASIL, ITAMARATY, 1999, Título IV artigo 5º, alínea “a”.
material didático, além de abarcar a capacitação dos multiplicadores e gestores do centro. (CNI, 2016, p. 02).
Entre a implementação e a entrega integral da administração do centro de formação do Cazenga ao governo de Angola, o projeto teve a duração de cinco anos, sendo dividido em três fases: a primeira abrangeu o período entre 1999 e 2000 e tinha como objetivo a reconstrução da infraestrutura física e constituição de formadores. A segunda, de 2001 e 2002, comportou revisão e expansão dos cursos; constituição de formadores; desenho de novo currículo; e adaptação do material dos professores, além de ser analisada a adequação da estrutura necessária para receber um departamento de gerenciamento de documentação e conhecimento (CNI, 2016, p. 03). Finalmente, a terceira fase, de 2002 a 2004 incluiu o desenvolvimento do fortalecimento institucional “em preparação para a transferência do gerenciamento do centro para o governo angolano” (CNI, 2016, p. 3), em 2005, quando a gestão do centro foi completamente transferida.
As atividades de capacitação realizadas pelo centro foram divididas em três tipos: cursos regulares187; formação de formadores188; e cursos nas empresas189, este último buscava consolidar o atendimento direcionado às empresas, cujo aspecto de interação com o setor produtivo entrava “em concordância com os objetivos iniciais do projeto de prover vivências concretas e atualização do formador com a realidade do mercado”. Era também uma estratégia para gerar recursos adicionais ao Centro de Formação, “como forma de ressarcimento parcial dos seus custos” (CNI, 2016, p. 4).
No período de capacitação, sob a responsabilidade do SENAI, o Centro chegou a formar 2.984 dos 3.031 alunos matriculados em cursos regulares. Em 2005, a quantidade de cursos oferecidos saltou de cinco para 11. Até 2016, eram oferecidos 15 cursos regulares. Muitos foram atualizados e substituídos com o intuito de melhor atender às
187 Nas áreas de construção civil, costura industrial, eletricidade, informática, mecânica, panificação e
confeitaria, artesanato e refrigeração residencial.
188 Que ofertava os cursos de transporte, panificação, gestão de pequenos negócios, transferência
metodológica, metodologia de formação profissional, refrigeração e manutenção, microcomputadores e oficina móveis. Os cursos de formação de formadores tiveram 192 técnicos participantes e concluintes.
189 Os cursos oferecidos eram de metrologia, mecânica diesel - eixos, mecânica diesel - motores,
Mecânica diesel - Manutenção, Mecânica diesel - Embreagem, Refrigeração e Transferência Metodológica. Ao todo, 365 alunos foram matriculados para os cursos nas empresas, todos eles concluíram a formação.
demandas locais, tais como os cursos de autocad e de programação de rede de comunicação. (CNI, 2016, p. 3).
Em linhas gerais, o centro iniciou com 144 alunos, chegando a abrigar, em 2014, 3.400 alunos, no ano letivo com 10 meses de duração. Não obstante, entre 2015 e 2016, devido à crise econômica do país, reflexo da baixa do preço do petróleo e do arrocho fiscal, entre outras razões, o centro funcionou com capacidade mínima, ou seja: 1.200 alunos e 30 instrutores. Tangente à absorção de egressos pelo mercado de trabalho, o diretor do INEFOP, durante evento das Nações Unidas em outubro de 2016, expôs que aproximadamente 35% dos alunos são contratados por empresas e 65% são autônomos. (CNI, 2016, p. 4).
É importante ressaltar que os cursos oferecidos pelo programa não foram escolhidos aleatoriamente, tendo havido consulta prévia junto ao governo angolano e à iniciativa privada, constatando que o binômio público-privado, fortemente presente nas relações de cooperação Sul-Sul, se encontrava igualmente inserido em um projeto global de reestruturação e construção de uma nova Angola.
5.2 A INICIATIVA PRIVADA BRASILEIRA E O ESTÍMULO A PROJETOS PARA