Conselho Diretivo
Capítulo 6.1.1.3 Centro Nacional de Pesquisa do Gado de Corte
A instalação do Centro Nacional de Pesquisa do Gado de Corte se impunha como condição fundamental para um país cujo rebanho de bois e vacas constituía-se no quarto maior do planeta em números absolutos, estando atrás apenas da Índia, Estados Unidos e Rússia. Além disso, a contribuição da produção pecuária59 vinha em expansão e havia sido praticamente o
dobro do obtido com café em 1969 (TABELA 6.4.). Porém, tal expressão numérica se diluía ao observar-se a produtividade frente a outros países produtores. Apesar de presente em todo o território nacional, a produção pecuária revelava-se concentrada em algumas regiões e estados do Brasil, sendo que 80,2% das cabeças de gado estavam nas regiões Sul, Sudeste e Centro- Oeste (TABELA 6.5.), dos quais 68,49% do total estava em apenas cinco estados: Rio Grande do Sul, São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso (TABELA 6.6.) (BRASIL, 1974, p. 2, 7-8).
Tabela 6.4 – Contribuição de alguns dos principais produtos da agropecuária brasileira em milhares de Cr$ (1965-1969) Produto 1965 1966 1967 1968 1969 Carne 1.463.563 2.289.748 2.852.878 3.488.929 4.019.941 Café em coco 1.041.687 644.918 1.088.755 1.167.386 2.039.314 Leite cru 729.220 1.067.516 1.287.370 1.635.068 2.011.547 Arroz 628.605 865.365 1.402.133 1.666.472 1,690.889 Milho 629.641 810.608 1.186.430 1.352.310 1.730.110
59 Do total da produção pecuária, inclui-se todo o tipo de carne produzida, com a exceção das carnes equinas e
Cana de açúcar 578.813 656.886 812.898 1.041.564 1.241.678 Fonte: Brasil, 1974, p. 3.
Tabela 6.5 – Rebanho bovino no Brasil por região em 1970
Região Cabeças de gado % do total
Norte 1.695.873 2,17 Nordeste 13.730.374 17,55 Sudeste 26.726.147 34,15 Sul 18.925.039 24,18 Centro-Oeste 17.180.593 21,95 Total 78.258.026 100
Fonte: Adaptado de Brasil, 1974, p. 8.
A nutrição animal é apontada como um dos principais fatores para a produtividade reduzida, já que a alimentação do gado se baseava principalmente em pastagens naturais, vulneráveis à sazonalidade, especialmente em regiões que apresentam uma temporada seca e fria, como em muitos locais do Centro-Sul brasileiro. O peso obtido nas estações mais cálidas e chuvosas terminava por ser anulado pela perda verificada em estações de pasto seco, resultando praticamente em uma situação de soma zero. Ademais, tal variação influenciava diretamente no período de cio das vacas, prejudicando a reprodução, além de tornar os animais mais vulneráveis a doenças e à mortandade precoce.
Tabela 6.6 – Rebanho bovino no Brasil por estado em 1970
Estado Cabeças de Gado % do total
Acre 72.455 0,09 Alagoas 479.783 0,61 Amapá 67.398 0,09 Amazonas 260.553 0,33 Bahia 5.624.867 7,18 Ceará 1.704.396 2,17 Distrito Federal 30.369 0,04
Espírito Santo 1.380.401 1,76 Goiás 7.756.328 9,91 Maranhão 1.464.944 1,87 Mato Grosso 9.393.896 12 Minas Gerais 15.080.399 19,27 Pará 1.036.726 1,32 Paraíba 863.155 1,1 Paraná 4.680.737 5,98 Pernambuco 1.183.353 1,51 Piauí 1.193.382 1,52 Rio de Janeiro60 1.183.793 1,51
Rio Grande do Norte 602.737 0,77
Rio Grande do Sul 12.288.523 15,7
Rondônia 23.133 0,03 Roraima 235.608 0,3 Santa Catarina 1.955.779 2,5 São Paulo 9.081.554 11,6 Sergipe 613.763 0,78 Total 78.258.026 100
Fonte: Adaptado de Brasil, 1974, p. 8
O manejo do rebanho também é elencado como um dos gargalos do setor, pois a maioria da criação se dava de forma extensiva, ou seja, em pasto solto, sem os devidos cuidados para a sua engorda, com a predominância de fazendas com instalações mínimas e sequer contando com o uso de métodos vistos como de simples realização, de baixo custo e que poderiam levar ao aumento da produtividade em curto prazo, como a castração dos machos e vermifugação (BRASIL, 1974, p. 30-33).
Os animais vitimados por doenças impunham limites consideráveis à produção pecuária, sendo responsáveis pela perda de 5% do valor total do rebanho. Os dados apontavam para uma queda na produção de carne na ordem de 25% provocada pela febre aftosa, e admitia-se que a brucelose, enfermidade que pode limitar o crescimento do animal, além de provocar abortos,
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esterilidade e mortandade de bezerros, atingia de 10% a 15% do rebanho, representando a possibilidade de até mais de 11,5 milhões de animais afetados. Verminoses, bactérias e demais pragas, como carrapatos, afetavam diretamente a produção, muitos dos quais alastravam-se em virtude de deficiências relativas à vacinação. Tais fatores impactavam diretamente a comercialização final do produto, etapa que também oferecia obstáculos para a elevação da produção pecuária nacional, a qual sofria com a ausência de critérios para a classificação dos animais quanto a sua qualidade, além da desorganização verificada de distribuição de carne. Apesar da existência de atividades de pesquisa pecuária de corte por todo o país, a formação de um centro nacional se fazia fundamental para a articulação e coordenação das ações realizadas então (BRASIL, 1974, p. 34-37).
Desde 1950, observa-se que a expansão do rebanho bovino privilegiou o eixo Sudeste- Noroeste, sendo que dos cinco maiores estados produtores, Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás, São Paulo e Rio Grande do Sul, somente o último não apresentou ganhos expressivos na quantidade de cabeças de gado, e os três primeiros, situados em espaços de fronteira agrícola, eram vistos como os que ofereciam as melhores condições para a sua expansão. Além do mais, a região denominada Brasil Central Pecuário, que contemplava as regiões Sudeste, Centro- Oeste e o estado da Bahia, concentrava a maior parte da criação de gado no país. Os estados do Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e São Paulo representavam 94% desse território que, aliado à predominância do clima tropical e da vegetação de Cerrado, tornava-o ideal para abrigar o Centro Nacional de Pesquisa de Gado de Corte (BRASIL, 1974, p. 42, 49). Quanto à importância de sua localização se situar no Cerrado, os autores do anteprojeto pontuam que
as áreas de Cerrado nos Estados de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso, que são os que apresentam maior incidência desse tipo de vegetação, correspondem a cerca de 80% do Cerrado Brasileiro e abrangem aproximadamente 1.035.250 km². No que diz respeito à distribuição da população bovina, observa-se que, no Estado de Minas Gerais, 40% dos bovinos estão no Cerrado ou em área parcial de Cerrado. No Estado de Goiás essa proporção eleva-se para 92% e, em Mato Grosso, situa-se ao redor de 85%. De modo geral, a fertilidade dos solos do Cerrado é baixa. Esse fator, aliado às características peculiares de clima, faz com que a capacidade de suporte seja reduzida, sendo necessário cerca de 5 ha para manter uma cabeça adulta, havendo ainda uma acentuada perda de peso dos animais durante o período seco. Essa baixa lotação, entretanto, é possível de ser melhorada através de uma utilização racional, onde a implantação de pastagens mais
produtivas desempenha um papel importante e que é facilitada pela topografia, predominantemente, plana, que possibilita a mecanização (BRASIL, 1974, p. 49-50).
O que se observa na fala dos técnicos é a constatação de que parte considerável do rebanho era cultivado no Cerrado. A região apresentava um grande potencial para expansão da cultura, devendo ali se concentrar a estratégia de crescimento, bem como as atividades de pesquisa para o gado de corte. A escolha de Campo Grande, situada em uma região descrita como a ideal para sediar o instituto e com instalações de uma estação experimental pré- existente, demonstra o foco em ocupar as áreas de Cerrado, apesar da preferência expressa no anteprojeto por Planaltina, no Distrito Federal, e Goiânia, para a abrigar o Centro Nacional de Pesquisa do Gado de Corte da Embrapa (BRASIL, 1974, p. 52, 57).
Capítulo 6.1.1.4 – Centro Nacional de Pesquisa de Suínos e Aves e Centro Nacional de