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Cerca de sete entrevistados, 58,3 %, abordaram elementos centrais com

relação ao que mudariam nas condições de trabalho. Encontramos elementos tais como o espírito corporativo; as políticas públicas educacionais; formação dos professores; material

pedagógico e má remuneração. São exemplos destes depoimentos (C2, M2, P2, G2, H1, H2, A1):

Mudaria eu acho que não só para mim, os salários que são baixos, não conseguimos manter a casa. Um advogado consegue manter sua casa, um engenheiro consegue, um professor para manter sua casa ele tem que se matar 3 períodos para ter uma vida digna. Mas ele se estoura no final, perde o que há de mais precioso, que é a qualidade de vida dele. Eu não mudaria a estrutura da escola, o caminho para melhorar o ensino não é mirabolante, pega o que funcionou a vida inteira (P2).

Eu acho que eu mudaria... eu acho que tudo deve ser repensado na escola, mas o principal seria o trabalho coletivo, que eu acho fundamental, professor, coordenação e direção, mas isso é muito difícil, professor tem que ser mais unido. E eu não mudaria o meu relacionamento com os alunos

(H2).

Ah, eu mudaria, se eu pudesse, a questão da má remuneração... tá muito difícil trabalhar assim... isso emperra nosso trabalho, é complicado, desestimula e acaba atrapalhando outras coisas... (C2).

Se eu reclamo do baixo salário, eu mudaria o salário dos professores... a atividade docente é uma atividade intelectual e essa atividade intelectual não pode parar. Eu investiria em curso, né, de formação, mais curso de formação para professores..., se eu reclamo da tal da infra-estrutura, então, daria maior condições, com mais recursos pras escolas, não importa o governo, tem que cobrar isso daí, prestação de contas, mas disponibilizaria mais recursos... para você equipar mais a escola. (...) ah, eu também mudaria o tempo de permanência do aluno dentro da escola, eu acho que ele tem que permanecer mais dentro da escola... mais aí tem que mexer na infra-estrutura (H1).

Eu mudaria a lei... ahahh... a progressão continuada. Porque eu acho que se tivesse uma mentalidade diferente, a progressão continuada poderia dar certo como dá certo em outros países, mas aqui no Brasil já deu pra perceber que não dá certo, porque a gente tem aluno na 8ª série analfabeto... tá, tem muitos que são copistas (A1).

Os professores afirmaram não ter vontade de mudar em suas condições de trabalho a estrutura física da escola, o ensino presencial, os objetivos e os conteúdos das aulas, o relacionamento com os alunos, os alunos e, finalmente, sua autonomia de trabalho.

Eu não mudaria os alunos... são eles que salvam a escola, é só por eles que eu trabalho (G1).

Não mudaria os professores, o corpo docente e o discente, né? (M2).

E eu não mudaria o meu relacionamento com os alunos (H2).

Acho que o que funciona é a aula que você dá, você propõe seus objetivos, você propõe o conteúdo daquela aula, se você consegue cumprir (C1).

O aluno, você não tem como mudar o aluno. Acho que eles são bons, é só ter um pouco mais de interesse (M1).

Eu não mudaria... sei lá, não sei mais, os métodos que eu uso para ensinar... dão certo (G2).

Questionamos nossos participantes sobre o que eles, em suas opiniões, deveriam decidir, mas não conseguem. E identificamos três níveis, nas respostas. Para o I grau, os depoimentos focalizaram a viabilização de projetos, a disciplina dos alunos e ainda depoimentos que não responderam a pergunta, afirmando que não sabiam ou que nada gostariam de resolver (omitindo-se na resolução de qualquer problema). Mais uma vez insistimos que entendemos tais elementos como periféricos, em contrapartida aos demais, que veremos nos níveis II e III.

Nível I – Para o primeiro nível, obtivemos quatro (C2, M2, H1, H2) professores

(33,3%) que se centraram em aspectos imediatos e aparentes, ou seja, em elementos periféricos da tomada de consciência. Exemplos:

Acho que a questão da disciplina dentro da escola é uma questão política que tá centralizada nas mãos da direção, e a direção, ela acaba tomando atitudes que contrariam um pouco a vontade do professor... (Me dá um

exemplo?) Ah, a gente põe aluno para fora, às vezes, o diretor vai lá, coloca

Não sei... (Não lembra de nada?) Não. acho que não tem nada que eu queria decidir (H2).

Nada. Eu não quero decidir nada, porque o professor atualmente já tem muita coisa para decidir (C2).

Nível II – Neste nível, obtivemos três (F1, A1, P2) depoimentos (25%) em que os

professores têm consciência de que seu papel é limitado ou mencionam a importância do corporativismo (espírito de corpo) entre os docentes. Entretanto, ainda apresentam alguns elementos periféricos, demonstrando certa ambigüidade nas respostas.

Eu acho que justamente o inverso, não gostaria de resolver determinadas coisas porque eu acho que é aí que tá a responsabilidade, é muito grande, quando você tem que encaminhar um aluno, eu acho que a direção tem que ter a última palavra, acho que meu trabalho é limitado, eu decido aquilo que tá acontecendo dentro da sala de aula, quando eu estou na sala de aula,

(Fora da sala também não tem nada que você gostaria...?) Não, eu acho que

cada parte que cumpra bem sua função, acho que o professor já tem uma responsabilidade, quando ele faz as escolhas na sala de aula, ele já tá fazendo enormes decisões, quando ele opta por esse exercício ao invés de outro (P2).

O que eu gostaria era conseguir uma sala de artes... (Você queria poder

decidir quanto ao espaço) Quanto ao espaço, quanto aos materiais (E quem decide?) Quanto ao espaço, a direção, se a escola tem uma sala adequada,

ela não vai propor isso pro professor e muitas vezes, também, se tiver uma sala vazia, também não é cedida, eles não ouvem o professor (A1).

Eu acho que não tem mais isso, quando tem uma reunião na escola e os coordenadores são bons, e diretores são bons realmente, funcionava o HTP, se comentava sobre os alunos-problema e todos juntos procuravam a solução. Então, eu gostei muito de trabalhar no Estado... geralmente se resolve em conjunto... (F1).

Nível III – Obtivemos neste nível cinco (M1, P1, G1, G2, C1) depoimentos (41,6%)

em que os professores dizem que gostariam de decidir algumas questões relativas às leis que regem a educação, à escolha da direção e coordenação e ainda à grade curricular.

Eu acho que, como a forma ainda é muito burocratizada da escola, você tem que tentar por vários níveis para você conseguir, se você quer fazer um projeto diferente, que envolve 4 ou 5 disciplinas, você tem que passar pro coordenador que vai viabilizar a parte financeira de pessoal, de tempo, depois vai pro diretor, depois tem que ver com o supervisor... eu acho que os professores deveriam ter um pouco mais de autonomia, eles tem estrutura para isso... uma autonomia relacional de conseguir estabelecer esses tipos de atividades sem ter que passar por várias outras instâncias, (E quem decide?) Muitas vezes não se decide, isso acaba sendo passado por cima, é problemático, leva muito tempo, então acaba....’vamos ficar quieto nesse momento que amanhã ninguém lembra’ (C1).

Eu acho que o professor aceita muito o que vem de cima para baixo, ele que fica aqui, é ele que tá em contato com o aluno (...) O professor tinha que ter mais força. Para mudar, reivindicar mudanças nas leis que viessem de encontro com aquilo que você tem em sala de aula. (E quem decide?) É secretário de educação, é pessoal ligado à coordenadoria... (P1).

Existe uma lei que faz as atribuições aos professores, que diz o que ele pode fazer e o que não pode, o que ele não tem poder para decidir, ele não vai decidir... na sala de aula ninguém manda..., mesmo ele baixando os decretos, igual o Lula fez com a questão do negro, mas eu não sou obrigado a isso e na sala de aula mando eu... e se me obrigar eu não faço... o professor não pode decidir sobre o currículo e quando ele tem que discutir sobre isso..., quem decide é o Conselho Estadual de Educação, que define princípios, essa Lei de Diretrizes e Bases dá muito mais liberdade pro professor, ela não fala que você tem que dar isso, aquilo, mas o professor não sabe como fazer... o problema é o que ele quer decidir. Muita gente não quer decidir nada, porque se decidir vai ter que cumprir. Queria escolher o diretor, coordenador, eleger alguém que nós confiamos. Quem escolhe é o concurso público (M1).

Nada do que é decidido pelos professores é acatado nas instâncias superiores. Tudo vem de cima para baixo. Professor não tem poder nenhum de decisão. O que eu já disse, a grade, algumas coisas da legislação que atrapalha a gente, eles fazem as leis e depois não perguntam, ou vem ver se tá dando resultado, simplesmente sobra pra nós. O salário, a gente também podia decidir como os deputados fazem.... (risos) (E quem decide?) Secretaria de Educação... ou então alguma instância superior (G1).

Eu gostaria de ter um pouco mais de decisão com relação à situação política da educação, porque é muito difícil assim, vem tudo pronto, nem uma enquete se faz a respeito das mudanças que vão influenciar nosso trabalho (G2).

Percebe-se facilmente nos depoimentos o quanto as respostas do nível III dizem respeito a elementos mais centrais aos problemas que vivem os professores atualmente no seu

trabalho; neste grau os professores parecem refletir mais profundamente sobre as causas do que realmente os incomoda.

Sabemos que nos últimos 10 anos as políticas que regem a educação sofreram algumas alterações. Desse modo, pretendíamos saber de nossos participantes como eles avaliavam tais reformas e se estas interferiam ou não em seu trabalho. Com relação à avaliação, obtivemos respostas positivas, negativas, e positivas em termos; entretanto, para cada avaliação, os entrevistados relataram o motivo pelo qual avaliavam daquele modo as reformas e foi para estas justificativas que identificamos elementos periféricos, constituindo o I nível e elementos centrais que foram designados ao III nível, nos depoimentos dos professores.