A TOMADA DE AGRIGENTO: ESTUDO DE CASO
2. O cerco de Acragas
O cerco de Acragas é um dos primeiros passos dados por Roma no universo da Primeira Guerra Púnica. A tomada da cidade representa um triplo problema para os exércitos romanos em termos de cerco, pois esta está triplamente protegida: Acragas está situada numa região de colinas, ladeada por dois braços de rio, que por sua vez se unem numa única corrente cuja foz se situa relativamente próxima (actual Porto Empedocle)433. As defesas naturais de Acragas, enquanto problema que se coloca aos inimigos que pretendam tomar a cidade de assalto, são verificáveis desde o século V a. C. e das guerras entre Siracusa e Cartago: a única vertente da fortificação que está relativamente exposta aos efeitos da maquinaria de cerco é a que se situa a Sudoeste, e mesmo aqui as dificuldades são extremas, dado que a gravidade coloca entraves à deslocação eficaz de dispositivos de assalto; simultaneamente, seria sempre necessário um engenho de nivelamento do terreno434. Segundo Diodoro Sículo, a tentativa cartaginesa de enviar duas torres de assalto poderá ter tido algum sucesso inicial, somente para na mesma noite um contra-ataque ter incinerado os engenhos435.
É relevante ter em conta um dado que, quando adaptado ao contexto da Primeira Guerra Púnica, pode ter sido determinante para o sucesso do cerco de 261 a. C., embora Políbio não o mencione quando descreve o cerco de Acragas. Num momento particularmente desfavorável para Acragas durante o cerco cartaginês do séc. V,
433 LONGO, “Agrigento”, The Greek Cities of Magna Graecia and Sicily, ed. Luca Cerchiai, Lorena
Jannelli e […], tradução para inglês de Paul Getty Trust, Los Angeles, Getty Publications, 2004, p. 250, e Paul Bentley Kern, “Early Sieges and the Punic Wars”, Ancient Siege Warfare, Bloomington, Indiana University Press, 1999, pp. 257 – 259.
434
WINTER, “The critical periods in the history of Greek Fortifications”, op. cit. pp. 312 – 313.
435 D.S. Sic. 13. 85. Por outro lado, é discutível se é de facto possível incendiar estes engenhos durante a
noite, pois implica não só uma visibilidade que, em princípio, não se terá, ou o abandono das torres de cerco junto das muralhas da cidade no término do ataque. Construir um engenho desta natureza é dispendioso; porquê abandoná-lo à mercê do inimigo após um combate aparentemente bem-sucedido?
Siracusa opta por enviar contingentes com hoplitas oriundos não só da própria cidade, mas também de Gela, Messina, Camarina e outras cidadelas da Península Itálica; estes indivíduos seriam acompanhados na sua deslocação por cerca de trinta navios436. Diodoro Sículo refere que esta frota se deslocaria por mar, e que este tipo de acompanhamento naval ou envio de abastecimentos por via marítima terá ocorrido entre as diversas cidades da Sicília durante este período, incluindo as da vertente Norte e Oeste da ilha (Panormo e Motia)437. Atendendo à especificidade geográfica do local, existem igualmente probabilidades de os mantimentos serem deslocados para Acragas por via fluvial, a partir do Porto Empedocle, numa tipologia diferente de embarcações438; existe a possibilidade de esta metodologia ter sido aplicada novamente por Roma e Siracusa, apesar de Políbio não a referir.
Revendo Políbio, o cerco romano de 261 a. C. parece divergir bastante do cerco cartaginês do séc. V. A utilização de maquinaria de cerco não é referida e provavelmente não terá sido o método aplicado, pois já se havia verificado a sua ineficácia neste caso específico. O cerco é de desgaste e de bloqueio das vias de abastecimento, sendo que seriam provavelmente estas mesmas vias que o exército romano pretendia controlar, inclusivamente enquanto formas de acesso às cidadelas do interior, possivelmente por temerem os efeitos nocivos dos bloqueios das vias de comunicação fluviais439 (note-se que o exército romano procede, neste período, a uma série de pilhagens no território circundante). Como refere Harry Sidebottom, a noção de cartografia neste período não será provavelmente absoluta e exacta, e ao afirmar que as conquistas das cidades se devem à sua localização precisa pode-se incorre no risco da generalização e actualização de problemas. Não obstante, os romanos do século III a. C. pensam de facto na Geografia em termos de pontos-chave, que podem incluir montanhas e colinas (Rupe Atenea), pontos de abastecimento (rios Hypsas e Acragas, proximidade da ilha de Pantelária440 e de Malta; Heraclea Minoa), e vias de
436 D.S. 13.86. 437 D.S. 13.89. 438
KERN, “Early Sieges and the Punic Wars”, Ancient Siege Warfare, Bloomington, Indiana University Press, 1999, p. 257.
439 A questão do bloqueio marítimo / fluvial durante a Primeira Guerra Púnica tem, neste momento, mais
de possível do que provável; assume-se geralmente que a estratégia de bloqueio por vias aquáticas só se torna bem-sucedida a partir da Segunda Guerra Púnica. Não obstante, Roma conta, em 261, com o apoio de outras cidades da Sicília, com marinhas bem desenvolvidas. ROTH, “Logistics and Strategy”, The
Logistics of the Roman Army at War – 264 BC – AD 235. Leiden, Boston, Köln, Brill, 1999, pp. 298 –
300.
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A ilha de Pantelária era já frequentada por Cartagineses, e poderá ter contribuído significativamente para o controlo marítimo romano, determinante na questão das guerras púnicas. ABELLI, “Pantelleria
comunicação (fluvial e marítima, para o interior e Ocidente da ilha – possibilidade de contactos rápidos com Siracusa). Sidebottom actualiza, para este tipo de pensamento estratégico, o termo de “odological thinking”441.
Apesar de o processo ser demorado, a forma mais eficaz de levar Acragas à rendição parece ter sido o acantonamento das forças aliadas em posições que impediam o abastecimento da cidade por vias externas; mais precisamente, Políbio descreve a edificação de um primeiro acampamento a cerca de oito estádios (aproximadamente 1480 metros, segundo a medida de estádio calculada por Donald Engels442), demasiado longe para serem afectados por disparos de projécteis da fortificação principal. Os mercenários ao serviço de Acragas e de Cartago ficam assim retidos dentro das muralhas da cidade443.
Apesar de, como já foi referido, não existir nenhum ataque directo, o perigo da falta de mantimentos era demasiado para ser comportado pelos defensores da cidade; por outro lado, na posição de Acragas, bloqueada por terra e por mar, seria mais arriscado não procurar expulsar os invasores, de modo a libertar novamente as vias de comunicação. Existia igualmente o perigo de as cidadelas aliadas ficarem elas próprias sem recursos, dadas as incursões do exército romano nos arredores; a época do ano era propícia à recolha de cereais, importantes para garantir a alimentação do exército durante um cerco que se poderia revelar prolongado. A dispersão do exército romano pelos territórios circundantes é assim aproveitada por Acragas para enviar os militares para o exterior e procurar que os inimigos levantem o cerco, mas esta tentativa revela-se infrutífera; apesar das dificuldades iniciais, o exército romano revela-se vitorioso.
Segundo Políbo, ambas as facções sentem a necessidade de uma postura mais defensiva; o exército romano parece subdividir-se em dois acampamentos, criando dois postos de defesa intermediários na área circundante para defesa de incursões quer do exterior, quer provenientes da própria cidade. A partir deste momento, as forças romanas revelam-se cautelosas na procura de forragem e mantimentos, que entretanto
nelle rotte del Canale di Sicilia: porti, approdi e siti sommersi”, Archeologia subacquea a Pantelleria -
«… de Cossurensibus et Poenis navalem egit…», Bolonha, Ante Quem, 2012, p. 89.
441 SIDEBOTTOM, “Strategy”, Ancient Warfare – A Very Short Introduction, Oxford, Oxford University
Press, 2004, p. 68.
442 ENGELS, “The Length of Erasthostenes‟ Stade”, The American Journal of Philology, Vol. 106, No. 3,
Maryland, The John Hopkins University Press, 1985, p. 298. A discussão quanto à medida do estádio está longe de terminar; apesar de geralmente se apontar à medida de Políbio uma equivalência de 1 estádio = 178 metros, existem autores que defendem, embora não confirmem, a possibilidade de a medida ser de 1 estádio = 185 metros. Veja-se Sarah Pothecary, “Strabo, Polybius and the Stade”, Phoenix, Victoria, Classical Association of Canada, 1995, pp. 63-67.
seria facilitada quer pela proximidade do rio (a fonte aponta que um dos acampamentos estaria próximo do tempo de Asclépio e o outro nas imediações de Acragas, a Ocidente, na ligação ao portão de Heracleia Minoa), quer pelos fornecimentos de Herbessus444. Quanto aos mercenários de Cartago, não se aproximam mais do exército romano do que o alcance limite das armas de tiro445. Nesta sequência de eventos, a situação de Acragas torna-se ainda mais débil, atendendo a que o acampamento romano é fortalecido e pode impedir simultaneamente a passagem de mantimentos. Por outro lado, o exército romano está melhor alimentado do que os soldados que defendem as muralhas, pois têm acesso não só aos referidos cereais, mas também a cabeças de gado446. A capacidade de armazenamento de Acragas permitirá à cidade aguentar um cerco de cinco meses, mas após este período a escassez de provisões, acompanhada por uma epidemia, começará a tornar-se preocupante, o que leva o general Aníbal a pedir auxílio a Cartago (como o fez, atendendo à possibilidade do controlo marítimo / fluvial e à dificuldade de passar pelo cerco romano, é difícil precisar). Cartago envia então um novo contingente de mercenários e, segundo refere Políbio, elefantes447.
Graças aos reforços cartagineses, o general Hanão, então também na Sicília, pode formar um plano de acção para auxiliar Acragas e o exército de Aníbal. Concentrando os seus recursos em Heracleia Minoa, dada a respectiva proximidade estratégica de Acragas, o seu primeiro passo é procurar cortar a principal fonte de abastecimento romana. Atendendo a que as tropas romanas não estariam prevenidas para este curso de acção, Herbessus é tomada por Aníbal sem dificuldades aparentes. Assim sendo, neste momento, nem Acragas nem Roma parecem ser capazes de receber abastecimentos por via fluvial. Políbio refere igualmente que a ocupação de Herbessus ocorre cerca de cinco meses após a chegada de Ápio Cláudio a Messina (sendo esta situada aproximadamente no final do Verão, a intervenção de Hanão terá ocorrido em pleno
444 A localização actual de Herbesus / Herbessus / Erbesso é apontada para a Montagna di Marzo,
próxima da Piazza Armerina. MANGANARO, “Herbessus”, Brill‟s New Pauly, ed. Hubert Cancik e Helmut Schneider, Brill Online, 2014. Este espaço situa-se próximo do actual lago Olivo, que é simultaneamente nascente fluvial.
445 Plb. 1.18. 446
Apesar de Políbio não o referir, devem igualmente ser consideradas as actividades piscatórias desenvolvidas ao longo dos cursos de água.
447 A questão do envio de elefantes por mar é complicada. Por um lado, existem referências a uma espécie
diferente da maior subespécie de elefante africano actual; por outro lado, independentemente das dimensões do animal, a dificuldade de transportar montadas de qualquer natureza por via marítima é sempre um factor a ter em conta (não obstante, note-se que embora Políbio não faça referências ao método de transporte de montadas para a Sicília, em Plb. 1.19 surge uma menção a cavalaria romana na ilha); pode perguntar-se como seria possível transportar um animal com um peso médio de 2 / 3 toneladas em embarcações frágeis, por espaços de navegabilidade frequentemente reduzida. Poder-se-á falar de uma tipologia diferente de navios?
Inverno). Este factor indica que os abastecimentos não seriam fáceis de deslocar por via marítima, atendendo a que o Mediterrâneo estaria no seu período de mais difícil navegabilidade; seria igualmente problemático enviar uma das legiões que haviam sido excluídas da expedição à Sicília para servir de reforço. O período das colheitas havia acabado há muito, e a escassez de alimentos far-se-ia sentir no acampamento romano, rapidamente acompanhada por epidemias, tal como havia acontecido ao exército de Aníbal no interior da cidade.