4. Rodadas do Pré-Sal

4.1. Cessão Onerosa

Após a descoberta do Pré-Sal e antes mesmo do primeiro leilão de licitações do direito de exploração e produção de suas áreas, o projeto de lei nº 5.941, que posteriormente foi transformado na lei ordinária nº 12.276/2010, estabeleceu o seguinte em seu artigo 1º: “Fica a União autorizada a ceder onerosamente à

Além disso, nessa lei foi estabelecido que “O pagamento devido pela Petrobras pela cessão de que trata o caput deverá ser efetivado prioritariamente em títulos da dívida pública mobiliária federal, precificados a valor de mercado” e que “Fica a União autorizada a subscrever ações do capital social da Petrobras e a integralizá-las com títulos da dívida pública mobiliária federal”.

Vale ressaltar neste ponto que subscrever ações significa emitir novas ações, ou seja, novas ações da Petrobras ficaram autorizadas a serem emitidas e a União fica autorizada a compra-las através de Títulos da Dívida.

Essa lei também exime a Petrobrás do pagamento de participações especiais pela exploração dessas áreas e manteve o formato de pagamento de royalties dos contratos de concessão (Lei nº 9.478/1997).

Segundo Francisco José da Rocha Souza, em seu estudo “A cessão onerosa de áreas do Pré-Sal e a capitalização da Petrobrás”, de 2011, “A cessão onerosa de

áreas do Pré-Sal à Petrobrás foi proposta pelo Poder Executivo com o fito de antecipar o usufruto dos benefícios representados pelo Pré-Sal (antecipação de receita da União) e dotar a Petrobrás de recursos necessários ao desempenho do papel central a ela atribuída pelo regime de partilha de produção em áreas do Pré-Sal e em áreas estratégicas (operadora exclusiva das áreas, com participação mínima de 30% nos consórcios), bem como para o pagamento das áreas objeto da cessão onerosa e para os investimentos correspondentes nessas áreas.”

Segundo esse mesmo estudo, a opção de não se cobrar participações especiais foi proposta para que se pudesse aumentar o preço a ser pago pela Petrobras pelas áreas.

Em 3 de setembro de 2010, foi celebrado o contrato de cessão onerosa entre a Petrobras e a União, relacionando seis áreas definitivas: Florim, Franco, Sul de Guará, Entorno de Iara, Sul de Tupi e Nordeste de Tupi, e uma área contingente:

Peroba. A área contingente é relacionada para o caso dos 5 bilhões de barris de óleo equivalentes não serem extraídos com as áreas definitivas.

O prazo de vigência do contrato foi estabelecido em 40 anos, permitida a prorrogação pela União por, no máximo, 5 anos.

Para avaliar o valor das áreas a serem cedidas, a ANP e a Petrobras contrataram as entidades certificadores independentes Gaffney, Cline & Associates e a DeGolyer & MacNaughton, respectivamente. Ambas fizeram estimativas dos recursos nessas áreas e utilizaram a metodologia do fluxo de caixa descontado para calcular o valor presente do barril de petróleo equivalente.

Os valores das áreas apontados pela certificadora contratada pela ANP foram bastante superiores aos estimados por aquela contratada pela Petrobrás devido a diferenças nas premissas adotadas para os cálculos. Após negociação entre a União Federal e a Petrobrás, o Conselho Nacional de Política Energética – CNPE

definiu o valor inicial da cessão onerosa para venda de 5 bilhões de barris de óleo equivalentes em R$ 74,808 bilhões, o que correspondia na ocasião a US$ 42,533 bilhões. Isso representava o preço médio de US$ 8,51/barril de óleo equivalente, sendo o valor da área mais cara (Franco) igual a US$ 9,04 por barril de óleo equivalente e o da mais barata (entorno de Iara) igual a US$ 5,82 por barril de óleo equivalente. A Tabela 4.1 informa o valor e o volume de cada área objeto da cessão onerosa e a Figura 4.1 informa as áreas objeto da cessão onerosa.

Tabela 4.1: Volumes e valores da cessão onerosa (Fonte: Anexo II do contrato de cessão onerosa)

Figura 4.1: Áreas objeto da cessão onerosa (Fonte: Petrobras)

4.1.1. Capitalização em 2010

Para que a Petrobras pudesse então arcar com as despesas da cessão onerosa e dos investimentos necessários na área do Pré-Sal e pudesse desempenhar o papel de operadora exclusiva das áreas, foi realizada a capitalização da Companhia em 2010.

Nesse ponto cabe o questionamento, já levantado no item 3.3.1.2, sobre a capacidade financeira da Petrobras para ser a operadora única dos campos do Pré-Sal. Se para realizar o pagamento da sessão onerosa foi necessária uma

capitalização, será que a companhia conseguirá arcar com as despesas de todos os campos da região?

Foram subscritas ações da companhia por meio de uma oferta pública de ações.

Foram emitidas 2.369 milhões de ações ordinárias, ao preço de R$ 29,65 por ação, e 1.901 milhão de ações preferenciais, ao preço de R$ 26,30 por ação. A operação foi concluída em 1° de outubro de 2010, tendo o capital da empresa aumentado em R$ 120,25 bilhões.

Neste processo de aumento de capital, a União, além de exercer o seu direito de preferência adquirindo o número de ações que lhe cabia, também adquiriu as sobras dos acionistas que não exerceram seus direitos de subscrição. Essa operação foi liquidada através de Letras Financeiras do Tesouro Nacional – LFT, emitidas especificamente com esse propósito.

Após a capitalização, a Petrobras promoveu o pagamento do valor inicial do contrato de cessão onerosa com recursos obtidos na venda de ações da seguinte forma: R$ 67,8 bilhões em Letras Financeiras do Tesouro – LFTs de que a União se valeu para integralizar sua participação no aumento do capital na Companhia, e R$ 7 bilhões do seu caixa.

Ou seja, a capitalização e a cessão onerosa reforçaram a capacidade de investimentos da estatal e também reforçaram em R$ 74,8 bilhões a receita bruta do Tesouro Nacional, valor esse que correspondeu a 50% do incremento da mencionada receita verificado em 2010 (STN, 2011). Uma parcela significativa dessa receita percebida pela União (R$ 42,9 bilhões) foi utilizada para financiar o aumento de sua participação no capital da Petrobrás, que passou de 39,8% para 48,3% do capital total da Companhia.

No documento Luiza Queroga Caldas. Natalia Bernardi do Amaral. Projeto de Graduação apresentado ao Curso de Engenharia de Petróleo (páginas 55-60)