1.6. Impactos da investida neoliberal na atividade petrolífera e na PEV (1989-1998)
2.1.3. Chávez no poder: particularidades dos três termos presidenciais (1999-2012)
cenário político venezuelano. Porém e sem dúvidas, conforme exposto no capítulo inicial desta tese, era alto o grau de dificuldade a ser enfrentado por Chávez e seus correligionários para cumprir as inúmeras promessas feitas durante a campanha eleitoral. O cenário político se apresentava altamente instável, em especial pelo fato de Chávez, durante todo seu primeiro ano como chefe do Poder Executivo, não ter conseguido apoio da maioria dos representantes em nenhuma das duas casas legislativas nacionais. Tal situação afetava de maneira decisiva a governabilidade do país, principalmente no que concernia à implementação das modificações sócio-políticas defendidas pelo líder bolivariano em seu plano de governo.
Mesmo desafiado por esta conjuntura inicial desfavorável, Chávez perseverou na batalha institucional pela “refundação da república”, sendo este o principal objetivo e o princípio norteador da atuação institucional neste terceiro momento de intervenções praticadas pelo MBR no sistema político da Venezuela contemporânea. Por ser esta a fase mais longa e complexa de todo o processo - e seguindo o presente esforço de sintetizar os mais significativos momentos da “experiência bolivariana” – cabe, aqui, analisar as principais características apresentadas pelo governo Chávez de maneira segmentada, a partir dos três mandatos presidenciais por ele cumpridos.
106 Os resultados da eleição presidencial de 1998 estão disponíveis no sítio eletrônico do Conselho Nacional Eleitoral venezuelano em: http://www.cne.gob.ve/web/index.php.
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O primeiro dos termos presidenciais (1999-2001) ficou marcado pela postura até certo ponto conservadora assumida pelos bolivarianos no que se referiu à economia nacional e, por outro lado, pelo esforço bem mais agressivo para reconfigurar a composição e a participação do aparelho estatal venezuelano em suas atividades internas e internacionais (Cicero, 2010).
A “timidez” em implantar modificações substanciais nas relações econômicas se explicava pela temerária situação da economia venezuelana. O momento em que se deu a posse de Chávez não poderia ter sido pior. O preço do barril de petróleo no mercado internacional atingira, naquele ano, sua menor cotação desde o choque de 1979, sendo a desaceleração econômica em nível mundial causada pela crise financeira de alguns países asiáticos - sobretudo a Coréia do Sul - a principal razão para tanto. No ano anterior (1998), as reservas internacionais de que dispunha o país haviam diminuído em aproximadamente US$ 3 bilhões. Por sua vez, a queda do ingresso petroleiro fez do endividamento externo - na casa dos US$ 8,8 bilhões - um problema difícil de ser solucionado. Os reflexos da crise eram evidentes: estancamento do crescimento produtivo (aumento de, apenas, 0,2% no PIB em 1998), altas taxas inflacionárias (35,8%) e pronunciada tendência ao aumento dos indicadores de pobreza e das taxas de desemprego (Vera, 2005).
A crise da economia nacional tornava muito difícil o manejo macroeconômico necessário para dar respostas ao quadro de miséria que assolava grande parte da população venezuelana. Dessa maneira, Chávez não teve a oportunidade de executar uma política expressiva de gastos/investimentos públicos. O déficit fiscal moderado (na ordem de 1,8%) percebido ao término de 1999 é prova de que não houve extravagâncias (Severo, 2003).
No mesmo sentido, a principal estratégia colocada em prática pelo governo recém- eleito para mitigar os efeitos da crise - a majoração da carga tributária – acabou se fazendo sentir mais entre a parcela da população que menos pagava impostos e, consequentemente, tinha menos renda. Tais fatos, somados, permitem sustentar a constatação segundo a qual é “totalmente verdade que, durante seu primeiro mandato, os bolivarianos permaneceram prisioneiros das políticas macroeconômicas e não concederam benefícios relevantes e imediatos para aqueles que mais precisavam” (Ali, 2008, p. 80).
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Em contrapartida, as transformações efetuadas na estrutura política do país durante o primeiro termo bolivariano foram muito mais significativas e profundas. A promulgação de uma nova constituição, ainda em 1999, representou o principal vetor das referidas mudanças. O fato da maioria dos parlamentares eleitos para redigir a Carta Magna serem vinculados ao bolivarianismo – 121 dos 131 deputados constituintes provinham dos partidos da situação - garantiu que o projeto político propugnado por Chávez fosse amplamente abarcado pelo texto constitucional.
Por isso, na contramarcha das tendências neoliberais até então dominantes na história recente daquele país, a Constituição de 1999 não só reafirmou como, de fato, aprofundou o conjunto de direitos sociais, econômicos e culturais assegurados aos cidadãos venezuelanos, uma vez que estabelece a obrigação de o Estado garantir de maneira universal e gratuita os direitos acima elencados. Adicionalmente, para além de outras relevantes alterações, a nova redação da Carta Magna transformou a composição do sistema legislativo, eliminando a existência do Senado para, assim, estabelecer uma Assembleia Nacional unicameral. Por sua vez, em relação ao poder executivo, ampliou-se o mandato presidencial para seis anos, abrindo-se a possibilidade de uma reeleição (Cicero, 2010).
Porém, dentre o conjunto de modificações estabelecidas, a mais audaz referia-se aos novos mecanismos de democracia participativa instituídos no ordenamento jurídico do país. Aponta-se na carta magna – especificamente em seus artigos de número 62, 67 e 168 - a “participação cidadã” como o método político central a ser perseguido pela administração pública venezuelana. Dessa maneira, se viabilizava a intervenção direta e vinculante dos cidadãos na formulação, definição e instrumentalização da gestão nos governos nacionais e subnacionais, bem como na controladoria social dos mesmos, mediante a instalação de instâncias de participação que transcendem o marco eleitoral (conforme dispõe o artigo 70 do texto constitucional aprovado em 1999).
Promovia-se, pois, uma nova concepção de participação política, agora orientada para uma pretensa outorga de poder, autonomia de decisão, controle de recursos e responsabilidades em favor das comunidades organizadas, investindo-as de competência para fazerem parte do processo de planejamento e execução das políticas públicas no país. Nesse diapasão, e a partir do novo marco legal, foram consolidadas experiências de
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participação política direta na Venezuela contemporânea, tais como os “Círculos Bolivarianos”, das “Unidades de Batalha Eleitoral” (UBE), as “mesas técnicas da água”, os “comitês de terra” urbana e rural e, mais recentemente, os “conselhos comunais” (Cicero, 2010)107.
A promulgação da constituição foi o passo inicial de uma série de outras estratégias políticas que - amplamente avalizadas pela população através de inúmeros processos eleitorais e de consulta popular - transformaram a estrutura político-social da Venezuela conforme sintetiza López-Maya (2005, p. 232):
En diciembre de 2000 finalizó un período de intensa actividad electoral. En un lapso de 25 meses, que se inició en noviembre de 1998, se habían llevado a efecto dos elecciones presidenciales, dos para gobernadores de estados, se eligieron dos parlamentos, se dieron dos comicios de representantes a las legislaturas regionales, se votaran los representantes para una Asamblea Nacional Constituyente, una elección de alcaldes, otra para concejales y miembros a juntas parroquiales y, por fin, tres referendos […] Esta intensa actividad electoral permitió el desplazamiento de una elite política dominante en el país desde 1958 y su sustitución por nuevos actores políticos emergentes. Con mucho, la figura más descollante de este proceso fue el actual presidente de la república Hugo Chávez Frías, cuyo carisma y popularidad explican en gran medida las victorias obtenidas. Así, Chávez y las fuerzas y organizaciones que lo respaldaron accedieron a una significativa mayoría de los cargos públicos en los diversos niveles, lo que les va a posibilitar desarrollar en los próximos años las propuestas que venían defendiendo para el país.
Para além das modificações implementadas pelo texto constitucional recém- promulgado, em fevereiro de 2000, Chávez, com sucesso, submeteu à Assembleia Nacional uma proposta de emenda constitucional cujo objetivo era o de estabelecer uma nova modalidade de atuação no contexto do sistema legiferante venezuelano. Tratava-se das “Leis Habilitantes”, as quais, conforme será detalhado nas próximas páginas, passaram a conferir competência ao executivo para governar por decreto em questões administrativas, monetárias, fiscais e setoriais.
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Os “Círculos Bolivarianos”, criados no ano 2000, foram convertidos em “UBEs” em 2002. Estas desempenharam um papel importantíssimo na tarefa de mobilização eleitoral pró-Chávez durante o referendo revogatório presidencial de 2004. Os círculos que ainda restavam e as “UBEs” fundiram-se em “mesas técnicas” (para tentar resolver problemas como a escassez de água, por exemplo). Por fim, as últimas foram desmontadas para construir os “Conselhos Comunais” e, também, os núcleos de base necessários para o estabelecimento do “Partido Socialista Unido de Venezuela” (PSUV) em 2006 (Alejua Álvarez, 2007).
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Em razão da nova ordem constitucional estabelecida, foram realizadas eleições presidenciais e legislativas em 30 de julho de 2000, nas quais Chávez reelegeu-se presidente da República. Desta feita, porém, diferentemente do que ocorrera no pleito de 1999, o líder bolivariano logrou obter folgada maioria na primeira legislatura da Assembleia Nacional unicameral. Partindo desta conjuntura política que lhe era favorável, o segundo termo presidencial bolivariano iniciou-se em 2001 e se estendeu até 2007.
Pode-se afirmar que este foi o momento mais conturbado e crítico enfrentado pelos bolivarianos em sua trajetória política até o momento. Também foi o período de suas mais importantes vitórias. Isso porque, a partir do final de 2001, a política venezuelana foi tomada pelo desenvolvimento de um impactante movimento de integração das forças de oposição ao governo que rapidamente se fortaleceu e, por diversas vezes, esteve próximo de derrubar Chávez.
Conforme apresentado acima, a ascensão bolivariana lograra reconfigurar as estruturas e a correlação de forças no cenário político venezuelano. Em resposta, os setores e grupos sociais vinculados ao puntofijismo – que, até então se concentravam primordialmente em manter sob seu controle as instituições estatais - assumem uma postura mais combativa e de mobilização, projetando sua influência e poderio econômico de forma incisiva para envolver e organizar parte da população em torno do propósito de desestabilizar o governo.
Nesse sentido, o primeiro “lock-out” oposicionista (realizado em 10 de dezembro de 2001108), o efêmero golpe de Estado (abril de 2002), a segunda paralisação geral (ocorrida entre o final de 2002 e o início de 2003) e o referendo revogatório (agosto de 2004) são acontecimentos extremamente relevantes para história contemporânea do país, pois demonstram a emergência do grupo político que, mesmo após a morte de Chávez, busca, sem sucesso, derrotar o bolivarianismo.
108 Como forma de se opor às intervenções estatais nas atividades econômicas as quais, segundo os oposicionistas, feriam princípios básicos do estado democrático de direito, a federação das indústrias (FEDECAMARAS) conclamou aos empresários a pararem por um dia as atividades produtivas do setor privado para, assim, aderirem ao “I Paro Nacional”. Este foi, de fato, o primeiro ato concreto organizado pela oposição com resultados contundentes. Além de reunir um amplo conjunto de forças contrárias ao bolivarianismo que, até então, encontravam-se dispersas, estima-se que cerca de 90% das atividades econômicas foram paralisadas naquele dia (Cicero, 2010).
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O “contra-ataque” oposicionista foi deflagrado, num primeiro momento, pela promulgação por decreto de 49 leis habilitantes, as quais alteraram o marco regulatório dos principais ramos da atividade econômica. Embora o seu conteúdo não tenha transformado significativamente a estrutura de classes no país, é inegável o fato de seu estabelecimento ter perturbado de maneira contumaz os grupos sociais que, historicamente, regiam as atividades político-econômicas em solo venezuelano109.
Nesse sentido, através das normativas expedidas diretamente pelo Poder Executivo, o plano de governo levado a cabo pelos bolivarianos a partir do ano de 2001 tornou pouco confortável a situação dos grandes latifundiários, dos setores que gerenciavam a produção petroleira e de grande parcela dos setores empresariais locais e internacionais na intrincada e crescente disputa entre dois polos portadores de objetivos políticos diametralmente opostos. A escalada de tal rivalidade deu origem a um cenário extremamente conturbado, sendo o golpe de Estado perpetrado pelas forças oposicionistas o auge desses conflitos (Bonilla-Molina e El Troudi, 2004).
Sobre este último acontecimento são fartas as fontes, escritas e audiovisuais, que mostram, descrevem e analisam o coup cometido contra a administração de Hugo Chávez110. Os fatos ocorridos em 12 de abril de 2002 foram conduzidos por um conjunto bastante diversificado de atores articulados em torno da chamada “Coordinadora
Democrática de Acción Cívica” (CD). Esta, por sua vez, foi pensada e constituída como
uma organização “guarda-chuva”, composta por um conjunto heterogêneo de atores
109 Entre as mais relevantes alterações impostas pelo conjunto de leis supramencionado destacam-se as modificações na estrutura fundiária nacional (através da Lei de Terras, a qual estabeleceu novos regulamentos em relação aos índices de produtividade relativos às áreas rurais de grande extensão localizadas no país, além de fixar parâmetros mais rígidos e necessários para tirar do papel o prometido processo de reforma agrária), na atividade comercial pesqueira (cujo marco regulatório passou a, explicitamente, proteger e favorecer a pesca artesanal em detrimento da pesca industrial) e, também, na exploração dos hidrocarbonetos, dada a pronunciada diminuição no grau de autonomia dos funcionários do alto escalão da PDVSA estabelecida pela legislação até então em vigência (Cicero, 2010).
110 Para compreender detalhadamente o processo é fundamental assistir a dois documentários produzidos a partir de filmagens dos acontecimentos. O primeiro, bastante difundido em nosso país, é “La revolución no
será transmitida” (abril de 2003), produção irlandesa que documenta de dentro do palácio de Miraflores os
momentos de tensão precedentes à deposição de Chávez, bem como seu heroico retorno ao poder. A segunda contribuição, intitulada “Punte Llaguno: las claves de una masacre” (2004) comprova, a partir de uma incontestável documentação audiovisual, ser falaciosa a cobertura dos meios privados de comunicação, os quais buscavam justificar e legitimar o golpe com acusações falsas sobre militantes bolivarianos atirando contra oposicionistas em marcha rumo ao palácio presidencial.
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políticos, os quais, por diferentes motivos, sentiram-se prejudicados pelas modificações aprovadas e estabelecidas no decorrer da administração bolivariana.
Dentre estes, assumiram um papel de liderança o empresariado (representado pela FEDECAMARAS, federação patronal que liderou o movimento pela reestruturação dos tradicionais partidos políticos puntofijistas) e os meios de comunicação privados, os quais foram utilizados como uma poderosa arma para desestabilizar o governo e agregar força ao movimento de oposição (Maringoni, 2004). O apoio financeiro e diplomático dos estadunidenses, os primeiros a reconhecer internacionalmente a “legitimidade” do governo antidemocrático liderado por Pedro Carmona, também foi decisivo para o golpe (Lander, 2002).
Entretanto, menos de 48 horas após lograrem sucesso, os golpistas não se mostraram capazes de deter a insurreição civil e militar que reconduziu Chávez à presidência da República. O triunfal retorno do líder bolivariano ao poder só foi possível, em grande medida, graças à força demonstrada pela articulação popular que congregou, essencialmente, os Círculos Bolivarianos111, alguns poucos sindicatos e outras organizações populares, os quais se articularam para agrupar e mobilizar a militância pró-Chávez contra as forças de oposição instaladas no palácio de Miraflores. Enquanto muitos dos líderes com importantes cargos no governo deposto, externando o receio de serem perseguidos, optaram por se esconder durante as primeiras horas do golpe, os militantes e ativistas políticos oriundos das comunidades – os Barrios - não hesitaram em tomar as ruas de Caracas para pressionar pela restituição da ordem constitucional. Portanto, durante esse importantíssimo episódio da trajetória bolivariana, os militares e os dirigentes políticos foram um ponto de apoio subsidiário à mobilização popular, e não o contrário (Cicero, 2010).
Em que pese o resultado final dos acontecimentos de abril de 2002 não ter sido negativo para os bolivarianos, suas consequências não os deixaram em uma situação
111 Os primeiros relatos informando sobre a existência de organizações políticas chamadas “Círculos Bolivarianos” (CB) na Venezuela ocorreram no início do ano 2000. Surgiram por iniciativa própria das comunidades, uma vez que o governo, num primeiro momento, não teve participação direta em sua formação. As atividades políticas inicialmente desenvolvidas por estes grupos comunitários referiam-se, basicamente, ao estudo da história venezuelana e de sua recém-aprovada constituição nacional. Com o tempo, passaram a trabalhar em projetos visando à melhoria das condições de vida em suas respectivas comunidades para, em seguida, expressarem a intenção de participar direta e complementarmente junto às instâncias governamentais nos processos decisórios sobre as políticas públicas que ali seriam implementadas (Cicero, 2010).
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confortável. A oposição permaneceu organizada e, já em outubro de 2002, desferiu outro duro golpe à já fragilizada economia venezuelana ao construir e efetivar uma paralisação geral no oferecimento dos serviços e atividades produtivas controladas pela iniciativa privada do país. Ademais, e de maneira decisiva, uniram-se àquele movimento os burocratas do alto-escalão da PDVSA, os quais se organizaram com vistas a sabotar as atividades de prospecção e comercialização de petróleo sob sua responsabilidade. Assim, a adesão ao “lock-out” patronal foi extremamente significativa. Até mesmo as escolas particulares suspenderam suas aulas. Supermercados e bancos abriam, apenas, durante meio expediente. Já nos primeiros dias de paralisação a oferta de produtos essenciais, tais como gasolina e alimentos, ficou comprometida em todo o território nacional (Vera, 2005).
Contudo, e novamente, a resistência e o apoio de significativa parcela da população, bem como a utilização da força militar para retomar as embarcações e instalações da PDVSA, resgataram o bolivarianismo de mais uma crise política. Depois de 63 dias, sem nunca ter tido seu término formalmente decretado, o “Paro Petroleiro” se dissolveu e a vida no país começou a voltar à normalidade. A devastação econômica gerada pela paralisação da PDVSA culminou, porém, na queda de 27% do PIB venezuelano durante o primeiro trimestre de 2003. A recessão, por sua vez, levou à falência de inúmeras pequenas e médias empresas o que elevou de imediato, por conseguinte, o índice de desemprego no país. Em um intervalo de apenas quatro meses, a porcentagem de desempregados saltou de 15,4 para 20,3% (Vera, 2005).
Beneficiado, porém, pela alta na cotação do petróleo no mercado internacional e após demitir aproximadamente dezessete mil funcionários, recuperando, com isso, o controle diretivo da PDVSA, Chávez conseguiu restabelecer as condições econômicas e políticas necessárias para, paulatinamente, a partir de 2003, firmar um novo modelo administrativo e orçamentário ao expandir os gastos públicos empregados em programas de assistência social e distribuição de renda denominados “misiones sociales venezolanas”.
Assim, ao consolidar as misiones, o governo bolivariano aportou aumentos significativos nos investimentos governamentais em políticas públicas desenhadas para combater e minimizar problemas sociais. Por sua vez, ao oferecer soluções – mesmo que parciais – aos graves índices de pobreza registrados no país, os referidos programas sociais
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ajudaram a consolidar ainda mais o vínculo político entre os setores pauperizados da sociedade venezuelana e o movimento bolivariano revolucionário (Cicero, 2010).
A oposição, a seu turno, optou por modificar suas táticas de organização e ação política. A estratégia baseada nos embates de rua e nos “lock-outs” foi abandonada para dar lugar a uma opção que vislumbrava remover Chávez do poder por meio de um referendo revogatório presidencial. Para tanto, recorreu-se ao artigo 72 da Constituição, o qual prevê a possibilidade de revogação de todos os cargos eletivos do país sob duas condições: que a metade do mandato em questão já tenha transcorrido e que um quinto dos eleitores presentes naquele pleito específico solicite a instauração do referendo revogatório. Então, cumpridos o par de requisitos, e tendo em vista que o voto não é obrigatório na Venezuela, se 20% do total de eleitores habilitados comparecerem para votar e se o número de votos favoráveis à revogação superar o total de votos recebidos pelo governante, considerar-se-á revogado o mandato e, de imediato, terá início um novo processo eleitoral para o preenchimento daquele cargo.
Após um conturbado processo de coleta de assinaturas por parte dos partidos e organizações políticas de oposição ao bolivarianismo, em 15 de agosto de 2004, ocorreu o pleito, sendo que seu resultado final, por uma margem de 58,25% contra 41,74%, favoreceu a Hugo Chávez Frías.
O último evento de grande repercussão política ocorrido durante o segundo mandato de Chávez foram as eleições legislativas de dezembro de 2005. Nesta ocasião, os partidos oposicionistas, alegando falta de confiança no “Consejo Nacional Electoral” (CNE), optaram por não participar do pleito. Em decorrência dessa decisão, a coalizão bolivariana logrou eleger a totalidade de membros do parlamento venezuelano, sendo que 114 postos