3 O INÍCIO DA ERA VARGAS E A CONJUNTURA ECONÔMICA NACIONAL
3.1 A CHEGADA DE GETÚLIO VARGAS AO PODER E OS GOVERNOS
PROVISÓRIO E CONSTITUCIONAL
Em 03 de novembro de 1930, por ocasião de sua posse como chefe do Governo Provisório da República, Getúlio Vargas realizou discurso e o iniciou por meio das seguintes considerações:
O movimento revolucionário, iniciado vitoriosamente a 3 de outubro, no sul, centro e norte do país, e triunfante a 24, nesta capital, foi a afirmação mais positiva, que até hoje tivemos, da nossa existência, como nacionalidade. Em toda nossa história política, não há, sob esse aspecto, acontecimento semelhante. Ele é, efetivamente, a expressão viva e palpitante da vontade do povo brasileiro, afinal senhor de seus destinos e supremo árbitro de suas finalidades coletivas (VARGAS, 2015a, p. 15).
O conteúdo dessa parte da exposição oral do novo Chefe do Executivo evidenciou a afirmativa de apoio da nação brasileira aos acontecimentos que buscaram romper as fronteiras do modelo político de governabilidade brasileira, período denominado de Primeira República. Segundo Fausto (1990), existia “um tipo de política no Brasil. Existe um tipo de sistema político no Brasil anterior a 1930: regionalista, marcadamente oligárquico, liberal eletista, etc, que morre em 1930”.
No Brasil, apesar de a forma de governo republicana ter tido início em 1889, somente no ano de 1891 foi formalizada por meio de Constituição. A concernente Carta Magna, que norteou o ambiente jurídico brasileiro, relativamente, até 1934, em seu primeiro artigo destacou a forma de governo e a nova denominação estabelecida ao país1: “A Nação Brazileira adopta como fórma de governo, sob o regimen representativo, a Republica Federativa, proclamada a 15 de novembro de 1889, e constitue-se, por união perpetua e indissoluvel das suas antigas provincias, em Estados Unidos do Brazil.” (BRASIL, 1891, p. 1).
Até a eclosão da Revolução de 1930, o Brasil foi governado por 14 presidentes. Nesses 41 anos, a república brasileira foi caracterizada por duas fases:
a) a dos Marechais (ou da espada); b) a dos Coroneis (ou oligárquica).
Prevalecente em 90% do período, a segunda foi caracterizada pela chamada política do “café com leite”, que consistiu em revezamento entre representantes de Minas Gerais e São Paulo para o cargo de presidente da república. Tal situação decorria de força eleitoral e econômica, sendo o Estado do Rio Grande do Sul o que fechava o ranking das três “principais” unidades da Federação. “As outras unidades da Federação balançavam-se ao seu redor em busca e à espera de serem carreadas ao poder depois de tomadas grandes decisões.” (SOUZA, 1977, p. 186).
A relativa desvantagem que o Rio Grande do Sul possuía era sustentada por questões de conflitos políticos internos, especificamente devido à existência de dois partidos, o Republicano e o Federalista, o que resultava na divisão política e, portanto, na impossibilidade de candidato que representasse os interesses de forma homogênea2.
A chamada política dos governadores e o coronelismo também marcaram o período. A primeira caracterizada por certa troca de favores entre os governos das unidades da Federação e o Governo Federal, de modo que este se comprometia em não intervir naqueles e, da mesma forma, os primeiros pactuavam em influenciar suas bancadas a aprovar os projetos do segundo. Como explica Souza (1977, p. 185), tal política objetivou:
[...] propiciar ao regime federativo o equilíbrio procurado nos anos anteriores [...]. No sistema constituído, os verdadeiros protagonistas do processo político eram os Estados, os quais, dotados dos necessários suportes legais, dominavam a política nacional. Em troca da garantia de tal autonomia, sem intervenção da União e do direito de controlar as nomeações federais, os Estados davam apoio ao presidente da República, sem o qual não este não subsistiria no poder. Embora tal compromisso não se concretizasse em relação às pequenas unidades da federação [...], esse era o princípio implícito nas relações da União com os Estados.
A interação entre os atores políticos ocorria por meio de uma gestão econômica,
caracterizada por um “sistema peculiar de relações entre o governo central e um grande e heterogêneo conjunto de interesses estaduais, [...] que permitia o funcionamento relativamente estável de um regime onde o parlamento, apesar de manter suas prerrogativas formais, subordinava-se [...] aos desígnios do Presidente da República.” (FRITSCH, 1995, p. 36).
Em adição, traz à tona a existência de instituição informal, de acordo com o conceito de North3, como mecanismo norteador dessas relações, pois:
2 Em Minas Gerais e São Paulo, as forças políticas eram concentradas em partidos únicos: o PRM e o PRP, respectivamente.
3 Em North (2006, p. 13) consta que, dentre outros, “As instituições compreendem [...] limitações informais (normas de comportamento, convenções e códigos de conduta auto-impostos) [...].”.
a principal regra não escrita desse sistema era a de que o governo federal estaria pronto a apoiar – inclusive, se necessário, manu militari – as oligarquias que controlassem o poder nos estados menores de modo a facilitar a consolidação e estabilidade do poder local, as quais, em retorno, presenteariam o governo federal com uma confortável e dócil maioria no Congresso Federal. O funcionamento estável desse sistema assentava-se, por um lado, na estabilidade da liderança dos grupos hegemônicos nos grandes Estados, ligados aos interesses econômicos poderosos na esfera nacional, e, por outro lado, na influência que o apoio do governo federal fornecia às oligarquias dominantes, obtendo, em termos locais, os favores dos “coronéis” (FRITSCH, 1995, p. 36).
Diante disso, a suposta afirmação de subsistência de uma regra não formalizada, entretanto, é passível de questionamentos, tendo em vista que o sexto artigo da Carta Magna de 1891, em seu caput, estabeleceu que o governo Federal não poderia intervir nos Estados. No entanto algumas exceções foram arroladas, como nos casos de invasões estrangeiras, ou de um Estado em outro; na necessidade de se manter a república federativa; manutenção da ordem, no caso de solicitação da unidade de Federação e, por fim, no caso de indispensabilidade de se assegurar a aplicação das leis e sentenças federais4. Assim, os respectivos parágrafos estabelecem a possibilidade de interpretações voltadas à intervenção do governo federal, o que significa a presença de regra escrita (ou formal) que poderia legalizar tal ação.
No tocante ao coronelismo, tal termo provinha da caracterização de pequena parte da população que, por conta de seu poderio econômico, era detentora de meios de influenciar a escolha política de determinados eleitores. Diante disso, ter o apoio dos coronéis acabava por ser uma situação de essencial necessidade para a vitória no pleito eleitoral. Leal (1997, p. 279) descreve peculiaridades da interação entre candidatos, coronéis e eleitores:
Despejando seus votos nos candidatos governistas nas eleições estaduais e federais, os dirigentes políticos do interior fazem-se credores de especial recompensa, que consiste em ficarem com as mãos livres para consolidarem sua denominação no município. Essa função eleitoral do ‘coronelismo’ é tão importante que, sem ela, dificilmente se poderia compreender o dout des que anima todo o sistema. O regime federativo também contribuiu, relevantemente, para a produção do fenômeno: (coronelismo) ao tornar inteiramente eletivo o governo dos Estados, permitiu a montagem, nas antigas províncias, de sólidas máquinas eleitorais; essas máquinas eleitorais estáveis, que determinavam a instituição da ‘política de governadores’, repousavam justamente no compromisso ‘coronelista’.
Desse modo, aparece a relevância política da participação dos coronéis, tendo em vista suas ligações diretas com os representantes locais que compunham as esferas estadual e federal, cujo fenômeno tem proveniência, como explicou Souza (1977, p. 185), da “[...] massa eleitoral
4 Essas ressalvas sofreram certas modificações e inclusões por conta da Emenda Constitucional de 03 de setembro de 1926
incapacitada e impotente para participar do processo político que lhe fora aberto com o regime representativo imposto pela Constituição de 1891 [...]” que, em seu artigo 70, determinou o direito ao voto, dentre outras características, aos maiores de 21 anos, alfabetizados e alistáveis.
A atividade cafeeira, direcionada para a exportação, consistia na força motriz do sistema econômico nacional. Como o café consistia num produto em que o preço era estabelecido pelas forças de mercado internacional, crises internacionais, além dos excessos de oferta, acarretavam a necessidade da criação de mecanismos que possibilitassem a minimização dos efeitos negativos de tais fenômenos. O Convênio de Taubaté, ocorrido em 1906, faz parte desse ambiente de instrumentos de proteção, tendo em vista que, de modo geral, consistiu na compra governamental (Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro) de excedentes produzidos para, em seguida, serem destruídos e, com isso, impedir a queda do preço proveniente do excesso de oferta.
A obtenção junto aos cafeicultores se deu, principalmente, por meio de recursos provenientes de empréstimos externos. O resultado da operação se resumiu em duas situações diretas, de modo que a sociedade arcou com o desembolso financeiro para o benefício do setor cafeeiro, ou seja, socialização dos custos e privatização dos lucros.
Economias voltadas à exportação e pouco diversificadas produtivamente, possuem, de maneira mais intensa, o risco dos efeitos negativos, provenientes das crises internacionais. Com a Primeira Guerra Mundial, as nações envolvidas diretamente nela reordenaram suas forças produtivas para o conflito, o que inibiu tanto a procura de determinados tipos de bens, quanto à oferta de outros de elevada procura por nações não industrializadas.
Diante disso, de acordo com Fritsch (1995, p. 41-42), “[...] o maior problema criado pela guerra para o comércio exterior brasileiro foi o da estagnação das importações aos níveis já extremamente deprimidos que haviam atingido ao fim da recessão de 1913-14.”. Em adição, no que diz respeito aos reflexos, complementa que, não só possibilitava, relativamente, “[...] a continuação de níveis de atividades domésticos deprimidos, mas sinalizava também o efeito negativo da guerra sobre a oferta mundial de manufaturados.”.
A diminuição da oferta internacional de bens industrializados poderia “forçar” determinadas nações importadoras a redirecionar seu sistema econômico à produção de tais produtos. No caso do Brasil, tal situação é tema controverso nas discussões que buscam explicar os fenômenos impulsionadores da formação do setor secundário nacional, de modo destacável ao “conflito” entre os que denotam a responsabilidade ao primeiro conflito mundial e os que defendem a ideia de que sua formatação ocorria de forma proporcional ao desempenho da
atividade cafeeira, ou seja, choques adversos versus externalidades positivas provindas das exportações.
As características que marcaram os sistemas político e econômico do Brasil, nos anos que precederam a Revolução de 1930, podem ser abreviadas, de modo que o primeiro foi consubstanciado por uma república federativa presidencialista, que sofria alterações de liderança por conta da adoção do regime democrático, gerador de uma democracia sensível às influências resultantes dos interesses de pequena parcela da população. O segundo começava a sentir, mesmo que de forma muito frágil, elevação de sua dinâmica por conta do aparecimento de atividades distintas às do setor agroexportador. Em adição, Fausto (1978, p. 233) explica que até 1930, a sociedade brasileira foi marcada pela:
[...] predominância do setor agrário-exportador, pela inexistência de uma luta nítida de facções no interior da burguesia entre o setor agrário e o industrial, pela fraca integração nacional, com predominância do eixo São Paulo-Minas, pelo caráter secundário das oposições de classe, pois mesmo os grandes conflitos operários, como a greve geral de 1917, não chegaram a abalar os fundamentos do poder.
A chegada de Vargas ao cargo de chefe do executivo foi resultado de uma série de fatos que alcançou o clímax com a vitória do candidato situacionista, Júlio Prestes, nas eleições de 1930, mas que não pertencia, naquele momento, ao contexto da política do “café com leite”. Apesar de Júlio Prestes ser paulista, a intercalação, entre candidatos mineiros e paulistas, “obrigava” o apoio oficial para um candidato mineiro. Com a anuência do então Presidente da República, Washington Luís, que era de São Paulo, a Júlio Prestes, presidente daquele Estado, a alternância foi desfeita e a ruptura política com Minas Gerais surge como consequência. Segundo Fausto (1990):
Existe um desencontro entre forças econômicas de São Paulo e, mesmo, forças políticas de São Paulo e Washington Luis. Assim como o futuro presidente Júlio Prestes. Isso deriva da crise internacional, dos problemas do café, das respostas que o governo está encontrando pra esse problema. Então, dentro desse quadro, de perda de sustentação dentro de São Paulo e de crescente avanço dessas forças, das forças rebeldes, surge a intervenção da chamada junta pacificadora no Rio de Janeiro, que acaba por anular as últimas chances do governo Washington Luis.
Em suma, a decisão de Washington Luís lançar um candidato que não era mineiro, mas que, para ele, daria continuidade à sua política econômica, acabou por fortalecer o quantum de políticos que apresentava descontentamento com o “regime” político. De mais a mais, a crise internacional, provinda da “quebra” da Bolsa de Nova Iorque, bem como o assassinato do
candidato à vice-presidência na chapa de Getúlio Vargas, João Pessoa, em 26 de julho de 1930, viriam a contribuir com a consolidação do movimento de revolução.
Com a vitória do movimento revolucionário, opiniões acerca das medidas que demarcariam os novos rumos a serem tomados pela nação caracterizaram as discussões iniciais dos novos líderes. Isso significa que não havia consenso entre seus integrantes, tendo em vista que a Aliança Liberal foi formada por grupos sociais distintos. Fausto (1978, p. 234) descreve brevemente suas origens e objetivos:
Frente de oposições estaduais, a Aliança não é um partido político; não exprime interesses industriais, o Centro Industrial de São Paulo, por exemplo, apoiou a candidatura de Júlio Prestes, mas as reivindicações de vários grupos são desvinculados da economia cafeeira; assume timidamente estas reivindicações econômicas, a plataforma da Aliança, ataca a valorização do café, mas defende a política financeira de Washington Luís, e faz da reforma política o centro de seu programa; não é, enfim, um agrupamento revolucionário e sim um instrumento de pressão.
Dentre as medidas debatidas a serem idealizadas pelo Governo Provisório, Pandolfi (2003) descreveu:
a) o tempo de duração do Governo Provisório, do modo que alguns queriam a democracia estabelecida de forma imediata e outros entendiam que, primeiramente, era necessária uma série de transformações, a serem obtidas por meio das novas medidas, que acarretariam maior segurança contra a volta dos mecanismos políticos da República Velha e, portanto, possibilitariam o retorno da democracia por meio de bases solidificadas;
b) outro conflito ideológico foi direcionado ao modelo de Estado, de forma a estabelecer que ele seja forte, isento de parcialidade, centralizador, de viés nacionalista e reformista, ou acentuá-lo com facetas liberais e federativas, o que representaria limitação ao Governo Provisório e maior autossuficiência aos governos das unidades da Federação. Para os Estados do Norte e do Nordeste, o caminho para um governo interventor parecia ser mais atrativo, tendo em vista que o modelo de maior independência estadual os excluía, de certa forma, do jogo político, centralizado pelos integrantes do Centro-Sul. Diante disso, ao assumir a chefia provisória do poder executivo, Getúlio Vargas sintetizou os aspectos dos mecanismos utilizados para a escolha dos representantes por meio da afirmação de que a democracia existente no país era ilusória, e que, somente pelas armas a
possibilidade de mudanças poderia ser solidificada. Segundo ele, remetendo-se à Junta Governativa:
Era vossa, também, a convicção de que só pelas armas seria possível restituir a liberdade ao povo brasileiro, sanear o ambiente moral da Pátria, livrando-a da camarilha que a explorava, arrancar a máscara de legalidade com que se rotulavam os maiores atentados à lei e à justiça — abater a hipocrisia, a farsa e o embuste. E, finalmente, era vossa, também, a convicção de que urgia substituir o regime de ficção democrática, em que vivíamos por outro de realidade e confiança (VARGAS, 2015a, p. 17).
Além de justificativas para a obtenção do poder, pela força armada, o presidente provisório destacou objetivos que materializariam as mudanças entendidas como necessárias e, consequentemente, evidenciou o rumo escolhido a ser seguido pelo Estado brasileiro. Antes de expô-las, o novo Chefe de Executivo declarou o seguinte:
Comecemos por desmontar a máquina do filhotismo parasitário, com toda a sua descendência espúria. Para o exercício das funções públicas, não deve mais prevalecer o critério puramente político. Confiemo-las aos homens capazes e de reconhecida idoneidade moral. A vocação burocrática e a caça ao emprego público, em um país de imensas possibilidades — verdadeiro campo aberto a todas as iniciativas do trabalho — não se justificam. Esse, com o caciquismo eleitoral, são males que têm de ser combatidos, tenazmente.
No terreno financeiro e econômico, há toda uma ordem de providências essenciais a executar, desde a restauração do crédito público ao fortalecimento das fontes produtoras, abandonadas às suas dificuldades e asfixiadas sob o peso de tributações de exclusiva finalidade fiscal (VARGAS, 2015a, p. 18).
Desta forma, Getúlio Vargas fez uma espécie de introdução das necessidades nacionais que deveriam ser supridas pelo governo. Em seu discurso, acentuou 17 medidas que estabeleceriam a reconstrução nacional. Dentre elas, a reforma eleitoral, alterações de ordem jurídica, e diminuição extrema de gastos, no serviço público, incentivos ao ensino público, principalmente, ao técnico-profissional, reformulação do Ministério da Agricultura, prover meios incentivadores à policultura e ao escoamento de suas sobras (comércio internacional), “rever o sistema tributário, de modo a amparar a produção nacional, abandonando o protecionismo dispensado às industrias artificiais, que não utilizam matéria-prima do país e mais contribuem para encarecer a vida e fomentar o contrabando”, estabelecimento do Ministério do Trabalho, diminuição gradual, sem violência, do latifúndio e organização de um plano de expansão dos modais ferroviário e rodoviário, de forma a satisfazer as necessidades de comunicação da nação.
As primeiras ações do Governo Provisório foram marcadas pela intervenção política, de modo que o presidente passou a governar por meio de decretos-lei e “[...] de imediato o
Congresso Nacional e as assembléias estaduais e municipais foram fechados, os governadores de estado depostos e a Constituição de 1891 revogada.” (PONDOLFI, 2003, p. 17).
A legalidade das ações do Estado forte, que surgia, foi estabelecida por meio do decreto n.° 19.398, de 11 de novembro de 1930. Um extenso arcabouço de medidas a serem realizadas pelo Governo Provisório, tidas como necessárias e presentes no discurso de posse de Vargas, para a consolidação dos objetivos da Aliança Liberal, tornam-se legais.
As Constituições das unidades da Federação também continuaram em vigor. Não obstante, ficaram restritas em seu poderio de resolução de conflitos, tendo em vista que não eram mais marcadas pela característica de lei principal, pois poderiam sofrer alterações provindas, tanto do concernente decreto ou de outros futuros, quanto do próprio Governo Provisório que, dessa forma, exercia seu poder legislativo.
A administração das unidades da Federação ficou a cargo dos interventores, a serem nomeados pelo Governo Provisório. Pandolfi (2003, p. 18) descreve que, “[...] diferentemente do pré-1930, quando o governador era eleito e próximo das classes dominantes locais, no pós- 1930 o interventor era nomeado e subordinado diretamente ao presidente da República.”. “Os primeiros interventores eram vinculados ao tenentismo, podendo-se afirmar que, nos primeiros anos do processo revolucionário, ocorreu o fenômeno da militarização das interventorias.” (PANDOLFI, 1980, p. 345).
A característica básica dos interventores nomeados era a tendência de procedência distinta da das unidades da Federação que haviam sido escolhidos para administrar. Dessa forma, a insegurança e o descontentamento locais passaram a marcar o processo. Este contexto, juntamente com a exigência da criação da nova Carta Magna e, por conseguinte, o restabelecimento da democracia, iria motivar a criação de um movimento rebelde, que ficou conhecido como Revolução Constitucionalista de 1932. Camargo (1992) explica que havia interpretação distinta do termo democracia entre tenentistas e paulistas. Segundo ela,
para os tenentes, democracia era democracia social. Era dar poder a novos grupos, era revitalizar, digamos assim, classes e grupos sociais que jamais tinham tido voz, para justamente neutralizar essas velhas oligarquias. Portanto, democracia tinha que ser alguma coisa antioligárquica. Para os grupos paulistas, democracia era democracia formal, era democracia jurídica e não tinha nada a ver com democracia social.
Diante disso, ambos os grupos defendiam a democracia como regime norteador das relações políticas. No entanto, o seu significado e, consequentemente, os resultados provenientes de sua aplicação, por ser compreendido de forma discrepante, acabou por evidenciar um suposto embate entre interesses classistas.
Essa heterogeneidade ideológica viria a contribuir para o distanciamento de uma solução pacífica, tendo em vista que representaria a desistência dos objetivos que aparentavam ser essenciais aos interesses dos grupos. Desse modo, Camargo (1992) comenta que “[...] ficou muito claro que os tenentes não iam ser derrotados sem luta. Então foi essa ideia de que estavam esgotadas as possibilidades de uma negociação que levasse efetivamente à constitucionalização