3. O CORPO DA PESQUISA
3.4 CHEGANDO EM TERRAS ALHEIAS, PISO NO CHÃO DEVAGAR
A escrita como encontro com a alteridade, como um desmanchar do idêntico, a escrita como um “outramento”. Uma estranheza.
Leila Domingues Machado
Estranheza, foi isso o que eu senti. Dificuldade e segundo Filé, até um pouco de resistência em fazer pesquisa de um outro jeito, onde eu não devo me esconder, onde sou tão sujeito quanto os alunos, porque ao tentar compreender/investigá-los, eu compreendo/investigo a mim mesma. E o que eu vim buscar, a pricípio, neste programa de mestrado? Conhecimento,
aprovação das minhas opiniões, ratificar informações, comprovar o que eu pensava sobre os alunos..., entendi que era tudo que se opõe ao sujeito da experiência.
Em função dos diversos questionamentos que foram surgindo ao longo da pesquisa, fui encontrando teorias e conceitos que me ajudaram a pensar nas possibilidades de como eu, professora da rede pública municipal e estadual, poderia desenvolver uma pesquisa voltada para a investigação das representações de corpo apresentadas por crianças; moradores da Baixada Fluminense; com idade variando entre dez e quatorze anos; no 5º ano do ensino fundamental da rede educacional do município de Nova Iguaçu e que tipos de influência recebem para se representarem, confirmando ou negando minhas atuais reflexões acerca das relações étnico- raciais na escola e em que medida está havendo ou não uma tentativa de mudança na política que aparentemente se mantém fiel aos interesses da classe dominante e que tem sobrevivido ultimamente do discurso da diminuição das desigualdades sociais.
O fato de atuar profissionalmente em escolas públicas da Baixada Fluminense e lidar com alunos negros há alguns anos, me conferia certa segurança ao falar sobre aquilo que eu acreditava e pretendia pesquisar, mesmo sem nunca ter parado para questionar minha práxis tanto em sala de aula quanto na quadra e tampouco as relações com os alunos. Um acontecimento que me deixou atônita logo nas primeiras orientações foi ouvir a seguinte pergunta feita por Filé: “Onde está a Tais no seu texto?”. Imediatamente tentei encontrar uma resposta plausível, gaguejei, mudei o tom da voz, mas eu não tinha resposta...Pensei nisso durante semanas, pois me ver como sujeito da minha própria pesquisa era algo que eu jamais havia imaginado. O que é que poderia ser importante em mim que deveria estar nesse texto? Eu não era capaz de me ver em meus alunos, não acreditava que parte dos meus problemas podia ser os mesmos problemas deles, e apesar de negra, entendia que a minha realidade era muito diferente da deles, me fazendo acredditar que era sobre a influência do racismo nos corpos deles e que eu deveria falar e não de mim.
Cheguei ao mestrado com a mesma euforia de quem planeja por alguns meses uma viagem e está pronto para embarcar, “tudo” conferido, pesquisa prévia sobre o lugar, roteiro em mãos e uma bagagem cheia de certezas. Certezas que estavam numa mala tão pesada, que ao passar pela balança foi detectada como peso extra e que poderia me custar caro se eu insistisse
em carregá-las, resolvi despachar só o que era possível, afinal em uma viagem, é sempre bom deixar espaço na mala para as lembranças materiais, neste caso, as novas percepções que vão sendo apreendidas por esta nova experiência, experiência no sentido dado por Larrosa, porque cursar esse mestrado foi de fato um acontecimento.
Desembarquei, ainda com uma angústia/medo de ter deixado um bocado das “minhas coisas”, como “me virar” num lugar onde não conhecia praticamente nada? Aos poucos fui descobrindo e identificando quais eram as minhas “dores” e as tais certezas ainda estão se dissolvendo e se tranformando em dúvidas. O desafio foi durante bastante tempo tentar compreender a “língua” em que meu orientador se comunicava com a gente e realmente me sennti como se estivesse aprendendo um outro idioma. Logo no início fui tentando encontrar as implicações que me fizeram chegar até aqui; tentando aproximar meu pensamento ao das mestrandas mais antigas, na busca por referências positivas, mesmo sabendo que há bem pouco tempo atrás passaram pelas mesmas aflições, mas não esconderam que ainda estavam mergulhadas sobre elas. Fui seguindo os seus conselhos e me esforçando para deixar de resistir.
Busquei desenvolver a caminhada, habitar meus espaços de escrita e de leitura, compreender o que eram experiências, dando atenção aos acontecimentos e me fazer presente, visível, já que este era o meu texto. Nem parecia tão difícil! Mas, como foi e ainda está sendo! Algumas vezes parecia impossível me desprender do padrão acadêmico da razão e escrever de forma passional, como sugere a professora Leila Machado em seu artigo O desafio estético da
escrita (2004). Em outro artigo, Machado e Almeida comparam o ato de pesquisar aos encontros
com o/no mundo:
Encontros com o/no mundo fazem ressoar no corpo/pesquisador a afirmação de uma batalha! Linhas de resistência que insistem em conjugar o verbo pesquisar como ativação de um pensamento que se faz, que se faz sentido a partir de fluxos da existência e que, por isso, não está em busca de uma verdade absoluta ou de respostas apaziguadoras. Esse pensamento quer exercitar-se em sua potência de pensar, de inventar sentidos para o que vivemos, para o que nos toma como indagação e urgência, nos interpelando sobre o que temos feito em/de nossas vidas, em/de nossos trabalhos, em/de nossos escritos, em/de nossas pesquisas (MACHADO e ALMEIDA, 2014, p. 03).
Exatamente como fui me sentindo ao realizar esta pesquisa. Titubiei todas as vezes que me atrevi a falar sobre o assunto, que tentava explicar, que me metia a encontrar respostas. Mas quando passei a “sentir” e não somente ver a problemática da pesquisa, a tensão foi diminuindo, me foi posto o desafio... e eu aceitei com todos os meus limites.