A REVISTA “CIDADE NOVA”
2.2 CHIARA LUBICH
A História da Educação através de seus pesquisadores tem se dedicado no sentido de estudar a vida de pessoas, homens e mulheres, intelectuais e educadores que contribuíram ou contribuem, de alguma forma, na questão educativa23.
No caso específico da biografia, ela é definida por Borges (2001) como “uma espécie de história que tem por objeto a vida de uma só pessoa”. Baseando-nos nestes preceitos em meio à essa investigação, procuramos conhecer mais sobre a vida de
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36 Chiara Lubich para, assim, tentar verificar como se evidencia a prática pedagógica dessa personalidade contemporânea, fundadora do Movimento dos Focolares e idealizadora da revista “Cidade Nova”.
Figura 2: Chiara Lubich em Mollens-Suiça. Fonte: Documentário “Sejam uma família”, 11 de agosto de 2007. Acervo da pesquisadora.
37 Chiara nasceu em 22 de janeiro de 1920, na cidade de Trento, norte da Itália, dois anos após o fim da primeira Guerra Mundial. Ela foi batizada na igreja de Santa Maria Maggiore, que ficava nas proximidades do apartamento onde nascera e que, por muito tempo, seus pais moraram. Seu pai se chamava Luigi e era socialista; “mais tarde, sob a influência dos filhos, retomou a freqüência à Igreja” (LUBICH, 1991, p.33). A mãe Luigia, segundo Lubich (1991), “era uma mulher muito piedosa”. Os pais se conheceram na tipografia do jornal Il Popolo, onde trabalhavam. “[...] ele era o chefe da seção tipográfica e ela tipógrafa, neste jornal que era o órgão dos socialistas trentinos [...] tiveram quatro filhos: Gino, o mais velho; Chiara, a segunda; depois Lilliana e Carla” (LUBICH, 1991, p.34).
Figura 3: Chiara com seu irmão Gino na foto maior. À direita, em cima, Chiara com Giosi, uma de suas primeiras companheiras do Movimento dos Focolares. Embaixo, com os seus pais. Fonte: Documentário “Per Sempre”. Centro Vita, 11 de agosto de 2006. Acervo do Centro Regional do Movimento dos Focolares, em Pernambuco.
Ela, desde sua adolescência, dava aulas particulares para pagar seus estudos, e em 1938, recebeu o diploma de professora primária. Anos mais tarde, iniciou o curso de Filosofia na Universidade Católica de Veneza, que não conseguiu concluir por conta da Guerra. Nesse período, Chiara tinha confidenciado a algumas amigas suas aspirações, seu desejo de fazer algo concreto pela humanidade.
38 Chiara Lubich, professora, junto com algumas companheiras, fez uma grande descoberta: Deus é o “TUDO” de sua vida, o “único Ideal24 que não passa”. Ela entendeu que devia deixar de lado sua dor pessoal - sua casa que havia desmoronado por conta da guerra, seus pais que deixaram a cidade - para assumir as dores da humanidade, representada ali pelos pobres, pelos mutilados, pelos sem-teto, doentes e vítimas da Segunda Guerra. Assim, enquanto famílias perdiam os parentes, escolas e casas eram destruídas, Chiara, juntamente com algumas jovens, abdicaram dos seus ideais para ajudar as pessoas feridas e desabrigadas, colocando em risco suas próprias vidas em meio aos bombardeios.
Durante aquele período de guerra, elas liam o Evangelho e ajudavam a muitos que precisavam de roupas, remédios, comida e casa. Foi assim que teve início o que mais tarde veio a se chamar Movimento dos Focolares, baseado no ideal de fraternidade, unidade e solidariedade. A Experiência de amor concreto vivida entre aquelas primeiras pessoas era forte e muitos outros jovens começaram a aderir àquele grupo.
O Movimento dos Focolares, desde o seu surgimento, esteve voltado para o campo social, isso porque a sua mola propulsora sempre foi o amor. A experiência vivida naquele período, de colocar em comum bens materiais e espirituais, contribuiu para o surgimento da primeira comunidade entorno dos Focolares. Uma comunidade onde se podia viver como os primeiros cristãos “não havia nenhum indigente entre eles”25 – uma comunidade cujo aspecto se apresentava harmonioso diante da sociedade.
Chiara Lubich propôs um estilo de vida baseado no Evangelho, enfocando principalmente o mandamento do amor mútuo, sublinhado na prática por uma concretização da comunhão entre os seus membros, tanto através de uma partilha de bens materiais, como da troca de experiências e necessidades.
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o espírito de solidariedade permaneceu vivo naquele grupo que ia crescendo cada vez mais. Aos poucos, outros jovens eram atraídos por aquele estilo de vida, assim como famílias, sacerdotes, freiras, políticos, dentre outros. Anualmente, essas pessoas se encontravam para passar um período de férias juntos nas montanhas e, assim, aprofundar aquela espiritualidade que estava
24 Palavra usada, desde os primórdios do Movimento, para designar todo o conjunto da sua
espiritualidade, que teve origem justamente na escolha de Deus como Ideal de vida (LUBICH, 1993, p. 186).
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39 surgindo. Esses encontros são chamados de “Mariápolis”26 e, inicialmente, duravam dois meses.
Foi a partir desses momentos em grupo que surgiu a necessidade de fazer um informativo que pudesse, constantemente, manter em contato aquelas pessoas. O nome “Cidade Nova” vem justamente por conta da experiência vivida durante esses dias na Mariápolis, todos inseridos no clima de fraternidade e solidariedade. Brotou o desejo de levar a outros ambientes aquele mesmo espírito vivenciado naquela cidade temporária, por acreditar que se as pessoas no mundo vivessem daquela maneira, poderia-se construir verdadeiras “cidades novas” em cada ponto da Terra.