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O choque com o nãoser pela decepção

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6.2 As formas de choque com o nãoser e suas consequências

6.2.2 O choque com o nãoser pela decepção

A decepção é um aspecto que, como qualquer outro, serve para tirar nossos olhares do cotidiano acertado e aponta para a reflexão sobre nossa condição humana, bem como para a possibilidade de experimentação da vida em sua plenitude. Lembremos que Paul Tillich afirma que:

A religião revela a profundidade da vida espiritual, encoberta, em geral, pela poeira de nossa vida cotidiana e pelo barulho de nosso trabalho secular. Dá-nos a experiência do sagrado, intangível, tremendamente inspirador, significado total e fonte de coragem suprema. Eis aí a glória do que chamamos religião (TILLICH, 2009, p.45).

Nesse sentido, a decepção é uma via eleita por Clarice Lispector para que nossos olhares possam atravessar a poeira do cotidiano e alcançar o âmbito mais profundo de nossas próprias existências. É um elemento a partir do qual a linearidade aparente da vida do indivíduo pode ser substituída pelas ansiedades e desesperos que podem levar a pessoa ao ponto de elaborar um questionamento ontológico válido e profundo.

Não se trata aqui de exemplificar com textos clariceanos a teoria tillichiana anteriormente discutida. Trata-se de notar que a própria estrutura da narrativa – estabilidade, decepção e reconstrução de sentidos – faz com que a perspectiva teológica da cultura seja evocada. Assim, muitos momentos nas quais as personagens clariceanas passam por decepções podem ser igualmente citadas como fonte de comprovação de que a estrutura da narrativa se dá de modo a compreender um choque com o nãoser, a partir do qual a realidade é ressignificada. Mesmo assim, levando em conta a estrutura do presente trabalho, deve-se notar a presença maior e central da decepção na obra de Clarice Lispector e, a partir dela, sentir os seus respingos no decorrer de toda sua produção. Macabéa, personagem a qual o capítulo anterior é inteiramente dedicado, faz-se como a máxima da experiência da decepção na obra da autora.

Como foi anteriormente trabalhado, Macabéa passa por momentos de decepção que são sinalizados em suas relações afetivas, a partir de seu namorado e de sua melhor amiga; passa, também, por decepção com seu próprio corpo, a partir de sua experiência de fome, feiura e do próprio desconhecimento de suas potencialidades físico-corporais e emocionais; além disso, não deixa de passar por uma decepção social que a faz pobre, trabalhadora de pouco talento, sem direito a contatos sociais amplos. Ainda assim, a decepção maior de Macabéa se dá quando o destino a violenta, quebrando seu corpo magro e despedaçando as esperanças que tivera acabado de criar ao consultar a cartomante que lhe disse sobre um futuro feliz, com um homem que haveria de conhecer. Macabéa vai ao chão ao ser atropelada, mas parece que o problema maior não é a dor física, com a qual ela já tinha certa intimidade. O problema maior é que a morte lhe trouxe a impossibilidade de conclusão do amor que seria a base significativa de sua existência.

A experiência de decepção que Macabéa passou através da morte aponta para uma leitura de cunho existencial na qual os limites da vida – tanto os parciais quanto os absolutos – sejam entendidos como a via inevitável da decepção. Mesmo assim, a narrativa

de Macabéa nos mostra o momento de beleza que está contido entre o atropelamento e a morte da personagem. Ao agonizar, a personagem vivencia a fronteira entre vida e morte, entre o limite do ser e o absoluto do nãoser. Através da forma como tal experiência é narrada, pode-se notar que houve uma ressignificação derradeira, sendo que aquele momento de pré-morte fora o primeiro em que Macabéa realmente demonstrou ter protagonismo em sua vida. É ali que ela entra em com o fundamento do ser contato pela primeira vez.

A própria narrativa sobre Macabéa constitui uma teologia fantasiada com tons de filosofia mínima que apresenta a real relação entre religião e cultura, entre a expressão artística do ser humano e sua relação com a vida humana de fato.

Algo interessante a ser notado na narrativa sobre Macabéa é a forma curta e definitiva como a experiência com o nãoser se dá. Isso pode ser interpretado como uma forma de permitir com que o leitor se aproxime do texto pela via do vácuo que é oferecido na experiência, ou seja, caso o choque com o nãoser fosse elaborado em seus mínimos detalhes poderia fazer com que o texto não permitisse abertura suficiente de participação por parte de quem o lê. O nãoser apresentado de maneira direta e forte faz com que seja possível uma releitura de tal evento com maior facilidade por parte do leitor, sendo que a percepção de tal evento se dá de maneira absolutamente simples. Assim, permite-se que o destino de Macabéa seja facilmente transposto e compreendido como metáfora da condição humana.

A estrutura da narrativa sobre Macabéa, na qual o elemento de limitação da vida e choque com o nãoser é central para a compreensão do texto, repete-se de maneira difusa em outras narrativas. Em geral, os contos costumam apresentar versões mais fulminantes de encontro com o nãoser pela via da decepção, como no caso da galinha do conto Uma galinha, que é salva do sacrifício ao botar um ovo, mas que acaba sendo morta em outro momento, como se sua vida mudasse de valor ontológico de acordo com a passagem do tempo. Os contos, especialmente aqueles que são mais curtos, permitem que a sensação de choque com o nãoser seja mais violenta. Por isso, as páginas finais do romance A hora da estrela são muito mais compactas do que as iniciais. Parece haver uma tentativa por parte da autora para que os leitores experimente também tal choque. De fato, é possível que alguém ao ler a desventura de Macabéa ou da galinha acabe identificando e/ou vivenciando

suas próprias desventuras, sendo que o choque com o nãoser pode se transferir da ficção para a realidade. Isso se dá principalmente porque o ato de leitura é um fenômeno próprio de experiência existencial, ou seja, ele próprio é um elemento de vida com possibilidades de experiência e significados.

O choque com o nãoser, pela via da experiência de decepção das personagens, pode libertar ao permitir que o ser humano que se encontra com tal expressão artística possa também experimentar suas decepções e vivenciá-las em sentido existencial profundo. Assim, elementos da vida e do cotidiano são amplamente ressignificados, reordenados, apontando para a possibilidade de um novo ser no qual a alienação existencial já não se dá de maneira central.

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