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O movimento de Software Livre e de Código Aberto também são marcos para o estabelecimento de novas formas de produção, apropriação e circulação de produções intelectuais.

A Ciência Aberta contemporânea é altamente influenciada pelos movimentos do Software Livre e Código Aberto (Free and Open Source Software – FLOSS)18, considerados grandes precursores dos debates sobre colaboração, compartilhamento e conhecimento aberto. Os movimentos FLOSS são caracterizados pela existência de uma cultura própria em torno da cooperação e distribuição em rede de código-fonte de programas de computador, sendo, ao mesmo tempo, permeados por um ativismo político em torno da liberdade informacional como liberdade de expressão, da Internet livre e pelos posicionamentos contrários à propriedade intelectual19 (SILVEIRA, 2014a; DELFANTI, 2013; COLEMAN, 2010).

18 Utilizo a sigla FLOSS para me referir de maneira abrangente aos movimentos Software Livre e Open Source e aos elementos sociotécnicos que aproximam esses duas correntes. Reconheço a existência das diferenças conceituais e políticas que marcam os dois movimentos, mas não é objetivo da tese debater essas questões. Para uma discussão sobre essas duas vertentes Cf. Coleman (2010) e Evangelista (2010).

19 De acordo com Lawrence Lessig (2005), o contexto de apropriação de diferentes bens intelectuais viabilizados pelas técnicas de circulação, reprodução e digitalização de conteúdos possibilitou o surgimento de uma “cultura livre” (free culture) cujas práticas estão imbricadas em diversos casos com um contraponto aos mecanismos de propriedade intelectual, especificamente leis de direitos autorais e patentes, e se sustentando na liberdade de acesso, (re)uso e compartilhamento da informação.

O FLOSS trouxe novas formas de produção e circulação do conhecimento que de muitas maneiras, subvertem práticas sedimentadas e limites colocados à liberdade de circulação e apropriação da informação e da tecnologia – representada, por exemplo, pelas licenças jurídicas, barreiras técnicas e interesses privados, configura-se, desse modo, como um movimento de caráter político. Nesse sentido, Coleman afirma que o desenvolvimento do software livre não se limita à produção de tecnologia, mas inscreve-se em um processo mais amplo de debate sobre “liberdades civis, propriedade e software, afirmando de novas maneiras que código é uma forma de expressão” (COLEMAN, 2009, p.420 apud ARAÚJO, 2018, p.32).

Uma das principais resultados dessa cultura – e um dos principais instrumentos que estruturam práticas de colaboração e compartilhamento – são licenças jurídicas abertas ou

Copyleft, que instituem um novo código de conduta para a circulação e a apropriação de

produções intelectuais com base nas liberdades de uso, modificação e compartilhamento. Os movimentos contemporâneas pela abertura na ciência resvalam de muitas maneiras no movimento FLOSS. Alguns dos elementos que conectam esses dois universos ultrapassam os sistemas técnicos – empregados em muitos processos científicos. Silveira (2014b) argumenta que o fundamento das propostas do fundador do Movimento Software Livre, Richard Stallman, estava em liberar o acesso ao conhecimento que constitui o software, tido como um conhecimento comum, pertencente a todos ou a um coletivo ou comunidade. A lógica desse pensamento, consolidado nas práticas de produção do software livre, buscava utilizar a lógica original da ciência moderna, na qual a fonte do conhecimento científico é o próprio conhecimento, de modo que a circulação aberta e livre é colocada como um princípio básico.

Como o conhecimento científico, construído “sobre ombros de gigantes”, a distribuição dos softwares com código fonte aberto é o que permite agregar melhorias ao software e criar outros desenvolvimentos “em cima” do código. Outro elemento que permite identificar uma aproximação entre essas duas culturas de produção refere-se aos mecanismos internos para distribuição de reconhecimento. A lógica interna de distribuição de reconhecimento nas comunidades de software livre aproxima-se da lógica de distribuição do reconhecimento na ciência no sentido em que, em teoria, a posição dos contribuidores ou o

seu reconhecimento dentro da comunidade é feita com base no mérito das contribuições dadas, isto é, na agregação de melhorias aos códigos de software20.

Como o FLOSS, esse movimento na ciência ocorre em um cenário de conflitos. Albagli (2015) afirma que as práticas abertas no contexto da Internet situam-se em um quadro paradoxal, em que, de um lado, encontram-se os novos modos de produção colaborativa e de acesso amplo às redes de compartilhamento e, do outro, estão os mecanismos de captura e de privatização da informação e dos meios de acesso, que atuam cerceando os usos visando a extrair valor da informação. Esse paradoxo pode ser observado quando se reconhece que as mesmas tecnologias que viabilizam práticas descentralizadas de compartilhamento da informação também viabilizam formas de coibir o acesso, bem como formas de vigilância, especialmente quando as práticas abertas rivalizam com modelos de negócio sustentados nos direitos de propriedade intelectual.

Diante das práticas baseadas no compartilhamento, as empresas detentoras dos direitos autorais recorrem a mecanismos sofisticados para monitoramento dos usos e contra- usos do conteúdo que comercializam21. Em tal contexto, aponta-se que os modelos de negócio baseados na restrição de acesso à informação impactam negativamente o avanço da ciência, uma vez que há o encarecimento do acesso às fontes de informação necessárias ao desenvolvimento da pesquisa, e também os riscos jurídicos implicados em práticas triviais e cotidianas como fazer download de um artigo ou fazer cópias de um livro e disponibilizá-lo online.

20 As disputas conceituais e políticas que marcam a história do Software Livre e, posteriormente, do movimento de Código Aberto também são análogas àquelas envolvendo abertura e privatização da ciência. Acerca dessas disputas destaco o texto “A Catedral e o Bazar” de Eric Raymond (1999) e Evangelista (2010) para compreender as diferenças entre os modelos aberto e fechado na produção de software.

21 Entre as tecnologias empregadas para impedir a produção de cópias piratas estão o Digital Rights Management (DRM), que são tecnologias utilizadas para controle de acesso ou uso de obras ou criações protegidas por direitos autorais ou hardwares proprietários. O DRM é comumente utilizado para distribuição de obras intelectuais, como revistas, filmes e livros que são comprados através da Web. Disponível em: <http://www.w3c.br>. Acesso em: 20 mar. 2018.

Segundo Paul David (2003, 2008), neste cenário no qual os produtos da ciência são apropriados por poucos, incluindo empresas que buscam exclusividade sobre as fontes de informação, muitos cientistas enfrentam problemas ao longo do desenvolvimento da pesquisa porque os insumos da pesquisa estão protegidos por patentes ou dependem da assinatura de periódicos e bases de dados pagas22.