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2. UTOPIA, COMUNICAÇÃO E CONHECIMENTO

3.2. Ciência e conhecimento

É verdade que o conhecimento nem sempre traz felicidade e, em diversas épocas da História, tem sido considerado “perigoso”. Não obstante, acredito que o conhecimento pode melhorar a percepção e a consciência, o que é motivo para que os tiranos imponham a censura. A ciência e tecnologia contribuíram para a expansão da cultura e, assim, para uma consciência maior de nós mesmos e para a nossa capacidade de contemplação e de prazer. Para isso é preciso, como alerta Donald Braben, que o conhecimento não seja temporário, característica que predomina no conhecimento científico actual, sendo que temporário aqui se refere ao termo inútil, meramente comercial e inconsequente, e não ao sentido popperiano de refutável.

Este conhecimento novo ou estas culturas epistémicas dinâmicas têm, essencialmente, uma função que, segundo as teorias construtivistas, é de adaptação. De acordo com Canavarro, a noção de adaptação vai para além do conceito puramente biológico, incluindo como objectivos, para além da sobrevivência, uma organização conceptual coerente do mundo, capacitando o indivíduo para lidar com as dificuldades que lhe são colocadas a nível conceptual.

Para além da função de adaptação, o conhecimento está normalmente associado a uma noção de progresso. Este, como salientou, Lévi-Strauss, não é necessário nem contínuo, antes procede por saltos e mutações. E mais do que o progresso, o que importa resguardar é a diversidade, pois é a diversidade que leva à tolerância. Esta tolerância não é, diz Strauss, uma atitude passiva e contemplativa, mas sim uma postura dinâmica que consiste em prever, em compreender e em promover o que se quer ser.

“Existem dois sentidos de progresso. O primeiro está incluído numa teoria e refere-se a um processo evolutivo onde mais e mais factos amontoados através da experiência e observação são acrescentados e refinam uma teoria, de modo a que o progresso represente um englobar do mundo cada vez mais numa teoria ou grupo de teorias. A segunda ideia de progresso é revolucionária ou em termos kuhnianos, uma mudança de paradigma. Aqui o progresso é a reestruturação total de uma teoria que é ultrapassada por outra. (…)A ideia de progresso continua a ser problemática. Contudo, o progresso a nível do entendimento teórico é o mais importante e o mais difícil de quantificar” (Sanitt, 2000: 73).

Actualmente, e mesmo depois dos contributos da física quântica – e nomeadamente de trabalhos de físicos como Jean Audouze, David Bohm, Brandon Cárter, Michel Cassé, Bernard d‟Espagnat, Paul Davies, John Gribbin, Alan Guth, Stephen Hawking, Jean Heidmann, Heinz

Pagels, David Peat, Ilya Prigogine, Hubert Reeves, Schrödinger, Michaël Tabot, Trinh Xuan e Weinberg24 –, ainda “não há lugar no nosso paradigma actual para qualquer forma de consciência, intenção, emoção ou espírito. E como o nosso trabalho demonstra que a consciência pode ter um efeito bastante poderoso na realidade física, isso significa que, em última análise, tem de haver uma mudança de paradigma; uma mudança que permita que a consciência seja incorporada” (Arntz et al, 2008:49), nas palavras do cientista William Tiller. Este é, pois, um dos desafios que se colocam ao conhecimento e à comunicação actualmente. Com o aparecimento da disciplina da Sociologia do Conhecimento o contexto em que o conhecimento é produzido passou a ser cada vez mais importante, sobretudo no que toca ao conhecimento científico. Esta disciplina defende uma concepção do conhecimento científico que, numa abordagem alternativa à filosofia da ciência tradicional, não leve em consideração apenas postulados e modelos, mas também o contexto em que o conhecimento humano é produzido. Essa é também a proposta central do livro Pragmática da Investigação Científica, de Luiz Henrique de Araújo Dutra. A principal novidade da obra é trazer uma discussão aprofundada sobre o tema dos modelos científicos. Além de fazer uma revisão das concepções tradicionais sobre o conhecimento, há uma reinterpretação, sob a perspectiva pragmática, do que são os novos modelos científicos. Segundo o autor, o pensamento dos positivistas lógicos – como ficou conhecida a primeira grande corrente de pensadores que tratou do tema – caracterizava-se pela chamada “concepção sintáctica”, ou “concepção axiomática”, do conhecimento científico: “Esses pensadores concebiam o conhecimento como uma série de proposições ou enunciados que constituíam um sistema a partir de teorias científicas. Delas, podiam ser deduzidas as leis a serem seguidas pela ciência”. As ideias dos positivistas lógicos prevaleceram até ao fim da década de 1960, quando uma segunda corrente começou a ser desenhada: a concepção semântica do conhecimento científico. O ponto central dessa segunda corrente é uma crítica à concepção axiomática. Esses autores passaram a interpretar as teorias científicas como modelos e não apenas como proposições, afirma Dutra. Segundo ele, o mais destacado autor da abordagem semântica de interpretação das teorias científicas é o norte-americano Bas van Fraassen, professor do Departamento de Filosofia da Universidade Princeton, nos Estados Unidos. Nos últimos anos, uma série de autores tem sustentado uma terceira perspectiva que

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Para James W. McAllister, “the development of quantum physics in the 1920s and 1930s provides an illustration of the role of emotion in science. Bohr, Heisenberg, Einstein and Schrödinger were confronted by the need to decide between epistemic values that were entrenched to a similar degree in the history of science: empirical adequacy, determinism, and visualisation. A rational calculator faced with the competing values would never resolve this dilemma: it was precisely the unavailability of higher principles that sparked it. The scientists involved were thus compelled to base their decisions to a large extent on their emotional responses to epistemic values and to theories. We thus see the exceptional place of scientific dilemmas in the practice of science: they constitute not only important turning points in the development of a discipline, but

começa a ser conhecida como concepção pragmática (diferente da filosofia dos pragmatistas norte-americanos). A concepção pragmática não interpreta as teorias científicas nem como colecções de proposições nem como séries de modelos. O ponto central dessa perspectiva é a atenção às práticas científicas. De acordo com esta nova abordagem, podemos interpretar as teorias científicas de forma axiomática ou semântica, embora sejam mais do que isso. Assim, a novidade trazida pelo livro consiste numa reinterpretação da noção de modelos científicos do ponto de vista pragmático que não substitui, – antes complementa –, as interpretações anteriores, propondo uma perspectiva mais ampla, voltada para a prática científica concreta. As abordagens tradicionais deixam de lado o problema da interpretação do que é o conhecimento humano. Na concepção pragmática, o conhecimento não é apenas uma interpretação interna do sujeito, mas um conjunto de acontecimentos externos e públicos, que remete ao contexto em que a pesquisa é realizada. A abordagem tradicional do conhecimento é internalista, isto é, ela entende que as nossas crenças e opiniões sobre o mundo são representações internas das nossas mentes. Herdamos essa tradição dos pensadores funcionalistas e dos empiristas modernos. A abordagem pragmática é externalista e leva em conta aspectos contextuais do conhecimento humano. O enfoque principal da abordagem pragmática do conhecimento é, portanto, a insistência na observação da própria prática científica. A perspectiva pragmática, segundo Dutra, oferece uma concepção do conhecimento mais dinâmica do que as perspectivas tradicionais, ao associar temas da filosofia da ciência, filosofia da mente, filosofia da linguagem e teoria do conhecimento.