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1 PALAVRAS INICIAIS: ROMPENDO PARADIGMAS

3.2 Bases epistemológicas da Agroecologia

3.2.2 Ciência experimento e ciência compartilhada

No Brasil, a pesquisa agropecuária até o final da década de 1930 era caracterizada pela forma de ciência que se aproximava da vida cotidiana de quem trabalhava no campo. Este tipo de ciência denominado ciência experiência permitiu construir para a agricultura conhecimentos a serem partilhados. A sua proposição empírica, como experiência, foi a primeira forma de cientificação do saber agrícola no caminho da complexificação dos procedimentos de domesticação de plantas e animais. A observação e o registro sistemático são

suas características metodológicas mais marcantes, além da socialização das descobertas técnicas de forma direta ao produtor, incluindo as dimensões socioeconômicas e políticas (COELHO, 2014).

A partir de 1937, inicia-se a fase no Brasil da ciência experimento (baseada no paradigma newtoniano-cartesiano), marcada pelo retorno dos pesquisadores brasileiros de cursos de pós-graduação nos Estados Unidos da América. Esta forma de pesquisa é baseada em testes estatísticos e em análises quantitativas, na qual influenciou e ainda influencia as pesquisas na área da agricultura, economia e ciências sociais.

Segundo Coelho (2014), essa forma de pesquisa gera um conhecimento que se faz num ambiente artificialmente construído para controle dos resultados. Permite a produção de um “segredo” que marca seus resultados e viabiliza sua transformação em mercadoria cuja socialização do conhecimento se dará apenas pela venda aos agricultores, e não pela troca solidária que dá continuidade à inovação quando de sua reprodução nas propriedades. Esta prática torna o resultado não apenas um fruto da ciência, mas um produto capital, ofertado no mercado e acessado apenas por aqueles que podem comprar.

Mais do que mudança nos procedimentos de pesquisa, esse fenômeno gerou um valor e uma conduta no campo científico passando a ser considerada a única forma de pesquisa legítima. Nessa dinâmica da produção do saber, criou- se diferentes profissionais, os que fariam as pesquisas e os outros que fariam a difusão do conhecimento-mercadoria gerado denominado tecnologia.

Como forma de ruptura a esta forma de gerar conhecimento fazendo uso de uma pluralidade de métodos quantitativos e qualitativos, Coelho (2014) sugere uma perspectiva de diálogo na produção do conhecimento, em que o observador-pesquisador assume seu papel como ator social e constrói o conhecimento de forma compartilhada com o agricultor.

Segundo Coelho (2014), a ciência denominada ciência compartilhada tem a pretensão de realizar uma síntese que supere a inserção social das práticas científicas anteriores. Este tipo de saber é gerado por experimentações nas quais os agricultores se tornam experimentadores, parceiros e agentes das pesquisas com os pesquisadores. Segundo a autora, essa seria a tendência mais recente de construção de saberes para a agricultura, que aproxima o pensamento agronômico cientificado do conhecimento cotidiano, tendo como ponto de partida e de chegada a percepção e os valores culturais não dos cientistas. Essa ciência que compartilha as bases epistemológicas agroecológicas é nova em suas premissas e em seus métodos e, por isso, muda suas funções sociais, tanto para os técnicos quanto para os agricultores, que deixam de ser, respectivamente, meros repassadores de conhecimentos ou meros consumidores de tecnologia temporal.

De acordo com Coelho (2014), dizer que o conhecimento científico é diferente ou mais complexo em seus procedimentos que o conhecimento cotidiano ou popular não significa afirmar que necessariamente ele é melhor. Ou seja, os cientistas vivem para produzir conhecimento e as pessoas vivem do conhecimento por elas incorporado no seu dia a dia. Por isso que sacralizar a ciência é retirar dela sua capacidade de conviver, de sobreviver e até de se transformar diante das críticas. Mais recentemente pode-se dizer que algo é considerado verdadeiro mesmo que seja marcado por incompletude, pois é construída por processos humanos, individuais ou coletivos e não só se afirma pela autoridade, ou por imposições hierárquicas de poder da parte dos cientistas.

Ligada diretamente com a forma de fazer ciência agrária temos a extensão rural, que introduz um novo ator social no campo, o extensionista.

Ao longo da história várias formas de fazer ciência como foi visto anteriormente, tiveram implicações práticas e metodológicas no trabalho de orientação técnica e na elaboração de projetos de desenvolvimento no campo,

influenciando diretamente o processo de produção e transformação da natureza, e consequentemente, da vida social no campo (COELHO, 2014).

A ciência compartilhada surge como uma forma de construir o conhecimento junto com o agricultor, produzindo com isso tecnologias apropriadas, além de criar espaços de diálogo propícios para a orientação técnica numa perspectiva contemporânea.

Neste contexto, Coelho (2014) corroborando com outros autores, diz que é necessária uma mudança de paradigma, que coloca para os profissionais das ciências agrárias a necessidade de uma reflexão ético-moral sobre os motivos e as consequências sociais e ambientais das orientações técnicas que prestam. Ou seja, surge um contexto para uma extensão rural baseada nas premissas epistemológicas da agroecologia.

De acordo com Gomes (2005) a adesão da extensão rural ao enfoque agroecológico supõe pleitear uma ação dialética transformadora. Este processo transformador, parte do conhecimento local, respeitando e incorporando o saber popular e busca interagir com o conhecimento científico, para dar lugar à construção e expansão de novos saberes socioambientais, alimentando assim, o processo de transição agroecológica.

Para o desenvolvimento da agroecologia, Gomes (2005) destaca a necessidade de mudanças nos currículos de formação dos profissionais que irão atuar como agentes de desenvolvimento, assim como nos enfoques e métodos de pesquisa e extensão rural, isto porque, a aplicação dos seus princípios requer uma estratégia integradora de conhecimentos, complexa, sistêmica e holística.

O autor também acredita que para a construção de agriculturas mais sustentáveis precisa ter presente as dimensões ecológica, econômica, social, política, cultural e ética da sustentabilidade. Isso implica em mudanças estruturais, dentre as quais se destaca a reforma agrária e o acesso aos meios de produção. Implica também em metodologias participativas, garantias de acesso

aos direitos básicos de cidadania e respeitos às diferenças culturais, de gênero, de raça e de etnia (GOMES, 2005).