MODERNIDADE: DOMÍNIO DO HOMEM SOBRE A NATUREZA
3.1 Ciência e técnica: um poder
A palavra “moderno”, antes de definir uma característica tecnológica, socioeconômica e cultural dos tempos atuais, tem um significado mais antigo, como predicado de tempo. Origina-se etimologicamente do latim hodiernus, que significa “dos nossos dias, recente, atual, hodierno”. Mas, atualmente, a modernização passou a significar controle tecnológico, que por sua vez adquiriu o significado de poder21 de usar técnicas de última geração, independentemente de seu produto ser ou não do interesse social. Em conseqüência, em vez de ser um instrumento de realização dos objetivos sociais, as técnicas passaram a ser instrumentos para dominar a sociedade, posta a serviço do avanço técnico. A compreensão do problema da relação entre avanço técnico e modernização deve estar voltada ao poder de controlar as técnicas, no sentido de usá-las conforme interesses e propósitos definidos pela sociedade na busca de realizar seus desejos e no sentido de conhecer os detalhes de engenharia
21 Para Michel FOUCAULT, o poder é a normalização e o conjunto da sociedade que colocam constantemente
em ação este mecanismo e que, portanto, produz cada vez mais a separação entre o normal e o anormal, o sadio e o patológico. O poder não é um discurso proferido do alto de uma tribuna; ele é um conjunto de enunciados produzidos de maneira autônoma em todas as instituições e que são tanto mais eficazes quanto menos apelam para uma vontade soberana e mais para a observação objetiva, também para a ciência (TOURAINE, 2002, p. 174). Essa observação objetiva é que proporciona significativamente um caráter de poder às ciências.
36 necessários para transformar os recursos disponíveis em bens e serviços. No caso, o primeiro controle é político, o segundo é técnico, de acordo com BUARQUE (1990).
Esta afirmação liga-se ao fato de que o poder da ciência moderna não conhece limites, principalmente quando passa a atuar diretamente no setor do processo produtivo22. Nesse ponto, convém relembrar que o conhecimento técnico-científico transforma-se na força produtiva e, desta forma, perde o sentido a aplicação da teoria marxista do valor trabalho; o progresso técnico e científico geram uma forma de mais-valia23 diferente daquela considerada por MARX. A força de trabalho humana tem cada vez menos importância no processo produtivo; isto significa dizer que o operariado deixou de ser uma força privilegiada da transformação social. As forças produtivas se tornaram dependentes deste progresso, o qual assume funções legitimadoras da dominação e do poder no processo de acumulação (HABERMAS, 1994). Entretanto, vale salientar que, segundo MARX, o modo de produção social é o valor histórico e não a técnica. Já para MARCUSE (1973), quando a técnica torna-se a força universal de produção material, projeta uma totalidade histórica, um mundo.
A revolução tecnológica, a mecanização e a automatização estão reduzindo cada vez mais a quantidade e a intensidade da energia física consumida no trabalho humano. Esta evolução tem grande impacto sobre o conceito marxista de trabalhador (proletário), segundo o qual o proletário é, primordialmente, o trabalhador braçal que gasta e esgota sua energia física no processo de trabalhar, inclusive aquele que trabalha com máquinas (MARCUSE, 1973). Contudo, as transformações tecnológicas tendem a acabar com a máquina como instrumento individual de produção. Para MARX, a máquina jamais cria valor, meramente transferindo o seu próprio valor para o produto, enquanto a mais-valia continua sendo resultado da exploração do trabalho.
Em O Capital, MARX expõe a lógica do modo de produção capitalista, pela qual a força de trabalho é transformada em uma mercadoria com dupla face: por um lado, é uma mercadoria como outra qualquer, paga pelo salário; por outro lado, é a única mercadoria que produz valor, ou seja, que reproduz o capital (COTRIM, 2001). Entretanto, na sociedade
22 Segundo VLACH (1991), desde 1875 a ciência já era considerada a principal força produtiva. 23
A mais-valia se origina do capital e este cristaliza-se da mais-valia. A aplicação da mais-valia como capital ou conversão de mais-valia em capital é o que se chama de acumulação de capital. MARX chama de mais-valia absoluta a produzida pelo prolongamento do dia de trabalho e de mais-valia relativa a decorrente da contração do tempo de trabalho socialmente necessário e da correspondente alteração na relação quantitativa entre ambas as partes componentes da jornada de trabalho. Para que haja mais-valia relativa é necessário aumentar a produtividade do trabalho, revolucionar as condições de trabalho, ou ela é resultante da aplicação de técnicas mais avançadas a fim de que o tempo necessário de trabalho para fabricar um determinado produto diminua, isto é, o tempo de trabalho necessário para que o trabalhador crie um valor equivalente ao de sua força de trabalho diminua. (Texto extraído das p. 365, 366 e 677 de MARX, 2002)
37 moderna, todo esse contexto do modo de produção e sua relação com a força de trabalho adquirem uma nova configuração, isto é, a automatização parece alterar qualitativamente a relação entre trabalho morto e trabalho vivo, com tendência para um ponto em que a produtividade é determinada pelas máquinas24 e não pelo rendimento individual. A automatização em seu sentido mais amplo significa, com efeito, o fim da medição do trabalho. Com a automatização não se pode medir o rendimento de um homem em separado, tem-se de medir simplesmente a utilização do equipamento (MARCUSE, 1973). Portanto, no atual estágio capitalista, o capital constante sobrepõe-se ao capital variável, ou seja, hoje há uma alteração na composição orgânica do capital por meio da substituição do capital variável pelo capital constante, da mão-de-obra pela máquina, para extrair mais-valia.
Embora o significado da industrialização não tenha surgido com a criação de fábricas, surgiu da mensuração do trabalho. É quando o trabalho pode ser medido, quando se pode prender o homem ao trabalho, quando se pode atrelar e medir o seu rendimento em termo de uma só peça, pagando-lhe por peça ou por hora, que se tem a industrialização moderna. Entretanto, com a revolução tecnológica a força de trabalho humana aos poucos está sendo substituída pela robótica, está-se aniquilando esse tipo de relação, isto é, aos poucos o modo de produção capitalista foi substituindo a força de trabalho humana pela máquina. Vale salientar que o que está em jogo nas transformações tecnológicas não é apenas o sistema de pagamento ou a relação do trabalhador com outras classes e a organização do trabalho. O que está em jogo é a compatibilidade do progresso técnico com as próprias instituições criadas pela industrialização (MARCUSE, 1973).
Atualmente, o progresso técnico-científico como um componente das forças produtivas submetido a controle tornou-se o fundamento da legitimação. Essa nova forma de legitimação fez perder-se a velha forma de ideologia (por exemplo, a marxiana) e, assim, cria-se, uma perspectiva na qual a evolução do sistema social parece estar determinada pela lógica do progresso técnico-científico. Noutros tempos, era o poder social que estava imediatamente na base da relação entre capitalistas e assalariados, e hoje são as condições estruturais que definem previamente as tarefas da manutenção do sistema (HABERMAS, 1994).
Este poder pressupõe a eficácia de dominação eternizada e ampliada não só mediante a tecnologia, mas como tecnologia, que via de regra proporciona a grande legitimação ao poder político expansivo, que assume em si todas as esferas da cultura (HABERMAS, 1994). Deste modo, a ciência moderna identifica-se com uma forma de imperialismo, nasce e se desenvolve
24 A máquina é a “personificação” do poder de trabalho humano por meio do trabalho pregresso (trabalho morto
38 por um ímpio desejo de domínio, seus métodos e suas categorias são frutos da pecaminosa insaciabilidade da espécie humana (ROSSI, 1992). Outrora, a teoria podia converter-se num poder prático mediante a sua estruturação; em contrapartida, atualmente, é de admitir-se que teorias, sem estarem expressamente referidas à interação que desenvolvem os homens no seu cotidiano, podem, no entanto, transformar-se em poder técnico (HABERMAS, 1994). A partir daí, a tarefa é técnica e, como uma tarefa verdadeiramente técnica, possibilita a redução da labuta física e mental.
A transformação do saber técnico em consciência não se exerceu só na ordem de grandeza, o seu conteúdo já não se reduz às técnicas pragmaticamente apreendidas dos ofícios clássicos. Assumiu, também, a forma de informações científicas que podem transformar-se em tecnologias dando eficiência às faculdades humanas expostas a um raciocínio que procura, sobretudo, soluções meramente técnicas ou racionais para as dificuldades da vida material, desprezando os aspectos humanos e sociais, num processo em que a solução de tarefas técnicas não está referida à discussão pública. A ciência e a técnica se estabelecem como estrutura de poder, impondo seus conceitos, modelos e teorias a ponto de suprimir costumes, tradições religiosas, valores do senso comum e até mesmo o pensamento filosófico clássico25. Não se pode, ainda, esquecer que, com as novas técnicas e a criação de novas “necessidades”26, podem formar-se novos sistemas de valores (HABERMAS, 1994).