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2.1 CIÊNCIA, TECNOLOGIA E SOCIEDADE

2.1.1 Ciência, tecnologia e sociedade no contexto nacional

[...] a população é considerada como o recurso mais importante da Nação, e despertar e desenvolver sua criatividade e seu pleno potencial constituem meio e fim, objetivo e instrumento do desenvolvimento, cuja verdadeira legitimação está na satisfação das necessidades básicas de todos os membros da sociedade, os quais, por sua vez, devem participar das decisões que os afetam.

(RATTNER, 1980, p. 153).

No Brasil, a trajetória da ciência e da tecnologia e sua relação com a sociedade se deram, inicialmente, sob uma orientação pragmática, com a criação de instituições de botânica e de mineralogia, museus, escolas de nível superior, escolas militares e de engenharia. No início do século XX, as áreas de saúde e agricultura se desenvolveram para atender a problemas específicos e pontuais demandados pelo processo de modernização, e surgem nas

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No Relatório do Desenvolvimento Humano (RDH) de 2001, elaborado pelo PNUD, ao expor como as novas tecnologias podem ajudar os países em desenvolvimento a alcançar o progresso econômico e social, foi destacada a importância do apoio das organizações mundiais, das nações ricas e das ações e atitudes internas dos governos. Segundo o relatório, sem esse esforço, o hiato científico e tecnológico entre os países tende a se ampliar. Mas essa abordagem do “hiato” (gap, em ingês) é uma questão polêmica, sobretudo no que se refere às possibilidades e estratégias de superação, debate que não poderemos aprofundar nesta dissertação.

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De acordo com o RDH-2001, do PNUD, nos países em desenvolvimento, 986 milhões de pessoas não têm acesso à água tratada; 2,4 bilhões não têm acesso a saneamento básico; 34 milhões de pessoas estão contaminadas pelo HIV. No que se refere à educação, existiam, em 2000, 854 milhões de adultos analfabetos; 1,2 bilhão de pessoas sobrevivem diariamente com menos de 1 dólar dia (PNUD, 2001, p. 9).

décadas de 1930 e 1940 surgem as primeiras universidades e novas instituições de pesquisa (SCHWARTZMAN, 1995).

A partir desse período, intensificam-se no Brasil os processos de industrialização e de urbanização considerados fatores responsáveis pela modernização e crescimento econômico do país. Porém, o modelo desenvolvimentista amparado na aquisição de tecnologias produzidas no exterior não estimulou a capacidade de geração endógena de tecnologia, ampliando o grau de dependência do país. Como dificuldade adicional, as principais empresas são transnacionais com centros de pesquisa localizados nos países de origem. Com isso, ampliou-se o fosso entre os ambientes geradores de conhecimento e tecnologia nacionais e o setor produtivo (RATTNER, 1980; DAGNINO, 2004).

Durante a década de 1970, nos governos militares, a política científica e tecnológica foi atrelada ao ideário de Brasil Potência, com significativo aumento dos recursos em comparação à década precedente. São fortalecidos e criados novos programas nas áreas de energia nuclear, prospecção de petróleo e de agropecuária, com destaque para as pesquisas desenvolvidas pela Embrapa, reserva de mercado para a indústria de informática e de microeletrônica. Nesse período, o cenário foi pontuado por tensões entre os defensores do desenvolvimento tecnológico endógeno e os que eram favoráveis à transferência de “pacotes” tecnológicos produzidos no exterior (SCHWARTZMAN, 1995).

Nilton Vargas, ao refletir sobre as intenções e motivações do desenvolvimento tecnológico, destaca que nesse embate se dividiam, de um lado, os cientistas e tecnólogos que defendiam a autonomia tecnológica e, de outro, os militares adeptos da tecnologia como uma questão de segurança nacional. Outro grupo que se destacava - o dos cientistas sociais - enfocava os aspectos negativos do desenvolvimento tecnológico comprometido com o capitalismo. O argumento de que a tecnologia é orientada apenas pelo interesse do capital é simplificador. Para esse autor, “toda tecnologia tem necessariamente que satisfazer uma necessidade social”, o que muitas vezes é conflitante com interesses de grupos diversos. Assim, as definições das prioridades em ciência e tecnologia não são neutras, elas atendem a um conjunto de interesses em que o Estado é um dos atores fundamentais de interlocução entre grupos sociais (VARGAS, 1983, p. 90-91).

O desenvolvimento da tecnologia e da ciência no Brasil sempre dependeu muito mais de recursos provenientes do Estado do que da iniciativa privada. De acordo com Schwartzman

(2002), o setor público se destaca como o grande demandante da pesquisa científica e tecnológica, abrangendo as áreas de saúde pública, energia, transporte, educação, planejamento urbano, agropecuária, comunicações e segurança pública. As universidades públicas são o principal locus de pesquisa científica no país e contribuem na formação de recursos humanos em graduação e pós-graduação. As pesquisas científicas e tecnológicas são desenvolvidas também nos institutos de pesquisa do governo e dos estados da União e, em menor escala, nas empresas privadas.

Em relação às instituições de suporte à C&T, foi criado em 1951 o Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq), como uma das iniciativas do Estado de reconhecimento da importância estratégica da ciência e tecnologia amparado em projeto de desenvolvimento da energia nuclear. Também foram criadas outras instituições como a Capes e, posteriormente, a Finep, o que ampliou o apoio e os recursos destinados à pesquisa e à formação de recursos humanos em nível de pós-graduação.

As instituições públicas de pesquisa têm se destacado em vários campos: apenas para citar alguns exemplos, na saúde é emblemática a atuação do Instituto Oswaldo Cruz, que, desde o início do século XX, tem se dedicado às ações governamentais no campo da saúde pública, e do Instituto Butantan, voltado para a produção de vacinas e soros antiofídicos; na agropecuária, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) desenvolvendo pesquisas que geram novas tecnologias e produtos com impacto direto no setor econômico e de alimentos do país.

No contexto brasileiro, em que quase um terço de seus habitantes vivem em condições de vulnerabilidade social e econômica, compartilhar e promover o usufruto da tecnologia por meio da inclusão social é um desafio que pode contribuir para um país menos desigual. A ciência e a tecnologia podem configurar um caminho efetivo para ações criativas e inovadoras capazes de transformar a realidade social. As agências de apoio à C&T, as universidades e outras instituições públicas são importantes para a eficácia das políticas sociais, ao gerar e promover o uso do conhecimento na superação dos problemas sociais.