As relações entre Ciência, Tecnologia e Sociedade: um enfoque para o ensino de Ciências
CIÊNCIA/TECNOLOGIA/SOCIEDADE: IMPORTÂNCIA DO TEMA
A importância do debate sobre a educação científica tem sido substancialmente
ampliada em todo o mundo nas últimas décadas. Parece haver um consenso de que uma
compreensão mais profunda do conhecimento cientifico e tecnológico é fundamental para a
promoção da prosperidade de uma nação e, por isso, constitui-se numa providência a ser
tomada para enfrentar a realidade contemporânea, cujas regras são ditadas por uma economia
globalizada e competitiva.
O desenvolvimento científico e tecnológico tomou-se um fator crucial para o bem-
estar social a tal ponto que o padrão de riqueza de um povo tem como referência, na
atualidade, a capacidade humana de criar ou não conhecimento científico, bem como de
produzir inovações tecnológicas e de se adaptar às tecnologias produzidas por outros homens
(ZANCAN, 2000).
A ênfase mundial dada ao debate sobre a educação científica justifica-se, portanto,
devido à grande preocupação com seus fins, seja acerca do seu papel no desenvolvimento dos
países ou no nível de questões relativas à política em C & T e o processo democrático, no
sentido de uma maior participação de atores sociais nas decisões nacionais que envolvem
investimentos nessa área.
Com o avanço das forças produtivas e as exigências colocadas pelo mercado de
binômio C&T passou a ocupar o centro da sociedade e espera-se que ambas sejam produzidas
em benefício da nação e incluídas como prioridades em planos nacionais de desenvolvimento
(DAL PIAN, 1992). Os cenários nacional e internacional conduzem-nos, portanto, a uma
discussão sobre o papel da ciência e da tecnologia na sociedade contemporânea.
Ao falarmos em ciência e tecnologia não podemos deixar de considerá-las como
atividades que acontecem dentro de um contexto social e que a sociedade atual vive sob os seus
auspícios e domínios. Ciência e tecnologia constituem hoje realidades por demais presentes no
dia-a-dia das populações contemporâneas em geral; elas estão mudando a ‘cara do mundo’,
alterando o espaço, o contexto, a paisagem e as relações humanas.
Qualquer aparelho eletrodoméstico reúne em si conhecimento científico articulado a
soluções técnicas. Esta é a manifestação mais visível da inserção da ciência em nossa vida
cotidiana, uma vez que os objetos que nos rodeiam e que utilizamos são produtos da técnica e
estão, por assim dizer, impregnados de pensamento científico, conforme nos aponta Granger
(1994, p.16):
Essa penetração da ciência é anônima, já que a maioria das pessoas ignora completamente os seus modos de intervenção. Só causa espanto as performances visíveis propriamente técnicas e, mesmo assim, o hábito atenua, num grande número de usuários, a maravilha que essas façanhas suscitaram inicialmente. No entanto, é fundamentalmente por intermédio do objeto técnico que a ciência nos toca em nossa vida cotidiana.
Na acepção deste autor, estamos vivendo a ‘Idade da ciência’ que teve início no
período pós II Guerra Mundial e, a partir do qual, é cada vez mais crescente a inserção da
ciência na vida cotidiana dos indivíduos e das sociedades. O crescimento dessa inserção
cotidiana da ciência, segundo este autor, deve-se a 3 fatores marcantes na história da
humanidade: primeiramente, pela penetração brutal das aplicações da ciência nas técnicas
militares que culminou com o golpe da bomba atômica; posteriormente, pela invasão
generalizada das máquinas audiovisuais e, mais recentemente, pelas tentativas de
Apesar da ciência ser considerada por muitos a principal realização do mundo atual
e, talvez mais do que qualquer outra, a atividade que distingue o século XX dos demais, os
benefícios advindos da ciência e da tecnologia não são distribuídos simetricamente entre
países e grupos sociais. Além disso, o avanço científico e tecnológico tem colocado para a
reflexão humana, na contemporaneidade, uma série de indagações não vivenciadas em outras
épocas históricas: os problemas decorrentes das novas tecnologias, que precisam e devem ser
discutidos por todos, pois afetam e afetarão profundamente as condições de vida na Terra em
diferentes níveis, do individual ao planetário.
Diante disso, é premente a necessidade de que todos os cidadãos e cidadãs tenham
conhecimentos a respeito do desenvolvimento científico e tecnológico, tanto de suas benesses,
quanto de suas implicações sociais e ambientais, para que fiquem instrumentalizados a opinar
e decidir sobre os rumos e os contornos que este desenvolvimento imprime às suas vidas.
Produzidas por seres humanos e atendendo estritamente a seus interesses, a ciência e
a tecnologia têm um largo espaço na história da civilização. Sempre houve esforço intelectual
e muito empenho do ser humano para adquirir, fabricar e utilizar objetos, processos e técnicas
que prolongassem e multiplicassem o seu conforto material.
Os resultados desse empenho podem ser vislumbrados no contexto desse início do
século XXI, no qual o desenvolvimento científico e tecnológico tem proporcionado às
populações humanas níveis de bem-estar impensáveis há 6 ou 7 décadas atrás, seja na
medicina, através da produção de equipamentos e medicamentos, como também na produção
de alimentos, na sofisticação dos aparelhos eletrodomésticos, nas comunicações e/ou outros
avanços.
O que se pode verificar também, ao longo da história da civilização, é que o
investimento humano sempre esteve voltado para as vantagens e benesses que o
empreendimento semelhante no sentido de uma prevenção e/ou preparação da sociedade para
as conseqüências da utilização de seus produtos pela humanidade. Tais consequências se
configuram, na maioria dos casos, como implicações sociais e ambientais, nem sempre
perceptíveis àqueles que não têm uma compreensão mais ampla a respeito da ciência e da
tecnologia, que lhes possibilite fazer uma análise crítica da situação.
Tendo como objeto de análise a tecnologia no final do século XX, Sanmartin (1998)
faz uma interpretação da história da humanidade, na qual o ser humano tem passado por um
processo crescente de desadaptação da natureza e de adaptação ao entorno tecnocultural que
se tem construído sobre ela, cujos artefatos eram facilmente identificáveis de artificiais até o
século XIX. Já no século XX, o ser humano começou a construir artificialmente cópias ou
réplicas de coisas naturais de modo a ser praticamente impossível distinguir umas das outras.
A partir da segunda metade do século XX, nota-se que o avanço do conhecimento científico
permite o controle de entidades e de processos naturais por meio da penetração da tecnologia
no miolo da natureza, como por exemplo nos núcleos atômico e celular, com a criação
artificial de elementos radioativos naturais pela tecnologia nuclear - com base nos
conhecimentos de Física Atômica - e na produção tecnológica de novas cepas de bactérias
capazes de sintetizar proteínas típicas da espécie humana - a partir dos conhecimentos sobre
os genomas humano e bacteriano.
O autor supracitado aponta ainda que uma nova (re)construção tecnológica da
natureza, feita por meio da confluência das tecnologias da comunicação e da informática,
possibilita a conversão desta, agora em bits de informações, numa tecnonatureza virtual,
provinda das redes digitais, à qual o homem vem se adaptando. Esse processo de adaptação
teve início nas esferas cultural, econômica e do trabalho, por exemplo, por meio de transações
A expansão desse universo virtual pode ser nitidamente identificável no dia-a-dia da
maioria das populações contemporâneas, na medida em que parte significativa das pessoas
não necessita mais ir aos bancos para conferir extratos ou efetuar pagamentos, postar
correspondências nos correios ou ir ao supermercado para fazer compras, tudo isso pode ser
feito via Internet.
Se por um lado esse avanço científico virtual propicia conforto e comodidade para
uma parcela da população, por outro lado cria uma cultura que mina as relações sociais. O
diálogo e o encontro entre as pessoas está sendo cada vez mais suprimido face à crescente
inserção das máquinas eletrônicas no cotidiano. Além disso, esse ambiente tecnocultural
representa uma faceta excludente e discriminadora no meio social, uma vez que o/a cidadão/ã
que não consegue — ou não quer - dialogar com as máquinas eletrônicas, passa por
constrangimentos ao ter que resolver um problema trivial, como efetuar o pagamento de uma
taxa de água em qualquer agência bancária ou em um terminal de auto-atendimento.
Estes aspectos relativos à adaptação do homem ao ambiente tecnovirtual fazem
emergir uma face invisível da interferência do desenvolvimento científico-tecnológico na vida
das pessoas. Neste sentido, Bazzo (1998, p.124) aponta que a tecnologia, com maiores ou
menores impactos, tem conformado a vida das pessoas, tomando-as passivas e à mercê dos
sistemas interconectados, transistores, bytes, hardware, software, e o que é mais grave,
subservientes à autoridade das máquinas que escravizam e moldam os seres humanos ao seu
funcionamento.
A sociedade, de um modo geral, tem se rendido a essa tecnocultura sem
questionamentos, sem uma análise crítica a respeito dos fundamentos de todos esses - e de
outros - aparatos criados pela tecnologia e, principalmente, das implicações do
desenvolvimento científico e tecnológico na vida das pessoas tanto em nivel individual quanto
poderosa que atua no sentido de dar um novo formato e significado às ações humanas. Bazzo
(1998, p. 127) ilustra a alteração de valores e do comportamento humano diante do
desenvolvimento científico-tecnológico, quando argumenta que “a introdução de um robô
numa linha industrial não só aumenta a produtividade, mas em grande parte, modifica
radicalmente o processo de produção e, muitas vezes, redefine o significado de trabalho
naquele lugar”.
Na realidade, não é possível realizar uma avaliação a respeito do desenvolvimento
científico e tecnológico sem que sejam consideradas as virtudes e benesses advindas desse
desenvolvimento, bem como as conseqüências e/ou riscos que são desconhecidos pela maioria
das pessoas.
Essa outra face das mudanças provocadas pela inserção de novas tecnologias nos
diversos espaços sociais toma-se mais perceptível quando, por exemplo, provocam impactos
ambientais de grandes proporções, como no caso dos radioacidentes. Bastante ilustrativo,
neste sentido, foi o acidente acontecido no centro de Goiânia, em setembro de 1987, quando
uma bomba de Césio-137 foi removida dos escombros do antigo Instituto Radiológico de
Goiânia (IRG) por dois sucateiros, violada e vendida como ferro-velho. No período
transcorrido entre a retirada da bomba da clínica até a descoberta do fato pelas autoridades
competentes, dezenas de moradores conviveram com um material radioativo, cuja
periculosidade desconheciam. Atraídos pela luminescência do césio, adultos e crianças
manipularam o material e o distribuíram entre parentes e amigos5. Outro caso que merece
menção foi o acidente com o submarino russo Kursk6 que ficou sepultado no fundo do mar,
soltando lixo atômico. A questão do lixo atômico somam-se outros problemas correlatos sobre
o destino, após a sua utilização, de artefatos produzidos e colocados à disposição das
•' Maiores informações podem ser obtidas no suplemento da revista Ciência Hoje: Autos de Goiânia (1988) 6 A embarcação movida a energia nuclear foi a pique no dia 12 de agosto de 2000. com 118 pessoas a bordo no
zzz fações humanas, atendendo à demanda da evolução tecnológica, como por exemplo, os disquetes, as baterias e os plásticos.
Já no que se refere à inserção da C&T nas empresas e indústrias, constata-se que a
instalação de novas tecnologias afeta a organização do trabalho e até mesmo o seu significado
naquele contexto, mas essa faceta do desenvolvimento científico-tecnológico é quase
imperceptível, a princípio, vindo a ser desvendada, de um modo geral, somente quando gera o
desemprego. Um exemplo bastante ilustrativo desta situação, e que é perceptível para a
população brasileira, é a substituição dos bancários e bancárias por caixas eletrônicos. De
acordo com dados da Febraban (Federação Brasileira de Bancos) e do Sindicato dos
Bancários, nos últimos vinte anos houve um aumento de 95% no número de agências e postos
de atendimento bancário no Brasil e, concomitantemente, uma redução de 47% no número de
bancários e bancárias (MAIS BANCOS..., 2002)7
7 Dados da Febraban : Disponível em: <http://www.febraban.org.br/dados 1 ,asp# >. Acesso em: 16/out./2002
O emprego de novas técnicas ou de instrumentos sofisticados na medicina transforma
não somente o que os médicos fazem, mas também a forma de pensar das pessoas acerca da
saúde, da doença e da própria vida. Desse redimensionamento da vida, mediante o
desenvolvimento de técnicas cada vez mais sofisticadas e eficazes para modificá-la e
prolongá-la, emergem questões sociais polêmicas envolvendo, dentre outros, fatores éticos,
econômicos e políticos, a respeito de práticas como a contracepção, o aborto, a distanásia, a
clonagem, a inseminação in vitro, e outras.
A essas questões podem ser acrescentadas outras, igualmente polêmicas, relativas ao
uso ou não de um determinado produto, como é o caso dos alimentos transgênicos e de alguns
medicamentos - como a reposição de hormônios nas mulheres - em que a maioria das
pessoas não consegue sequer fazer uma análise sobre as vantagens e os riscos decorrentes da
ignorância acerca dos processos de produção e/ou de seus efeitos no organismo. Nestes casos,
a sociedade deixa as decisões a respeito da inserção da ciência e da tecnologia no cotidiano
das pessoas nas mãos de especialistas no assunto, que com seus pareceres, de acordo com seus
interesses, dão aval ao uso ou não dos produtos.
Todas essas questões nos remetem à urgência da discussão sobre o efeito das
relações entre ciência, tecnologia e sociedade em nossas vidas. O/a cidadão/ã comum precisa
saber das implicações advindas do desenvolvimento científico-tecnológico no contexto social,
desmistificando, no seu cotidiano, a pseudo-autoridade e o determinismo científico-
tecnológico. A idéia de que ciência e tecnologia são saberes neutros e produzidos sem maiores
pretensões a não ser visando ao bem-estar e ao progresso de um povo não contribui para uma
compreensão a respeito de todos esses processos supracitados como atividades humanas e,
como tal, influenciadas pelo contexto social, perpassados por interesses e ideologias. Tal
compreensão instrumentalizaria os cidadãos e cidadãs com informações pertinentes e
oportunizaria a eles realizar uma avaliação mais sensata, a fim de que houvesse um
posicionamento mais consciente a respeito da inserção das inovações científico-tecnológicas
em suas vidas, em vez de apenas aceitá-las e moldar-se a elas.
Em virtude do que foi exposto, é válido ressaltar que estes e outros aspectos que
dizem respeito às relações entre ciência, tecnologia e sociedade precisam ser suscitados,
esclarecidos, refletidos e debatidos em diferentes espaços sociais, para que alcancem o/a
cidadão/ã comum. Um desses espaços é a educação escolar em geral e, em um nível mais
DA CONCEPÇÃO DE TECNOLOGIA ÀS INTERAÇÕES ENTRE