as epidemias. Alvear contou desde o início com os fundos da Nação
para realizar obras de saúde pública.29
Até esse momento, o abastecimento de água tinha diversas ori- gens: poços artesianos feitos no interior das casas, além de cisternas, que os aguadeiros enchiam periodicamente. Definitivamente a água era escassa e, em geral, mal filtrada e sem tratamento. As queixas por este tipo de abastecimento repetiam-se. Os porteños reclamavam dos aguadeiros porque estes só visavam ao lucro e atendiam a quem es- tava disposto a pagar caro pelo produto, problema que se acentuava
no verão.30
Por outro lado, as águas servidas eram jogadas nas ruas. As la- trinas das casas abastadas eram asseadas uma vez por ano. O sistema de latrinas favorecia a filtração dos detritos humanos para os cursos de água próximos àqueles dos quais se abasteciam os lares porteños. Os riscos de contágios e de enfermidades, tais como o tifo ou o cólera,
eram muito altos, especialmente no verão.31
As redes de esgotos e águas correntes foram iniciadas simul- taneamente, porém a rede de esgotos avançou lentamente. As obras do primeiro sistema de abastecimento de águas foram iniciadas em 1885 e concluídas numa primeira etapa em 1895. A água era captada por bombas no Río de la Plata, à altura da Recoleta. Dali passava a um reservatório – no início, numa torre instalada na Plaza Lorea (a atual Plaza del Congreso), e depois, em um reservatório maior, instalado nas
ruas Riobamba e Córdoba –,32 para depois ser distribuída pela cidade.
Mas este sistema avançou lentamente. Em 1909, quase 50% das mora- dias tinha acesso às água correntes (53,6%) ou aos esgotos (41,8%). Os avanços só foram significativos pouco antes do início da Grande Guerra e, apesar dos atrasos ocasionados pela mesma, atingiram os
29 Roca estabeleceu essa política no discurso de posse do seu primeiro governo, em
1880, ver “Mensaje del Presidente de la República, Júlio Argentino Roca, al abrir las sesiones del Congreso Argentino, en Mayo de 1881” IN: MABRAGAÑA, H. “Los
mensajes. Historia del desenvolvimiento de la nación argentina relatada crono- lógicamente por sus gobernantes. 1810-1910”, Buenos Aires, Compañía Argentina
de Fósforos, p. 15.
30 HURET, 1986, p. 36; LATINO, 1984, p. 24; e REINO DE ESPANHA, Expediente 1352...
Op. Cit.
31 HERZ, 1979.
32 O reservatório foi construído para parecer um edifício público, e não um reserva-
tório, e ainda continua em pé. O conceito de embelezamento da cidade primava acima da praticidade.
limites da cidade durante a década de 1920. O avanço nos sistemas de esgotos e de águas correntes reduziram o impacto das enfermidades
sazonais, diminuindo a taxa de mortalidade na cidade.33
As transformações do centro da cidade, produto das constan- tes intervenções urbanas que aconteceram desde o início da década de 1870, tiveram conseqüências sociais. Se, por um lado, melhorou a qualidade de vida dos moradores de Buenos Aires, tal melhoria não foi igual para todos. A especulação urbana fez com que a parcela da população fincada nos cortiços iniciasse a sua saída do espaço central de Buenos Aires, gostasse ou não, em direção a locais mal preparados para recebê-los.
A cidade de Alvear era o centro e a zona norte, os redutos das classes altas. Era para esse setor da população que as atenções estavam voltadas. As reclamações das pessoas abastadas tinham grandes possibilidades de serem atendidas, e o embelezamento era uma das principais. Além da Avenida de Mayo, também é dessa época a Avenida da Recoleta, posteriormente chamada de Avenida Alvear. Nessa zona foram construídas as residências das famílias abastadas e influentes, assim como na Avenida Callao. A rua Florida, a rua das lojas de departamentos, também recebeu a atenção preferencial das
autoridades municipais.34
O resto da cidade, ou seja, os bairros e o subúrbio, foi aban- donado à especulação imobiliária. A única intervenção do Estado estava na quadrícula, permitindo e até favorecendo a ação daqueles
que especulavam com as propriedades urbanas.35 Alvear e outros
intendentes governaram para um setor da opinião pública e para os interesses políticos e econômicos que tendiam a reforçar a posição central adquirida pela cidade colonial.
O segundo momento das grandes intervenções urbanas foi o período do Centenário da Independência, em 1910. Para as come- morações dessa data iniciou-se a abertura de praças e parques em diversos pontos da cidade. Novamente, o eixo centro-norte da cidade
33 Um outro sistema de provisão de águas, do final da década de 1860, construído por
uma empresa de vias férreas, era utilizado para o abastecimento das locomotivas, sendo aproveitado pelas casas das redondezas. Outros detalhes em BOURDÉ, 1974, p. 138 a 141; e KOEBEL, 1919, p. 46.
34 O Passeio da Recoleta é a atual Avenida Alvear BUCICH ESCOBAR, 1921, p. 159 e
160 e HURET, 1986, p. 64 a 66. Sobre o passeio da Recoleta, ELLIOT, 1925, p. 13.
foi favorecido. A intervenção urbana valorizou o centro-norte e facili- tou a circulação de bens e mercadorias pela cidade. Para uma cidade comercial, que concentrava a importação e servia de escoadouro a um vastíssimo território, isso era de importância vital.
Além da praça San Martín, foram concluídos o Parque Tres de Febrero, o Jardim Botânico e o Jardim Zoológico, todos na zona de Palermo. Inúmeras obras datam do período de preparação do Cen- tenário, como a Casa Rosada, o Congresso, e o novo Teatro Colón. O projeto de remodelação do Centro não terminou com as comemorações do Centenário. Em 1912 iniciou-se a abertura da Diagonal Norte-Sul, que partia da Praça de Maio. A construção dessas diagonais parou logo no início e foi concluída apenas na década de 1920.
Mas a cidade crescia além da zona privilegiada. Os limites determinados pela lei de federalização, aqueles limites tradicionais herdados dos tempos da colônia, foram alterados para poder conter a população crescente, criando uma reserva de espaço para o futuro. Esta mudança aconteceu em 1887. Certos limites não podiam ser mo- dificados – o Río de la Plata a leste e o Riachuelo ao sul. Mas, ao norte, foi incorporado o município de Belgrano, separado da Capital Federal pelo arroio Maldonado, antigo limite físico. A oeste, superou-se a linha imaginária que unia Palermo com a Ponte Alsina, ao ser incorporado o município de San José de Flores.
Com estas ampliações, a cidade passou a ter uma reserva de espaço. Dessa forma, o centro poderia ser descongestionado dos ele- mentos indesejáveis, como operários, imigrantes e as classes baixas em geral. Mesmo assim, essa reserva de terreno esgotou-se muito antes do previsto. Com o crescimento da rede de trens e de bondes, antes da Grande Guerra, os municípios próximos a Buenos Aires receberam importantes contingentes populacionais. Os municípios receptores dos maiores grupos foram: ao norte San Isidro e Vicente López; ao oeste Tres de Febrero, La Matanza e Morón; e ao sul, Avellaneda e
Lomas de Zamora.36 Esta não era uma opção habitacional desejável
para os habitantes da cidade. Para os antigos moradores de Buenos Aires, morar longe do centro era considerado uma opção degradante.
36 Um bom estudo dos períodos de ocupação da região metropolitana em FACCIOLO,
Para os recém-chegados implicava o custo extra do transporte para
os locais de trabalho.37
Outra marca do nosso período foi o crescimento da densidade populacional da cidade velha. O centro da cidade alcançou uma popu- lação maior que em qualquer momento anterior. Podemos estabelecer dois períodos menores nesse crescimento: o primeiro, entre o Primeiro Censo Nacional (1869) e o Segundo Censo Nacional (1895); o segun- do, entre o Segundo e o Terceiro Censo Nacional (1914). No primeiro período, a maior concentração populacional situou-se no centro da cidade; no segundo período, temos uma diminuição da densidade na zona central e uma expansão da mancha urbana por todo o resto da
superfície da Capital Federal.38
Na virada do século, esse crescimento de Buenos Aires não se expressava unicamente no crescimento populacional. A Capital Federal era uma grande cidade que começava a elevar-se sobre os poucos sobrados coloniais. Tinha crescido no alto, na sua extensão e população, como ninguém esperava que acontecesse. Este processo surpreendeu tanto os observadores europeus como os locais. Isto foi aproveitado pelos governantes para apresentá-la como uma cidade em
rápida evolução.39 Assim, Buenos Aires aparecia como uma cidade em
constante transformação e crescimento, uma cidade pujante, ordeira e progressista.
A imagem que os membros do governo, visitantes, cronistas e jornalistas construíram, não pode ser vista como produto de uma ima- ginação fértil. Eles tinham razão em afirmar que Buenos Aires tinha-se transformado radicalmente nesses 40 anos numa cidade moderna. A fisionomia da cidade velha tinha mudado totalmente nesse período de intervenções públicas e privadas.
Segundo o observador, Buenos Aires podia ser uma cidade única ou espelhada em outra. Era vista como uma cidade moderna, digna de ser considerada como uma bela cidade européia, por quase todos os visitantes. Como um local para fazer bons negócios, pelos especuladores urbanos. Como um centro de grandes investimentos, para os capitalistas da infra-estrutura urbana. Talvez como um bom
37 Assim é apresentado no romance de ARGERICH, 1985 (1ª ed. 1884), p. 62. 38 TORRES, 1975, p. 282 a 285.
39 GÓMEZ CARRILLO, 1914, p. 149; HURET, 1986, p. 38 a 40; LIMA, 1920, p. 7; e SCAR-
sítio para flanar à vontade, segundo alguns turistas. O uso das novas tecnologias e as constantes reconstruções chamaram a atenção dos positivistas e toda classe de otimistas, que viram Buenos Aires como uma cidade voltada para o progresso permanente, produto da vontade infatigável de seus governantes.
Como afirma uma das epígrafes deste capítulo, Buenos Aires podia ser a cabeça luminosa de um cometa sem cauda, a República Argentina, ou podia ser vista também como a cidade dos tempos futu- ros, na qual as pessoas procuravam um rumo para suas vidas, como diz a outra epígrafe. Mas ambas são visões parciais. Poucos alcança- vam o seu objetivo na longa viagem da ascensão social. A maioria dos aspirantes ficava à margem do caminho, observando aqueles poucos que atingiam a riqueza pessoal.
Todo o equipamento urbano, toda a infra-estrutura sanitária, todas as instituições sociais, todas as obras de embelezamento da cidade, seus parques e passeios não conseguiam ocultar o fato de que essas melhorias e avanços tinham destinatários privilegiados e um objetivo principal, o bem-estar da classe dominante, a classe proprietária. Como apresentaria o anarquista espanhol Rafael Barret, numa violenta crítica a essa cidade:
Os soberbos serviços urbanos, as instalações de edificação, de tráfico e de ensino, introdutoras da cultura européia e americana, têm um valor social positivo e absoluto. São o discreto lastro da grandiosidade bonaerense, que só aos olhos dos touristas e na boca dos empresários passa por exponente do bem-estar coletivo.
Não há bem-estar coletivo. Há bem-estar de uma classe, seu dogma obrigado é a propriedade. [...].40
Apesar de todo o otimismo das autoridades e dos visitantes ilus- tres, Buenos Aires estava claramente dividida em dois setores. De um lado, os ricos e os poderosos, do outro, os pobres e os trabalhadores. Buenos Aires tinha deixado de ser uma Grande Aldeia Colonial para
ser uma bela Cidade Burguesa,41 mas precisava de uma outra face,
40 BARRET, 1910, pg. 8.
41 O período que vai de 1870 a 1930 é caraterizado por José Luís Romero, como o da
menos visível aos olhos dos visitantes. A face oculta dessa bela lua era a cidade proletária, contida, em parte, dentro da cidade burguesa. Ocupava os velhos casarões coloniais, anteriormente moradias das mais elevadas famílias patrícias, adaptados como conventillos. Mas também estendia-se além dos olhares burgueses e governamentais, lá nos bairros do sul e do oeste da cidade. Até aqui, o texto mostrou a face brilhante da cidade; a seguir apresentaremos essa outra face.
a b
uenOsa
ires dOs trabalhadOres“Buenos Aires, alambique céntrico, teatro instructivo de la lucha de clases en la América latina; Buenos Aires, donde los miles que usufructúan el lujo y los cientos de miles obligados a fabricar el lujo y a usufructuar la indigencia, se mezclan unos a otros en la democracia de las calles – la única democracia de estas latitudes – se aprietan y se frotan, cargándose de una electricidad de venganza [...]” (BARRET, 1910, p. 7).
“Un patio de conventillo, un yoyega retobao, una percanta, un vivillo, un chamuyo, una pasión, choques, celos, discusión, desafio, puñala-
da, aspamento, disparada, auxilio, cana ... telón” (“La Comparsa se despide” de Alberto Vacarezza, ca. 1910).
“En el conventillo se hacen los rebeldes. El obrero llega del taller, fati- gado, mal humorado, ansiando alimento y descanso para reparar las fuerzas perdidas y ve con dolor que falta el pan y que sus pequeñue- los tienen frío. [...]. Ve al lado de su buhardilla, el palacio del magnate
y escucha la insolente algazara que llega del banquete poderoso, en tanto que él desfallece de inanición.” (PALACIOS, 1900).