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ITINERÁRIO TEÓRICO

CIAMPA E A POSSIBILIDADE DE PENSAR A DOENÇA MENTAL COMO UM PROBLEMA DE IDENTIDADE

Se é verdade que uma identidade concretiza uma política, dá corpo a uma ideologia, fica claro sob que condições vivemos quando percebemos que na nossa sociedade o devir homem sujeito é praticamente impossível (ao menos universalmente).

A metamorfose, ainda quando impedida, ainda quando oculta, expressa a invencibilidade da substância humana, como produção histórica e material.

Antonio da Costa Ciampa1

Nesse itinerário mostraremos de que maneira o pensamento de Antonio da Costa Ciampa se vincula à tradição da Psicologia Social Crítica inaugurada pela Escola de São Paulo.2 Do mesmo modo, exploraremos a forma como esse autor articula a Teoria Crítica3, sobretudo a desenvolvida por Jürgen Habermas4, em sua concepção de

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CIAMPA, Antonio da Costa. A estória do Severino e a História da Severina. p.182.

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Como apresentado brevemente no capítulo anterior, a Psicologia Social brasileira, sobretudo, a teoria de identidade proposta por Antonio da Costa Ciampa, atravessa e se insere com todas as suas conseqüências em uma linha de pensamento comprometida na luta contra a opressão histórica frente à vontade e a autonomia humana inaugurada a partir de meados da década de 70 do século passado por Silvia Lane e seus colaboradores.

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Podemos dizer sinteticamente aqui que Teoria Crítica geralmente é o nome dado ao conjunto teórico- metodológico filosófico de um grupo de intelectuais marxistas não-ortodoxos que estavam ligados ao Instituto de Pesquisas Sociais filiado a Universidade de Frankfurt na década de 20 do século passado. A história empírica do Instituto é bastante conhecida. Após a Semana Marxista de Trabalho — realizada em 1922, reunindo um grupo de intelectuais eminentes concentrados em torno da temática Marxismo e

Filosofia: Georg Lukács, Karl A. Wittfogel, Friedrich Pollock, Max Horkheimer, Paul Massing e outros

— Karl Korsh (associado tradicionalmente à Antonio Gramsci e a Georg Luckács, que foram considerados como os precursores do ‘marxismo ocidental’) e Felix Weil, idealizadores e organizadores da semana, decidem fundar um “instituto para estudos marxistas”. No ano seguinte, em fevereiro, o “Instituto de Pesquisas Sociais” é fundado em Frankfurt. Os principais expoentes desse instituto foram Max Horkheimer, Theodor Adorno, Herbert Marcuse e Walter Benjamin. Após a ascensão de Hitler ao poder, janeiro de 1933, o Instituto é decretado como ilegal, o que faz com que as atividades sejam deslocadas para as cidades de Genebra (1933), Paris (1933 a 1936) e Londres (1933 a 1934). Após esse período Adorno e Horkheimer fixam as atividades do Instituto em Nova York (1934) e Los Angeles (1941), retornando para Frankfurt após 1950. Para um maior aprofundamento da história do Instituto e dos integrantes associados à Teoria Crítica indicamos a leitura de: FREITAG, Bárbara. A teoria crítica ontem e hoje. BRONNER, Stephen E. Da teoria crítica e seus teóricos. WIGGERSHAUS, Rouf. A escola de Frankfurt: História, desenvolvimento teórico, significação política. O ensaio de Erich Fromm. Método e função de uma Psicologia Social Analítica. Neste trabalho, publicado em 1932, Fromm mostra o interesse de articular a Teoria Crítica e a Psicologia Social desde os primeiras publicações do instituto.

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Embora se distancie das discussões posteriores aos anos 40 feitas por Horkheimer e Adorno, é explícita a influência dos primeiros escritos destes na obra habermasiana. A função específica do pensamento

identidade e apresentaremos nossa tentativa de reatualização, utilizando aqui um termo de Axel Honneth5, da teoria de identidade; tratar-se-á acima de tudo de um esclarecimento atualizador do pensamento que Ciampa expressa com sua formulação dificilmente compreendida6 de que a identidade é metamorfose humana em busca de emancipação. Tentaremos interpretar essa proposição como o núcleo de uma teoria de identidade capaz de explicitar como o desenvolvimento da identidade sofre fortes investidas dos discursos técnico-psicológicos — lembramos que incluímos aqui o discurso psicanalítico, psicológico e psiquiátrico acerca do ideal de normal e patológico —, que por sua vez, tendem a reduzir a complexidade da identidade a personagens fetichizadas, sustentadas por um reconhecimento perverso.

1 – Da identidade social e sua relação com a ideologia ao sintagma identidade- metamorfose-emancipação

Começamos então dizendo que consideramos Antonio da Costa Ciampa um dos primeiros a pensar de forma significativa à construção de uma Psicologia Social Crítica tipicamente brasileira.7 Uma produção que, como vimos no itinerário histórico, procurava superar a produção de conhecimento feito aos moldes das teorias positivistas reinantes na década de 60 e 70. Acreditamos que Ciampa conseguiu propor uma teoria crítico (seu caráter prático) é explorado de modo muito mais aprofundado por Habermas em seus primeiros trabalhos: Cf. HABERMAS, Jürgen. Teoria y Práxis [publicado em 1963 e publicado ampliado em 1971]; Idem. Técnica e Ciência como “Ideologia” [publicados em 1968]; Id. Conhecimento e Interesse [originalmente publicado em 1968]; Id. La lógica de las ciencias sociales [textos originalmente publicados de 1963 a 1977]. Posteriormente essa discussão vai desvanecendo e aparece apenas de forma implícita nos textos do autor; todavia, dois ensaios muito interessantes podem ser encontrados em HABERMAS, J. Teoria de La Acción Comunicativa. Tomo I e II [1981], pois em dois momentos desse trabalho Habermas retoma a função da Teoria Crítica e o problema da compreensão nas Ciências Sociais (Cf. op. cit., p.147-196 do primeiro volume e p.527-572 do segundo).

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Axel Honneth chama atenção para o fato de que ao propormos reatualizações devemos escolher dois caminhos: ou partimos para a reatualização “direta”, prezando a integridade dos conceitos e sistemas (nesse caso criticando as possíveis más compreensões), ou realizamos uma reatualização “indireta” (aqui se justificaria a reconstrução e utilização de certos conceitos em detrimento de outros em função dos problemas colocados pelo presente). Na tese ficará explícita nossa adoção pela segunda proposição. Cf. HONNETH, Axel. Sofrimento de Indeterminação: Uma reatualização da Filosofia do Direito de Hegel.

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Essa constatação será melhor explorada quando discorrermos acerca da concepção de metamorfose e articulação de personagens, que difere e singulariza a teoria de identidade desenvolvida por Ciampa das demais concepções tradicionais e atuais desenvolvidas pela sociologia e psicologia.

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Juracy Armando Mariano de Almeida, confirma essa proposição em sua tese de doutoramento ao afirmar que no Brasil, Roberto Cardoso de Oliveira (1976), antropólogo, com seus estudos de identidade étnica, e Ciampa (1977), psicólogo, com seus estudos sobre a identidade social, personificam marcos iniciais da utilização da noção de identidade em suas respectivas áreas de estudo.” Cf. ALMEIDA, J. A. M. Sobre a Anamorfose: Identidade e Emancipação na velhice. p.46.

de identidade que espelha a metamorfose de nossa sociedade e as dificuldades de emancipação. Mais ainda, acreditamos que esse autor conseguiu de forma intuitiva8 (ou indireta), resgatar e atualizar a teoria desenvolvida por George Mead, seguindo na contramão das descrições acerca da personalidade e identidade, que tendem à naturalização do desenvolvimento, ou ainda, daquelas que trabalham com a perspectiva de personalidade. Na concepção de Ciampa, identidade humana “é construção, reconstrução e desconstrução constantes, no dia-a-dia do convívio social, na multiplicidade das experiências vividas”9.

Em 1977, Antonio da Costa Ciampa10 afirmava que “compreender a identidade é compreender a relação indivíduo-sociedade”, ou seja, já em sua dissertação de mestrado, a qual discutiu a identidade social e suas relações com a ideologia, a identidade era entendida como um conceito central para Psicologia Social, que poderia ajudar a explicar tanto como se dava a construção das desigualdades e problemas sociais, quanto entender como se formavam as resistências individuais aos processos de massificação e as buscas emancipatórias. O autor vivenciava nesse período a chamada crise da Psicologia Social brasileira e estava alinhado às preocupações de tantos outros autores, sobretudo Silvia Lane, de construir uma proposta teórico-metodológica que não somente superasse o modelo positivista de psicologia ensinado no Brasil, mas que refletisse nossa realidade. Ciampa acreditava, ancorado pela influência de Peter Berger & Thomas Luckmann11, que para solucionar a dicotomia entre indivíduo e sociedade era necessário o estudo do fenômeno identitário12. Nas palavras do próprio autor, “o que se tem em mente com estas afirmações que enfocam com mais ênfase o indivíduo, é compreender a relação indivíduo-sociedade, este objetivo como tentativa de compreender a realidade social”13.

Em síntese, a dissertação propõe, a partir da articulação das idéias de Berger & Luckmann e de Karl Scheibe14, assinalar como as teorias de identidade, associadas

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Essa colocação deve-se ao fato de não notarmos na dissertação de mestrado escrita por Ciampa a ênfase no potencial teórico de George Mead em suas proposições, Mead aparece indiretamente na análise que Ciampa faz de Berger & Luckmann, uma vez que aquele influencia estes.

9

KOLYNIAK, Helena Maria Rath. & CIAMPA, Antonio da Costa. Corporeidade e Dramaturgia do cotidiano. p. 09.

10

CIAMPA, Antonio da Costa. Identidade Social e suas relações com a ideologia.

11

Principalmente o texto: BERGER, Peter & LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade.

12 CIAMPA, A. C. op.cit. p. 19 13

Ibidem. p. 19

14

Ex-orientando de Theodor Sarbin, criador da Teoria do Papéis. Cf. SARBIN, Theodor R. & SCHEIBE, Karl E. Studies in Social Identity e SCHEIBE, Karl E. Beliefs and Values.

inevitavelmente por interesses sociais, podem tornar-se formas de manipulação ideológica.15 Para tanto, Ciampa discute as proposições de Sarbin acerca da Identidade Social chegando a admitir que o modelo proposto por este último, juntamente com Scheibe, era promissor para a Psicologia Social16, entretanto, reconhece a deficiência encontrada nesse modelo baseado numa perspectiva funcionalista, que tende a representar a ideologia dominante. É importante frisar que essa deficiência — encontrada pela utilização de Berger & Luckmann — preparou o terreno para a guinada que viria a seguir. O traço mais significante nessa dissertação está no fato de assumir que a produção científica deve estar diretamente associada com a práxis.

O interesse pela articulação entre teoria e práxis leva Ciampa a buscar referenciais teórico-metodológicos que pudessem associar a Psicologia Social, a pesquisa de identidade e a ação política. Durante praticamente uma década, as impressões e orientações obtidas foram amadurecendo no pensamento de Ciampa, até se transformarem na convicção de que a identidade é metamorfose humana.17 Para demonstrar essa tese era preciso primeiro superar os moldes tradicionais de estudar identidade pela Psicologia Social — abrir mão do caráter descritivo e estatístico — e assumir uma outra orientação metodológica: a narrativa de história de vida. E de fato Ciampa realiza um estudo, em que a estória do Severino — personagem ficcional, do poema “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto — e a história da Severina — personagem da vida real —, são articuladas para demonstrar como o singular pode materializar o universal, “desvendando a ideologia da não transformação do ser humano como condição para a não transformação da sociedade”18. Nessa tese, em que é proposta a idéia de que identidade é metamorfose, se delineiam duas afirmações igualmente fortes: a) faz parte do desenvolvimento da identidade uma seqüência de formas de reconhecimento; b) este reconhecimento, quando ausente ou feito de forma desumana, se dá a saber aos indivíduos pela experiência de aprisionamento à “mesmice”, ao fetiche de uma personagem que impede a concretização do sentido emancipatório da identidade.

Não é por acaso que em Ciampa encontramos os meios mais apropriados para compreender a persistência do discurso psiquiátrico e seu uso como instrumento de

15 CIAMPA, Antonio da Costa. Identidade Social e suas relações com a ideologia. p.37 et seq. 16

Ibidem. p.142.

17

Cf. Idem. A estória do Severino e a História da Severina.

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administração da sociedade capitalista. Em seus escritos, Ciampa partilha com Hegel do período de Jena, Mead e Habermas mais do que uma teoria acerca da socialização e individualização da identidade. N’A estória do Severino e a História da Severina, encontramos elementos que demonstram coincidências com a obra de Honneth, principalmente na parte que focaremos aqui em nossa discussão: ele também procura demonstrar como a busca por emancipação é em última instância uma luta por reconhecimento, que por sua vez depende de condições históricas e sociais dadas, o que insere o autor na tradição da Teoria Crítica. E se por um lado no livro de Ciampa existem poucas citações de Hegel e de Mead, ou ainda, que o próprio autor diga ter tomado conhecimento da obra de Habermas apenas no término de sua pesquisa19, por outro, a apropriação que faz do conteúdo habermasiano permite-lhe ir além das idéias desenvolvidas na dissertação de mestrado e demonstrar definitivamente que o desenvolvimento de uma teoria de identidade é essencial para uma Psicologia Social Crítica.

A Estória do Severino e a História da Severina representou a assunção de uma concepção de identidade que subvertia as teorias importadas e utilizadas no Brasil até então (focadas na idéia de identidade natural em que se pressupõe seu desenvolvimento, ou ainda, sua cristalização), propondo uma concepção que previa um desenvolvimento dinâmico, de constante metamorfose. Na tese Ciampa propõe que a identidade é a articulação tanto entre diferença e igualdade (ou semelhança), como entre objetividade e subjetividade, pois “sem essa unidade, a subjetividade é desejo que não se concretiza, e a objetividade é finalidade sem realização”20, e passa a defender que é impossível falar de identidade sem falar em metamorfose, como um processo que se dá desde o nascimento do indivíduo até sua morte, podendo ultrapassar esses limites biológicos.21

A concepção de identidade proposta por Ciampa apresenta forte influência hegeliana, uma vez que nela a identidade é a “passagem da indeterminação indiferenciada à diferenciação, a delimitação e a posição de determinação específica que

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Em sua tese, Ciampa se vale apenas de dois trabalhos de Habermas: Conhecimento e Interesse e Para a reconstrução do materialismo histórico.

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CIAMPA, Antonio da Costa. A estória do Severino e a História da Severina. p.145. Embora nessa citação Ciampa esteja se referindo a articulação que Ciampa faz das teorias de Freud e Marx, podemos dizer que nela é possível também pensar as proposições meadianas da articulação entre o “eu” e o “mim” para além do modelo darwinista, incorporando-os ao materialismo histórico.

21 Quando Ciampa afirma isso está se referindo à personagens que mesmo após a morte continuam sendo

utilizadas como referência para a composição de outras personagens, como exemplo podemos citar os casos das personagens Jesus Cristo, Elvis Presley etc., que continuam influenciando a construção das identidades.

passa a caracterirzar um conteúdo e um objeto”22. O que em certa medida também é encontrado em Habermas quando este faz a diferenciação entre a singularidade e a

individualidade da identidade. Essa diferenciação, apoiada na influência piagetiana

expressa na teoria de desenvolvimento moral proposta por Kohlberg23, significa que enquanto singularidade o indivíduo é indiferença de todas as determinidades, de modo que se exibe enquanto totalidade, ao passo que do ponto de vista ontogenético, enquanto

individualidade, o Eu é a diferença de todas as determinidades, é um vivente formal e

reconhece-se como tal24. A singularidade nos diferencia enquanto sujeitos, ao mesmo tempo nos iguala nas expectativas em relação à sociedade, enquanto que a individualidade, construída em contato com a realidade social, sendo a negação de todas as determinidades nos dá acesso à subjetividade e possibilita uma reconstrução do Eu a partir das diferenças. Mas somente até esse ponto, pois a forma como Habermas pensa o desenvolvimento da identidade25, segue um caminho muito diferente do proposto por Ciampa, como veremos mais adiante. Por enquanto, reforçamos que ao conceber a identidade dessa forma superamos a discussão de que ela é influenciada pelo social, ela

22

Cf. HEGEL, Georg W. Princípios de Filosofia do Direito. p.14.

23

Habermas justifica a utilização da teoria de Kohlberg pelo fato deste situar-se na tradição do pragmatismo norte-americano, por ter pensado a ética do discurso na linha desenvolvida por John Rawls e, sobretudo, por ligar-se “a Kant e ao direito natural racional, para realizar suas concepções filosóficas, inspiradas inicialmente por Mead, sobre a ‘natureza do juízo moral.” Cf. HABERMAS, J. Consciência Moral e Agir Comunicativo. p.146. Kohlberg facilita a articulação da teoria da ação comunicativa com o direito e a moral, que segundo Habermas, são os meios privilegiados na regulação não violenta da reprodução social. O modelo de desenvolvimento moral desenvolvido por Kohlberg, cujas noções, segundo Habermas, “satisfazem as condições formais de uma lógica do desenvolvimento”, ocorrem em três níveis passíveis de verificação: 1) Nível Pré-Convencional: em que a atitude “correta” é a obediência literal às regras e à autoridade, evitando assim o castigo e o dano físico; 2) Nível Convencional: em que o desempenho do papel de uma pessoa boa (amável), que preocupa-se com as outras pessoas e seus sentimentos, que é leal e conserva a confiança dos parceiros, estando assim, motivado a seguir regras e expectativas, e a atitude “correta” a seguir; e 3) Nível Pós- Convencional: onde as decisões morais são geradas a partir de direitos, valores ou princípios com os quais concordam (ou podem concordar) todos os integrantes do discurso ou possibilitando o desenvolvimento de uma sociedade ética cujas leis são práticas e benéficas. Essa proposta apresentada por Kohlberg acerca dos estágios ontogenéticos do desenvolvimento moral possibilita Habermas incorporar em seu arcabouço teórico a compreensão de um desenvolvimento que parte de uma identidade que é própria do organismo social (hedonista inicialmente), até uma identidade do Eu que consegue expandir-se até uma identidade pós-convencional (com princípios universais). Cf. Idem. Para a Reconstrução do Materialismo Histórico. p.55

24

HEGEL, Georg W. F. O sistema de vida ética. p.34 et seq.

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Seguindo um modelo que poderíamos chamar de determinista, Habermas escreve que a identidade passa por três momentos: identidade natural, identidade de papel e identidade do Eu, sendo que bem- sucedida seria a identidade do Eu que conseguisse manter sua autenticidade perante as mudanças sociais. O Eu, para Habermas, está além da linha constituída por todas as normas e papéis sociais; tendo de estabilizar-se na capacidade de representar a si mesmo, em qualquer situação, inclusive diante de expectativas de papel contraditórias. No que se refere aos indivíduos adultos, ela se confirma “na capacidade de construir novas identidades, integrando nelas as identidades superadas e organizando a si mesmo e as próprias interações numa biografia inconfundível”. HABERMAS, J. Para a Reconstrução do materialismo histórico. p.80.

é constitutivamente social, e como tal, sujeita às mudanças que a estrutura social experimenta. Juracy Almeida, referindo-se às proposições de Ciampa, assinala que esse é um marco decisivo que implica “no abandono da distinção entre ‘identidade pessoal’, referida às marcas distintas do indivíduo, associadas à sua biografia, e ‘identidade social’, referida às categorias sociais a que o indivíduo pertence ou mesmo aos seus papéis sociais”26.

Para explicar como se dá a apresentação da identidade enquanto metamorfose, Ciampa utiliza elementos da dramaturgia. Metodologicamente isso implica em defender que a identidade passa a ser vista, expressada empiricamente, por meio de personagens, e que é a articulação dessas personagens que vai constituir a identidade. Como o próprio Ciampa explica: “podemos dizer que as personagens são momentos da identidade, degraus que se sucedem, círculos que se voltam sobre si em um movimento, ao mesmo tempo, de progressão e de regressão”27. Desse modo, o autor não só relaciona-se com Hegel, para quem “o conceito de desenvolvimento do espírito consiste em que o seu extrinsecar-se e o seu cindir-se é simultaneamente o vir a si mesmo”28, como também, e poderíamos dizer principalmente, relaciona-se com Mead, o qual ao empregar a categoria “mim” como uma característica da auto-relação originária, o emprega para mostrar que o “eu” somente consegue se sustentar colocando-se como objeto para si- mesmo. Vale apontar, inclusive, que a concepção de personagem, desenvolvida por Ciampa, mostra-se muito próxima da idéia meadiana de articulação “eu” com vários “mim(s)”, tal como foi apresentado por esse último no ensaio The mechanism of social

consciousness, de 1912. Mead escreve que essa relação (“eu” e “mim”) é semelhante ao

relacionamento entre parceiros de um diálogo, “a consciência de si-mesmo, atualmente operante no relacionamento social, é um ‘mim’ objetivo ou vários ‘mim(s)’ num processo contínuo e que implica um ‘eu’ fictício sempre fora de seu campo de visão”29.

Em Ciampa a identidade é expressão de várias personagens e a articulação dessas personagens é a expressão do Eu. Isso assinala que é impossível viver sem

26

ALMEIDA, Juracy Armando M. Sobre a Anamorfose: identidade e emancipação na velhice. p.60. A distinção identificada e defendida por Ciampa é entre identidade individual e identidade coletiva, ambas como identidades sociais. Essa distinção será melhor explorada a partir da próxima sessão desse capítulo.

27

CIAMPA, Antonio da Costa. A estória do Severino e a História da Severina. p.198.

28 HEGEL, Georg W. F. Introdução à História da Filosofia. p.63. 29

MEAD, George Herbert. The mechanism of social consciousness. p.406. Tradução nossa: “the self- conscious, actual self in social intercourse is the objective ‘me’ or ‘me’s’ with the process of response

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