O computador, criado nos Estados Unidos em 1946, trouxe inovações e passou a fazer parte de quase todos os setores da vida humana, permitindo que o homem construísse e desenvolvesse novas técnicas para se portar em sociedade, sobretudo no trabalho, como forma de construir ou compartilhar conhecimento. Mas é com a internet que a sociedade passa a se conectar por
meio de arquivos, códigos, correios eletrônicos, sites de relacionamentos, fóruns de discussão, aplicativos de mensagem, entre outros, apenas na déca-da de 1990. Essa é a atual realidéca-dade mundial: homem e máquina misturam--se, não sendo mais possível revogar essa realidade. Logo, cria-se um novo espaço, uma nova cultura em rede, definida por Lévy (2009b, p. 17) como
ciberespaço ou “cibercultura”:
O ciberespaço (que também chamarei de “rede”) é o novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores. O termo especifica não apenas a infra-estrutura material da comunicação di-gital, mas também o universo oceânico de informações que ela abriga, assim como os seres humanos que nave-gam e alimentam esse universo. Quanto ao neologismo “cibercultura”, especifica aqui o conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço.
Desse modo, com as inovações trazidas pela internet, criou-se uma rede de experiências embasadas nas vivências humanas, na observação do presen-te, nas dinâmicas e contradições que envolvem homem e meio, num jogo de relações e de paradoxos virtuais.
Nossos meios de comunicação são nossas metáforas. Nossas metáforas criam o conteúdo da nossa cultura. Como a cultura é mediada e determinada pela comu-nicação, as próprias culturas, isto é, nossos sistemas de crenças e códigos historicamente produzidos são transformados de maneira fundamental pelo novo sis-tema tecnológico e o serão ainda mais com o passar do tempo. [...] É precisamente devido a sua diversificação, multimodalidade e versatilidade que o novo sistema de comunicação é capaz de abarcar e integrar todas as formas de expressão, bem como a diversidade de inte-resses, valores e imaginações, inclusive a expressão de conflitos sociais (CASTELLS, 1999, p. 414-461).
Esses conflitos resultam do fato de grande parte dos indivíduos estarem interligados. Um recurso surge em favor de uma época e para suprir as ne-cessidades de uma geração. A internet e as ramificações que dela surgiram
e ainda surgirão não podem mais ser deletadas, fazem parte da realidade e são irrevogáveis.
Com a expansão das tecnologias digitais, surgem novos desafios e pos-sibilidades também na sala de aula. O estímulo à leitura e produção de textos literários nas redes sociais, além de favorecer a criatividade, o traba-lho colaborativo, a pesquisa, a síntese, a organização de ideias, poderá se apresentar como um caminho para novos mundos e uma forma de inserção na sociedade.
Nas últimas décadas, alguns pesquisadores têm realizado práticas que priorizam a autoria escolar e o processo criativo5 dos alunos. Calil (2007), um dos precursores no Brasil, apresenta as práticas de textualização na escola e a natureza da relação entre o aluno e seus manuscritos, bem como as formas de interferência do professor de ensino fundamental nos processos de escritura efetivados em sala de aula.
O grupo de pesquisa Escritura, Texto & Criação, do Centro de Educação, da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), tem como foco de análise os processos de criação e escritura a dois, em três gêneros distintos (narrativa ficcional, poesia e história em quadrinhos), registrados em tempo real por meio de gravações em vídeo. Como destaque do projeto, apresenta a coenun-ciação6, que faz o manuscrito e seus pontos de tensão (movimentos de auto-ria, rasuras orais, relações associativas) reconhecidos durante sua invenção. O levantamento desses pontos visa a descrever, tipificar e valorizar as apren-dizagens na criação e escritura de poesias por uma mesma dupla. Tendo isso em vista, é possível observar, por meio das filmagens dos processos de escri-tura em tempo real, os modos de apropriação de diferentes propriedades tex-tuais (tópicos, onomatopeias, discursos reportados e dêiticos), desde o início do projeto didático proposto até a filmagem do último processo de escritura.
5. Para Bakhtin (2009, p. 132, grifos do autor), “A criatividade da língua não coincide com a criatividade artística nem com qualquer outra forma de criatividade ideológica específica. Mas, ao mesmo tempo, a criatividade da língua não pode ser compreendida
independentemente dos conteúdos e valores ideológicos que a ela se ligam. A evolução da
língua, como toda evolução histórica, pode ser percebida como uma necessidade cega de tipo mecanicista, mas também pode tornar-se ‘uma necessidade de funcionamento livre’, uma vez que alcançou a posição de uma necessidade consciente e desejada”.
Pereira e Freitas (2010) declaram, a partir do pensamento de Bakhtin (2009), que, para afirmarmos que a produção textual contribuiu para a for-mação de alunos-autores, é preciso considerar dois pressupostos: i) o texto não pode ficar restrito apenas ao professor, tendo em vista que a interação com o outro nasce do diálogo; e ii) o autor precisa afastar-se do texto e olhá--lo como autor, e não como produtor, a fim de reescrever sua obra quantas vezes forem necessárias. Nesse sentido, propõem discutir a autoria a partir do desenvolvimento de um trabalho de produção textual com blogs literários. As autoras perceberam que tal ferramenta permite a participação e exploração do leitor que, convidado a interagir com o autor, produz um texto escrito e novas formas de diálogo, por meio de opiniões, comentários e discordâncias.
As primeiras ações do Projeto de extensão “Jornal na escola - uma pro-posta multidisciplinar”, desenvolvido no Instituto Federal Fluminense
cam-pus Quissamã e descrito por Castelano e Carmo (2016), possibilitaram o
empoderamento dos alunos frente aos textos escritos. Quando perceberam, eles já estavam escrevendo – mesmo aqueles que diziam não saber escrever ou achavam as aulas de produção textuais desinteressantes. Coube aos alunos escolher o tema sobre o qual desejavam escrever. Com a primeira versão do texto pronta, eles foram estimulados pela professora de Língua Portuguesa a pesquisarem em fontes confiáveis na internet. Durante a escrita de seus tex-tos, os alunos eram desafiados, a todo o momento, a revelar e sustentar suas opiniões de forma crítica. Portanto, os alunos participaram de uma experiên-cia de vida significativa a partir da interação soexperiên-cial mediada pelo jornal, com o apoio do professor.
Em estudo mais recente, Castelano e Carmo (2017) apresentam os resul-tados de uma intervenção realizada com a técnica da narrativa digital (ND), cujo objetivo geral foi investigar se o estímulo de licenciandos a uma relação autoral com a escrita, por meio da produção de NDs, pode influenciar no desempenho da escrita deles e de seus alunos. Para tanto, foram utilizadas as metodologias de pesquisa-intervenção e de desenvolvimento ecossistêmi-co, a fim de compreender a dinâmica do processo de construção da oficina oferecida pela pesquisadora, bem como a criação das NDs. Os resultados dessa experiência demonstraram que a construção de NDs facilita a relação que os licenciandos e seus alunos têm com a escrita, uma vez que os sujeitos, ao reconhecerem sua autoria nos diversos usos e combinações expressivas de linguagens, apresentam crescente coesão, coerência e criatividade. Nessa
perspectiva, as dificuldades deixam de ser objeto subjetivo de culpa para se-rem assumidas como desafio natural na direção do domínio da escrita.
Pensando em oportunizar a alunos da educação básica a experiência de leitura e escrita de poesias imagéticas, foram selecionadas algumas poesias de Clarice Freire, a fim de promover debates acerca da importância da tecno-logia para a criação de novas práticas nas aulas de Língua Portuguesa.