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4. Patogénese

4.1 O Ciclo de Vida e a Biologia do Quisto Hidático

O ciclo de vida de E. granulosus envolve diferentes hospedeiros importantes para a sua transmissão (Figura 12). A forma adulta (1), que reside no intestino delgado do hospedeiro definitivo, liberta proglotis grávidas e ovos nas fezes (2). Após a ingestão do ovo por um hospedeiro intermediário, geralmente ovinos (mas também caprinos, suínos, bovinos, equinos, camelos), este liberta no intestino delgado a oncosfera (3) ou embrião hexacanto que penetra na parede intestinal e migra até vários órgãos (principalmente fígado e pulmões) através do sistema circulatório. Nestes órgãos a oncosfera origina um quisto e desenvolve-se uma reação inflamatória circundante que acabará por formar uma cápsula fibrosa envolvendo a oncosfera (4). O quisto aumenta gradualmente, produzindo

Marta Bebiana dos Ramos da Silva 125 protoscolices e quistos filhos que preenchem o seu interior. O hospedeiro definitivo é infetado pela ingestão de órgãos do hospedeiro intermediário infetado contendo quistos. Após a ingestão, os protoscolices (5) sofrem invaginação e aderem à mucosa intestinal (6) tornando-se em adulto (1) entre 32 a 80 dias. Os seres humanos atuam como hospedeiros intermediários acidentais e podem ser infetados através da ingestão de ovos de E.

granulosus.

Figura 12 - Ciclo de vida do Echinococcus granulosus. Adaptado de (56).

Nos seres humanos, como noutros hospedeiros intermediários, os quistos hidáticos desenvolvem-se principalmente no fígado e pulmões, no entanto estes podem surgir em qualquer tecido ou órgão interno (ex. coração, osso, músculo, tecido nervoso, etc) pela disseminação hematogénica (57).

O tempo de desenvolvimento varia muito entre os diferentes tipos de hospedeiros. Em geral, os quistos aumentam o seu diâmetro de menos de 1 cm a 5 cm por ano. Nos locais em que os quistos hidáticos apresentam um desenvolvimento lento, estes podem não ser detetados durante meses ou até anos após a infeção inicia l se ter instalado. Assim, os quistos de E. granulosus e as suas implicações compreendem várias fases de desenvolvimento (58).

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A evolução natural dos quistos de E. granulosus e suas implicações clínicas estão apresentadas na Figura 13. Numa fase inicial, a infeção primária, é sempre assintomát ica. Os pequenos quistos (< 5cm) desenvolvem-se nos órgãos sem induzir quaisquer consequências patológicas, persistindo assim, sem serem detetados. No humano, os quistos estão localizados no fígado em cerca de dois terços dos casos e em cerca de 20% nos pulmões e, menos frequentemente nos rins, baço, coração e no osso. Cerca de 20 a 40% dos pacientes têm múltiplos quistos, havendo ou não envolvimento de múltiplos órgãos. Após um período de incubação que pode levar meses a anos, a infeção pode tornar-se sintomát ica, caso os quistos exerçam uma pressão sobre os tecidos adjacentes, induzindo outros eventos patológicos. Outros sinais ou sintomas podem despertar a atenção clínica sobre os pacientes com HQ, nomeadamente, o desenvolvimento de eosinofilia alérgica, a rutura acidental de um quisto que leva a reações de hipersensibilidade aguda, podem constituir um achado cirúrgico, ou por outras complicações clínicas. Por outro lado, a cura espontânea é possível se ocorrer o colapso, a calcificação ou rutura dos quistos. A recorrência da doença pode ocorrer após a remoção dos quistos primários por métodos cirúrgicos (2).

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Figura 13 - História natural dos quistos do fígado de Echinococcus granulosus. Os números (1/2,1/3, 2/3)

indicam frequências aproximadas dos tipos de quistos. Adaptado de (2).

O quisto hidático maduro consiste numa camada interna de células germinat i vas (endocisto) suportada externamente por uma membrana laminada de espessura variável (ectocisto) (Figura 14). As células do tegumento da camada germinativa originam um sincício contínuo, que se diferencia em numerosas microvilosidades projetadas perifericamente para o interior da camada laminar em direção aos tecidos do hospedeiro que envolvem o quisto hidático. Pequenos quistos secundários, denominados de vesículas prolígeras, brotam a partir da camada germinativa e, por reprodução assexuada, produzem múltiplos protoscolices que se podem diferenciar tanto em parasitas adultos no intestino de

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hospedeiros definitivos, como em quistos hidáticos secundários pela rutura de um quisto (58). O líquido hidático é claro e contém secreções tanto do parasita como do hospedeiro, e juntamente com todos os elementos que compõe o quisto dá-se o nome de “areia hidática”. Apresenta uma composição idêntica à do soro do hospedeiro (Na+, K+, Cl-, CO

2, densidade entre 1,008 e 1,015, pH alcalino) e algumas proteínas que lhe conferem propriedades antigénicas. O líquido hidático é o principal fator responsável pela estimulação antigénica, no entanto a camada germinativa do quisto constitui uma barreira contra as células do sistema imunitário do hospedeiro. Quando surgem fissuras ou mesmo a rutura desta camada ocorre a estimulação antigénica, verificando-se uma elevação contínua dos valores dos parâmetros imunológicos por um tempo indeterminado. Esta elevação dá-se também após a manipulação do quisto, por cirurgia ou punção (59).

Marta Bebiana dos Ramos da Silva 129 Nos hospedeiros intermediários podem desenvolver-se quistos férteis ou inférte is, mas apenas os primeiros desenvolvem protoscolices, a forma parasitária infetante para os hospedeiros definitivos. Paredes e seus colaboradores, detetaram a presença de IgG bovina na camada germinativa de quistos inférteis (CGQI) e em maior concentração do que na camada germinativa de quistos férteis (CGQF), em bovinos infetados com E. granulosus. Foram extraídas imunoglobulinas G (IgG’s) de bovino da CGQI e da CGQF, com soluções salinas, sendo associadas a alta e a baixa afinidade, respetivamente. IgG’s de alta afinidade penetram tanto na CGQI, como em células HeLa em cultura e verificaram o seu reconhecimento por epitopos de células parasitárias. Na camada germinativa do quisto, as IgG’s reconhecem antigénios específicos no processo de proliferação celular e/ou nos mecanismos de diferenciação que conduzem à formação de protoscolices. Esta interação antigénio-anticorpo pode inibir a proliferação celular e/ou diferenciação de células envolvidas na formação das vesículas prolígeras e protoscolices e, induzir a apoptose que conduz à infertilidade do quisto. Estes resultados, juntamente com outros produzidos no laboratório destes pesquisadores, que mostraram a indução de apoptose celular associada a um aumento da atividade catalítica da caspase 3, na CGQI (60), fornecem a primeira explicação coerente para o processo de infertilidade quística. A identificação dos antigénios parasitários reconhecidos, podem ser considerados como possíveis alvos para a modulação imunológica (61).

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