Os depoimentos foram tratados como descrevi passo a passo no capítulo dois, e agora apresento como textos narrados pelos professores.
3.5. Professora Oliveira e seus 7 anos de Instituto de Biologia
3.5.10. O ciclo de vida profissional
Sobre o meu Ciclo de Vida Profissional. Bom, a minha ideia de ser professor universitário era estar situado nesse movimento do que era universidade, de entender um pouquinho de pesquisa e extensão, então foi essa busca: “Gente, onde me coloco aqui? Onde o meu saber cabe? Ele cabe na extensão? Onde eu posso adequá-lo na extensão?” Mas sempre pensando no conjunto: “Ah! É importante o Instituto ter extensão? Porque que os outros acham que não, mas é importante ter extensão?”, “É importante olhar para o Ensino Superior, o ensino de formação e o ensino básico?”. Então esses primeiros 5 anos foram muito voltados, o quê que eu faço nisso?, eu ajudo na formação docente trazendo essa discussão?, trago essa discussão na minha ação de pesquisadora? Então foi tentar me colocar nesse sentido, hoje eu tenho uma ideia de que eu estou fazendo pesquisa e estou fazendo alguma coisa voltada para o ensino.
3.5.11. O desânimo na profissão
Eu estou me sentindo [...] é engraçado, eu estou me sentindo mais segura hoje profissionalmente no Instituto porque eu estou me colocando melhor. Eu estou me afastando de certas discussões que eu acho sutis, às vezes estou me dando a chance de optar por discussões mais seguras, buscando um momento em que as coisas vão efetivamente acontecer. Saindo daquele momento, me dando o direito de não participar de uma determinada reunião que eu acho que não vai ser frutífera, me mantendo quieta em alguns momentos... Então, eu estou me sentindo mais segura, eu até brinco que às vezes eu faço..., eu entro em uma reunião para brincar, para ser meio cínica, mas não é. É só para dizer: “Olha gente! Isso não me afeta mais”. Esse tipo de coisa. Eu estou em um momento que o que me afeta, o que me move é o trabalho em grupo. Então eu quero estar no grupo, eu não quero estar em discussões sutis, coisas que eu sei que não vão me levar a nada. Então, isso tem acontecido muito recentemente comigo, na minha vida. Me manter mais na minha sala, claro que agora também com tanta atividade com o projeto que a gente está colocando na UFU que é o PIBID, tem me tirado muito tempo. Mas, eu estou tentando me situar: “Olha! Eu sou eu, sou aqui, sou essa pessoa. Tenho essa capacidade e não tenho essa”. Então é muito recente isso. Antes eu era uma pessoa que não tinha muita identidade, estava em todas, não tinha uma identidade. Estava em tudo me colocando, me posicionando.. Hoje não me faz sofrer o fato das pessoas não entenderem o que eu quero dizer, entendeu? É como eu disse: “Não me entendeu. Não está no meu momento, nem eu no seu”. Eu estou me sentindo melhor assim.
Então, eu sou uma pessoa que não me desanimo, sabe Taita?! Eu fui criada, educada para tentar encontrar soluções. Então muito cedo eu fui... nos meus 12 anos eu fui... eu já entrei para esse meio de voluntariado, de tentar melhorar as condições das pessoas, de tentar ajudar as pessoas. Não dando! Mas, eu estou aqui, eu faço isso, você quer... Então eu me desanimo às vezes, mas eu penso rápido: “Eu não vou deixar me desanimar”, porque às vezes diante desse conhecimento sobre pessoas, sobre as pessoas com quem a gente convive, eu às vezes acho distante alcançar a meta que a gente quer, que é de formar pessoas. Porque a gente está em um momento muito difícil da sociedade ?! Em um momento em que muitas pessoas estão tendo voz, estão tendo possibilidade de agir, e aí se perde muito tempo nisso até se adequar. Se perde valor, se perde perspectivas, se perde... e os meninos dessa geração eles são perdidos, eles não tem objetivos. A pessoa que não tem objetivos, não tem uma pergunta para responder — é difícil você formá-la. Então às vezes eu me pego nisso, como que eu vou conseguir formar uma pessoa que não quer se formar. Mas, aí eu falo: “Renata, faça a sua parte”. Quem estiver naquele momento vai entrar nesse jogo, e quem não estiver infelizmente você não tem controle sobre isso. Mais eu sofri muito até eu entender isso. Custei muito a entender que estamos em momentos diferentes, que as pessoas não podem estar no mesmo momento, e que o seu trabalho não pode depender do momento dos outros, depende do seu momento. Quem estiver apto a acompanhar vai, quem não vai volta depois.
Mas, eu sofro. Sofro porque vejo que os meninos da educação básica vão continuar recebendo professores que não estão bem formados. Mas, aí eu me acalmo um pouquinho com a fala da Nora que diz: “Essa não será a pior aula da vida do seu aluno, nem a melhor”, portanto a vida é isso, esse momento que você tem. Porque para o aluno esse não é o melhor momento da vida dele, nem o pior, é um momento. E ele vai ter que aprender, e você vai ter que aprender a tirar frutos desses, e ele também. Então, eu tenho tentado me focar nisso para não desanimar, mas às vezes eu fico preocupada com a sociedade. Será que a sociedade quer mesmo melhorar a educação, ou está só no verbo ainda? Então essas perguntas não é que me desanimam, são perguntas que me cansam um pouquinho dessa batalha. É naquilo que você acredita que faz também.
Ficar doída. Eu, por exemplo, não acredito muito nesse projeto PIBID, não acredito na proposta. Não sei se as pessoas que estão executando ele..., nós aqui, não digo o governo federal, a administração federal. Foi colocado pela CAPES, foi... nós aqui vamos ter que dar o tom do projeto, eu percebo um grande número de pessoas confiantes nisso, com suas dificuldades e tudo mais. Mas, eu também vejo um grande grupo que não se perguntou se vale a pena participar do PIBID para aquilo que ele se propõe. Essa pergunta é colocada em todos os níveis da minha profissão: “Será que a minha unidade quer mesmo ter um currículo agregado? Será que a minha unidade quer realmente trabalhar em grupo? Será que a minha unidade quer mudar? Então essa pergunta que eu faço para todos os projetos, é a mesma coisa. Eu tento sofrer menos com isso. Porque não tenho essas respostas, porque tenho as respostas e elas não me agradam, mas não quero mais sofrer por isso. Então assim, eu estou no laboratório de morfologia ensinando técnicas para os meninos entenderem um pouquinho sobre um
determinado desenvolvimento, PIBIC um ano. Eu agora sou mais tranquila, o que ele aprender, é um trabalho dele, porque aquela parte técnica eu já sei, eu estou ensinando a ele. Cabe a ele querer aprender, não a mim querer que ele aprenda. Eu estou querendo saber fazer esse movimento, não cabe a mim querer saber pelo outro. Cabe querer por mim! E mesmo oferecer. Lembra a lei da oferta? Eu ofereço para todo mundo, quem gostar da cor que use, quem não gostar procura outro depois. Estou tentando Taita. É difícil! Eu sou muito ansiosa! Quero o melhor, eu acho que o melhor para todos é que todos saibam as coisas, que as pessoas saibam ler o mundo. Mas, pode ser que não seja, tem pessoa que não quer ler o mundo e ela é feliz assim. Mas, ela vai estar na universidade junto comigo, ela teve esse espaço, ela chegou lá. Portanto, se o espaço existe para ela eu tenho que respeitar o espaço dela. Certo?! Difícil demais para mim. Eu fico muito frustrada. Eu chego em casa triste. Eu falo, coitado do que fica com a cabeça desse tamanho. Aí eu falo: “Não Renata, seu exercício por favor”.“Renata, aceite o outro. Aceite o outro”. Mesmo que eles não estejam te respeitando, porque deveria ver isso também ?! Pelo menos esse que está a cinco km, ele está com você um pouquinho. E não reclamar por você estar nesse período, diz: “Oh! Eu não consigo te alcançar, mas tudo bem”. Mas não, ele te derruba porque você está muito acelerado.