Stéphani Cetimia Mariotti Ruiz 3 Nelson Russo de Moraes
2 Análise da literatura
2.3 Definições e modelos de análise 1 Políticas públicas
2.3.3 Ciclos ou processos de gestão
Também voltado à simplificação dos processos da política pública, o modelo dos estágios, criado por Lasswell, é “[...] um guia lógico e cronológico para os observadores que queiram ver atividades importantes em determinada sequência ou padrão ordenado” (RIPLEY, 1995, p. 157, tradução nossa). Com esse modelo, seria possível a construção de um mapa contextual dos processos, opções e resultados da política pública, com o qual se torna possível obter maior conhecimento sobre as decisões e sobre os processos de tomada de decisão imbuídos na escolha pública (HUPE, HILL, 2006).
Desde a especificação dos estágios da política pública de Lasswell (inteligência, promoção, prescrição, invocação, aplicação, terminação e avaliação), houve a criação de diversas variações desse modelo, algumas com mais e outras com menos estágios. Apresentamos aqui as etapas de preparação da decisão política,
agenda setting, formulação, implementação, monitoramento e
avaliação, a partir das quais grupos de atividades são traduzidos em produtos identificáveis, os resultados de cada etapa (RIPLEY, 1995). Na fase de preparação da decisão política há a identificação do problema. Esse pode ter um surgimento súbito, como um desastre natural, ou surgir gradual e progressivamente a partir da deterioração das condições em que se insere. Pode-se dizer que a percepção de um problema se concretiza com a insatisfação de muitos atores relevantes sobre determinado assunto, tornando-se
real quando é definido e vinculado a uma ou várias soluções (SECCHI, 2010). Nesta etapa, em especial, há sempre a competição dos grupos de interesse quanto à delimitação do problema e quanto às soluções a ele adequadas, de modo que os atores mobilizam recursos diversos na tentativa de promover suas visões sobre esse, a fim obter apoio junto ao governo (RODRIGUES, 2010).
A fase de agenda setting, também chamada de definição da agenda, diz respeito ao conjunto de “[...] temas e problemas que são alvo em dado momento de séria atenção, tanto da parte das autoridades governamentais como de pessoas fora do governo, mas estreitamente associadas às autoridades” (KINGDON, 2006, p. 222). Neste ponto, um dos questionamentos mais evidentes volta-se ao motivo por que apenas alguns temas e problemas são examinados, em detrimento de outros
Para Kingdon (2006), a existência de três fluxos distintos (problemas, políticas e participantes) pode ajudar a responder a essa pergunta. No fluxo dos problemas, indicadores com valores inadequados, eventos de grande magnitude e feedbacks formais ou informais podem fazer com que mais atenção se volte a certas questões, podendo ser essas, então, reconhecidas como problemas. Já no fluxo da política, um novo governo, um ambiente político favorável, e o nível de força da oposição podem exaltar ou minar a consideração de uma questão. No fluxo dos participantes, os quais se dividem entre visíveis e invisíveis, os primeiros são aqueles que recebem grande atenção da mídia (presidente, congressistas, assessores de alto escalão etc.), os quais têm maior poder de definir a agenda, e os segundos aqueles que têm influência na escolha de alternativas, apesar de não tão evidentes no processo da política – acadêmicos, pesquisadores, consultores, burocratas etc. Esses fluxos múltiplos são responsáveis pela priorização que recebe uma questão.
Com respeito à fase de formulação, nela são determinados os cursos de ação para atacar o problema público já definido, momento também da formação de coalizões que preparam o ambiente para o
compromisso e enfrentamento coletivo do problema (RODRIGUES, 2010). Nesta fase, são exigidas avaliações ex ante, as quais têm como finalidade o desenvolvimento de alternativas. Algumas das avaliações mais comuns são as projeções, prognósticos baseados em indicadores; as predições, baseadas em métodos quantitativos; e as conjecturas, juízos de valor produzidos por profissionais experientes da área (SECCHI, 2010).
A implementação é a etapa em que as decisões são expressas em ações (WU et al, 2014), exigindo, portanto, a aquisição de diversos tipos de recursos, especialmente os humanos, financeiros, materiais e tecnológicos, os quais devem se adequar ao tempo e à finalidade da política (SARAVIA, 2015). Além disso, são também necessárias a interpretação das leis e o planejamento das atividades, de modo que a política possa ser coordenada para evitar ou dirimir conflitos durante este processo (RIPLEY, 1995).
O monitoramento e a avaliação correspondem, respectivamente a avaliação durante a implementação da política e após ela. Alguns dos critérios de possível aplicação nesta fase são a economicidade, ou seja, a quantidade de recursos dispendidos para a realização da política até sua etapa atual; a eficiência econômica, relativa à proporção do rendimento a partir do gasto; a eficiência administrativa, ou seja, a conformação aos métodos pré- estabelecidos de implementação; a eficácia, concernente ao alcance dos objetivos definidos pela política; e a equidade, homogeneidade com quem foram distribuídos benefícios e sanções aos destinatários das políticas (SECCHI, 2010).
Apesar de bastante acessível, o modelo de ciclos deve ser usado com cuidado. São diversas as críticas feitas a ele, as quais, contudo, não lhe impugnam a validade como um instrumento de aproximação da realidade complexa das políticas públicas. Sabatier (2007) critica a ausência de causalidade no modelo, apontando que suas etapas são distintas entre si, o que não possibilita o estabelecimento de hipóteses dentro e ao longo de cada uma das fases; a imprecisão do ordenamento das fases, a exemplo das
avaliações que podem afetar tanto a definição da agenda como a formulação e implementação; o enviesamento legalista e top-down do modelo, cujo foco se dá na passagem de grandes peças legislativas, negligenciando a implementação e avaliação de outras políticas menos proeminentes no mesmo domínio; e a supersimplificação de processos múltiplos que ocorrem e interagem com outras políticas em diferentes níveis de governo, os quais continuamente afetam a conceitualização do problema.
3 Considerações finais
Os esforços aqui empregados tiveram como objetivo a enumeração de alguns conceitos introdutórios ao campo de estudos da política pública. Sua realização se justifica pelo enorme impacto causado por essa na vida das pessoas, as quais, pela não familiaridade com a questão, não conseguem fazer sentido do que consideram uma verdadeira irracionalidade, traduzida na evidente ineficácia do setor público.
A necessária desmistificação dos processos político- administrativos vai ao encontro da necessidade de todos os cidadãos, em especial, dos atores envolvidos diretamente nas políticas públicas, de obterem conhecimento a partir dos processos políticos, os quais podem servir ao cidadão para o aumento da vigilância e participação nas decisões públicas e ao gestor público como uma oportunidade para o aumento da eficácia em sua função. Importa ressaltar que os estudos de políticas públicas se encontram em estágio de desenvolvimento e que a natureza multidisciplinar do campo abre oportunidades para que as diversas áreas do conhecimento possam realizar suas contribuições. Nesse sentido, é válido lembrar do potencial englobado pelas políticas, uma vez que, quando eficazes, traduzem as necessidades dos cidadãos e são emancipatórias, aumentando, portanto, a possibilidade do exercício da cidadania segundo os parâmetros sociais vigentes, objetivo último dos desenvolvimentos na área.
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