• Nenhum resultado encontrado

4 CONCEITOS QUE MOLDAM A COMPREENSÃO DA CIDADANIA

4.7 Cidadania e a perspectiva social e cultural

Liszt Vieira (2001), fundamentado em Thomas Janoski, argumenta que além de direitos e obrigações, a cidadania envolve o sentimento de pertencimento. Desse modo, não bastam os sentidos formais regularizados pela norma, também deve ser considerado o anseio da pertença à comunidade manifestado pelo indivíduo, em especial o migrante.

Sassen (2014) revela que muitos migrantes na Europa não tem a intenção de adquirir a nacionalidade do país em que residem, nem mesmo se possuem os requisitos exigidos. A identidade, lealdade ao país de origem e a esperança de regressar são fatores que contribuem a essa renúncia, conforme a autora. Nesse sentido, é relevante identificar o sentimento e o desejo manifestado pelo migrante de pertencer ao território em que se estabelecem, principalmente porque pelo fato de serem “estrangeiros”, muitas vezes são rejeitados e excluídos do meio social em que passam a frequentar.

Algumas falas de haitianos em Lajeado permitem corroborar a análise de Sassen. Sobre a possibilidade de voltar ao Haiti, um colaborador da pesquisa afirmou que “quer, todo mundo quer, todo dia é muito difícil a saudade”. O sentimento de saudade manifestado pelo haitiano nessa conversa foi comovente e evidencia a ideia difundida por Hall (2003, p. 28) sobre a “promessa do retorno redentor” na experiência diaspórica.

Parafrasendo Hall (2003), essa esperança do povo caribenho de voltar ao seu local de origem pode ser entendido como mito fundador - mito que molda os imaginários, influencia as ações e confere significado e sentido à vida. O colaborador falou que embora queira voltar ao Haiti, “agora não dá, há muito problema lá ainda, Haiti não melhorou, agora tem problemas políticos; o que sempre teve, na verdade”. A identidade cultural na diáspora é uma questão histórica, segundo Hall (2003), e esse fenômeno também pode influenciar na decisão da naturalização.

Sassen (2014) diz que a naturalização está carregada de questões simbólicas de identidade e lealdade que os migrantes, muitas vezes, não estão dispostos a aceitar. Ademais, conforme explicou um haitiano, se a pessoa tem dupla nacionalidade no Haiti “perde o direito político, não pode votar ou ser votado no país”. Perguntado se ele tinha interesse em se naturalizar, ele respondeu, com risos,

que “às vezes sim, às vezes não”.

Ainda citando Sassen (2014), a autora informa que na naturalização há dois tipos de mudança: uma que se refere ao status como membros formais de comunidades políticas e outra na mudança de direitos em dois países. Por essas questões, alguns migrantes haitianos são relutantes em renunciar seus direitos nos países de origem para obter naturalização, mesmo desejando integrar-se plenamente no país em que estão residindo, no caso o Brasil.

Seguindo as teorizações, Marshall (1967) inclui na definição de cidadania a titularidade de direitos básicos, a preocupação com a justiça social e com a identidade coletiva, abandonando o caráter estritamente político e jurídico do conceito. Ultrapassa a ideia convencional de que a qualidade de membro de uma comunidade é predominantemente uma questão política, agrega os direitos sociais. A cidadania, assim, é um fator indispensável para promover a inclusão social e para combater a desigualdade (KERBAUY; TRUZZI, 2007; BARBALET, 1989).

Santos (2001, p. 243) aponta que a cidadania social emergiu no segundo período do capitalismo, o qual ele classifica como capitalismo organizado, e se caracteriza “pela passagem da cidadania cívica e política” para a cidadania social, “que é a conquista de significativos direitos sociais, no domínio das relações de trabalho, da segurança social, da saúde, da educação e da habitação por parte das classes trabalhadoras das sociedades centrais”.

O autor afirma que a cidadania social é uma conquista ou do “movimento operário” ou é uma “concessão do Estado capitalista”, mas evidencia que, pelo menos, as lutas sociais da classe operária foram essenciais para que as concessões ocorressem. O autor aponta outros fatores como contribuintes da “expansão e o aprofundamento da cidadania social”, entre eles a guerra e as migrações” (SANTOS, 2001, p. 244-245).

A cidadania, no sentido social, implica sentimento comunitário, processos de inclusão de uma população, conjunto de direitos civis, políticos e econômicos. O cidadão é membro de uma comunidade e esse pertencimento possibilita, além de obrigações, a reivindicação de direitos, a busca da alteração das relações no interior da comunidade, a tentativa de redefinição dos seus princípios e de sua identidade simbólica e a redistribuição dos bens comunitários (GUARINELLO, 2015).

Assegurar os direitos sociais das populações deslocadas é um desafio, pois atender os direitos sociais desses indivíduos diante da demanda e da urgência

necessária pressupõe investimento em recursos humanos, econômicos e institucionais (SPAREMBERGER; BÜHRING, 2010). O ser humano para viver dignamente precisa de condições que permitam a sua sobrevivência biológica e, além disso, o seu desenvolvimento como ser social, que o capacite a fazer escolhas e ser protagonista de sua história, de modo que existem necessidades individuais e coletivas a serem satisfeitas para a pessoa se desenvolver conforme a sua natureza humana (SILVA; PRATES, 2009).

Marshall procedeu na divisão da concepção de cidadania, definindo-a em um conjunto de três tipos de direitos: “civis (conquistados no século XVIII), políticos (conquistados no século XIX) e sociais (alcançados no século XX)”, congregando “o conceito de igualdade à ideia de cidadão”, de modo que direitos e igualdade são as duas características mais importantes de sua definição (KERBAUY; TRUZZI, 2007, p. 126).

Barbalet (1989) definiu que o elemento civil da cidadania é composto pelos direitos necessários à liberdade individual, sendo que a instituição que melhor lhe representa é o sistema judicial e as leis. O elemento político da cidadania consiste no direito de participar no exercício do poder político, direitos que estão ligados às instituições parlamentares. Já o elemento social da cidadania constitui-se pelo direito ao nível de vida e ao patrimônio social da sociedade, direitos realizados, predominantemente, por meio dos serviços sociais e do sistema educativo.

Os direitos de cidadania para alguns grupos, muitas vezes, são limitados. Os direitos das minorias e dos grupos vulneráveis continuam sendo “conquistas sociais que não saem do papel pela bondade dos detentores do poder, mas pela pressão do povo na rua, nos movimentos, nas organizações sociais”, exercendo seus direitos políticos (BENEVIDES, 2010, p. 95). A cidadania social é construída em decorrência da atuação de novos sujeitos sociais, sujeitos representantes de movimentos sociais e populares que têm contribuído nas mudanças de concepção de cidadania e os direitos inerentes a ela (CESAR, 2002). Aqui se valoriza o caráter dinâmico da cidadania, como um conceito em transformação (MEZZADRA, 2015).

Na América Latina os movimentos sociais estão propiciando uma redefinição do que se entende por cidadão, não somente em relação aos direitos de igualdade mas também em relação aos direitos à diferença. Os direitos, assim como o conceito de cidadania, são importantes como algo que se constrói e se altera em relação às práticas e discursos (CANCLINI, 1999).

A “noção estatizante de cidadania” diante da diversidade multicultural provocada pelas migrações deve ser reconceitualizada. A cidadania, nos termos de Canclini (2009, p. 47), deve ir além da “estrutura formal de uma sociedade”, também deve indicar “o estado da luta pelo reconhecimento dos outros como sujeitos de interesses válidos, valores pertinentes e demandas legítimas”. Para o autor, a cidadania deve ter como propósito a “estratégia política” para “abranger as práticas emergentes não consagradas pela ordem jurídica”.

Conforme Hammes e Pellegrini (2010), o sentido vivenciado atualmente é de que para viver em sociedade o homem necessita ouvir e ser ouvido, participar ativamente das decisões e utilizar os meios disponíveis para garantir a justiça e a democracia. É preciso que a cidadania seja pensada de modo inerente à concepção de democracia, a fim de estabelecer propósitos comuns em uma sociedade caracterizada pelo pluralismo e diferenças sociais. Para isso, é importante criar valores comuns para favorecer a identificação de diferentes grupos na mesma sociedade (LEAL, 2000).

Na concepção de Guarinello (2015, p. 46), somente há cidadania efetiva em uma comunidade quando há espaço para a ação coletiva e para a construção de projetos para o futuro. Para ele, mesmo em uma comunidade em que há “situações sociais, aspirações, desejos e interesses conflitantes”, as ações devem convergir ao caráter público e impessoal, refletindo em todos, indistintamente.

Conforme estudos realizados nos Estados Unidos sobre cidadania cultural, ser cidadão não diz respeito apenas aos direitos reconhecidos pelos aparelhos estatais para os que nasceram em um território, mas também se refere às práticas sociais e culturais que dão sentido de pertencimento e fazem com que se sintam diferentes os que possuem uma mesma língua e modos semelhantes de organização e de satisfação das necessidades (CANCLINI, 1999).

O aumento dos fluxos migratórios demanda novas funções ao Estado porque o reconhecimento do direito de ação do migrante no espaço público do qual faz parte a partir da sua chegada no território em que se estabelece, geralmente, não é o mesmo espaço-tempo da cidadania (NASCIMENTO; PORTELLA, 2016), ou seja, o conceito da cidadania não acompanhou a processo de intensificação das migrações, o que resultou numa desarmonia e incompletude do conceito quando se discute as migrações e os indivíduos que circulam entre territórios nacionais distintos.

membros de uma sociedade, mas no caso do migrante nem sempre se encontra respaldo legal para o seu completo reconhecimento de integração na comunidade política que se inseriu. Como afirma Cogo (2007, p. 66), as migrações internacionais desafiam a cidadania em vista de que “as afirmações e negociações de múltiplas subjetividades ou identidades migrantes”, bem como “as diversificadas mobilidades e ocupação de espaços territoriais e simbólicos pelos migrantes” desafiam a soberania dos Estados Nacionais e contribuem para atribuir novas especificidades às vivências e demandas por cidadania dos migrantes.

Essa demandas podem ser manifestadas em espaços que possibilitem a efetiva democracia por meio da deliberação participativa, onde haja oportunidade de diálogo racional entre os atores envolvidos e interessados nas tomadas de decisão (HABERMAS, 1990; SANTOS, 2010). A cidadania pautada na democracia deve primar pela igualdade e participação nos espaços comunitários, de modo que o cidadão participe dos projetos de organização do Estado (BOFF, 2015).

Delmas-Marty (2003, p.175) alerta: “é a sociedade civil que põe em movimento as instituições e as anima” de modo que “reduzir a democracia apenas às instituições públicas revelaria uma atitude acomodada”. Cita que ao se tratar da migração, “o papel das associações e dos cidadãos” é “determinante na evolução das práticas e das leis”. Nesse sentido, é preciso que os migrantes ajam e participem dos debates nos espaços públicos – nos quais o indivíduo “poderia às vezes se expressar e intervir” (DELMAS-MARTY, 2003, p. 177) - pois, assim, podem reivindicar políticas públicas que atendam às suas demandas específicas.

A cidadania, no sentido social, implica sentimento comunitário, processos de inclusão de uma população, conjunto de direitos civis, políticos e econômicos. Ainda, possibilita, além de obrigações, a reivindicação de direitos, a busca da alteração das relações no interior da comunidade, a tentativa de redefinição dos seus princípios e de sua identidade simbólica (GUARINELLO, 2015).

A cidadania deve contemplar, além de direitos e deveres, a participação individual e coletiva na construção da sociedade. A complexidade da cidadania reside no fato de que ela não implica, obrigatoriamente, no seu exercício efetivo: muitas vezes se questiona a legitimidade das instituições relacionadas aos direitos e o esforço desempenhado por elas para o alcance das premissas contidas no significado da cidadania.

políticas fundamentadas em interesses específicos estatais, o Estado deve facilitar o acesso dos migrantes aos espaços-públicos para que eles possuam a efetiva participação nos espaços de deliberação e tomadas de decisão, exercendo a cidadania que diz respeito, também, à participação na vida pública e ao exercício dos direitos humanos.

Douzinas (2009) alerta que os direitos humanos não devem ser invocados com a pretensão de universalizar e uniformizar os indivíduos que clamam por igualdade jurídica e oportunidades nos espaços públicos. O mundo não deve se basear na uniformidade - mas sim na diferença. É reconhecendo as diferenças que, por meio da ética da alteridade, se reconhece o “outro” e, assim, se caminha para a construção de outro mundo, em que as particularidades, singularidades sejam respeitadas.

Cada povo tem sua própria cultura e, como diz o autor (2009, p. 354), “se existe algo verdadeiramente ‘universal’ no discurso dos direitos humanos, [...], isto talvez seja o reconhecimento da absoluta singularidade da outra pessoa e do meu dever moral de salvá-la e protegê-la”. A “natureza humana (o universal) está constituída na e por meio da sua transcendência pelo mais particular” (DOUZINAS, 2009, p. 373), razão pela qual uma “lei que protege os direitos humanos” deve respeitar as particularidades de cada ser.

A cidadania, em termos gerais, representa a fruição de direitos e deveres dos indivíduos que são reconhecidos, pelo Estado, como cidadãos em determinado território. No contexto da migração, no entanto, a cidadania tem a sua abrangência limitada uma vez que os atores sociais em questão são indivíduos não nacionais, ou seja, não pertencem ao território. O Estado, como demonstrado, é um agente promotor de diferenciação e exclusões e seu poder efetivo e simbólico atua, muitas vezes - e, inclusive, por meio da lei -, incluindo o indivíduo não nacional sob a condição de migrante a fim de impedir ou dificultar o seu acesso à determinados direitos e liberdades nos espaços de mobilidade.

Embora seja importante a abordagem que referencie a cidadania em seu sentido epistemológico e, sobretudo, a cidadania dos migrantes (ou sua possibilidade), não se pode ignorar as construções teóricas e práticas que a definem sob o ponto de vista estatal, mesmo que explicite uma ideia repressora e limitadora à questão migratória. E, para refletir sobre essa abordagem, foi feita uma descrição do conceito da cidadania.

Como propõe Mezzadra (2015, p. 27), é preciso “des-enfatizar” o foco na cidadania nos estudos contemporâneos que abordem a migração, a fim de ampliar as diferentes perspectivas “com o intuito de elucidar as questões [...] e as tensões subjetivas que marcam hoje a experiência migratória”. Teorias já foram elaboradas no intuito de ressignificar o conceito e ampliar a sua abrangência em diferentes âmbitos, como em relação aos aspectos culturais que diferenciam indivíduos, pretendendo que a cidadania seja capaz de efetivar direitos e deveres dos indivíduos independente do elo nacional-territorial e, ainda, a fim de não excluir indivíduos que, porventura, não estejam de acordo com o que o Estado determinou como “cidadão”.

Hannah Arendt (2000; 2005), ao vivenciar o período histórico conturbado das guerras mundiais, denunciou a desigualdade de direitos entre seres humanos e, a partir disso, idealizou que a igualdade entre pessoas, sobretudo a política, requer acesso ao espaço público e, nesse espaço, a cidadania significa o direito a ter direitos.

A esfera pública, nos termos de Arendt (2005, p. 62), é um mundo comum a todos, mundo que ao mesmo tempo “separa e estabelece uma relação entre os homens”, é espaço onde há diálogo, comunicação entre os pares, liberdade e ação comum. Para a autora, é preciso “ser visto e ouvido” nos espaços públicos, e “este o significado da vida pública [...]” (ARENDT, 2005, p. 67). É um espaço de ação, onde além de ser possível deliberar e agir na dimensão política, também se tenha liberdade para vivenciar práticas sociais e culturais.

E é justamente essa possibilidade dos migrantes haitianos agirem nos espaços públicos nas cidades em que estão estabelecidos, reivindicando, demandando liberdade para manifestarem seus direitos de expressão, seus direitos culturais, civis, políticos, etc., independente das barreiras impostas pelo Estado, que a pesquisa concentra sua análise.

As práticas sociais foram descritas por Pierre Bourdieu, sociólogo em que se debruça a fim de elucida-las, teoricamente, no capítulo seguinte. No próximo capítulo também serão detalhadas as práticas sociais do universo haitiano observadas na pesquisa, cuja liberdade de exercício deve ser considerada como condição de cidadania.

5 O EXERCÍCIO DAS PRÁTICAS SOCIAIS HAITIANAS NO