1 OS ESPAÇOS LIVRES, O COMÉRCIO, AS CIDADES SAUDÁVEIS, A
1.5 AS CIDADES SAUDÁVEIS
1.5.1 Cidade e qualidade de vida
Como visto, pela perspectiva atual depreende-se que a cidade é o local do urbano, ainda que, nem toda área urbanizada possa ser uma cidade. Essa visão atualizada das cidades, como se conhece, iniciou-se a partir da Revolução Industrial, no século XVIII, a princípio na Inglaterra e depois se espalhando por outras localidades da Europa e nos Estados Unidos, tendo por princípio um amplo agrupamento de pessoas conectadas a intricadas relações sócio econômicas, referentes, entre outros fatores, à industrialização, ao movimento de pessoas e mercadorias e aos fluxos de capitais (Figura 28).
Figura 28: Fábricas químicas na cidade de Ludwigshafen, Alemanha em pintura de Robert F. Stieler de 1881
Fonte: STIELER, 1881 in BASF, 2018
Todas essas características, ao analisarmos uma paisagem tipicamente urbana marcada pelos equipamentos físicos que passaram a significar a cidade, tais como edifícios, pavimentação, iluminação e obras estruturais, aliadas ao intenso individualismo que marca a era da urbanização, se refletem de forma contundente na qualidade de vida de seus habitantes (Figura 29).
Figura 29: Melbourne, Austrália: arquétipo de apropriada qualidade de vida entre as cidades49
Fonte: Adaptado de MELBOURNE, 2018
Por qualidade de vida ou bem-estar de uma população entendem-se, de forma genérica, suas condições de vivência, pela promoção de determinados bens e serviços socioeconômicos como saúde, nutrição apropriada, saneamento, habitação, ofício e remuneração, instrução, acesso a transporte de qualidade, bem como acesso à arborização urbana adequada. Porém, é importante ressaltar que pode haver variação no conceito de bem- estar, de uma coletividade para outra, conforme os parâmetros culturais de cada sociedade. Habitualmente para os ocidentais, a democracia é um fator peremptório na construção de um ambiente citadino benéfico. Para algumas sociedades essa construção não passa, necessariamente, pela soberania popular. Por exemplo, os casos de Melbourne, na Austrália, e Cingapura. Situadas, respectivamente, na Oceania e na Ásia, e com Índice de
Desenvolvimento Humano - IDH50, acima de 0,9 (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES
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A cidade de Melbourne, na Austrália, foi eleita pelo sétimo ano consecutivo a melhor cidade do mundo para se viver pela revista The Economist. O ranking da publicação é feito com 140 cidades e leva em consideração fatores como segurança, sistema de saúde, infraestrutura, meio ambiente e educação. Segundo BRANCO (2017), ―o passatempo do fim de semana para boa parte dos 4,5 milhões de moradores de Melbourne, a segunda maior metrópole da Austrália, é flanar nos arredores da Federation Square, uma praça de 32.000 metros quadrados em frente à maior estação de trens e bondes da cidade. A inauguração da Federation Square, em 2002, marcou uma guinada na história de Melbourne. Após décadas de decadência urbana, a cidade investiu em espaços públicos e flexibilizou as regras para incentivar a vinda de moradores para a área central. As pessoas passaram a ocupar novamente as ruas, aumentando a sensação de segurança, gerando negócios e aproveitando melhor as escolas e os hospitais que a região já tinha‖.
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Segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNDUD (2017), o ―Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é uma medida resumida do progresso em longo prazo, em três dimensões básicas do desenvolvimento humano: renda, educação e saúde. O objetivo da criação do IDH foi o de oferecer um contraponto a outro indicador muito utilizado, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita, que considera apenas a dimensão econômica do desenvolvimento. Criado por Mahbub ul Haq com a colaboração do economista indiano Amartya Sen, ganhador do Prêmio Nobel de Economia de
UNIDAS - ONU, 2015), ambas possuem dos níveis de vida mais altos do mundo. Corroborando com o supracitado, segundo o ―Global Liveability Report 2017‖, estudo publicado pela revista inglesa The Economist (2017)51 que listou as melhores cidades do mundo para se morar, essas urbes estão entre as de melhor qualidade de vida (Figura 30).
Figura 30: Marina Barrage52, em Cingapura, parque inaugurado em 2008
Fonte: Adaptado de THE INTERNATIONAL GREENROOF & GREENWALL PROJECTS, 2018
Contudo, enquanto Melbourne situa-se em uma das mais reconhecidas democracias globais, Cingapura é uma Cidade-Estado cujo instituidor, Lee Kuan Yew, apoiava que ―o exemplo de democracia liberal ocidental não podia ser aplicado num país em desenvolvimento‖ (SALVÁ, 2015). Segundo Salvá (2015), Yew estabeleceu um estado com ―férreo controle das liberdades individuais, o qual foi pouco abrandado desde então‖, sendo 1998, o IDH pretende ser uma medida geral e sintética que, apesar de ampliar a perspectiva sobre o desenvolvimento humano, não abrange nem esgota todos os aspectos de desenvolvimento‖.
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De acordo com a revista inglesa The Economist, em seu estudo anual intitulado “The Global Liveability Report 2017‖, ou ―relatório global de habitabilidade‖, em livre tradução, foram ponderados 30 critérios de averiguação fracionados em cinco classes: educação, infraestrutura, estabilidade, meio ambiente e cultura.
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A Barragem da Marina é uma barragem de 350m de largura construída na confluência de cinco rios, através do Canal da Marina para criar o primeiro reservatório urbano de Cingapura. O reservatório aumenta o abastecimento de água de Cingapura, alivia as inundações em áreas baixas e proporciona uma nova atração de estilo de vida e local para atividades recreativas. ―Com uma área de captação de 10.000 hectares, ou um sexto do tamanho de Cingapura, a Marina é a maior e mais urbanizada bacia da ilha‖. Juntamente com outros dois reservatórios, a Marina Reservoir aumentou a captação de Cingapura de metade para dois terços da área terrestre do país (THE INTERNATIONAL GREENROOF & GREENWALL PROJECTS, 2018).
que o ‖mesmo partido governa o país há meio século, tendo vencido todas as eleições‖ (SALVÁ, 2015).
A despeito desse fato, segundo o ―Relatório Mundial da Felicidade‖, estudo realizado pela Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável da ONU (2017), que listou as populações mais felizes do mundo em 2017, a população de Cingapura estava na 26ª posição entre as mais contentes do planeta, de um total de 140 países. De forma alguma este autor pretende fazer apologia a um ou outro sistema, seja ele democrático ou autocrático, mas apreende-se, pelo estudo citado, que valores intangíveis como a liberdade de expressão, ficam, por vezes, em segundo plano, quando se trata da percepção de qualidade de vida de uma população. Importante ressaltar que qualidade de vida e saúde são dois conceitos que formam um elo. Adriano et al (2000, p.54) explicam que,
[...] em uma concepção moderna, saúde é o resultado de um processo de produção social que expressa a qualidade de vida de uma população. A saúde é considerada produto social, isto é, resultado das relações entre os processos biológicos, ecológicos, culturais e econômicos sociais que acontecem em determinada sociedade e que geram as condições de vida das populações. (ADRIANO et al, 2000, p.54).
Assim, nessa percepção ampliada, a saúde é ―mais do que ausência de doença é um estado adequado de bem-estar físico, mental e social que permite aos indivíduos identificar e realizar suas aspirações e satisfazer suas necessidades‖ (ADRIANO et al, 2000, p.54). Segundo a carta de Otawa (1986), elaborada na I Conferência Internacional de Promoção da Saúde realizada no Canadá,
[...] promoção da saúde é o nome dado ao processo de capacitação da comunidade para atuar na melhoria de sua qualidade de vida e saúde, incluindo uma maior participação no controle deste processo. Para atingir um estado de completo bem- estar físico, mental e social os indivíduos e grupos devem saber identificar aspirações, satisfazer necessidades e modificar favoravelmente o meio ambiente. A saúde deve ser vista com um recurso para a vida, e não como objetivo de viver. Nesse sentido, a saúde é um conceito positivo, que enfatiza os recursos sociais e pessoais, bem como as capacidades físicas. Assim, a promoção da saúde não é responsabilidade exclusiva do setor saúde, e vai para além de um estilo de vida saudável, na direção de um bem-estar global. (CARTA DE OTAWA, 1986).
O mesmo documento ressalta que são pré-requisitos basilares para a promoção da saúde a paz, a educação, a moradia, a alimentação, a renda, um ecossistema estável, a justiça social e a equidade, sendo as pessoas consideradas sujeitos determinantes do método e potencialmente adequadas no domínio dos fatores decisivos com relação à sua saúde.
Nele foram, ainda, deliberados cinco campos funcionais para a promoção da saúde, que são a ―elaboração de políticas públicas saudáveis, criação de ambientes favoráveis, fortalecimento da ação comunitária, desenvolvimento de habilidades pessoais e mudanças nos estilos de vida e a reorientação dos serviços de saúde‖ (ADRIANO et al, 2000, p.54).
Nesse contexto o movimento ―Cidades Saudáveis‖ pressupõe, para além de apenas uma conceituação, estratégias de ascensão da saúde urbana com a finalidade de melhoria da condição de vida da população.