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1.1 Sobral na Historiografia

1.1.1 Cidade estagnada

Herbert Rocha afirma que, do ponto de vista cultural, na segunda metade do século XX Sobral deixa de ser eurocêntrica para receber influência americana, ou seja, o acelerado declínio da economia local teria propiciado, na sua “classe dominante” local,

[...] uma personalidade anacrônica, ostentando um poder sem lastro e ou patrimônio sem liquidez, uma opulência alicerçada na virtualidade emanada dos importantes so-brenomes do passado. [...] o verniz da aristocracia local sobralense acabaria por transformar-se em gravura Kits-ch (de qualidade inferior) na medida em que o capital local mudava de mãos e, de sobrenome, surgindo uma nova classe empresarial mais pobre, descompromissada com a história local, porém herdeira de sua fama.29 Rocha acrescenta que outras cidades regionais sofreram também esse declínio, embora Sobral tenha sentido mais dramaticamente, devido à su-pervalorização do “ego” daquela sociedade, fermentada pelo bispado de Dom José T. da Frota. Apesar de reconhecer o caráter elitista do projeto urbanístico da Igreja para a Sobral do início do século XX, Rocha faz duras críticas aos gestores da cidade nas décadas de 1960-70-80. Ele dedica o último capítulo do seu livro à segunda metade do século XX, intitulado simbolicamente de Uma noite de 50 anos, embora se refira especificamente a menos de 40 anos. Para Rocha, a morte de Dom José Frota, que fora o centralizador das diretrizes do desenvolvimento da cidade, somada à inter-rupção do processo democrático nacional com a tomada do poder central pelos militares em 1964, agravaram a falta de direção política de Sobral:

29 ROCHA, Herbert. O lado esquerdo do rio. São Paulo: Hucitec: Secretaria de Desenvolvimento da Cultura e Turismo, Sobral: Escola de Formação de Saúde da Família Visconde de Sabugosa, 2003, p. 19-20.

Observou-se naquele período a gradativa hegemonia políti-ca de grupos familiares, mais destapolíti-cadamente a oligarquia Barreto e Prado, oriundos das hostes udenistas e petebistas (leia-se Sabóia e Monte), que sem compromisso com o papel histórico de Sobral no desenvolvimento regional do Ceará, não perceberam a involução do quadro sócio-econô-mico nacional que afligiu as cidades interioranas do Brasil.30 A principal crítica de Herbert Rocha aos gestores da segunda metade do século XX, os grupos políticos Prado e Barreto, é a falta de investi-mentos urbanos. Para ele, houve um intenso crescimento urbano que não encontrou correspondência na qualidade espacial da zona central e nos serviços de infraestrutura:

[...] a contribuição arquitetônica dos estabelecimentos co-merciais e de serviços na paisagem urbana se processou de forma desconexa com o entorno. O lucro passou a superar todos os outros valores sócio-culturais que norteavam às intervenções urbanísticas.31

O autor reconhece certo crescimento econômico propiciado pela instalação de várias indústrias que prosperam até depois de século XX, assim como reconhece o crescimento urbano e populacional, propicia-do pela migração, e a importância da criação propicia-do primeiro plano diretor da cidade, mas volta a insistir que, apenas na última década do século XX, a cidade retomaria seu desenvolvimento:

Este processo de decadência social, política e econômi-ca experimentado por Sobral teve sua marcha sustada na última década do séc. XX. Há que se destacar o resgate da auto-estima do sobralense, fruto de uma conjugação de fatores estratégicos que merecem um novo estudo de desenvolvimento sobralense. Dentre esses fatores são no-tórios: o crescimento da Santa Casa de Misericórdia [...];

o crescimento da Universidade Estadual Vale do Acaraú [...]; a instalação da fábrica gaúcha de calçados Grendene Sobral S/A[...]; o surgimento de novos líderes políticos locais [...]; ... a eleição em 1996 do Prefeito Cid Gomes, marcando a retomada do desenvolvimento da cidade.32

30 Ibid., p. 217.

31 Ibid., p. 221.

32 Ibid., p. 221.

Quando Herbert Rocha descreveu a “cidade de D. José” o autor dei-xou muito claro a relação de identificação entre o projeto moderno do bispo e as ideias autoritárias da aristocracia local. O que mudaria nas décadas seguintes aos anos 50, além da morte do bispo? O que o regi-me militar trazia de novo, já que Prado e Barreto eram herdeiros dos contemporâneos de Dom José Tupinambá? Não fica claro, portanto, na análise do autor de que decadência ele fala quando se refere à cidade de Sobral na segunda metade do século XX.

Infelizmente, o período relativo às décadas de 1960, 70 e 80 não fa-zia parte do projeto da obra de Rocha e, por isso, o autor dedica poucas páginas a esse momento, o que dificulta uma melhor compreensão da sua tese sobre essa época. Uma leitura muito semelhante vai aparecer nas obras da historiadora Glória Giovana Saboya Mont’Alverne Girão33 e do filósofo José Teodoro Soares.34

Em Sobral História e vida, Giovanna Girão e Norma Soares ressaltam que, embora a cidade de Sobral sempre tenha sido uma cidade em desen-volvimento, justifica-se o título de segundo fundador da cidade outorgado a D. José, já que ele foi o grande empreendedor do desenvolvimento de Sobral no século XX. Segundo as autoras, o bispo dotou a cidade dos ins-trumentos básicos necessários ao exercício da função social e cultural que hoje desempenha na Zona Norte Cearense. Tal foi a influência do bispo, que o crescimento de Sobral se ressentiu com a sua morte. Elas afirmam que a morte de Dom José Frota, em 1959, e a paralisação da ferrovia Camocim-Sobral, em 1977, com a consequente desativação do porto de Camocim, teriam contribuído para a estagnação econômica e cultural de Sobral, e concluem:

O progresso só foi retomado nos últimos anos, com a che-gada de novas indústrias e a expansão da Universidade

Es-33 GIRÃO, Glória Giovana S. M.; MAIA SOARES, Maria Norma. Sobral – história e vida.

Sobral: Edições UVA, 1997, p. 92.

34 SOARES, José T. A Idéia de modernidade em Sobral. Fortaleza: Edições UFC/Edições UVA, 2000, p. 38.

tadual Vale do Acaraú, que desempenha papel preponde-rante na transformação do perfil sócio-econômico-cultural da Zona Norte do Estado.35

Teodoro Soares, do mesmo modo, diz que Sobral só recuperou seu prestígio nos anos de 1990, a partir de três motivos:

O crescimento e a preeminência da Universidade Esta-dual Vale do Acaraú no contexto das médias instituições de ensino, pesquisa e extensão do País; a nova fase dos empreendimentos religiosos e sociais da Diocese, a partir do presbiterato de Dom Aldo de Cillo Pagotto, inaugurado em 1998; e a ascensão, ao governo municipal, do Dr. Cid Ferreira Gomes, cuja administração moderna e eficiente neutralizou o clientelismo fortemente arraigado nas ações da prefeitura desde épocas imemoráveis. A parceria entre esses relevantes institutos da sociedade sobralense, certa-mente constitui [...] o motivo da ascensão do Município e da região no contexto do Ceará e do Brasil.36

Soares também não se estende na argumentação da sua tese. Ele dedica menos de uma página para criticar os administradores que ante-cederam Cid Gomes. O restante do livro é uma descrição das principais obras da administração de Cid Gomes, que esteve à frente do poder municipal entre 1997 e 2004.

O que é curioso na tese desses autores é a relação de continuidade que eles estabelecem entre estes dois personagens, originários de con-textos muito diferentes: o bispo D. José Frota, do início do século XX, e o engenheiro Cid Gomes, do fim do mesmo século. O bispo e o en-genheiro são identificados principalmente pelo espírito empreendedor, que se materializou em obras de impacto no espaço citadino. Nem a atuação de Dom José Frota nem a administração de Cid Gomes serão abordadas neste trabalho porque ambas ocorreram fora do período de-limitado para esta pesquisa. Todavia, o uso desses trabalhos ajudará

35 As autoras se referem à última década do século XX. GIRÃO, Op. cit., nota 25, p. 29-30.

36 SOARES, José T. A Idéia de modernidade em Sobral. Fortaleza: Edições UFC/Edições UVA, 2000, p. 38.

na compreensão do comportamento dos grupos políticos que atuaram entre o início e o fim do século XX na política municipal.

Mesmo com poucas páginas dedicadas ao tema, a tese de cidade es-tagnada está presente na cultura política local. Vários estudantes de gra-duação constataram essa leitura no senso comum sobralense quando da realização de entrevistas para seus Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC). Afirmações do tipo: “essa época foi tão inerte que nem foto as pessoas tiraram da cidade”, levou-nos a buscar outras leituras, como os Trabalhos de Conclusão de Curso de jovens historiadores da UVA, que, ao contrário, apontaram para a perspectiva de uma cidade em movimento.