ORDEM IDENTIFICAÇÃO PÁGINA
V. CONSIDERAÇÕES FINAIS
01. Cidade e Urbanismo: uma Discussão Sobre Planejamento.
1.1. Falando Sobre Cidades.
1.1.1. Cidade: Mobilidade e Acessibilidade.
Tratar sobre os fatores que delineiam uma cidade é fazer, também, uma abordagem conceitual e temporal na busca do seu significado real. Sob os mais diversos olhares a cidade assume uma configuração metamórfica diante dos conceitos e preceitos de quem a observa.
Afirmar, em momentos do cotidiano, que a cidade pode ser percebida como “uma selva de pedras” requer uma análise sobre o que essa afirmativa espelha inclusive sobre o que se almeja como uma cidade e se, a que temos nos é satisfatória. Em caso de resposta negativa, como e de que forma poderemos atuar sobre esse cenário buscando alternativas de mudanças que possibilitem uma condição mais adequada a todos.
A cidade se abordada apenas como espaço de circulação do homem, seria reduzir a uma visão muito simplista da questão urbana, pois paralelo ao homem há a produção, os serviços, a economia e a política, entre tantas vertentes, e isso nos provoca uma imensa reflexão sobre em que tipo de espaço ela se configura e para qual circulação ela está preparada, pois afinal não é o homem que deve se adaptar à cidade, mas a cidade deve estar, e ser, constantemente (re) planejada para as necessidades do homem.
Como cenário de vivência e convivência do homem, SANTOS (2008, p. 11) afirma que:
... a cidade, onde tantas necessidades emergentes não podem ter resposta está desse modo, fadada a ser tanto o teatro de conflitos crescentes como o lugar geográfico e político da possibilidade de soluções.
Nesse sentido é, também, na cidade que surgem os desarranjos espaciais que imobilizam uma parcela da população, seja motivado por questões econômicas e sociais ou
ainda pela obstacularização do espaço urbano. Tais obstáculos surgem na forma concreta de engessamento do sistema de mobilidade, prejudicando a acessibilidade, materializada nas calçadas inapropriadas, com pisos escorregadios; na ausência de sinais sonoros nos cruzamentos de maior fluidez de veículos; no uso inadequado do passeio com a presença de faixas, placas e cartazes que desobedecem à regulamentação ora vigente, ou mesmo a inoperância da fiscalização, de alguns setores, das mesmas.
De acordo com Serpa (2009, p. 32):
A privatização de ruas e acessos restringe o movimento de passantes, canaliza percursos e provoca a desertificação de muitas áreas públicas nas periferias urbanas. [...] Nas ruas das áreas centrais, os pedestres cedem seu lugar nas calçadas aos automóveis e camelôs. [...] Quem se arrisca a fazê-lo deve disputar o asfalto com os carros, ambulantes e caminhões, que também transitam livremente pelo centro da cidade (não há horários específicos para carga e descarga).
O espaço público, bem como também algumas áreas privadas, sofrem em demasia com o uso desordenado do mesmo, não somente pela obstrução do passeio, mas também pelas condições de permanência na área, tanto para os consumidores quanto para os vendedores, não oferecendo segurança, conforto e restringindo o acesso para pessoas, principalmente, as que apresentam alguma limitação. Devemos considerar, também, as condições de fluidez do trânsito e de como a cidade circula sua produção. As condições atuais, em Crato, podem ser observadas na figura 01 a seguir:
Figura 01: Entrada do Camelódromo em Crato, Rua Santos Dumont, Centro. Autor: SIEBRA, Firmiana. Data: 22.02.2013
Nesta figura 01 há que se considerar a ocupação da calçada pelos produtos em oferta bem como todos os atores envolvidos nesse cenário: o trabalhador informal e o ambulante; e, aqui se ressalta essa diferença como sendo, respectivamente, o primeiro aquele que instala uma barraquinha na calçada ou praça sem nenhuma autorização ou cadastro formal, inclusive delimitando seu “ponto” de trabalho com outros que se encontram na mesma condição; e o segundo, o ambulante, aquele que tem uma relação formal de cadastro e contribuição, com uso de identificação nas vestimentas, embora nem todos os ambulantes estejam enquadrados nessa situação e circulem pelas vias sem qualquer identificação. Essa é uma área que precisa ser modificada para melhoria dos serviços.
Fazer do espaço público um local de fácil locomoção e adaptado às condições de mobilidade a todos é um grande desafio à gestão municipal de qualquer cidade. Os percalços para que se desobstruam calçadas, passeios e praças promovem um conflito que ultrapassa o discurso arquitetônico, pois envolvem também a circulação da produção conforme alegam os que fazem uso desse artifício.
É possível observar na figura 02, a seguir, como a área do passeio ficou obstruída após a instalação desordenada de alguns equipamentos como coletores de lixo, telefone público, medidores de consumo de energia e outros:
Figura 02: Rua Dr. João Pessoa, Centro. Autor: SIEBRA JR., Arlindo. Data: 17.12.2012
A instalação dos medidores de leitura de consumo de energia nos postes de iluminação pública, demonstrado acima, é um uso inapropriado dos mesmos além da condição de afunilamento da passagem provocada pela instalação de outros medidores nas fachadas das edificações e do telefone público que, após a reforma do passeio, ficou no meio da calçada e numa altura que pode provocar acidentes, visto que o mesmo também está na faixa de indicação para a pessoa com deficiência visual. Isso reflete uma ausência de acompanhamento dessas obras de requalificação urbana por parte da gestão municipal.
Algumas adaptações demandam por mais tempo, o que no caso de sinais sonoros, construção de rampas, serviços de saneamento e esgoto, e outros que demandam mais tempo de intervenção na área, terminam por gerarem uma incompreensão da maioria dos transeuntes além da instabilidade política, fazendo com que algumas obras ou serviços fiquem adiados por um período maior que o desejado, e hábil, para sua execução.
De forma, nem sempre, silenciosa, a questão da mobilidade urbana já dava sinais de desgaste das soluções modestamente praticadas, mesmo que fatores econômicos que delineiam a mobilidade urbana; como afirma Alves (p.109) in Carlos, Souza e Sposito (2011), não há formas de adiar soluções:
Dos fatores que eventualmente provocam a imobilidade e/ou mobilidade descendente tanto espacial como social, podemos destacar: insuficiência de recursos para manutenção das necessidades cotidianas das baixas remunerações e, aliado a isso, o aumento das despesas com aluguel, alimentação, vestuário e transporte; perda de emprego e/ou da atividade (ainda que informal) que possibilitava a inserção (mesmo que precária) no sistema produtivo e que permeia a reprodução da vida.
Neste sentido alguns dos fatores envolvidos, neste caso de forma negativa, são preponderantes para a imobilidade espacial. Mas com a tomada de espaço econômico e social da chamada classe emergente e, daí reflexo de uma nova equitatividade financeira, ainda que muito modesta para os padrões desejáveis, através da aquisição de veículos (novos e/ou seminovos), a cidade enfatizou um problema que já se delineava há muito tempo que é o aumento no fluxo de veículos particulares circulando pelas suas vias.
Outra condição bem mais peculiar em Crato e que não favorece a sistemática da mobilidade urbana são as ladeiras da cidade que em geral não apresentam calçadas com uma dimensão em conformidade com a legislação, principalmente, a das vias em declive que apresentam um maior impacto e transtorno ao pedestre, pois cada imóvel apresenta um
“degrau” para nivelamento das fachadas e dos pisos das casas provocando uma inacessibilidade e uma descontinuidade do caminhar para todos.
Esse é um tema que gera muita polêmica até mesmo por serem os próprios moradores que criam algumas dessas soluções paliativas em suas casas e calçadas, fazendo rampas, degraus e outros para contornar a diferença de nível, mas não há uma preocupação para o pedestre que tem seu espaço recolhido e, muitas vezes, é obrigado a disputar o espaço com os veículos. Essa é uma questão abordada posteriormente por ter mais aspectos relevantes envolvidos nessa discussão.
Esse é um cenário muito característico das cidades que, a exemplo de Crato, possuem um relevo com muitas ladeiras. Os proprietários e/ou moradores das residências que se encontram nessa situação, fazem uso dessas soluções específicas para a entrada e saída de pessoas e veículos que não favorecem o pedestre e não promove uma educação urbana onde a gestão peca na fiscalização dessas construções e na oferta de soluções que abracem a todos, conforme a figura 03:
Figura 03: Ladeira Avenida Presidente Kennedy – Vila Alta Autor: SIEBRA JR., Arlindo. Data: 12.07.2011
No caminhar por uma ladeira como a que aqui está registrada na figura 03, vários percalços precisam ser transpostos, como ter que competir com veículos nas vias de
rolamento por não haver uma passarela exclusiva para o pedestre. Risco maior ainda para as pessoas cuja acessibilidade esteja comprometida, considerando que para Guimarães (2002):
A acessibilidade é uma forma de transformação ambiental e de mudança da organização das atividades humanas para diminuir o efeito de uma deficiência, devendo ser um valor da vida para tornar-se realidade e ser uma forma ativa de melhorar a condição de vida das pessoas.
Associada à mobilidade urbana, que “é um dos principais fatores de desenvolvimento e da orientação do crescimento da cidade” num sentido de melhor acolher seus atores em seus mais diversos cenários; e que [...] “a natureza dos deslocamentos dentro de uma cidade depende diretamente da forma como as funções urbanas se distribuem no território” (DUARTE, 2007; p. 13), é necessário se ressaltar o urbanismo como uma das principais condicionantes na gestão e no refletir sobre cidades.