CAPÍTULO II – A URBANIZAÇÃO, O FLUXO DOS CIDADÃOS, A SAÚDE E
2.3 O Estado, a cidade e a Zona Franca de Manaus
Considerando a necessidade de promover a ocupação da Amazônia, de integrar a economia da região à economia do país e elevar o nível de segurança para a manutenção de sua integridade territorial, foi instituída a Zona Franca de Manaus (ZFM), em 1957, tendo sido reformulada em 1967. Salazar (2006) cita como foi iniciada a política dos incentivos fiscais.
A política de incentivos Fiscais para a Amazônia Ocidental iniciou-se pela criação da Zona Franca de Manaus, através da lei no 3.173, de 6 de junho
de 1957, regulamentada pelo Decreto no 47.757, de 2 de fevereiro de 1960. A
referida lei foi uma iniciativa do parlamentar amazonense Francisco Pereira da Silva e estabelecia uma área de livre comércio de importação em um perímetro de 200 hectares na cidade de Manaus (SALAZAR, 2006, p. 231- 232).
Lyra (1995, p.7) descreve que a “isenção constitui-se na modalidade mais tradicional de incentivo fiscal, consistindo na liberação da obrigação do contribuinte de recolher o
imposto devido, parcial ou totalmente”. O benefício monetário que propicia, vincula-se à promessa da adoção pelo beneficiário de condutas preestabelecidas. A dedução consiste na concessão do direito de deduzir certa parcela do imposto ou de sua base de incidência à condição de que os recursos correspondentes tenham sido ou venham a ser aplicados em eventos relevantes para a política econômica.
A criação efetiva da ZFM se deu no momento em que a economia brasileira começava a sair da recessão e ingressava na fase de mais rápido crescimento econômico de sua história, o período do "milagre econômico", que se estende de 1967 a 1974 (LYRA, 1995).
Entre os anos de 1957 e 1967, a ZFM era uma área de livre comércio de importação e exportação, com reduzidas alíquotas de Imposto de Importação. O objetivo era criar no interior da Amazônia um centro industrial, comercial e agropecuário dotado de condições econômicas que mantivessem seu desenvolvimento, elevando as receitas portuárias e criando postos de trabalho, tendo em vista a longa distância dos grandes centros consumidores de seus produtos (BONFIM e BOTELHO, 2009).
Entre os anos de 1967 e 1976, na ZFM, observou-se que as importações de produtos geraram demandas na área do turismo local e a instalação de grandes comerciantes, motivados pela comercialização de produtos importados livres de impostos.
Na década de 1960, a cidade de Manaus, com uma população abaixo de 150.000 pessoas, exibia uma enorme fragilidade econômica, definhava em termos urbanos e sociais; sobrevivia com muito custo à grave falta de energia elétrica, a um deficiente sistema de comunicação e transporte, com um ínfimo mercado de consumo e baixo poder aquisitivo, deixando a cidade isolada dos centros do poder político (BONFIM e BOTELHO, 2009).
Becker (2004) afirma ter ocorrido também uma mudança no processo de ocupação após a década de 1960 em toda a Amazônia, especialmente na cidade de Manaus. Afirma que a ocupação passa a ser contínua no tempo e em maior extensão. À frente deste processo está o Estado brasileiro, por meio do governo federal, fazendo uso de uma política deliberada de integração regional, com a implementação de planos de desenvolvimento para a região, marcando o início de um tempo de transformações. Verificam-se mudanças no cenário econômico de toda a região norte, que após longo período de estagnação econômica é reavivado por medidas com intuito de promover o desenvolvimento e a ocupação da região.
Neste mesmo período, foi dado início à construção do Distrito Industrial de Manaus (Figura 13), com a desapropriação de uma área de 1.700 hectares e a implantação de várias
Indústrias de capital estrangeiro, com a finalidade de formação de mercado interno, substituindo os produtos de importação e abertura de postos de trabalhos, com contratação de mão-de-obra barata, proveniente da capital e de outras cidades do estado do Amazonas. A área ocupada pelo Distrito Industrial de Manaus, entranhada na área da floresta, nas proximidades do Rio Negro, está retratada na Figura 13.
Figura 13: Vista aérea do Distrito Industrial. Manaus, AM, 1968 Fonte: Portal Amazonia.com, 2016
Esse novo período econômico determinou um novo ambiente para a cidade de Manaus, conforme descreve Raimundo Pereira Pontes Filho:
Manaus inchou. A população, desassistida e sem perspectiva no interior, veio em massa para a capital. O êxodo rural foi a tônica da década de 80. Favelas, desemprego, criminalidade, violência urbana, uma enxurrada de problemas projetou-se fortemente sobre a cidade. Do mesmo modo, prevaleceu na capital a ampliação de seu equipamento urbano. Seus governantes desperdiçaram a oportunidade de reverter o que, para qualquer administrador previdente, era previsível e capaz de ter sido evitado ― o caos social (PONTES FILHO, 2011 p.231).
Scherer e Mendes Filho também se referem a este período relatando que:
Essa nova racionalidade capitalista transforma a cidade de Manaus. A modernidade trazida pelo processo de industrialização afeta rapidamente o mundo da vida cotidiana dos amazonenses. A fisionomia da cidade modifica- se, com o processo de urbanização. O espaço urbano ganha uma outra visibilidade com o crescimento populacional decorrente do processo
migratório que ocorre e com a constituição de inúmeros bairros que passam a formar a periferia da cidade. Formam-se e redefinem-se as novas classes sociais, configuradas pela dinâmica do capital na região. Compõe-se uma nova força de trabalho constituída por levas de caboclos que migram para a cidade de Manaus. Aos olhos dos ribeirinhos, dos seringueiros, dos castanheiros, do caboclo/camponês, abandonados (SCHERER e MENDES FILHO, 2004, p.1).
Até a década de 1970, a cidade de Manaus tinha um quadro de ocupação do espaço urbano em que os aglomerados estavam nas zonas administrativas Sul, Centro Sul, Oeste e Centro Oeste, com as margens dos seus igarapés densamente povoados. No final da mesma década, com a implantação do Distrito Industrial começa a expansão para as zonas Leste e Norte, sendo algumas delas por ocupações irregulares e sob impactos ambientais significativos, ocasionando graves problemas de infraestrutura, grande incidência de doenças infectocontagiosas, somados à degradação ambiental. Os espaços urbanos brasileiros constituídos a partir de ocupações irregulares somam precárias condições de vida urbana e socioambientais, resultando em inúmeros problemas de ordem física e de saúde pública (MARICATO, 2001).
Neste período, a cidade de Manaus possuía determinadas características geográficas peculiares que determinam seu traçado urbano, como a existência de cursos d’água em toda sua extensão. Isto poderia conferir à cidade uma posição de destaque em termos de infraestrutura para a vida da população local. No entanto, os igarapés na malha urbana da cidade foram apresentando sérios problemas, ao longo do tempo, devido a diversas ações antrópicas e, principalmente, a ocupação humana às margens dos cursos d’água (BRAGA, SILVA e SCHAFFRATH, 2012).
Tendo o imediatismo como diretriz básica, a cidade de Manaus se desenvolveu sem nenhum acompanhamento e planejamento municipal, levando-a à desorganização espacial da sua área urbana, com ocupações irregulares às margens dos igarapés e áreas de floresta. Dessa forma, as soluções tomadas eram sempre emergenciais para os problemas de infraestrutura, serviços básicos e equipamentos, além de uma grande carência de políticas públicas no que diz respeito à saúde, ao transporte e à segurança.
Ao falar de ocupação urbana da cidade de Manaus, Giatti et alii (2011) afirmam que: A ocupação de áreas distantes ocorreu por projetos estaduais ou municipais de construção de residenciais populares (Nova cidade, Cidade Nova, e outros), criando vácuos centrais e ilhas de populações
isoladas dos centros. As dificuldades de ordenamento e planejamento urbano mediante a velocidade do crescimento populacional materializam uma cidade espraiada e com inúmeros vazios, que destrói rapidamente sua cobertura vegetal natural, tornando difícil atender a população com serviços essenciais, também reproduzindo sérios problemas viários (GIATTI
et alii, 2011, p. 21).
Até a década de 1980, a cidade de Manaus contava com 37 bairros e um Distrito Industrial, mas a partir de 1980, com o crescimento demográfico, a zona urbana sofre mudanças rápidas e agressivas ao ambiente. Essa realidade, infelizmente, não foi privilégio apenas da cidade de Manaus, pois as grandes capitais brasileiras apresentaram o mesmo problema em decorrência da ausência de planejamento urbano sistemático e a falta de controle relacionado ao crescimento da cidade.
Scherer e Mendes Filho (2004), ao falar sobre as mudanças ocorridas na área urbana da cidade de Manaus na década de 1980, relatam que:
Os trabalhadores urbanos pré-existentes, remanescentes do extrativismo da borracha e aqueles que se encontram vão somar-se, na década de 70 e 80, na superpopulação relativa, com seu exército de reserva, que se entrega a toda sorte de atividades no setor informal, em buscas de estratégias de sobrevivência, mas também da mendicância, da violência, da criminalidade, enfim, compondo um cenário urbano de conflitos socioambientais.
A intervenção do poder público na construção da infraestrutura pública e na expansão dos serviços coletivos, sempre esteve longe de atender às demandas sociais colocadas pelas classes subalternas que vivem nos bairros periféricos da cidade. Seja do ponto de vista habitacional, da saúde, da educação, seja dos bens de consumo coletivos mínimos necessários à reprodução da força de trabalho (SCHERER e MENDES FILHO, 2004, p.23).
Dessa forma, a cidade de Manaus adentrou a década de 1990, agregando duas novas peculiaridades: a redução da mão de obra empregada no seu polo industrial, devido à abertura econômica que provocou profundas mudanças nos processos produtivos da ZFM, e uma grande variação em termos de crescimento populacional, advinda do interior para a capital, movidas pela ausência de infraestrutura básica. Os interioranos viam na cidade, embora de modo utópico, a chance de trabalho e da satisfação das suas necessidades básicas não contempladas em seu local de origem (GIATTI et alii, 2011).
Essa dinâmica da população possibilitou-lhe concentrar grande parte da população do estado, sendo nítida e intensa a sua progressão a partir da década de 1970, conforme observado na Tabela 1.
Tabela 1: População residente no estado do Amazonas e município de Manaus/1960-1996 LOCAL ANOS 1960 1970 1980 1991 1996 Amazonas 714.774 955.203 1.430.528 2.103.243 2.389.279 Manaus 173.703 311.622 633.383 1.011.501 1.157.357 Fonte: IBGE, Censos Demográficos,_Banco de Dados SIDRA, 2004
Até a década de 1990, convivendo com esta expansão populacional, a cidade de Manaus não estava preparada para atender as demandas que cresciam a cada dia por habitação, emprego, transporte, educação, lazer, saúde, segurança e demais serviços urbanos, pois as riquezas produzidas na cidade continuavam a não ser distribuídas de forma a beneficiar a população de uma maneira mais equitativa, além da falta de planejamento das ações dos governos local, estadual e nacional.
Os impactos desse processo de desenvolvimento atravessaram inúmeras décadas, destinando à cidade de Manaus do século XX a convivência com a ambiguidade das grandes cidades: a pobreza e a riqueza, a inclusão e a exclusão, o velho e o novo, demonstrando a quão distante foi deixada a preocupação com uma vida urbana que permitisse o acesso à cidadania para todos os seus habitantes, sem nenhuma distinção.