5 EDUCAÇÃO URBANA: REINVENTANDO A CIDADE
5.2 Aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos e aprender a ser: as bases da
5.2.1 Cidades Educadoras: rede brasileira
Compreende-se, com efeito, que as cidades são, por vocação, educadoras ainda que a relação entre cidade e educação possa ser perspectivada com base em diferentes concepções, uma vez que ―a potencialidade educativa não tem morada exclusiva na cidade‖ (Machado, 2005, p. 225). A educação, como já fora abordado, através de seus processos formais e, sobretudo, informais e não formais, constitui um meio eficaz de desenvolvimento da cidadania e da democracia. Com efeito, compreende-se que quanto mais se estreitam os laços entre educação e cidade, mais próxima fica a relação entre sujeito e espaço e mais forte o processo de valorização local e cultural.
O debate atual em torno da maior aproximação entre esses dois polos vem crescendo nos últimos tempos. Fernandes e Sarmento (2007) apontam para a importância da compreensão da cidade como agente educativo ter nascido do poder municipal e não de outras instituições locais, isso porque ―provavelmente aí se dispõe de alguns instrumentos e recursos que permitem ter uma visão mais global e integrada das influências educativas do meio urbano e dos riscos que a desatenção a essas influências podem acarretar para os cidadãos e para a realidade das vivências urbanas‖. O município de Barcelona inaugurou o movimento das Cidades Educadoras nos anos 90, colocando a cidade na pauta da educação. Esse processo deu origem à Associação Internacional de Cidades Educadoras, que congrega cidades e municípios da Europa e da América. A perspectiva da associação é que os municípios sejam capazes de incorporar uma política educativa local com a visão de cidade educativa.
Na esteira do movimento de aproximação entre educação e cidade iniciado ainda nos anos 70 com o Relatório Faure, a criação da Associação Internacional de Cidades Educadoras (AICE) vinte anos depois constitui um marco importante de fortalecimento desse laço. A AICE, que é uma organização sem fins lucrativos formada em 1994, desempenha um papel fundamental no debate de educação e cidade, como uma estrutura de colaboração permanente entre os governos locais comprometidos com a Carta das Cidades Educadoras (anexo I). Até o ano de 2015, 480 cidades de 35 países de todos os continentes estavam associadas à AICE, inclusive o Brasil (tradução livre da autora de informações do site http://www.edcities.org/quien-somos/).
Assim, o Brasil é associado à Rede Internacional de Cidades Educadoras com a participação de quinze cidades, sejam elas: Belo Horizonte, Caxias do Sul, Salvador, Itapetinga, Jequié, Porto Alegre, Santiago, Santo André, Santos, São Bernardo do Campo, São Carlos, São Paulo, São Pedro, Sorocaba e Vitória. Essa associação em rede significa que o país, por intermédio das cidades mencionadas, deve seguir os preceitos elencados na Carta das Cidades Educadoras, desenvolvendo ações e práticas que integrem estes três princípios básicos: o direito a uma cidade educadora, que funciona como uma extensão do direito fundamental de todos os indivíduos à educação; o compromisso da cidade, que diz respeito à valorização dos seus costumes e suas origens, sendo que a transformação e crescimento da cidade devem ter uma orientação harmônica entre as novas necessidades e a perpetuação de construções e símbolos que são referência à história da cidade e o serviço integral das pessoas, onde o direito à informação deve prevalecer ante aos dirigismos. O governo municipal deve estar atento à avaliação de ofertas culturais, informativas, publicitárias, dentre outras, dando conta de equilibrar a necessidade de proteção e a autonomia necessária à descoberta, oferecendo igualmente espaços de formação e de debate, incluindo os intercâmbios entre cidades, para que todos os seus habitantes possam assumir plenamente as inovações que aquelas geram.
A Rede Internacional de Cidades Educadoras que tem como objetivo central realizar encontros no sentido de aprender, trocar experiências e, portanto, melhorar a vida dos seus habitantes, reúne um grupo de cidades representadas por seus governos locais com interesse maior de disseminar práticas exitosas em educação e cidade, onde projetos e atividades para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos e, principalmente, que estimulem a sua participação ativa e crítica no uso e desenvolvimento da própria cidade, possam ganhar notoriedade, possam ser replicados e melhorados. A cidade de Santo André é atualmente a coordenadora da Rede
Brasileira, o que implica que esta fica responsável em orientar as ações da Rede a desenvolver principalmente os seguintes assuntos: trabalhar a escola como espaço comunitário; trabalhar a cidade como grande espaço educador; aprender na cidade, com a cidade e com as pessoas e; valorizar o aprendizado vivencial.
Dentre os objetivos da Rede Brasileira de Cidades Educadoras, pode-se elencar os seguintes: fortalecer a estrutura organizacional da Rede; consolidar e ampliar a Rede; impulsionar a cooperação entre as cidades membro da Rede; fomentar e divulgar o conceito de Cidade Educadora. É de inegável importância, com isso, que o Brasil faça parte da AICE e que assuma a reflexão de aproximar educação e cidade por intermédio das cidades associadas e que procure difundir a ideia em seu território. Contudo, ante ao cumprimento do objetivo de fomentar a participação cidadã com uma perspectiva crítica e co-responsável frente à cidade, a Rede Brasileira de Cidades Educadoras pode estar ainda bastante incipiente. Para este efeito, é importante que o governo local proceda com a divulgação massiva de informações que possam envolver os cidadãos, motivando-os a participar e aguçar o olhar sobre educação e cidade e todo o aparato transversal que o debate impõe:
Valores éticos e cívicos no equilíbrio com o ambiente natural, o direito a um ambiente sadio, além do direito à moradia, ao trabalho, lazer e transportes públicos, educação para a saúde e a participação de todos os seus habitantes nas boas práticas de desenvolvimento sustentável33.
No campo institucional, assim, percebe-se que o Brasil encontra-se articulado com a política de participação do movimento Cidades Educadoras, que apesar de não ter visibilidade e divulgação ampla no território brasileiro, coloca o país na agenda internacional do debate sobre educação e cidade. Contudo, existem as práticas informais e não formais de experiências de educação urbana, que, em geral, estão fora das estatísticas por certa invisibilidade a que essas experiências estão submetidas. Boaventura de Sousa Santos (2002) analisa que o conhecimento científico, produto da modernidade, trouxe possibilidades de subjugação e de dominação. Esse domínio se dá corriqueiramente pela ocultação das outras formas de narrar o mundo, ou seja, dos diversos conhecimentos produzidos por diferentes povos e culturas.
Tratam-se de conhecimentos envolvidos nas experiências sociais entre sujeito e cidade, esboçadas neste trabalho como práticas de emancipação social. A partir do tópico a seguir serão
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estudadas as linhas basilares do aprender sobre a cidade; aprender na cidade e aprender da cidade, que se imbricam na noção de Educação Urbana e que pretendem tornar visíveis as experiências urbanas de apropriação do espaço público que produzem conhecimento alternativo.