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4.2 Modelo Global

4.2.2 Cin´etica das esp´ecies pesadas

A tabela 4.2 cont´em as rea¸c˜oes envolvendo as esp´ecies pesadas. Al´em dessas rea¸c˜oes, todas as outras apresentadas na tabela 4.1, com o emblema RC, tamb´em foram utilizadas para determinar as taxas de rea¸c˜ao do modelo global. Os coeficientes de rea¸c˜ao foram extra´ıdos de diversas fontes na literatura e, para abreviar o extenso trabalho de levantamento dessas referˆencias, remetemos aos trabalhos pr´evios de modelagem que utilizaram um conjunto semelhante (Petrov & Ferreira 2013, Kutasi et al. 2010). As exce¸c˜oes, isto ´e, os casos em que novas rea¸c˜oes foram introduzidas ou outros coeficientes foram utilizados, ser˜ao discutidas a seguir.

No total, o modelo considera nove esp´ecies pesadas; sete esp´ecies neutras (Ar(1S

0), Ar(3P2),

Ar(1P

1), Ar(3P0), Ar(3P1),Ar(4p),Ar∗2) e duas esp´ecies carregadas (Ar+ e Ar+2). Os dez estados

cujo el´etron excitado tem configura¸c˜ao eletrˆonica 4p est˜ao empacotados em um ´unico, indi- cado como Ar(4p). O mesmo se aplica ao caso do exc´ımero Ar∗2, que tem uma estrutura mais

complexa, apresentando um estado singleto e outro tripleto, al´em de n´ıveis vibracionais (Lam, Zheng, Lo, Dem’yanov & Napartovich 2000). Neste modelo, no entanto, os processos detalhados da cin´etica do exc´ımero n˜ao ser˜ao considerados.

Difus˜ao O processo de difus˜ao ´e relevante nos casos das esp´ecies metaest´aveis Ar(3P 2) e

Ar(3P

0) e carregadas, Ar+ e Ar+2. No primeiro caso, s˜ao utilizados os coeficientes de difus˜ao in-

dicados em (Kutasi et al. 2010). Os coeficientes de difus˜ao ambipolar das esp´ecies carregadas fo- ram calculados de acordo com a express˜ao para difus˜ao livre utilizada por Jonkers et al (Jonkers, van de Sande, Sola, Gamero & van der Mullen 2003) e da mobilidade em (Dalgarno 1958). A difus˜ao das outras esp´ecies pode ser desconsiderada, por ser desprez´ıvel em compara¸c˜ao com os

aOs estados eletrˆonicos do argˆonio ent˜ao escritos na nota¸c˜ao L-S, em letra mai´uscula. A nota¸c˜ao em letra

min´uscula em it´alico, como 4s e 4p, indica a configura¸c˜ao eletrˆonica do estado do el´etron excitado e ´e utilizado para agrupar todos os estados que tem essa configura¸c˜ao.

bAs se¸c˜oes de choque inclu´ıdas no c´odigo de Boltzmann s˜ao indicadas com a sigla EB e aquelas que foram

utilizadas no cˆomputo dos coeficientes de rea¸c˜ao s˜ao indicadas com a sigla RC.

cAs se¸c˜oes de choque dos quatro n´ıveis do estado 4s est˜ao discriminadas, embora a resolu¸c˜ao do passo de

energia adotado n˜ao permita diferenciar os limiares. Os estados 4p foram agrupados (s˜ao dez no total), assim como todos os outros estados al´em dos 4s e 4p, em uma ´unica se¸c˜ao de choque.

4.2. Modelo Global 153 outros canais de perda, como no caso dos estados ressonantes. Em todos os casos, considerou-se que ap´os a intera¸c˜ao com as paredes, o resultado ´e sempre um ´atomo no estado fundamental, ou dois, no caso do Ar+2.

Emiss˜ao espontˆanea As perdas por emiss˜ao espontˆanea devem ser consideradas sempre que algum dos estados excitados apresentarem um canal importante de perda. Os ´unicos estados que decaem para os estado fundamental s˜ao os estados ressonantes do grupo 4s, Ar(3P

1) e Ar(1P1).

Nesse caso, ´e necess´ario considerar o aprisionamento radiativo, devido `a elevada densidade de ´atomos no estado fundamental. Como mencionado anteriormente, essa corre¸c˜ao foi calculada utilizando a teoria de Holstein (Holstein 1951).

No caso do decaimento dos estados do grupo 4p para os estados do grupo 4s, ´e necess´ario considerar os coeficientes de Einstein da transi¸c˜ao de cada estado k, em 4p, para um estado i, em 4s. Considerando os pesos estat´ısticos de cada estado, gk, ´e poss´ıvel construir um coeficiente

efetivo de decaimento do estado 4p para cada um dos estados i em 4s. A express˜ao para esse coeficiente ´e

A4p,i = ∑k

gkAki

∑kgk

, (4.15)

onde a soma ´e feita sobre todas as transi¸c˜oes permitidas entre os estados em 4p para os estado em 4s. Os valores desses coeficientes efetivos est˜ao apresentados na tabela 4.2.

O estado tripleto do exc´ımero tem um coeficiente de decaimento n˜ao desprez´ıvel (Lam et al. 2000), embora menor do que o das outras esp´ecies radiativas ressonantes consideradas no modelo. Como o d´ımero neutro n˜ao existe no estado fundamental, n˜ao sofre aprisionamento de radia¸c˜ao. J´a o coeficiente o decaimento do estado singleto ´e muito maior, e por esse motivo a sua concentra¸c˜ao com rela¸c˜ao `a do tripleto tende a ser muito menor (Lam et al. 2000). Por- tanto, deve ser considerado como coeficiente de decaimento efetivo do estado efetivo do exc´ımero o valor correspondente ao tripleto (tabela 4.2).

Tabela 4.2: Rea¸c˜oes inclu´ıdas no modelo cin´etico das esp´ecies pesadas e os respectivos coefici- entes de rea¸c˜ao.

Rea¸c˜ao 1 Ref. coeficiente de rea¸c˜ao

Difus˜ao: [s−1]

Difus˜ao livre Ar(3P

2), Ar(3P0) (Kutasi et al. 2010) Df/Λ2

Difus˜ao ambipolar

Ar+, Ar+2 (Jonkers, van de Sande, Sola,

Gamero & van der Mullen 2003)

Da/Λ2

Emiss˜ao espontˆanea [s−1]

Ar(3P

1)→Ar(1S0)+hν (Wiese, Brault, Danzmann,

Helbig & Kock 1989)

g ×(1.19 ⋅ 108), ver texto

Ar(1P

1)→Ar(1S0)+hν (Wiese et al. 1989) g ×(5.1 ⋅ 108), ver texto

Ar(4p)→Ar(3P

2)+hν (Wiese et al. 1989) 1.43 ⋅ 107, ver texto

Tabela 4.2 – continua¸c˜ao da p´agina anterior

Rea¸c˜ao Ref. coeficiente de rea¸c˜ao

Ar(4p)→Ar(3P

1)+hν (Wiese et al. 1989) 7.3 ⋅ 106, ver texto

Ar(4p)→Ar(3P

0)+hν (Wiese et al. 1989) 3.5 ⋅ 106, ver texto

Ar(4p)→Ar(1P

1)+hν (Wiese et al. 1989) 9.83 ⋅ 106, ver texto

Ar2(*)→ 2Ar(1S0)+hν (Lam et al. 2000) 3.13 ⋅ 105, ver texto

Convers˜ao molecular: [cm6s−1]

Ar++Ar(1S

0)+Ar(1S0) (Smith et al. 1972) 2,5 ⋅ 10−31

→Ar+

2+Ar(1S0) (Jones, Lister, Wareing &

Twiddy 1980)

2,25 ⋅ 10−31(300/Tg)0.4

Recombina¸c˜ao dissociativa: [cm3s−1]

Ar+2+e→Ar(1S0)+Ar(1S0) (O’Malley, Cunningham &

Hobson 1972) 9.6⋅10−7(1−exp(−630 Tg))χ( 300 Te) 0.67 Ioniza¸c˜ao Pening [cm3s−1]

Ar(4si)+Ar(4sj)→Ar(1S0)+Ar++e (Kutasi et al. 2010) 3.69 ⋅ 10−11Tg0.5

Ar(4p)+Ar(4p)→Ar++Ar(1S

0)+e (Brunet, Lacour, Rocca Serra,

Legentil, Mizzi, Pasquiers & Puech 1990)

5 ⋅ 10−10

Ar(4p)+Ar(4s)→Ar++Ar(1S

0)+e (Brunet et al. 1990) 5 ⋅ 10−10

Ar(4si)+Ar(4sj)→Ar+

2+e (Brunet et al. 1990) 5 ⋅ 10−10

Dissocia¸c˜ao por [cm3s−1]

impacto eletrˆonico e+Ar+

2 → e+Ar(1S0)+Ar+ (Jonkers, van de Sande, Sola,

Gamero, Rodero & van der Mullen 2003)

1.11⋅

10−6exp(−(2.94−3(Tg [eV]−0.026)) (Te[eV]) )

Convers˜ao atˆomica [cm3s−1]

Ar+

2+Ar(1S0)→Ar++2Ar(1S0) (Jonkers, van de Sande, Sola,

Gamero, Rodero & van der Mullen 2003) 5.22 ⋅ 10−10exp(− 1.304 Tg [eV]) Tg[eV] Recombina¸c˜ao a trˆes corpos [cm6s−1]

e+e+Ar+ → e+Ar(4p) (Vriens & Smeets 1980) 1.4303 ⋅ 10−28(T

e[eV])−3

e+e+Ar+ → e+Ar(3P2) (Vriens & Smeets 1980) 6.1437 ⋅ 10−29(T

e[eV])−3

e+e+Ar+ → e+Ar(3P

1) (Vriens & Smeets 1980) 1.33027 ⋅ 10−29(Te[eV])−3

e+e+Ar+ → e+Ar(3P

0) (Vriens & Smeets 1980) 3.81289 ⋅ 10−29(Te[eV])−3

e+e+Ar+ → e+Ar(1P1) (Vriens & Smeets 1980) 4.19207 ⋅ 10−29(T

e[eV])−3

Forma¸c˜ao do exc´ımero [cm6s−1]

Ar(4s)+2Ar(1S

0)→ Ar2(*)+Ar (Petrov & Ferreira 2013) 10−32

Extin¸c˜ao do exc´ımero [cm3s−1]

Ar2(*) + Ar2(*) → Ar+2+2Ar(1S0) (Lam et al. 2000) 5 ⋅ 10−10

Recombina¸c˜ao a trˆes corpos [cm6s−1]

atˆomica Ar++Ar(1S

0) +e → 2Ar(1S0) (Petrov & Ferreira 2013) 3.7 ⋅

10−29T

4.2. Modelo Global 155 Convers˜ao molecular A rea¸c˜ao de convers˜ao molecular do Ar+ em Ar+

2 ´e uma rea¸c˜ao de trˆes

corpos especialmente importante em alta press˜ao e tem um papel fundamental na dinˆamica desse tipo de descarga. Infelizmente, os coeficientes de rea¸c˜ao na literatura n˜ao s˜ao totalmente confi´a- veis ou adequados para a aplica¸c˜ao em plasmas com temperaturas mais elevadas do que 300 K. H´a v´arios estudos independentes (Jones et al. 1980, Liu & Conway 1975, Smith et al. 1972), que determinaram valores consistentes entre si (por exemplo 2,25 ⋅ 10−31(300/T

g)0.4, em (Jones

et al. 1980), e 2,3⋅10−31(300/T

g)0.61, em (Liu & Conway 1975)), mas em temperaturas inferiores

a 300 K. Por outro lado, um outro trabalho, mais antigo, prop˜oe um coeficiente uma ordem de grandeza inferior, mas v´alido entre 300 K e 1500 K (Chen 1969) (9.4 ⋅ 10−33(300/T

g)0.27). Na

medida em que os resultados mais recentes s˜ao consistentes entre si, optamos pelos coeficientes extra´ıdos dos trabalhos de Jones et al (Jones et al. 1980), para o caso do modelo global, e Smith et al (Smith et al. 1972), para o caso do modelo radial.

Recombina¸c˜ao dissociativa Assim como no caso anterior, a recombina¸c˜ao dissociativa tem um papel fundamental na dinˆamica das descargas em press˜ao atmosf´erica. Nesse processo, o el´etron incidente ´e capturado pelo ´ıon, formando um estado n auto ionizante Ar∗

2(n) que dissocia

em dois ´atomos neutros. Por ser um processo bastante eficiente, frequentemente se constitui como o principal canal de perda de cargas. Apesar de os coeficientes de recombina¸c˜ao terem sido bastante estudados (Luk´aˇc, Mikuˇs, Morva, Z´abudl´a, Trnovec & Morvov´a 2011, O’Malley et al. 1972), uma das dificuldades se encontra na falta de informa¸c˜ao sobre o branching ratio desse processo. Foi demonstrado experimentalmente que o principal canal de dissocia¸c˜ao ´e a forma¸c˜ao de um ´atomo no estado fundamental e outro em algum estado do grupo 4s (Ramos, Schlamkowitz, Sheldon, Hardy & Peterson 1995). H´a tamb´em a possibilidade de forma¸c˜ao de dois ´atomos no estado fundamental (Ramos et al. 1995). Por ser uma rea¸c˜ao exot´ermica, h´a uma energia excedente que ´e igualmente dividida entre os ´atomos dissociados; ∼ 1,5 eV no caso de forma¸c˜ao de um ´atomo no grupo 4s e ∼ 7,21 eV no caso do Ar no estado fundamental (Ramos et al. 1995). Como h´a uma probabilidade apreci´avel de ioniza¸c˜ao dos ´atomo r´apidos, consideramos que apenas 1% desses processos resultam efetivamente na perda de uma unidade de carga (χ = 0,01), seguindo a mesma abordagem de Jonkers5 et al (Jonkers, van de Sande,

Sola, Gamero, Rodero & van der Mullen 2003).

Dissocia¸c˜ao por impacto eletrˆonico O processo de dissocia¸c˜ao por impacto eletrˆonico compete com a recombina¸c˜ao dissociativa e, no argˆonio, nas condi¸c˜oes t´ıpicas do plasma em estudo, seus coeficientes tem aproximadamente a mesma ordem de grandeza. Nesse processo, o el´etron incidente excita o ´ıon em um estado ligado Ar+

2(1) para um estado repulsivo Ar+2(2),

que termina por se dissociar (Marchenko 1983). O coeficiente de rea¸c˜ao foi extra´ıdo do trabalho de Jonkers et al (Jonkers, van de Sande, Sola, Gamero, Rodero & van der Mullen 2003), cuja express˜ao anal´ıtica foi derivada a partir das se¸c˜oes de choque te´oricas de Marchenko (Marchenko 1983).

5Esses autores propuseram o o valor χ = 0,05. No entanto, optou-se pelo emprego do valor χ = 0,01, por

Recombina¸c˜ao a trˆes corpos A recombina¸c˜ao a trˆes corpos ´e especialmente importante para o balan¸co de cargas quando a densidade eletrˆonica ´e bastante elevada (ne> 1015 cm−3) ou a

densidade do ´ıon molecular ´e bem menor do que a densidade do ´ıon atˆomico. As express˜oes para a recombina¸c˜ao a trˆes corpos envolvendo dois el´etrons foram extra´ıdas do trabalho de Vriens e Smeets, que chegaram a uma express˜ao para o coeficiente de rea¸c˜ao aplicando o princ´ıpio da micro-reversibilidade a partir das f´ormulas emp´ıricas para o processo inverso (ioniza¸c˜ao). Tamb´em foi considerado o processo de recombina¸c˜ao a trˆes corpos envolvendo o el´etron, o ´ıon atˆomico Ar+ e o ´atomo no estado fundamental, com um coeficiente de taxa extra´ıdo do trabalho

de Petrov e Ferreira et al (Petrov & Ferreira 2013).

Para garantir a consistˆencia do modelo, foram consideradas as recombina¸c˜oes inversas aos processos de ioniza¸c˜ao dos estados 4s e 4p. A recombina¸c˜ao ao estado fundamental deve ter uma taxa negligenci´avel, pois nas condi¸c˜oes t´ıpicas dos plasmas em argˆonio `a alta press˜ao a contribui¸c˜ao da ioniza¸c˜ao a partir do estado fundamental ´e muito baixa, como mostraremos na se¸c˜ao (4.2.4). Os estados excitados em n´ıveis de energia mais elevados, n˜ao considerados no modelo, embora tenham uma taxa de ioniza¸c˜ao e recombina¸c˜ao elevada, devem estar pr´oximos do equil´ıbrio de Saha, de modo que a contribui¸c˜ao da ioniza¸c˜ao ser´a compensada, com boa aproxima¸c˜ao, pela recombina¸c˜ao a trˆes corpos.