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Cinema e cinefilia revisitada no meio digital (2000-2010)

O cinema durante mais de cem anos passou por inúmeras transformações, principalmente por causa da evolução tecnológica que incide nas questões relacionadas à produção, distribuição e exibição atuais. Corroboramos o pensamento de Francesco Casetti (2015) sobre essas transformações terem sido mais radicais do que se imaginava à época do advento do VHS, ou mesmo antes, com as reflexões que vêm se desenvolvendo desde a chegada da tevê nos anos 1950, sobre mudanças comportamentais e culturais, que refletem sobre a morte do cinema. A projeção sobre as mudanças ocasionadas no período de surgimento do videohome foi registrado em documentário pelo diretor Wim Wenders, no Quarto 666.

O cenário do filme é um quarto de hotel durante o festival de Cannes em 1982. Em tom pessimista, sugere uma reflexão para os entrevistados: o cinema é uma linguagem que está se perdendo, ou é uma arte que está moribunda? Vários diretores de cinema, dentre eles: Jean Luc Godard, Steven Spielberg, Werner Herzog, Michelangelo Antonioni, respondem à questão com diferentes tonalidades. Godard, enquanto é entrevistado, desvia o olhar para a tela de tevê onde passa um jogo de tênis e solta algo irônico como: “nós devemos ir, estou prestes a morrer”. Spielberg prevê que no futuro o cinema deverá expandir suas fronteiras. Herzog, depois de inquirido sobre a questão, reflete e sugere que depois de considerável esforço para pensar, precisa ao menos tirar os sapatos. Com os pés no chão, declara que o cinema deverá sobreviver, porque onde a vida nos toca mais diretamente é o lugar no qual encontraremos o cinema. Antonioni, por sua vez, declara que não será difícil essa transformação ocasionar em uma nova humanidade que deve se adaptar às tecnologias. (CASETTI, 2015, p. 1).

O impacto das novas mídias é tema dos estudos de Elsaesser (2018) que propõe repensar a história e teoria do cinema como arqueologia. “Atualmente, qualquer pessoa que fale de cinema deve adotar uma atitude mental tanto retrospectiva quanto prospectiva”. (ELSAESSER 2018, p. 19). O cinema foi uma força grandiosa no século XX, “foi a memória e o imaginário daquele século. Há bem menos consenso, porém, sobre qual será seu papel, sua sobrevivência ou seu impacto no século XXI”. (ELSAESSER 2018, p. 19). O debate sobre a morte do cinema em pleno desenvolvimento das atuais mídias, incluindo videogames, tevê digital, tecnologias móveis que estão na palma da mão dos indivíduos, nos leva a pensar sobre como essas mudanças são tão importantes quanto transformações geopolíticas no panorama do

cinema global. Elsaesser (2018, p. 20): “considera o passado do cinema, bem como seu futuro, integrado firmemente em outras práticas midiáticas, outras tecnologias, outros usos sociais”.

A internet transformou a maneira pela qual as pessoas se relacionam com o cinema. Uma das primeiras questões para se pensar o cinema hoje está relacionada aos aspectos de distribuição, circulação e exibição digital. “O digital não é só uma nova técnica de trabalho de pós-produção e um novo sistema de entrega ou meio de armazenamento, é também o novo horizonte do pensamento a respeito do cinema”. (ELSAESSER, 2018, p. 200) Investigamos rapidamente algumas estratégias mercadológicas, ao passo em que reforçamos nesta parte da tese discussões entre cinema como arte e comércio. No despertar de atrativos para levar as pessoas às salas de cinema diante da oferta no consumo individual dos serviços em streaming e outras facilidades tecnológicas, refletimos sobre algumas dessas transformações como uma nova forma de se vender os filmes para o público, a começar pela classificação do 3D como estratégia de mercado e proposta do cinema como espetáculo.

No cenário instalado no começo da primeira década do novo milênio, os exibidores estavam receosos dessa migração para o digital, pois o projetor digital era caro e a manutenção duvidosa. O conflito tem atravessado a passagem da película para o digital, sobretudo pela atualização técnológica das salas, com a pressão dos estúdios, a resistência dos exibidores e a confusão para ver quem vai arcar com os gastos. Assim, o 3D emergiu como uma boa surpresa, adquirindo boa resposta do público, explorando a cultura da novidade que os consumidores buscam na paisagem cultural midiática. Antes de tudo, o 3D é uma proposta tecnológica que reside na estética aparentemente mais superficial e sensorial dos filmes. Representa uma perspectiva supostatmente inovadora no mundo do audiovisual, mas que pode conseguir resultados tanto surpreendentes, satisfatórios, como desapontadores. Destacamos que esta técnica de fazer cinema sobressai como estratégia de mercado mais recorrente no cinema americano e cultura blockbuster, mas vem também recebendo investimentos de produtores e distribuidores de filmes em todo o mundo. Sua reconfiguração no mercado já dura mais de uma década, tendo em vista suas primeiras tentativas fracassadas no porvir tecnológico histórico do cinema desde os anos 1950. A tecnologia é parte da revolução do cinema digital, sendo desdobramento do aparato do cinema industrial. O 3D é uma ferramenta tecnológica que atinge fins estéticos, assim como é a cor e o som, que tem probabilidades de se tornar hegemônica, como de fracassar. Entretanto, a técnica não é

tão nova assim, lembramos do nome de Norman McLaren que em termos artísticos foi precursor na experimentação estética dos filmes em três dimensões. Apesar do impacto causado na época, 1950, o público rapidamente perdeu o interesse devido às limitações técnicas da tecnologia em desenvolvimento no período. “Por volta de 1953 existia uma loucura em torno do filme 3D. Grandes estúdios, como Warner, imaginavam que toda a indústria do cinema mudaria para esse sistema – e investiram nessa tecnologia. Mas tão rápido como apareceu, a moda do 3D sucumbiu”. (BARBOSA JÚNIOR, 2005, p. 258).

A ascensão do 3D no mercado atual, algo que já dura mais de uma década, é resultado de uma imensa força econômica e de altos investimentos - que a indústria vai fazer de tudo para recuperar. É partindo dos grandes estúdios que vem a pressão pela digitalização, pois na confecção de cópias 35 mm vão fazer uma grande economia. Tudo tende a se digitalizar, assim como já ocorreu com a fotografia. O investimento em 3D é um artifício usado de forma recorrente no cinema nesta alvorada do milênio mas só o futuro próximo poderá nos responder se esta relação perserverá. Tem crescido atualmente devido a grande demanda por atividades inovadoras no cotidiano. As pessoas querem mudanças, surpresas, novidades, mas não temos certeza de que essa técnica poderá proporcioná-los a inovação que desejam, nem qual será o desdobramento dos filmes que utilizarão este artifício.

Alguns nomes do cinema de arte, como Peter Greenaway, Jean-Luc Godard, Wim Wenders, Gaspar Noé e outros já exploraram em seus filmes a técnica do cinema em 3D. De fato, é um avanço na mídia cinematográfica, pois busca um olhar diferente, com maior envolvimento sensorial do público com o filme. O recurso foi planejado muito cautelosamente, fazendo com que a curiosidade e a demanda se tornassem reais. Já de acordo com o ponto de vista do norte-americano Roger Ebert, crítico renomado de cinema do Chicago Sun Times, o 3D representa o desperdício de uma dimensão perfeitamente boa. Ele argumenta ainda outros pontos negativos do 3D para os consumidores, sob sua perspectiva: pode causar náuseas e dores de cabeça em algumas pessoas; pode servir também como distrações irritantes para outras, privando assim, os diretores de uma ferramenta para guiar nosso foco; ocasiona também no aumento do preço dos ingressos, já que o custo da tecnologia é alta; a imagem é notavelmente mais escura que a dos filmes em 2D; além de causar no público grande expectativa e às vezes não correspondê-las, causando irritação e descrença no seu potencial de ilusão (EBERT, 2010).