2. SENHOR DO BONFIM – FORMAÇÃO DE CELDIVA ANGELIM DE OLIVEIRA
2.4. Cinema melodramas e compartilhamento de espaços
Na Bonfim da primeira metade do século XX era exibido grande número de filmes com conteúdo melodramático. Até a década de 20, especificamente o ano de 1927, com a estréia do filme “O Cantor de Jazz”, a ausência da voz falada requeria, dos atores, gestual exagerado bem apropriado aos dramalhões. Dado o alto preço dos ingressos, a plateia que consumia os produtos cinematográficos, pertencia às classes mais abastadas. (SILVA, 2008)
De todo modo, a presença do cinema no cotidiano da cidade era uma constante e a sua programação, ainda que interrompida em curtos períodos por questões técnicas ou administrativas, era sempre divulgada e elogiada pelo Correio do Bonfim para que a população da cidade a frequentasse. A pequena e jovem Celdiva, pertencente que era ao seleto grupo que poderia pagar os ingressos dos filmes, possivelmente os frequentava. Seja em Bonfim, onde havia inclusive matinês, seja na estrada, já atriz em trânsito. Essa convicção vem da escolha do nome de sua primeira filha, Renée, inspirado na atriz francesa Renée Adorée53, conforme informado pela própria Celina, no trecho transcrito a seguir:
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Não seria essa a Escola em que Celina estudou? Americana, como rememorou sua filha?
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13 de Maio. Correio do Bonfim, nº 37, 18 de maio de 1919, Ano VII, p. 02 53
Emilie Louise Victorine Reeves, ou Renée Adorée, nasceu na França em 1898 morreu em 1933 aos 35 anos, de tuberculose. Atuou no cinema a partir de 1920, e ficou conhecida por seus olhos e por sua presença na tela. Com a chegada do som, ela continuou a trabalhar ao lado de nomes como John Gilbert e Ramon Novarro. Até o final de 1930 já tinha aparecido em 45 filmes quando foi diagnosticada com tuberculose. Disponível em:
http://www.cinemaclassico.com/index.php?option=com_content&view=article&id=2734:renee- adoree&catid=41:elas&Itemid=72. Acesso em 19/08/2012.
CELINA – Já tinha cinema, eu assistia cinema. Eu já assistia... NINI – Era cinema mudo? Era mudo. Ou não?
CELINA – Minha filha, eu não me lembro, eu sei que eu assistia muito. Tinha até uma artista que eu gostava dela. Como era o nome?
RENÉE – Teve uma artista que a senhora deu meu nome, né? CELINA – Era Renée
RENÉE – Renée Adorée. Era o nome da artista. Ela botou Renée NINI – Era americana? Francesa ou americana?
RENÉE – Eu acho que era francesa
CELINA – Eu não sei. Sei que eu gostei do nome (...)
(Entrevista em família com Celina Ferreira, [199-?], Acervo pessoal).
Como apontam diversos estudos sobre o surgimento do cinema e sua convivência com o teatro a partir de fins do século XIX e início do século XX, sabemos que muitas são as construções que abrigam as duas artes, em todo o Brasil, alternando seus conteúdos. E que, portanto, ao menos por um determinado período, a convivência entre os dois foi, não apenas pacífica, mas conveniente.
Segundo Tiago de Melo Gomes, alguns discursos, oriundos de um modo geral de articulistas, intelectuais e figuras do meio teatral ligadas ao chamado teatro sério, apontavam para uma espécie de oposição, entre o cinema e o teatro. O incômodo girava, entre muitos outros fatores, em torno da crença de que o primeiro não era arte, mas indústria superficial, e que suas salas escuras eram um ambiente desfavorável ao caráter educativo que o teatro promovia. Reclamava-se ainda dos baixos impostos cobrados ao cinema e altos ao teatro, além do fato de que a renda deste ficava aqui, entre os trabalhadores da arte local, e os daquele iam para o exterior. Mas, se os que se colocavam na posição de aviltados e prejudicados pelo advento e popularização do cinema eram os que defendiam o teatro sério, porque a grita não ocorria entre os outros, os ligeiros54? É exatamente este ponto da argumentação do autor que me interessa aqui. Ao citar Alvarenga Fonseca, que havia afirmado, em 1927, ser o cinema inimigo do teatro, Tiago Gomes (2004) dá destaque ao fato de que ele, adiante reconhece, e defende como solução, a mistura entre os dois:
Essa fórmula era típica do teatro ligeiro e foi utilizada por diversos artistas, que montaram pequenas companhias para apresentar peças em um ato antes do início de uma sessão de cinema. O chamado teatro sério, teria pouca
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O teatro ligeiro, que reúne uma série de espetáculos considerados leves, com forte presença de música e humor, será tratado no capítulo que versa sobre o teatro de revista.
chance de utilizar esse estratagema, dada a extensão das peças de drama e alta comédia. (GOMES, 2004, p. 64)
É neste sentido, que o cinema pode ser entendido como um elemento “reconfigurador” do teatro ligeiro e não como seu carrasco. No Rio de Janeiro da década de 20, quando as diversões espalham-se para regiões afastadas do centro, os artistas poderiam entender os espaços do cinema, no sentido simbólico e físico, “como novas oportunidades de trabalho, pois poderiam montar pequenas companhias e ganhar com isso mais liberdade, escapando do poder de donos de companhias e de proprietários de teatros da região central”. Há ainda os casos em que o teatro toma de empréstimo do cinema, enredos, canções e estilos, para aproveitar-se da popularidade alcançada pelo que era exibido nas telas. (GOMES, 2004, p. 64 e 67)
E há ainda que se considerar o caminho inverso, quando o cinema, em seus primórdios, necessitava para exibição de seus films, de espaços que pudessem abrigar seus cinematógrafos ambulantes, e o público que o assistiria. Eis que nas acomodações destinadas a atores em carne e osso, passava-se, também a ver, projeções em tela. Algumas notas de jornais referiam- se aos filmes como espetáculos.
Mesmo quando as construções passaram a ser feitas para a exibição de filmes, consideravam em sua estrutura, a convivência com o teatro. Na Paraíba, por exemplo:
(...) os primeiros prédios especificamente construídos para cinema possuíam palco e tela e eram denominados de Cines-Theatro. Conquanto teatro e cinema permaneceram por muito tempo nessa simbiose. Nessa época os próprios espetáculos tornaram-se híbridos e constavam de uma mescla; por um lado, de projeções cinematográficas (na tela), por outro, de apresentações teatrais (no palco), uma verdadeira simbiose. (...) (PALHANO, s/d, p. 30)
Numa coluna batizada de Chronica do Rio, publicada no Correio do Bonfim, o correspondente do jornal na então capital federal, G. de Freitas, trata da preferencia do público pelo cinema, e das estratégias de sobrevivência do teatro:
(trecho ileg.) há pouco mais um teatrinho, o Trianon, destinado a representação de pequenas comedias e peças muito leves, de acordo com o sabor actual do carioca, cujos costumes em matéria de theatro, foram completamente alterados, depois que o cinematographo fez, no Rio a sua entrada triumphal.
E hoje, elle, o cinema, implantou-se definitivamente nos orçamentos domésticos, tendo invadido desassombradamente todos os recantos da metrópole. Os espectadores desses cinemas são em numero de cinco e seis diariamente, mas cuja duração não vae além de uma hora para cada sessão. E’ ahi a aversão popular pelo antigo theatro de dramalhões e peças massudas, cujas representações duravam tres e quatro horas.
Os empresários theatraes, em vista disto, tiveram que mudar de rumo, e organizaram espectaculos com pequenas revistas, comedias em dois actos e com entradas a preço de cinema.
E foi feita a vontade do povo e o teatro continua a ser frequentado. (grifos meus) (Chronica do Rio. Correio do Bonfim, nº 29, 18 de abril de 1915. Ano III, p. 01).
Em Senhor do Bonfim não foi diferente. O Cinema Royal, depois Confiança55 e mais tarde Bonfim, aparece citado na esmagadora maioria das edições do Correio do Bonfim em pequenas médias e grandes notas, com programações das mais diversas. Um histórico, muito bem resumido, dessa variedade é feito por Reginaldo Silva:
(...) O Royal era palco dos mais variados espetáculos: teatro – de grupos locais e visitantes – orquestras, ilusionismo, bailados infantis, bailes carnavalescos, festivais acadêmicos, festas cívicas, etc. Funcionava como uma espécie de centro de diversões, pois além de uma seção de tiro ao alvo na parte interna, acontecia em frente ao seu edifício, retreta das filarmônicas 25 de Janeiro e União e Recreio; quermesses; queimas de Judas; diversões infantis como: quebra-pote, pau-de-sebo, corrida de saco; etc. O cinema fazia 3 ou 4 sessões semanais, incluindo matinês, às vezes com 7 projeções, que só eram suspensas pelas chuvas e frio ou por problemas técnicos com os aparelhos. Algumas dessas sessões eram em benefício de organizações da sociedade civil, que atuavam na produção da mesma. No intervalo de filmes (a maioria deles era de 6 ou mais partes, em diferentes rolos de fitas) sempre havia participação dos diversos grupos musicais locais, a exemplo das orquestras Filhas das Musas e Lyra da União, compostas só por mulheres. (SILVA, 2008, p. 42)
Pois é, aí no palco do cinema, na Bonfim dos anos 10 e primeiríssimos anos da década de 20, que Celina, provavelmente teve, como usufruidora, acesso a uma variedade enorme de atrações e diversões. E é a partir de 1923, que passou a percorrer como artista, aprendiz e profissional, diversos cinemas e palcos do país.
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Em 1917, conforme noticiado no dia 11 de março, após mudar de dono, o Cinema Royal passa a ser chamado de Cinema Confiança e permanece exibindo filmes, acompanhados ou não de apresentações dos grupos musicais locais e recebendo atrações de companhias e artistas da cidade e visitantes.