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2.3 CINEMA NA ESCOLA

2.3.1 Cinema nacional na escola

Ao discorrer sobre a importância da presença do cinema no espaço escolar, Adriana Fresquet (2015) destaca um cenário em que

diante da tela acontece uma horizontalização de nossa condição, até na posturas dos corpos, professor e alunos não estão mais contrapostos em dois lados, mas se viram para juntos assistir ao filme, se colocam no mesmo lugar, com a tela como foco de atenção. (p. 9).

Professores e alunos têm seus corpos e sua atenção voltados para uma mesma obra, para um mesmo objeto. Esse cenário aproxima-os daquela situação de aprendizagem descrita por Paulo Freire e Ida Shor (1986) em que professores e alunos por mais que não sejam iguais, e de fato não o são, podem e devem estar vivenciando uma experiência democrática. Evidente que somente a disposição dos corpos não caracteriza essa experiência democrática, no entanto, esta disposição pode alavancar o processo que irá se consolidar quando os estudantes tiverem confiança no professor enquanto autoridade que dirige uma aula produtiva, que pode manter a disciplina, que tem um bom domínio do conhecimento e de como obter mais conhecimento. O cinema na sala de aula, e não só o cinema evidentemente, pode contribuir para o processo de mobilidade do professor, elemento este fundamental para a efetividade de uma educação que se proponha crítica. A mobilidade, neste caso, encontra-se em posição antagônica ao autoritarismo16. Essa disposição de ser uma autoridade móvel é um aspecto importante para que o professor obtenha sucesso ao dar uma aula expositiva, encaminhar uma discussão, organizar pequenos grupos de estudo dentro da sala de aula, supervisionar pesquisas de campo fora da sala de aula, exibir filmes, complementar pontos de vista que faltam aos alunos, ajudar grupos de estudo a encontrar os materiais ou pode, ainda, destinar longas horas de aula às apresentações dos estudantes, etc. A disposição de se mover com a classe envolve uma disposição a ser flexível quanto à forma da autoridade que o professor exerce (FREIRE; SHOR, 1986).

Por certo que não só os alunos convivem num ambiente autoritário, mas os professores e as equipes pedagógica e gestora das escolas também. No caso dos professores eles

16Os autores Freire e Shor (1986) diferem veementemente autoridade de autoritarismo. No contexto da educação democrática a primeira consiste no reconhecimento de que o professor é diferente dos alunos e tem autoridade, uma vez que ele tem mais experiência, é mais informado, mais experiente na análise crítica e mais comprometido com a mudança social. Mas esta diferença necessária entre eles não pode se tornar “antagônica”, pois é no antagonismo que reside a autoridade.

estão sempre correndo para “dar a matéria”, para “dar o programa”, para

“terminar o básico ou o fundamental”. Eles são oprimidos por essa corrida até o fim do semestre. São pressionados a usar certos livros didáticos, ou a dar certos tópicos obrigatórios numa dada ordem prescrita, em aulas demais, com alunos demais. Haverá exames obrigatórios no final, e o curso seguinte do currículo exigirá que o curso anterior tenha coberto determinada quantidade de matéria. Os professores que se afastam desse procedimento temem ficar mal se seus alunos forem mal em testes padronizados ou nos cursos seguintes. Sua reputação poderia decair. Poderiam ser despedidos.

A idéia de analisar uma quantidade pequena de material não-tradicional defronta com a preocupação com o currículo que angustia permanentemente o professor. (FREIRE; SHOR, 1986, p. 57).

O cinema, apesar de estar presente na sala de aula há quase 1 século,

Na esteira de romper com esse preconceito em relação aos materiais tidos como não tradicionais17, a Lei nº 13.006, de junho de 2014, determina: “A exibição de filmes de produção nacional constituirá componente curricular complementar integrado à proposta pedagógica da escola, sendo a sua exibição obrigatória por, no mínimo, duas horas mensais”. Esta Lei inclui um parágrafo no artigo 26 da Lei nº 9.394, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional.

Na perspectiva da indústria cinematográfica nacional a força da Lei nº 13.006 reside na possibilidade de contato frequente dos alunos com filmes nacionais, que encontram nas salas de cinema, na televisão e na internet a concorrência de grandes empresas estrangeiras consolidadas na produção e distribuição de filmes. A aprovação desta Lei é o prelúdio de uma democratização do cinema nacional que tem como desdobramento as possibilidades de despertar a curiosidade dos alunos para uma área que carece de profissionais. Além da presença dos filmes nacionais, abre-se espaço para que autores, diretores, roteiristas e personagens adentrem também no espaço escolar para dialogar com os alunos e — por que não? — com a comunidade escolar sobre os filmes, propiciando assim uma interação entre a escola e o universo do cinema.

17Materiais não tradicionais são aqueles que não foram produzidos com intenção didática.

Do ponto de vista da educação, há na especificidade dessa Lei o que poderia ser chamado de uma ‘ação desesperada’. Quando nada mais é possível, é preciso vir do alto, tornar obrigatório, impor” (FRESQUET, 2015, p. 12). Essa atitude revela, ainda, segundo Fresquet (2015), “uma descrença em uma práxis, no professor e na possibilidade do cinema fazer parte da escola porque as escolas assim desejam” (p. 12). No entanto, é preciso considerar que os materiais e recursos didáticos tidos como tradicionais normalmente sabotam a formação crítica dos sujeitos ao apresentarem, entre outros elementos, uma “linguagem artificial e um idioma político que impedem que os estudantes conheçam os conflitos de poder de qualquer época, de qualquer disciplina, de qualquer assunto” (FREIRE; SHOR, 1986, p. 58). A força de uma lei como esta pode dotar o professor da confiança que ele precisa para descobrir que materiais são os mais adequados para provocar no seu aluno as reflexões necessárias que conduzam à atitude crítica. Neste sentido, a Lei pode e deve ser percebida como positiva, pois para o professor que tem entendimento do seu papel enquanto orientador no processo de construção do conhecimento e conhece as possibilidades de mobilidade, esta Lei assegura a sua iniciativa de levar para o espaço escolar os materiais que, segundo sua mestria, provocarão a reflexão crítica dos estudantes.

A presença do cinema nacional no espaço escolar evoca um outro aspecto que diz respeito ao caráter emocional desta arte. No mesmo caminho de Franco (2010), Santana (2008) afirma que

Acima de qualquer investigação e conclusão crítica, nunca devemos perder a dimensão de que o recurso principal presente no conjunto da estrutura narrativa cinematográfica – incluindo história, técnica e estética – é essencialmente composto por unidades articuladas entre si com intencionalidades de caráter emocional. (p. 2)

É esse caráter emocional que permite a cada espectador em virtude das circunstâncias sociais, psicológicas e culturais experienciar o filme de maneira diferente. Neste sentido, o filme na sala de aula permite a troca de experiências e impressões sobre a obra assistida, o que possibilita um intenso intercâmbio de informações, percepções, ideias e opiniões entre alunos e professores. Esse aprendizado será tanto mais significativo quanto maior for a identificação do aluno e

do professor com aquilo que está sendo assistido. Ou seja, há uma relação particular entre o espectador e o filme. Nesta perspectiva, o trabalho com o cinema nacional é significativamente mais representativo, porque esta construção de sentido e esse sistema de significação estão situados no interior de relações de poder, de construções sociais de gênero, raça, etc., que, ainda que tenham um caráter universal, configuram-se distintamente no interior de cada sociedade.

Neste sentido a Lei cria a possibilidade de acesso a sistemas de expressão e signos, blocos de ideias e estéticas marginalizadas pelo mercado e pelo sistema oligopolista de exibição.

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