TRILHAS DA CONSTRUÇÃO DA URBE BELEMITA
ESTADO DA POPULAÇÃO
1.3 Caminhos da modernidade: a cidade sob os signos de um tempo acelerado
1.3.3 Cinemas; teatros e cafés na capital irradiante.
O conhecimento de certos itinerários da sociabilidade belenense no período pesquisado, possibilita compreender como se constituíam algumas formas de expressão simbólica da modernidade na região. O entendimento dos sentidos que algumas práticas de lazer e diversão assumiam, no contexto da vida urbana parauara, permite captar um pouco das ações cotidianas que os diferentes sujeitos históricos entreteceram, com vistas a firmar
111 suas identidades sociais e a demarcar seus espaços na urbe.
Nesse movimento, ir ao cinema, frequentar cafés, confeitarias ou ir a espetáculos nos teatros, bem como circular pelas praças e calçadões do centro comercial da cidade eram práticas apreciadas por membros das camadas endinheiradas e também pelos segmentos populares.
Imagens: duas propagandas de sessões cinematográficas. A primeira, datada de 1919, corresponde a divulgação das soirrés do Cinema Olympia, considerado o mais requintado da cidade, frequentado pela elite local e por segmentos remediados da urbe. A segunda imagem diz respeito ao anúncio da programação do Cine Poeira, localizado na Praça Justo Chermont, em outubro de 1950, destacando os preços dos populares dos ingressos. Essa sala de cinema era tida como uma das mais baratas e frequentadas pelas camadas sociais mais pobres da
urbe e já existia desde o final da década de 1920.
Fontes: Folha do Norte. Outubro, 1919. & Folha do Norte. Outubro, 1950.
Observe-se que, de acordo com as fontes de pesquisa, especialmente jornais e revistas literárias, a presença de transeuntes nos largos, praças e boulevards localizados nos bairros mais urbanizados da capital, tais como Batista Campos, Comércio e Cidade Velha,
não se dava aleatoriamente, mas respeitava certas temporalidades.
“Raimundo Cunha, residente á estrada de São Brás, e Gerson Alcantara residente á rua dos Apinagés, n 18, queixaram-se que ontem as 22 horas, achavam-se no hotel “Lisbonense” ao
Largo de Sant’Ana, jantaram em companhia de vários amigos quando ali entraram 5 praças do
segundo batalhão de caçadores, os quais agrediram inapropriadamente os queixosos saindo Raimundo ferido na fronte e Gerson com escolioses pelo corpo. Os praças quebraram várias
112 cadeiras brancas e copos pertencentes aquele hotel, os agressores evadiram-se deixando um capote e um Kepe, tendo aquele o numero 22 e as iniciais C. M. M.”. 187
Nesse sentido, os fins de tarde e as manhãs dos finais de semana eram os horários preferidos pelas camadas mais endinheiradas para passear e serem vistas; enquanto a noite e as madrugadas ficavam implicitamente reservadas para o trânsito das chamadas classes perigosas, boêmios, ébrios, meretrizes e toda sorte de indivíduos dados a comportamentos considerados indesejáveis no contexto da cidade moderna.188
“A polícia deteve ás 04 horas da madrugada de hoje, Francisco de Souza Monteiro, cearense, pardo, de 20 annos de edade, solteiro, sem profissão, nem residência e Acelyno de Leão, paraense, preto, de 19 annos de edade, solteiro, estivador, residente á rua João Balby nº 35. Foram presos na praça da Bandeira, quando promoviam desordem naquele logradouro.”189
Detendo-se na observação dos espaços e dos circuitos de lazer construídos durante o dia, fins de tarde e início de noite, fica evidente que se tratava de momentos nos quais era possível partilhar percepções da urbe, projetar imagens de si mesmo(a), firmar valores e ter contato com diferentes experiências de viver a cidade.
No bojo das transformações culturais e processos de urbanização, determinados territórios da capital paraense passaram a ser mais ou menos valorizados, mais ou menos visitados e desejados, tornando-se espaços propícios para a circulação pública e para o lazer coletivo.
“Um lindo aspecto do Boulevard Commandante Catilho, cujas obras foram iniciadas pelo ex- intendente comendador Antonio Faciola e concluídas pelo atual prefeito padre Dr. Leandro Pinheiro. É o novo ponto para o “footing” , para a alegria e para o ‘flirt’...”190
Através dos contatos, dos encontros e das conversas mantidas nesses ambientes, expunham-se as diversas visualidades da urbe, realçando discursos que apontavam a elegância e a civilidade como sendo marcas inequívocas da urbanidade moderna.
Por meio da publicidade citadina, dos noticiários e das revistas de mundanismo, difundiu-se um estilo de vida que apregoava a felicidade e a realização plena dos desejos de consumo como sentimentos indissociáveis do viver urbano. Grandes avenidas (Boulevards) com seus calçadões, remanescentes dos tempos da hérbea brasilienses, terraços de hotéis na área central, padarias refinadas, salas de cinema e teatro, tornam-se então locus para desfilar-
187 Boletins de Ocorrência. Volume, 349-C. Belém, 19 de maio de 1923.
188 “Themistocles Ferreira de Sousa, soldado do exercito, que promoveu, ante-hontem, de madrugada,
desordem no Boulevard Castilho França, conforme noticiamos foi expulso hontem da corporação a que
pertencia, o 26º B C, sendo apresentado em ofício, á policia, que o recolheu a cadeia de São José.” Folha do Norte, 06 de janeiro de 1939. Fls.02. Promoveu desordem e foi expulso de sua corporação.
189 Folha do Norte. 10 de janeiro de 1939. O dia policial. Desordeiros da madrugada 190 A semana. Ano XIII. 21 de novrmbro de 1931. A cidade moça.
113 se a última moda, para inteirar-se das novidades de consumo, para expressar um estilo de virda urbano e principalmente cheio de contentamento e felicidade.191
Pelos citados territórios, transitavam estudantes secundaristas e universitários, literatos, boêmios, comerciantes conhecidos na capital, acompanhados de suas esposas ou mesmo de suas amantes; senhoritas pertencentes a famílias abastadas, além de advogados, médicos, professores e funcionários públicos que gozavam de algum prestígio social na urbe.
“O ‘chá das cinco’, no espelhado recinto da Confeitaria Central vai se tornando numa nota obrigatória de elegância e bom gosto à aristocracia da cidade.
Diariamente as nossas gentis compatrícias ao avizinhar do crepúsculo correm ao elegante estabelecimento para satisfazer o suavíssimo tributo da vaidade e da graça, enquanto os nossos elegantes e almofadinhas, lá estão firmes para os torneios mudos dos olhares, dos sorrisos e dos comprimentos, ás vezes precursores de ‘flirts’ deliciosamente tentadores.”192
Nesses espaços, também podiam ser encontrados imigrantes e paraenses pobres, que, por diferentes motivos, andavam de um lado para o outro da cidade. Vendedores ambulantes, carroceiros, meretrizes, lavadeiras, malandros; gatunos e crianças de famílias trabalhadoras. Desemprenhando seus ofícios profissionais ou simplesmente andarilhando pelas vias públicas,
191 MARTINS JUNIOR, Ruy Jorge Moraes. Visto, logo existo: moda, sociabilidade feminina e consumo em
Belém, no limiar do século XX. Belém: UFPA, 2010. Dissertação de Mestrado (Mantendo as aparências em tempo de crise). pp. 109-118.
192 Belém Nova. Ano IV. Nº 73. Pará, 30 de agosto de 1927. Belém, civiliza-se.
Foto: Na praça da República 1.Fonte: Guajarina, 27 de novembro de 1920. Ano II. Nº 21.
Imagem: Na sahida do Olympia 1. Fonte: Guajarina, 27 de novembro de 1920. Ano II. Nº 21.
114 esses munícipes também ocupavam os espaços urbanizados da cidade e transitavam pelos circuitos de lazer considerados mais civilizados e modernos.
“Á tarde de ontem foi preso o individuo Luiz Fernades da Silva, morador á travessa Fructuoso Guimarães, e que apedrejava ás mangueiras do Largo das Merces.193
Portanto, tais espaços eram territórios que possibilitavam partilhar determinados hábitos de urbanidade, difundir novos comportamentos e concepções de mundo, bem como estabelecer contato com os mais variados tipos de pessoas, algumas delas fascinadas pelas conquistas proporcionadas pela vida moderna e outras que possuíam modos de viver considerados refratários aos discursos civilizatórios do período.
Como redutos de lazer das camadas remediadas da capital, esses ambientes se tornavam locais propícios para se desfilar glamour e riqueza, reunir convivas e debater política, reafirmando-se determinadas formas de ver e de agir na cidade.
Sob esse prisma, para alguns frequentadores de tais itinerários de sociabilidade burguesa, os quais se definiam como acurados observadores da realidade local, ainda que a região houvesse sentido em parte o impacto da queda dos preços da borracha nativa, o processo de modernização das principais capitais amazônidas se mantinha.
Se não caracterizado pela persistência dos projetos de reforma arquitetônica e espacial
193 Folha do Norte. Belém, 17 de fevereiro de 1926. Várias.
Imagem: Na praça da República. Fonte: Guajarina, 27 de novembro de 1920. Ano II. Nº 21.
Imagem: TheodoroBrazão & Silva sorridente ao entrar no estádio azulino Fonte: Guajarina, 18 de
115 das cidades, pelo menos sustentado por constantes descobertas técnicas e tecnológicas que eram introduzidas no cotidiano de vida das populações autóctones, as quais se viram diante de substanciais mudanças em suas relações com o tempo, os espaços e com os seus próprios pares.
Por este viés, tinha-se a crença na continuidade de um processo de modernização que havia se iniciado ainda em fins do século XIX e que assumia novos contornos nas décadas de 1920 e 1930.
Imagem: propaganda da primeira empresa aérea a ter linhas regulares no estado do Pará. Fonte: Folha do Norte. 1930.
Ao compulsar as folhas dos principais periódicos e revistas literárias que circulavam na região no período estudado, Angela Corrêa discute o lugar social da produção musical paraense na constituição de uma cultura urbana e de modernidade na região. Nesse trabalho, conclui que entre as elites intelectuais e econômicas amazônidas, debatiam-se com certo interesse, as condições de modernidade experimentadas no período; questionando-se o sentido e a dimensão dos avanços tecnológicos, das conquistas materiais e das mudanças políticas
116 havidas na região.194
Nesse tocante, se oscilava entre a ideia de modernidade e a de decadência, entre o sentimento de melancolia pelas décadas precedentes e o fascínio pelos novos ritmos, odores e formas de se comportar do período.
Para alguns, o que se tinha era um prolongamento da modernidade da Belle époque, um aprofundamento das transformações iniciadas ainda em meados da segunda metade do século XIX; daí que a modernidade dos anos 1920 e 1930 era considerada apenas uma extensão da modernidade de fin du siècle.
Para outros, especialmente grupos das elites intelectuais formadas por literatos e profissionais liberais envolvidos com a vida noturna e boêmia parauara, o que se tinha era a afirmação de uma Belém com uma identidade nova, com base em conceitos desvinculados dos hábitos e da estética europeia, dialogando com as criações literárias, arquitetônicas e políticas locais. Conforme debate Ângela Corrêa:
“Decorrido esse período de esplendor, certa nostalgia e algum lirismo em torno do passado da belle époque tomavam posse das almas dos moradores mais “ilustres”. Uma áura poética passou a envolver as lembranças, criando imagens em que buscava estabelecer vínculos com a cidade de outrora. Assim, começava a se estabelecer uma tradição, um prolongamento da modernidade da Belle Époque, uma filiação desta com a modernidade dos anos de 1920 a 1940, presente em fotos, crônicas e memórias.”195
Considerando-se a totalidade dos fatos observados até o momento, pode-se dizer que, de fato, havia a continuidade de um projeto de modernização da cidade, porém ele não era herdeiro da belle époque, mas se construiu sobre seus escombros e no diálogo com os valores do moderno que circulavam em outros estados brasileiros, especialmente Rio de Janeiro e São Paulo, com fulcro em hábitos que se forjavam cada vez mais sob a influência do american way of life.
Assim, tem-se uma modernidade peculiar, uma nova tentativa de civilizar a cidade e de racionalizar os comportamentos de seus habitantes; menos pelo viés higienista e médico- social e muito mais pela afirmação de uma cultura de massas que se consolidava, a qual utilizava o arsenal de instrumentos culturais e tecnológicos disponíveis na época, como por exemplo, o cinema, o rádio, o automóvel, dentre outros elementos.
Diferentemente do período áureo extrativista, os grandes ícones da modernidade dos anos 20 e 30 do século XX transcendem a monumentalidade do artefato arquitetônico,
194 CORREA, Angela Tereza de Oliveira. História, Cultura e Música em Belém: décadas de 1920 a 1940. São Paulo: PUC/SP, 2010. Tese de Doutorado em História.
117 dizendo respeito bem mais à difusão de práticas de sociabilidade, formas de consumo e mobilidade urbana que carregavam em si mesmas, valores ditos modernos, tais como a racionalização dos tempos e movimentos e a hedonização dos comportamentos.
Trata-se de um período efervescente e contraditório, em que se evoca um estado vivencial de multidões, exalta-se o burburinho e o frenesi da circulação nas metrópoles, aclamam-se as aglomerações, as sociabilidades em espaços coletivos, abertos e públicos, ao mesmo tempo em que se experimenta intenso sentimento de solidão, cultuando-se o hedonismo e a busca por individualidade e privacidade, há tempos perdidas.196
Por outro lado, é uma modernidade que se apresenta, como discurso e prática, permeada por circularidades culturais, nas quais valores classificados como modernos e cosmopolitas coexistem com hábitos regionalistas, práticas de trabalho consideradas arcaicas e modos de viver vinculados a costumes tradicionais locais; muitos deles oriundos dos segmentos mais pobres.
Não obstante, certas práticas introduzidas no cotidiano da cidade e consideradas como essencialmente letradas, passam a ser vivenciadas por grupos de trabalhadores urbanos, os quais se apropriavam desses símbolos de progresso, a partir de seus modos de ver a urbe e vivenciar as experiências culturais de massa.
Nesse sentido, o ato de frequentar as salas de cinema tornou-se algo difundido entre os mais diferentes grupos sociais da urbe belemita; e por isso, tanto membros das camadas abastadas quanto trabalhadores pobres urbanos passaram a ter nessa prática um hábito de lazer.
A disseminação de uma cultura cinematográfica na capital paraense fica evidente na tese de Allan da Silva, que pesquisou o cotidiano das salas de cinema em Belém entre 1939 e 1945. 197 Conforme postula o historiador, o cinema era um espaço social que servia não só
196 Para PAOLI & ANDRADE, nesse período as relações entre o público e o privado se estabelecem de forma complexa, dicotômica e contraditória. Na medida em que se estimula a ocupação dos espaços públicos, mas exclusivamente para os segmentos sociais considerados civilizados e que não ofereciam riscos potenciais a ordem estabelecida. Enquanto para os mais pobres, se discursa em favor da invisibilidade, de um certo aprisionamento das práticas de sociabilidade nas casas e salões, postulando-se a necessidade de conter as festas, manifestações políticas e expressões dos trabalhadores pobres, que antes desse período eram majoritariamente realizadas em ruas, praças e largos. Por isso, os espaços públicos passam a ser tidos apenas como paisagens, como pano de fundo das circulações e passagens urbanas; ‘paisagens alisadas’ e sem contradições. Enquanto os espaços privados se tornam os locus se segurança e sociabilidade por excelência. Cfe. PAOLI, Maria Célia; DUARTE, Adriano. "São Paulo no plural: espaço público e redes de sociabilidade': ln: PORTA, Paula (org.).
História da cidade de São Paulo. Vol. 3: A cidade na primeira metade do século xx, 1890-1954. São Paulo: Paz e Terra, 2004.. 72-73
197 SILVA, Allan Pinheiro da. Cotidiano e Guerra nos cinemas de Belém (1939-1945). São Paulo: PUC, 2007. Dissertação de Mestrado. Mimeo. pp. 27-28.
118 como evento público, mas também com vários outros propósitos, dentre os quais se destacam: ser veiculo de informação e propaganda, especialmente em períodos de tensão política ou de guerra; difundir um modo de vida burguês, materializado pelos modelos humanos que protagonizavam as fitas e tramas; entreter a população local, uniformizando as formas de se divertir na urbe, ao padronizar os espaços de lazer; estabelecer convenções e ritos para que fossem frequentados e, principalmente, ao impor certos valores de mundo para seus telespectadores, mediante o controle dos conteúdos que eram expostos nas salas cinematográficas.
Imagem: Cinema Moderno, Praça D. Justo Chermont, na estrada de São Braz (futura Av. Magalhães Barata) Característica interessante era a divisão do espaço do público em duas alas: a primeira composta por poltronas e a segunda por bancos de madeiras; cujos ingressos tinham diferentes valores. Fonte: VERIANO, Pedro. Cinema
119 Observe-se que, nos anos 1920, o principal eixo da indústria cinematográfica, que era a distribuição de filmes, havia passado para o controle dos Estados Unidos, em virtude das perdas econômicas que atingiram a Europa, após a primeira guerra mundial e, por conseguinte, impactaram a produção e circulação das fitas cinematográficas naquele continente.
De qualquer modo, a circulação de filmes, em nível mundial, dependia primeiramente de sua aceitação pelo público em âmbito internacional; o que assegurava interesse das empresas de distribuição nacionais por locar as películas.
Assim, os filmes que circulavam no Brasil e especialmente no Pará, tinham origem na França ou nos Estados Unidos, obedecendo a uma rotina de circuito que vinha do Sul para o Norte do país, sendo por isso comum chegarem a Belém e Manaus, copias desgastadas, cheias de riscos e sujeitas a interrupções na projeção, por causa dos orifícios laterais da película danificados.198
Imagem: Sala de espera do Cinema Olympia, 1912. Fonte: GUSMÃO, Luiz Henrique Almeida. Cartografia dos cinemas de Belém. Fonte: http://geocartografiadigital.blogspot.com.br/2014/07/cartografia-dos-cinemas-de-
belem.html.
Mesmo assim, as salas de cinema em Belém atraiam dezenas de pessoas das mais variadas origens sociais; existindo uma pluralidade de espaços para exibição das fitas na
120 capital, os quais, na década de 1930, abrangiam tanto as áreas mais comerciais e centrais da urbe, quanto alguns bairros operários e marginais ao centro financeiro e cultural da cidade. Desse modo, conforme identificou Allan Pinheiro, na iminência da eclosão do II conflito mundial havia 11 (onze) salas de cinema em atividade, sendo algumas nos arrabaldes de Belém.
Eva Carneiro corrobora esse entendimento ao fazer um acurado levantamento das salas de cinema existentes na cidade de Belém ainda durante o interstício de 1920 a 1930. Percebe que nesse período, contradizendo os discursos a respeito da decadência econômica local, os cinemas passaram a ocupar um espaço privilegiado como opção de investimento comercial e de lazer para a população da capital paraense, isso principalmente devido ao aumento do número de salas de exibição.
Dessa feita, identifica 24 salas de exibição de fitas cinematográficas em Belém nos anos 20. Essa oferta poderia ser explicada pela diversidade de públicos que o “cinematógrafo” atraía, os quais, segundo a historiadora, eram formados pelos mais diferentes grupos de munícipes:
“A população interessada era bastante variada. A documentação pesquisada indica a presença de prostitutas, empregadas domésticas, profissionais liberais, coronéis, o que importava a empresa exibidora era a presença de público as sessões. Por conta disso, havia diferentes tipos de salas frequentadas por essa demanda tão diversificada, mas que espacialmente não possuíam grandes discrepâncias.”199
Na perspectiva apresentada por Eva Carneiro, o que diferencia a oferta dessa espécie de lazer em Belém, nos anos de 1920 e 1930, é a disposição geográfica das salas de exibição, posto que a espacialidade das salas de cinema se expandiu somente na década de 1930, a partir da inauguração de alguns cines, como o Fuzarca, criado em 1930, nas proximidades de São Braz e o Royal, localizado no bairro operário do Reduto e inaugurado no mesmo ano. Encontrou-se ainda a referência ao Cinema Sete de Setembro, cujo prédio nada mais era do que um grande galpão de madeira, com chão de terra e bancos de taboa corrida, localizado na Villa de Val de Cães, área de arrabalde, cujo proprietário solicitou dispensa do pagamento das taxas de funcionamento, em abril de 1931.200
Na verdade, ao comparar a disposição das salas de cinema de Belém nos anos 20 com
199 CARNEIRO, Eva Dayana Felix. Belém entre filmes e fitas: a experiência do cinema, do cotidiano das salas
às representações sociais nos anos 1920. Belém: UFPA, 2011. Dissertação de Mestrado. Mimeo. PP.36-37 Se compararmos os dados obtidos por Alan Pinheiro e Eva Carneiro, enquanto na década de 1920 havia 24 salas de exibição concentradas na área mais central da cidade; no ano de 1939, na iminência da eclosão do II conflito mundial havia 11 (onze) salas de cinema em atividade, sendo algumas nos arrabaldes de Belém.
121 as existentes nas principais capitais do país, como Rio de Janeiro e São Paulo, Eva Carneiro percebe que, na capital paraense, a distinção espacial entre cinemas de luxo e cinemas