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ESTRATO LEXICOGRAMATICAL

2.2.1 Circulação do conhecimento

Quando da circulação do conhecimento por meio da recontextualização do discurso acadêmico no discurso jornalístico, há um movimento interdiscursivo que evidencia um “fluxo constante entre gêneros e discursos de diferentes contextos de cultura” (MOTTA-ROTH; SCHERER, 2012, p. 640) ou de diferentes ordens do discurso. As ordens do discurso se referem ao conjunto de práticas discursivas associadas a uma instituição social e às relações entre essas práticas (FAIRCLOUGH, 2006b, p. 166). À vista disso, no contexto da ciência, pode-se pensar na relação entre as práticas acadêmicas e as práticas que a recontextualizam como uma relação entre gêneros que participam do mesmo sistema que concorre para a circulação do conhecimento. No jornalismo científico, a PC participa da circulação do conhecimento por ser um processo que envolve a recontextualização de uma fonte oriunda do contexto acadêmico “de modo que a mesma seja compreensível e relevante para uma outra audiência, em um contexto discursivo que difere da fonte original” (CIAPUSCIO, 2003, p. 210 apud PINTON, 2012, p. 15). Sendo assim, a circulação do conhecimento “acontece num continumm entre os graus de especialização que existem entre os interactantes” envolvidos nos gêneros que divulgam a ciência (PINTON, 2012, p. 15).

De acordo com Guimarães (2009), a circulação do conhecimento se dá sob dois modos:

1) Por meio do discurso científico, no interior da comunidade acadêmica, sendo o produtor e o consumidor especialistas em “línguas” específicas de cada domínio de ciência (GUIMARÃES, 2009, p. 7) ou área do conhecimento. Exemplos são encontrados em trabalhos de monografias, dissertações e teses, congressos, seminários, palestras, publicações de artigos na mídia acadêmica, etc.; e

2) Por meio da escola e da mídia jornalística, com o objetivo de alcançar a sociedade, sendo o produtor aquele que tem como consumidor um público que espera os resultados da ciência (GUIMARÃES, 2009, p. 7). Essa circulação do conhecimento envolve tanto a instituição acadêmica quanto as instituições escolar e jornalística. No contexto escolar, que se propõe a promover o letramento com a mediação de professores, a circulação do conhecimento se dá, por exemplo, por meio de livros didáticos. No contexto do jornalismo científico, a circulação do conhecimento se dá, por exemplo, por meio de notícias.

Martin (1998) afirma que não pairam dúvidas sobre a posição privilegiada ocupada pelo discurso da ciência. O conhecimento científico não pode ser dissociado de sua representação discursiva e está necessariamente vinculado a um contexto comunicativo específico. Em outras palavras, os gêneros que transitam nos contextos nos quais se discute ou divulga ciência têm a necessidade de recriar a informação para essa nova audiência. (VIVAN, 2010, p. 77).

Na PC, adotando-se a perspectiva da ACD, pode-se postular que os textos recontextualizados são artigos científicos previamente publicados em revistas especializadas na mídia acadêmica, com os jornalistas sendo os responsáveis pela recontextualização e recriação do conhecimento que acontece na mídia de massa, geralmente sob a forma de notícia. Desse modo, conforme Motta-Roth (2009 apud MOTTA-ROTH; SCHERER, 2012, p. 641 com base em BERNSTEIN, 1974), a PC pode ser analisada como uma midiatização da ciência no jornalismo, um processo de recontextualização do conhecimento acadêmico na mídia de massa. Nessa perspectiva, considero que os textos de PC são escritos por não especialistas (jornalistas de fato) no conhecimento recontextualizado/recriado, visando-se uma audiência também de não especialistas.

O processo de midiatização da ciência corresponde à recontextualização do conhecimento científico na mídia de massa (Motta-Roth 2009; 2010b, com base em Bernstein 1974), pois o conhecimento produzido em/atribuído a contextos científicos é apropriado, reformulado/rearticulado e realocado na sociedade por meio de um contexto intermediário: a mídia de massa. Nos termos da reelaboração do conceito de Bernstein por Fairclough (2003:32), podemos pensar na recontextualização que a mídia faz da ciência ao se apropriar de elementos da prática social do contexto primário de produção científica (as universidades, os laboratórios e institutos de pesquisa), situando o discurso da ciência no contexto da mídia e transformando-o de maneiras específicas ao longo do processo. (MOTTA-ROTH; SCHERER, 2012, p. 652). “O discurso de PC, organizado em textos escritos para leitores não especialistas como uma forma de ampliar o acesso ao conhecimento, constitui uma preocupação relativamente recente e um campo de estudo atual” (CAMUS, 2009, p. 466 apud GERHARDT, 2011, p. 13). Gerhardt (2011, p. 13 com base em MYERS, 2003) destaca a distinção das visões tradicional e contemporânea dos gêneros que participam da circulação do conhecimento como forma de “deixar transparecer a importância da recontextualização” para o processo de PC.

[...] à medida que a ciência passa a ser recontextualizada, há um avanço para uma abordagem contemporânea, marcada pela intensa preocupação com a acessibilidade ao conhecimento pela audiência não especializada, fundamentada em uma perspectiva que considera a língua uma ação conjunta entre quem escreve e quem lê [...]. (GERHARDT, 2011, p. 13).

Conforme Gerhardt (2011, p. 13-14), há três perspectivas que se se alinham à visão tradicional dos gêneros que participam da circulação do conhecimento:

1) Visão de ciência como “uma fonte ativa de conhecimento” e de audiência “como receptora desinformada e passiva” (MILLER, 2009, p. 259 apud GERHARDT, 2011, p. 13);

2) Visão de PC “como externa ao processo de produção e validação do conhecimento, o que a caracterizaria como uma atividade de não cientistas” (GERHARDT, 2011, p. 13). A disseminação do conhecimento dos cientistas até os leigos é “uma atividade que não contribui positivamente para a reputação do pesquisador” (WHITLEY, 1985, p. 3 apud GERHARDT, 2011, p. 13); e

3) Visão de PC como uma tradução de um registro altamente especializado para um registro simplificado, mais compreensível, “com o objetivo de transmitir fatos a uma audiência diferente daquela originalmente pretendida pelo texto científico” (GERHARDT, 2011, p. 14). Nesse caso, “a linguagem simplificada é considerada uma perversão do texto original” (CAMUS, 2009, p. 466 apud GERHARDT, 2011, p. 14).

A visão contemporânea dos gêneros que participam da circulação do conhecimento não se coaduna a essas três perspectivas supracitadas, mas reconhece “a diversidade da audiência e as atitudes da mesma em relação à ciência” (GERHARDT, 2011, p. 14). No caso da PC, é vista como “uma atividade colaborativa entre quem escreve e quem lê”, envolvendo “interação” e “informação” (MYERS, 2003, p. 273 apud GERHARDT, 2011, p. 14). Nessa visada, a PC é um processo de socialização do conhecimento, oportunizando que a ciência seja debatida por diversos segmentos da sociedade (BEACCO et al., 2002, p. 283).

Em se tratando de jornalismo científico, a recontextualização objetiva a compreensão por um leitor não especialista, o que é evidenciado pelo emprego de variadas estratégias linguísticas (GERHARDT, 2011, p. 14). Essas estratégias escolhidas pelos jornalistas conduzem os textos de PC a uma maior ou menor didatização, a um maior ou menor afastamento do discurso da ciência

recontextualizado. Analisando notícias de PC publicadas nas revistas Ciência Hoje On-line e Galileu, Lovato (2014), por exemplo, verificou que as primeiras tendem “a alinhar-se ao mundo da ciência”, apropriando-se de “padrões discursivos da ciência”, enquanto as segundas tendem a alinhar-se “ao mundo da vida, adotando “padrões discursivos do cotidiano”. “Essa preocupação com a possível audiência é essencial ao processo de PC e está presente nos principais estudos contemporâneos sobre o tema” (GERHARDT, 2011, p. 14).

A circulação do conhecimento por meio da recontextualização de artigos científicos nas notícias de PC mobiliza tanto discursos jornalísticos quanto discursos acadêmicos e pedagógicos (cf.: GERHARDT, 2011). O processo de PC na mídia jornalística, portanto, é um entrecruzamento discursivo ou interdiscursividade de gêneros pedagógicos, acadêmicos e jornalísticos (MOTTA-ROTH; SCHERER, 2012, p. 640), os quais integram um mesmo sistema de gêneros que participam da circulação do conhecimento, conforme destaco a seguir.