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Interleucina-10 (IL-10) e fator de crescimento transformador beta (TGF-β) são citocinas anti-inflamatórias e imunosupressivas que têm sido descritas nos processos de escape e imunomodulação tumoral (PARDALI e MOUSTAKAS, 2007; SATO et al., 2011; UROSEVIC e DUMMER, 2003).

IL-10 é uma proteína codificada por um gene localizado no cromossomo 1 entre 1q31 e 1q32 (KIM et al., 1992). É um homodímero de 37 kDa, sendo que cada monômero consiste em 160 aminoácidos com um peso molecular de 18,5 kDa (ZDANOV et al., 1995). A IL-10 foi originalmente descrita por Fiorentino et al. (1989) como uma substância presente no sobrenadante de cultura de linfócitos Th2, a qual era capaz de inibir a produção de citocinas pró-inflamatórias por células Th1 ativadas. Com base em sua atividade biológica, a IL-10 foi inicialmente chamada de "Fator inibidor da síntese de citocina” (FIORENTINO et al., 1989).

A IL- 10 pode contribuir com o escape tumoral através da geração de um fenótipo de células neoplásicas resistentes à ação dos LTCs, o que ocorre devido uma baixa expressão ou inibição de moléculas MHC-classe I na superfície celular (KURTE et al., 2004; PETERSSON et al., 1998). Por sua vez, possivelmente esse efeito seja mediado devido uma redução na expressão de TAP-1 e TAP-2, o qual conduz a uma baixa translocação de peptídeos para dentro do RE, o que, por conseguinte, propicia essa redução na expressão de moléculas MHC-I (KURTE et al., 2004; PETERSSON et al., 1998). Dessa forma, Matsuda et al. (1994) ao conduzirem um estudo com melanoma demonstraram que a lise mediada pelos LTCs foi inibida contra as células neoplásicas e esse efeito foi associado a uma redução na expressão da molécula MHC-I, sugerindo os autores que a produção de IL-10 pelas células tumorais ou por células do hospedeiro que infiltram o tumor pode atuar como um mecanismo que leva a progressão neoplásica (MATSUDA et al., 1994). Além disso, a expressão de IL-10 pelas células tumorais tem sido associada com aumento da expressão da molécula HLA-G, a qual desempenha importante efeito inibidor contra a citotoxicidade mediada por células NK e LTCs (UROSEVIC e DUMMER, 2003).

O TGF-β é membro de uma superfamília de proteínas conhecidas como superfamília TGF-β, que inclui ativinas, BMP (proteína morfogenética óssea), GDNF (fator neutrófico derivado da glia), dentre outras (MASSAGUÉ, 1998). Em humanos, consiste em três isoformas homológas que são o TGF-β1, -β2 e -β3, os quais encontram-se localizados nas regiões 19q13, 1q41 e 14q24, respectivamente (MASSAGUÉ, BLAIN e LO, 2000; ROBERTS, 1998). Foi descoberto em 1982, como uma fração adicional ao TGF-α secretado por fibroblastos transfectados com oncogenes, e que isoladamente era capaz de conferir transformação de colônias de fibroblastos renais de camundongos (ANZANO et al., 1982).

O TGF-β tem a capacidade de inibir o crescimento da maior parte das células epiteliais e hematopoiéticas, exercendo dessa forma um importante papel na manutenção da homeostase celular (MASSAGUÉ, BLAIN e LO, 2000). Essa citocina exerce um complexo papel na carcinogênese favorecendo uma proliferação descontrolada das células neoplásicas, perda da apoptose, indução da transição epitélio-mesenquimal, angiogênese e metástase (PRINCIPE et al., 2014). Portanto, estudos têm mostrado que uma inativação mutacional ou expressão desregulada de componentes da via de sinalização do TGF-β como, por exemplo, mutações no Smad, um importante mediador intracelular da via TGF-β, pode contribuir favoravelmente com a evolução das neoplasias (PRINCIPE et al., 2014). Existem relatos de que, durante a progressão tumoral, o TGF-β inverte seu papel anti-proliferativo e estimula a proliferação da célula tumoral, como observado em câncer de mama e câncer de cabeça e pescoço em estágios avançados (ELLIOTT e BLOBE, 2005; MURAOKA-COOK, DUMONT e ARTEAGA, 2005).

Outros estudos demonstraram que o TGF-β pode inibir a apresentação de antígenos pelas CDs mediante a inibição da atividade fagocítica/endocítica por essas células, e pode ainda bloquear a expressão de moléculas co-estimulatórias que são fundamentais para a maturação das CDs e ativação dos LTCs (ITO et al., 2006; KOBIE et al., 2003; THOMAS e MASSAGUÉ, 2005). Os mecanismos pelo quais o TGF-β promove essa inibição in vivo ainda permanecem desconhecidos, mas supostamente ocorre com o envolvimento direto do Smad (ITO et al., 2006; KOBIE et al., 2003;

THOMAS e MASSAGUÉ, 2005). O TGF-β pode também desempenhar importante

papel na diferenciação e indução de células T regulatórias FOXP3+ (LI e FLAVELL, 2008).

Os achados mencionados suportam a hipótese da participação tanto da IL-10 quanto do TGF-β nos mecanismos de falha da resposta antitumoral. Gaur et al. (2014) evidenciaram por meio das técnicas de ELISA e citometria de fluxo que os níveis de TGF-β1 e IL-10 foram significativamente maiores em pacientes com câncer de boca do que em indivíduos saudáveis. Adicionalmente, ambas as citocinas correlacionaram-se com a progressão da doença, ou seja, quanto mais avançada à doença, maior foram as concentrações de TGF-β1 e IL-10 (GAUR et al., 2014). Vairaktaris et al. (2008) investigando o polimorfismo 1082A/G, o qual influencia diretamente a expressão de IL-10, observaram que o alelo G foi significativamente maior nos pacientes com CEC de boca quando comparado a indivíduos saudáveis, inferindo que uma alta expressão desse polimorfismo associa-se fortemente a um maior risco de desenvolvimento dessa neoplasia (VAIRAKTARIS et al., 2008).

Recentemente, usando a técnica de qRT-PCR, membros do nosso grupo de pesquisa revelaram uma maior expressão de IL-10 no grupo de pacientes com CEC de boca metastático em comparação ao grupo que não fizeram metástase linfonodal, sugerindo que a IL-10 está associada com a metástase e menor tempo de sobrevida para os pacientes com essa neoplasia (COSTA et al., 2013). Corroborando com os nossos resultados, Chen et al. (2013) mostraram por análise multivariada que uma maior expressão de IL-10 associa-se significativamente com um pior prognóstico e manifestações clínicas mais agressiva, sendo que tal citocina pode futuramente tornar-se um marcador de prognóstico independente, sobretudo em estágios iniciais do CEC de boca (CHEN et al., 2013).

Hamzavi et al. (2013) demonstraram que a expressão de IL-10 foi observada em 86,6% das amostras de pacientes com câncer de cabeça e pescoço (8 amostras de CEC de boca foram incluídas), enquanto que não houve nenhuma expressão nas amostras dos indivíduos controle. Também notificaram a expressão de IL-10 por células mononucleares do estroma tumoral. Em adição, esses pesquisadores evidenciaram que não houve relação entre a expressão tecidual e a concentração salivar e sérica dessa proteína. Mostrando ainda que a expressão tecidual da IL-10 foi relacionada com o estágio da doença, ou seja, pacientes em estágios iniciais da doença apresentam maior

chance de positividade para IL- 10 (HAMZAVI et al., 2013). Neste contexto, Green et al. (2012) ao investigar os níveis séricos da IL-10 em pacientes com CEC de cabeça e pescoço (21 indivíduos com CEC de boca foram incluídos) demonstraram que amostras antes do tratamento tiveram maiores concentrações de IL-10 que amostras pós-tratamento (cirúrgico, radioterapia e/ou quimioterapia) e que o grupo controle. Eles também mostraram que após um período de acompanhamento de 15 meses, os níveis detectáveis de IL-10 no soro das amostras pré-tratamento apresentaram uma influência significativamente negativa no tempo de sobrevida, comprovando que a significância desta citocina para o prognóstico ocorre durante um curto período de tempo, tornando-se menos efetiva quando o tempo de acompanhamento aumenta (GREEN et al., 2012).

Com referência ao TGF-β, Mincione et al. (2008) demonstraram pela técnica de imunoistoquímica que o TGF-β1 e seus receptores foram significativamente reduzidos nas amostras de CEC de boca pobremente diferenciadas quando comparado àquelas moderadamente e bem diferenciadas, tendo sido essa redução progressiva confirmada pela técnica de Western Blot. Os autores sugerem que o TGF-β pode ser uma ferramenta útil e adicional no diagnóstico ou prognóstico do CEC de boca (MINCIONE et al., 2008). Adicionalmente, Elahi et al. (2012) evidenciaram que a expressão de TGF-β1 foi negativamente correlacionada com a gradação histológica do tumor, mas positivamente associada com metástase. No entanto, esses autores foram mais cautelosos em reconhecer que o TGF-β1 possa ser usado como marcador de prognóstico (ELAHI et al., 2012).

Recentemente, membros do nosso grupo de pesquisa demonstraram ao estudar 43 amostras de CEC de boca uma expressão significativamente maior de IL-10 e TGF-β2 nessas lesões quando comparadas com a mucosa oral saudável, e em adição, foi evidenciada uma associação positiva entre a expressão de IL-10 e o maior estágio clínico do tumor (T3-T4) (ARANTES et al., 2016).

No que diz respeito à presença de IL-10 e TGF-β nas DPMs, Wenghoefer et al.

(2010) e Wagner et al. (2016) demonstraram uma elevada expressão gênica e proteica do TGF-β1 em amostras de LE se comparadas àquelas da mucosa oral saudável (WENGHOEFER et al., 2010; WAGNER et al., 2016), todavia uma expressão similar do RNAm da IL-10 foi encontrada nessas mesmas amostras (WENGHOEFER et al., 2010).

Desta forma, considerando os dados da literatura científica sobre a possível participação das citocinas IL-10 e TGF-β nos processos de evasão ou falha da resposta imune antitumoral, e diante dos poucos estudos que ainda apresentam resultados conflituosos em relação ao papel dessas citocinas nas DPM de boca, o presente estudo torna-se relevante, pois nossos achados poderão contribuir para um melhor entendimento dos fatores que favorecem a evasão das células epiteliais alteradas do sistema imunológico os quais podem estar associados a lesões ou pacientes que apresentam maior potencial de transformação maligna.

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