PARTE II – ASPECTOS QUÍMICOS E FARMACOLÓGICOS DAS ESPÉCIES ESTUDADAS
RESULTADOS E DISCUSSÃO
4. Citotoxicidade in vitro
Antineoplásicos ideais seriam aqueles que fossem tóxicos apenas às células cancerosas preservando as células normais, porém a grande maioria destes fármacos são indiscriminadamente lesivos justificando, portanto, os ensaios de citotoxicidade como triagem preliminar (FÁVARO et al., 1990). Na continuidade deste estudo com ensaios mais específicos de atividade antitumoral, decidiu-se pela inclusão de todas
BARBOSA, C.V., 2009 as amostras, as atóxicas e também as muito tóxicas, como A. muricata, no ensaio de
A. salina, no intuito de se identificar efeitos tóxicos sobre células de linhagens
tumorais humanas.
A atividade citotóxica de todas as amostras está apresentada na tabela 12 (p. 52), com seus respectivos percentuais de inibição sobre as linhagens tumorais SF- 295 (glioblastoma), HCT-8 (cólon) e MDA-MB-435 (mama). As substâncias assinaladas em negrito na tabela 12, foram escolhidas para avaliações subseqüentes.
A. muricata por apresentar valores de inibição ≥ 75% em pelo menos duas linhagens
tumorais testadas, valor esse considerado como cut-off para a triagem de novas substâncias com potencial antitumoral e a amostra de H. pectinata porque, embora seu percentual de atividade tenha-se mostrado inferior a 75%, apresentou certa especificidade para as células de linhagem tumoral de cólon humano (HCT-8).
Tabela 12 - Percentual de inibição do crescimento celular (IC%) das amostras em três
linhagens tumorais testadas na dose única de 50 µg/mL Valores são média ± DPM.
Amostra SF295 GI% HCT-8 GI%
MDA-
MB435 GI%
média DPM média DPM média DPM
A. muricata (graviola) 81,27 2,79 86,31 0,29 70,55 2,24 S. terebinthifolius (aroeira) 25,20 2,77 31,36 0,55 20,27 2,66 Hyptis pectinata (sambacaitá) 49,56 8,15 61,57 1,19 49,59 1,56 C. urens (urtiga) -29,16 6,13 8,74 0,01 10,29 2,79 S. adstringens (barbatimão) 23,30 6,34 30,34 3,74 46,93 7,12 C. bonduc (unha-de- gato) 5,53 0,45 16,70 5,80 19,16 11,64 Euphorbia tirucalli L. (Avelós) 23,50 5,39 -20,19 5,00 40,89 5,14
Aloe vera L. Burm.f.
(Babosa) -39,56 7,34 19,56 4,50 19,23 1,78
BARBOSA, C.V., 2009 Annona muricata L.
O elevado potencial citotóxico do extrato de graviola (A.muricata) para as três linhagens tumorais (Tabela 12, p. 52) corrobora as informações acerca dos estudos realizados com as substâncias ativas, isoladas desta espécie, denominadas acetogeninas, que têm sido estudadas quanto às suas atividades citotóxicas sobre linhagens tumorais. De acordo com levantamento da literatura, verificamos que tanto a linhagem de câncer de cólon (HCT-8) quanto à linhagem de câncer de mama (MDA- MB435) foram selecionadas para estudos de atividade anti-tumoral. Entretanto, para a linhagem de gliobastoma SF295, não foi encontrado nenhum estudo relacionando a atividade de acetogeninas ou mesmo do extrato de A. muricata.
Acetogeninas isoladas das folhas de A. muricata (anomuricina C 111 e muricatocina C 121) demonstraram citotoxicidade sobre linhagens tumorais em ensaios in vitro (WU
et al., 1995). A muricatacina (5-hidróxi-4-heptadecanolido) isolada das sementes de A. muricata mostrou promissora atividade citotóxica nas células de linhagens tumorais
de pulmão, de mama e de cólon (CAVÉ et al., 1997) e as acetogeninas anomuricina e
muricapentocina, quando testadas para linhagens de carcinoma pancreático e adenocarcinoma de cólon, mostraram seletividade (KIM et al., 1998). Três novas acetogeninas (muricina H, muricina I e cis-anomontacina) isoladas das sementes de
A. muricata exibiram significativa atividade citotóxica em ensaios in vitro, contra duas
linhagens celulares de hepatoma humano (LIAW et al., 2002). Chang e Wu (2001) relataram a atividade significativamente seletiva das acetogeninas (muricinas A-G, muricatetrocina A e muricatetrocina B, longifolicina, corossolina, e corossolona) extraídas de sementes de A. muricata, sobre linhagens celulares de hepatoma humano.
Outras linhagens tumorais têm sido utilizadas em ensaios in vitro com intuito de verificar atividade citotóxica das acetogeninas, a exemplo de estudo realizado por Kim e cols. (1998), onde anomuricina e muricapentocina isoladas do extrato das folhas de
A. muricata, apresentaram atividade citotóxica contra seis tipos de tumores humanos,
com seletividade para as linhagens celulares de carcinoma pancreático (PACA-2) e adenocarcinoma de cólon (HT-29).
Quanto à avaliação de citotoxicidade em linhagens de células tumorais sólidas humanas, a fração cis-anonicina, acetogenina extraída das sementes de A. muricata, mostrou atividade citotóxica seletiva para células de adenocarcinoma de cólon (HT-
BARBOSA, C.V., 2009 29), onde teve 10.000 vezes a potência da adriamicina (GU et al., 1996; ZENG et al., 1996).
Hyptis pectinata (L.) Poit (Sambacaitá - SAM)
Apesar de plantas do gênero Hyptis serem alvo de diversos estudos fitoquímicos, poucos estudos dessa espécie vegetal têm sido realizados utilizando modelos biológicos à procura de princípios citotóxicos (PEREDA-MIRANDA, 1995), por este motivo, a atividade citotóxica apresentada pelos diversos tipos de extratos de
H. pectinata e outras espécies desse gênero encontra-se relatada em poucos
trabalhos na literatura.
Em estudo de citotoxicidade com extrato clorofórmico das folhas de H.
pectinata testado contra leucemia linfocítica murina, verificou-se atividade citotóxica
com Dose Efetiva Média (ED50)= 2,2 µg/mL. Em continuidade a este mesmo estudo, foram isolados pectinolídeos deste extrato clorofórmico e testados quanto à sua toxicidade, apresentando significante efetividade (ED50 < 4 µg/mL) contra várias linhagens de células tumorais (PEREDA–MIRANDA et al., 1993).
Estudando o extrato clorofórmico das partes subterrâneas de H. emoryi Torr. , Sheth (1972) demonstrou atividade citotóxica dessa espécie sobre o carcinoma de Walker 256 e o ácido betúlico foi identificado como princípio ativo, apresentando percentual de inibição de 52% em dose de 300 mg/Kg. O ácido betúlico é um ácido triterpênico isolado das raízes de H. suaveolens e tem sido encontrado também, nas partes aéreas de H. albida e de H. pectinata (PEREDA-MIRANDA et al., 1993).
Pereda-Miranda (1995) realizou triagem de citotoxicidade de extratos metanólicos de diversas espécies de Hyptis. Todos os extratos apresentaram atividade citotóxica não específica contra um painel de linhagens celulares formadas por células cancerosas humanas de diversos tipos (mama, cólon, fibrosarcoma, pulmão, melanoma, KB e KB- VI, e P-388). Falcão (2003) em seus estudos sobre algumas espécies do gênero
Hyptis, atribui, principalmente aos metabólicos terpenoídicos, a responsabilidade
pelas atividades citotóxica e anti-HIV verificada em alguns estudos.
Embora os dados deste estudo (Tabela 12, p. 52) sugiram certa especificidade do extrato etanólico de H. pectinata sobre a linhagem de células tumorais de cólon (HCT-8), não há, até o momento, relatos na literatura sobre citotoxicidade específica de extrato ou fração de H. pectinata sobre esta linhagem tumoral. Este fato é bastante
BARBOSA, C.V., 2009 interessante, visto que H. pectinata é uma planta encontrada geralmente em pastos, campos, muitas vezes reconhecida como erva daninha, mostrou-se atóxica no ensaio sobre A. salina e especificidade sobre HCT-8. Ademais, os únicos dados na literatura, evidenciando o isolamento e identificação estrutural de seus princípios ativos, são os que relatam pectinolídeos e pironas.
Neste estudo, as espécies abaixo relacionadas não apresentaram valores de (IC%) significativos nas linhagens testadas, embora se encontrem na literatura acerca dessas espécies, estudos que comprovam a atividade antitumoral de algumas delas.