CLÁSSICO EM ROMA:ANTIGUIDADE E DISCIPLINA
No tempo do sexto governo monárquico de Roma, o rei Sérvio Túlio procedeu a uma divisão demográfica dos cidadãos (Liv. 1.43), cuja estratificação se baseou no valor dos ren- dimentos, criando assim diferentes classes. Em latim, o nome classis assume contornos me- nos específicos por extensão de sentido, passando a designar uma distinção entre tipos de qualquer natureza. Nas Epistulae ad Lucilium, de Séneca20, classis ocorre para designar cate- gorias de pessoas agrupadas de acordo com o interesse pela filosofia (os sábios) ou com o seu descaso (os ignorantes), quando o filósofo recorda que há autores que propõem uma divisão in tres classes, considerando também um nível intermédio (Ep. 75.8). Escritores como Quin- tiliano (Inst. 1.2.23 e 10.5.21) e Juvenal (7.151) aplicam o termo ao contexto escolar, como acontecia no sistema de ensino português até ao século XX21. Cumulativamente, o termo classis surgira já antes no Lucullus, de Cícero22, em contexto de debate sobre com quem po- derá ser comparado o filósofo pré-socrático Demócrito. A superioridade do autor da teoria atómica do universo parece inquestionável porque ele se caracteriza pela grandeza de enge- nho e de espírito (non modo ingenii magnitudine sed etiam animi), levantando-se a questão: quis hunc philosophum non anteponit Cleanthi Chrysippo reliquis inferioris aetatis, qui mihi cum illo collati quintae classis uidentur23. Distinguem-se neste testemunho pensadores de acordo com a sua qualidade e cronologia: um de outrora e outros mais recentes. O lugar des- tes é na quinta classis24, pois Demócrito supera-os em talento, inteligência e antiguidade.
Estes exemplos mostram que, embora com origem na distinção entre camadas sociais, o nome classis ultrapassa esse contexto, passando a significar o valor ou distinção de algo ou alguém, como regista D. Rafael Bluteau: “Classe, falando em Autores, Escritores, e cousas, que tem diferente estimação. Autor da primeira Classe. Auctor bonus in primis, ou optimus”. Compreende-se assim que também o adjectivo denominal25 classicus comporte originalmente
20 Antes de Séneca, esta acepção surge, e.g., em Hor. S. 1.2.47; posteriormente em Suet. Tib. 46.
21 Deixo de lado o sentido militar de classis (“armada”), de onde deriva o adjectivo classicus com o significado
de “naval”.
22 Os Academica ou Academici Libri são livros dedicados a questões do conhecimento neoacadémico. Da obra
restam Lucullus (livro II de uma primeira redacção) e Varro (livro I da segunda); v. Citroni et al. (2006: 299- -300).
23 Cic. Luc. 73. Trad. Campos in Cícero (2012: ad loc.): “Quem não colocaria este filósofo acima de Cleantes,
de Crisipo, ou dos demais pensadores mais recentes, que, em meu entender, em comparação com Demócrito, deviam ir parar à quinta classe?”
24 O elemento da quinta classe é um proletarius (OLD s.u.), o indivíduo que apenas tem importância para o Es-
tado porque tem filhos (proletarius designa etimologicamente o que tem proles).
uma nítida marca de distinção social26, por se relacionar com a casta de cidadãos mais ricos (como se confirma no emprego dado por Aulo Gélio 6.13.1 e 6.13.3). Não obstante, nas Noi- tes Áticas o adjectivo encontra-se a qualificar o nome scriptor27, em acepção vulgarizada em
português, como Bluteau deu conta ao definir “autor clássico” nestes termos:
Autor de bom nome, de boa nota. Auctor classicus. No liv[ro] 19. cap. 8. Aulo Gélio, chama aos bons Autores da Latinidade, Classici Authores. Não tenho visto Au- tor grave, ou Clássico (como lhe eles chamam), Corograph. de Barreiros, 191. verso.
Livros Clássicos chamam os Estudantes àqueles, a que de ordinário constroem nas Classes, como são as obras de Cícero, Virgílio, Horácio, etc. Libri classici, ou Li-
bri, quibus utuntur, qui gymnasia frequentant.
A citação de Gélio, correctamente localizada, é porém inexacta (a expressão original é scrip- tor classicus), como inexactas são muitas referências a este passo das Noites Áticas28. Será, portanto, adequado analisar todo o capítulo 8 do livro XIX para perceber o contexto em que classicus se associa a um escritor e que valores lhe estão associados.
Aulo Gélio29 recorda o tempo quando, ainda em Roma (antes de partir para Atenas), tinha vagar (otium) para ir visitar Cornélio Frontão, com o objectivo de ouvir as suas discus- sões sempre virtuosas e repletas de bons ensinamentos (purissimis bonarumque doctrinarum plenis), lembrando sair de lá sempre um pouco mais culto e instruído (19.8.1: fere cultiores doctioresque). A dilatação temporal deste hábito30 conhece especificação num dia em que o assunto era ligeiro (leuis), sed a Latinae tamen linguae studio non abhorrens31. Em causa es- tava a forma como um poeta do círculo de Frontão se havia expressado acerca do recurso a harenae calentes (“areias quentes”) para tratamento de uma doença. As qualidades intelectu- ais atribuídas ao interlocutor — bene eruditus homo et tum poeta inlustris32 — não obstam a que Frontão o tenha interpelado na brincadeira: morbo quidem (…) cares, sed uerbi uitio non cares33. Apoia o reparo na obra De analogia, de Júlio César, chamando a este autor uir inge-
26 Quase a fazer lembrar o célebre dito de Trimalquião, personagem de Petrónio (77): assem habeas, assem ua-
leas, “se tens um asse, vales um asse”.
27 Gel. 19.8.15. Aparentemente pela primeira vez, apesar de a ocorrência do nome classis em Cícero já estar
associada a filósofos.
28 Como na síntese de Rebelo (1995).
29 Segue-se a edição de P. K. Marshall in Gellius (1968).
30 O uso do imperfeito (erat, pergebam, fruebar) legitima esta interpretação. Sobre o imperfeito enquanto tempo
de “duração longa”, ou como expressão do progresso ou da permanência, v. Oliveira (2003: 140-141 e 156-157) e Oliveira (2013: 518-524).
31 Gel. 19.8.2: “mas ainda assim não despropositado para o estudo da língua latina”. 32 Gel. 19.8.2: “homem bem erudito e então um distinto poeta”.
33 Gel. 19.8.3: “É verdade que estás livre da doença, mas não estás livre do erro de linguagem”. A terminologia
da filologia portuguesa tradicional ainda empregava o conceito de “vício da linguagem”, oposto a “qualidade da linguagem”. Entre os vícios encontrar-se-iam o “uso de termos estrangeiros ou estrangeirados que se não mol-
nii praecellentis34 e recordando que ele foi melhor do que os outros da mesma época em pu- reza de dicção (sermo castissimus), características que legitimam a sua elevação à categoria de autoridade em matéria linguística. Frontão prossegue o argumento com base no texto de César: “harenas” uitiose dici existimat, quod “harena” numquam multitudinis numero appellanda sit, sicuti neque “caelum” neque “triticum”35. Estão, portanto, em causa nomes que, na tradição gramatical portuguesa, se dizia serem usados apenas no singular, no plural ou que “podem ter significação diferente no singular e plural”36; nessa categoria entram “no- mes dos metais, ventos, produtos animais e vegetais, alguns substantivos abstractos, etc.”37. Nas gramáticas latinas, registam-se como “nomes defectivos” (Miranda 1946: 38) os nomes próprios, abstractos e outros “que significam matérias ponderáveis e medíveis, como semen- tes, líquidos e metais, v.g.: triticum, i, o trigo; oleum, i, o azeite; ferrum, i, o ferro; ebur, ebo- ris, o marfim”38. Na linguística contemporânea são considerados nomes não contáveis39, ou seja, “conjuntos encarados como grandezas contínuas, não discretas: i.e., conjuntos em que não é possível distinguir entidades singulares e entidades plurais, e enumerá-las”40.
A pluralização destes nomes é, no entanto, aceitável (e, em alguns dos exemplos dis- cutidos, frequente). Quando os nomes não contáveis do singular são usados no plural passam por um processo (aliás, frequente) de recategorização41. Manuel Rodrigues Lapa (1984: 130)
dam ao génio da língua”, o “solecismo, violação das regras da sintaxe” e a “obscuridade” (Ferreira e Figueiredo 2002: 110-111).
34 Gel. 19.8.3: “homem de extraordinário talento”. Adiante, Frontão refere-se a César como uir doctus (19.8.12). 35 Gel. 19.8.3: “considera errado dizer-se areias, porque areia nunca deveria ser articulada no plural, assim co-
mo céu e trigo”. O nome (h)arena (tal como areia em português) não é contável (cf. Vitr. 2.4.1 genera autem
harenae fossica sunt haec: nigra, cana, rubra, carbunculum, “os tipos de areia fóssica são estes: negra, branca,
vermelha, carbúnculo”). No entanto, o plural harenae não é raro, sobretudo em contextos que exprimem quanti- ficação infinita (e.g., Verg. A. 1.107 e Hor. Carm. 3.4.31) ou no sentido de “areal, praia” (Verg. A. 5.34, Liv. 22.16.4, Ov. Am. 2.19.45), “região arenosa, deserto” (Sen. Nat. 1.pr.9). Celso (2.17.1) usa precisamente harenae
calidae (OLD s.u. harena 1).
36 Ferreira e Figueiredo (2002: 143). Cunha e Cintra (1997: 187) falam de “substantivos de um só nú-mero”. 37 Ferreira e Figueiredo (2002: 143); v. exemplos e estudos em Ferreira e Figueiredo (2002: 143), Lapa (1984:
130-131), Duarte e Oliveira (2003: 217-221 e 236-242); cf. Oliveira (2003: 152).
38 Freire (1998: 127). Miranda (1946: 38) acrescenta argentum, hordeum (cevada), acetum (azeite).
39 Opõem-se, naturalmente, a nomes contáveis: “conjuntos encarados como grandezas descontínuas, discretas:
i.e., conjuntos em que é possível distinguir conjuntos singulares e conjuntos plurais, e enumerá-los” (Duarte e Oliveira 2003: 217). Sobre nomes contáveis e não contáveis, usados só no singular ou só no plural, v. Peres (2013: 952-971).
40 Duarte e Oliveira (2003: 218). Um teste eficiente para perceber se um nome é ou não contável é sugerido por
J. Andrade Peres (2013: 954): “Uma propriedade típica das substâncias denotadas por nomes massivos é o facto de poderem ser divididas sem perderem o seu estatuto ontológico, pelo menos até ao nível atómico: assim, por mais que se quebre um lingote de ouro em pedaços sucessivamente mais pequenos, continuamos a ter ouro; por mais que eu deite fora de forma sucessiva grãos de areia que tenho na palma da mão, continuo a ter areia; e por mais que vá bebendo o vinho que tenho no copo, pelo menos até o terminar, o que fica no copo continua a ser vinho”.
41 Ao admitirem plural, os nomes próprios perdem propriedades que os distinguiam enquanto tal (Duarte e Oli-
veira 2003: 214-215; Peres 2013: 959-963; Miranda 1946: 39 e n.). António Freire (1998: 127) salienta que “nomes de ervas, cereais, metais, madeiras, etc.” admitem plural, mas passam a designar qualidades ou espécies.
salientou, para o português, o “efeito do plural” a partir do exemplo “Lá em casa a família passava fomes”. O filólogo ensina: “O plural dá ao substantivo dois valores: um de intensida- de, outro de variedade. A impressão geral é de que a palavra fome, pluralizando-se, se tornou mais concreta. É esse, por via de regra, o resultado do plural nos nomes abstractos. A lingua- gem corrente conhece o processo: belezas, miudezas, festas, atenções, etc., tornam-se concre- tos”42. A linguística contemporânea apoia esta descrição, salientando Duarte e Oliveira (2003: 219) que os nomes massivos são “mais dificilmente pluralizáveis do que os nomes contáveis e, nos casos em que admitem variação de número (cf. água, ferro), a oposição sin- gular / plural corresponde a diversidade de qualificações da entidade ou quantificação de por- ções delimitadas de matéria”. O texto de Aulo Gélio parece ignorar este processo.
Frontão recorda, finalmente, casos opostos a estes, ou seja, aqueles nomes que se usam unicamente no plural43: quadrigae (etiamsi currus unus), arma, moenia, comitia e ini- micitiae44. Apesar da autoridade reconhecida a Júlio César, Frontão dá ao amigo a possibili- dade de contrariar esta teoria linguística, ou seja, permite-lhe purgar-se do uitium45. Por seu lado, o poeta concorda que caelum46 e triticum47 devam ser usados apenas no singular, en- quanto vocábulos como arma, moenia e comitia pertencem sempre ao plural (19.8.5). No que respeita às demais palavras, confessa maiores dúvidas porque autores antigos fizeram uso di- ferente do número gramatical; argumenta: Ac fortassean de “quadrigis” ueterum auctoritati concessero, “inimicitiam” tamen, sicuti “inscientiam” et “inpotentiam” et “iniuriam”, quae ratio est, quamobrem C. Caesar uel dictam esse a ueteribus uel dicendam a nobis non putat,
42 Esta concretização é apoiada em exemplos de Francisco de Morais e Fr. Luís de Sousa, que Lapa (1984: 131)
considera “clássicos”.
43 São os pluralia tantum. Em português: arredores, cercanias, exéquias, matinas, núpcias, óculos, víveres (Peres
2013: 963-971).
44 Gel. 19.8.4: quadrigas, “mesmo se apenas um carro”, armas, muralhas, eleições e hostilidades. O nome qua-
drigae designa o “conjunto de carro e (quatro) cavalos que o puxa”; sendo mais usado no plural, surgem raros
exemplos no singular (OLD s.u. quadriga). Normalmente no plural, com sentido singular, inimicitia designa “relações inimigas, estado de inimizade entre indivíduos”. Encontram-se, segundo o OLD, exemplos do singular em Pl. St. 409, Pac. trag. 111 e Call. dig. 22.5.3. No singular, enquanto “sentimento de inimizade, mal--estar”, é usado por Énio (a partir deste exemplo citado por Gélio) e Cícero (Tusc. 4.16 e 4.21).
45 Gel. 19.8.4: nisi quid contra ea dicis, poetarum pulcherrime, quo et te purges et non esse id uitium demons-
tres (“a menos que, ó mais belo dos poetas, digas algo contra isto de forma que te desculpes e proves que isto
não é um erro”). De notar o uso de um verbo ligado a um conceito médico, purgo, prolongando o campo lexical da doença acima iniciado com o jogo semântico entre morbo careo e uitio non careo.
46 Existem poucos exemplos do plural de caelum, nome evidentemente não contável. As gramáticas de latim
salientam a curiosidade de, sendo um nome neutro, mudar de género quando se flexiona no plural (o que ocorre em raríssimos casos: Cic. Hort. fr.31, Lucr. 2.1097, este com o sentido de “universos”), apesar de Cic. Fam. 9.26.3.
47 Dos exemplos recolhidos no OLD, o nome neutro triticum nunca surge no plural, o que confirma a informa-
ção de Freire (1998: 127) acima citado. Columela (2.6.1), para mencionar diferentes tipologias de trigo, usa uma expressão partitiva: tritici genera complura cognouimus(“conhecemos diversos géneros de trigo”).
quando Plautus, linguae Latinae decus, “deliciam” quoque ἐνικῶς dixerit pro deliciis?48 Re- produz em seguida um verso de Plauto (Poen. 365) que comprova este uso, acrescentando uma ocorrência de inimicitia no singular retirada de Énio, in illo memoratissimo libro (“na- quele livro reconhecidíssimo”). Em conclusão, reclama por outras abonações e autoridades: Sed enim “harenas” parum Latine dici, quis, oro te, alius aut scripsit aut dixit?49
Tendo sido o livro De analogia mandado trazer para junto dos intervenientes na dis- cussão (19.8.7), o narrador continua o relato: Nam cum supra dixisset neque ‘caelum’ ‘triti- cum’ue neque ‘harenam’ multitudinis significationem pati, ‘num tu’ inquit ‘harum rerum na- tura accidere arbitraris, quod “unam terram” ac “plures terras” et “urbem” et “urbes” et “imperium” et “imperia” dicamus, neque “quadrigas” in unam nominis figuram redigere neque “harenam” multitudinis appellatione conuertere possimus?’50.
Tendo contra o poeta a autoridade de Júlio César (19.8.9), Frontão parece tê-lo con- vencido de que contrariou o status uerbi de harena ao flexionar o nome no plural. O poeta, permotus auctoritate libri (“perturbado pela autoridade do livro”), solicita, ainda, que Fron- tão explique que motivos vê para considerar erro (uitium) o singular quadriga e o plural ha- renae (Gel. 19.8.10). Segue-se, portanto, uma reflexão sobre a natureza plural de quadrigae, por implicar necessariamente que se junjam quatro cavalos, neque debet prorsus appellatio equorum plurium includi in singularis numeri unitatem51. Em relação a areia, Frontão pros- segue: nam cum “harena” singulari numero dicta multitudinem tamen et copiam significet minimarum, ex quibus constat, partium, indocte et inscite “harenae” dici uidentur, tamquam
48 Gel. 19.8.6: “Mas se porventura eu ceder à autoridade dos mais antigos sobre quadrigas, qual é o motivo pelo
qual Gaio César julga que inimizade, tal como ignorância, impotência e injúria não só não foram ditas pelos mais antigos, como também não devem ser ditas por nós, quando Plauto, glória da língua latina, também terá dito delícia no ‘singulier’ em vez de delícias?” (Mantenho o efeito do grecismo usado no original traduzindo-o para francês.) Inscientia significa “falta de inteligência”, “ignorância”, é um nome não contável (o OLD não regista qualquer exemplo de pluralização); impotentia (“fraqueza”, “comportamento imoderado”, “violência”) é nome não contável (o OLD não regista qualquer exemplo de pluralização). No sentido de “conduta fora-da-lei ou criminosa”, iniuria não tem plural. Na acepção de “tratamento injusto ou injurioso”, “injustiça”, aparece em diversos autores, como Cícero, Júlio César, Tito Lívio e Tácito (OLD s.u. iniuria). Tem um sentido adverbial, tomado a partir do ablativo (“sem atender à justiça, de modo injusto, sem justa causa”) e, usado em contexto jurídico, o plural exprime “faltas ao direito” (Rhet. Her. 4.35) ou o “insulto, afronta” (Cato orat. 182). Signifi- cando “perda” (de respeito ou de propriedade), o OLD não regista qualquer exemplo com plural. Segundo a mesma fonte, a pluralização parece ser mais comum no sentido de “lesão (física), dano” (Plin. Nat. 28.222, 8.197). O nome deliciae é, efectivamente, mais comum no plural, havendo, no entanto, exemplos do seu uso no singular, no sentido de “realização que provoca prazer ou gozo” (Pl. Rud. 426) ou “pessoa de quem se gosta” (Pl. Truc. 921).
49 “Mas peço-te ainda: quem mais escreveu ou disse que areias é falar mau latim?” (lit. “pouco latinamente”). 50 Gel. 19.8.8: “Efectivamente, como tinha dito antes, nem céu, nem trigo nem areia admitem plural. ‘Acaso
julgas tu’, diz [César], ‘que é pela natureza destas coisas que acontece dizermos uma terra e várias terras, cida-
de e cidades, poder e poderes, mas não podermos transformar quadrigas em singular nem converter areia para
o plural?”
51 Gel. 19.8.11: “e obviamente não deve uma designação de vários cavalos ser incluída na unidade do número
id uocabulum indigeat numeri amplitudine, cum ei singulariter dicto ingenita sit naturalis sui multitudo52. Frontão não deseja tomar o lugar de autoridade, apenas defender a perspectiva de
César (19.8.12), alargando o debate a outros nomes não contáveis: Nam cur “caelum” sem- per ἑνικῶς dicatur, “mare” et “terra” non semper, et “puluis”, “uentus” et “fumus” non semper, cur “indutias” et “caerimonias” scriptores ueteres nonnumquam singulari numero appellauerunt, “ferias” et “nundinas” et “inferias” et “exsequias” numquam, cur “mel” et “uinum” atque id genus cetera numerum multitudinis capiunt, “lacte” non capiat, quaeri, inquam53.
Dado que as questões levantadas não podem ser escrutinadas nem investigadas por homens de negócios54, a fim de concluir o debate Frontão sugere: Ite ergo nunc et, quando forte erit otium, quaerite an quadrigam et harenas dixerit e cohorte illa dumtaxat antiquiore uel oratorum aliquis uel poetarum, id est55 classicus adsiduusque56 aliquis scriptor, non pro- letarius.57 Diante disto, Aulo Gélio (19.8.16) julga que o objectivo do pensador não era tanto que os ouvintes viessem a encontrar aquelas palavras escritas em obras dos autores antigos (in ullis ueterum libris), mas sobretudo despertar o interesse na leitura pela busca de palavras mais raras (rariora uerba). O relato termina com o resultado da investigação feita pelo narra- dor das Noites Áticas: encontrou quadriga no singular no livro das Sátiras de Varrão
52 Gel. 19.8.12: “como areia dita no número singular significa tanto multiplicidade como abundância de partes
mais pequenas daquilo em que consiste, dizer-se areias parece desprovido de instrução e conhecimento; embora este vocábulo careça de número para quantificação, o seu conjunto inerente torna-o natural quando é dito no singular”.
53 Gel. 19.8.13: “Digo então que procureis porque é que ao mesmo tempo que céu é sempre mencionado no
‘singulier’, mar e terra nem sempre, e poeira, vento e fumo também não; porque é que os autores antigos de vez em quando atribuem tréguas e cerimónias ao singular, mas nunca férias [dias festivos], feiras, sacrifícios (aos deuses) e exéquias; porque é que mel, vinho e outras palavras do mesmo tipo tomam o número plural se leite não toma”.
54 19.8.14. Note-se a valorização dos momentos de otium para satisfazer a curiosidade intelectual: já antes Aulo
Gélio afirmara que ouvia as lições de Frontão quando tinha vagar, reconhecendo que são temas leues, e neste passo o mestre está consciente de que questões de natureza gramatical muito específica não podem ser investi- gadas por homens de negócios, numa cidade com afazeres constantes.
55 A ligação id est determina a correspondência semântica entre os antiquiores e os adjectivos classicus e adsi-
duus. Para classificar autores e obras de literatura, em português também são convocados termos provenientes
de áreas semânticas diversas (estilo rico e opulento, atavios da arte, louçanias da linguagem, etc.).
56 Adsiduus tem, entre outros sentidos, o significado de “estabelecido com terrenos, dono de terras”, “rico”. É
antónimo de proletarius (v. supra).
57 Gel. 19.8.15: “Ide então agora e, quando por acaso houver vagar, procurai se algum dos oradores ou poetas,
pelo menos daquele conjunto mais antigo — ou seja, algum escritor clássico e atento, não vulgar —, terá dito
quadriga e areias”. Proletarius designa aquele que pertence à classe mais baixa de cidadãos na constituição de
Sérvio Túlio, registando-se no OLD, a propósito deste passo de Gélio, um sentido figurado (“típico, comum, vulgar”). Diante disto, percebe-se porque considero inexactas as palavras de L. S. Rebelo (1995: 1162): “Aulo Gélio está bem consciente do processo da formação de um cânone estético, literário e cultural no qual se inclui, ao declarar-se classicus… scriptor, non proletarius. Autor clássico, autor de qualidade e de uma categoria supe- rior que se distingue da massa popular, Aulo Gélio continua, efectivamente, a manter o aristocratismo intelectu- al caracterizado por Horácio no seu odi profanum uulgus (Odes III, 1)”.
(19.8.17). Quanto a harenae, não fez uma busca muito diligente porque nemo id doctorum hominum dedit58.
Fechado o episódio, reforço as ideias relevantes: partindo de um debate em torno de uma questão gramatical acerca da pluralização de nomes não contáveis, são constantemente distinguidas para os escritores (poetas ou oradores) categorias de conhecimento (doctus — indoctus), mas sobretudo cronológicas (ueteres — nos), vindo a culminar na antonímia clas- sicus / adsiduus — proletarius. Assim, características como bene eruditus e poeta inlustris não impedem o erro (uitium) ou que se fale parum latine, pois a pluralização de harena é um fenómeno indoctus e inscitus.Só autores antigos (scriptores ueteres, ueterum libris, e cohorte antiquiore, classicus adsiduusque scriptor, docti homines) como Júlio César (uir ingenii pra- ecellentis que usa sermo castissimus, autor de um livro com auctoritas), Plauto (linguae Lati- nae decus), Énio (autor de um livro memoratissimus) ou Varrão concentram aquelas qualida- des que os habilitam a servir de modelos formadores da gramática normativa: antigos, com