2. TRAJETÓRIAS DA ASTROLOGIA E DOS ASTRÓLOGOS CLÁUDIO
2.2 CLÁUDIO PTOLOMEU, VÉCIO VALENTE E SUAS TRAJETÓRIAS
Como vimos no capítulo anterior, o ambiente intelectual da cidade de Alexandria atraiu pessoas de diversos lugares do interior do Egito e de outras regiões do Mediterrâneo, do Oriente Próximo e até mesmo de regiões mais distantes da Ásia, como a Pérsia e a Índia. Ambos os
astrólogos que escolhemos como fontes são, igualmente, exemplos destes fluxos migratórios motivados, sobretudo, por questões culturais.
Cláudio Ptolomeu, que é considerado o mais famoso astrônomo e astrólogo da Antiguidade, viveu, aproximadamente, entre 100 e 178 EC. Existe uma confusão em relação ao seu sobrenome, em que muitas vezes o estudioso é confundido como tendo parentesco com a dinastia que governou o Egito antes dos romanos. Porém Cláudio era chamado de Ptolomeu por sua origem geográfica, e não familiar, já que ele nasceu, acredita-se, na cidade grega de Ptolemais Hermiou – próxima a atual Al-Manshah, na província de Sohag, no Alto Egito.
O lugar da antiga Ptolemais fica a pouco mais de 500 quilômetros ao sul do atual Cairo, localizado na margem oeste do rio Nilo. A cidade foi fundada por Ptolomeu I Sóter sobre a aldeia egípcia de Souit. Assim como ocorrera com o povoado de Racótis em relação à Alexandria, o povoado de Souit acabou formando um bairro onde passou a viver a maioria dos nativos egípcios de Ptolemais. Estrabão (Geografia, 17.1.42) afirmou que, em sua época, se tratava da maior cidade da região da Tebaida, tão grande quanto Mênfis. Ptolemais também possuía sua própria constituição ao modelo das cidades gregas, contando com um conselho local, uma assembleia que elegia magistrados e juízes, e um modelo de cidadania dividida em tribos e demos (SHENOUDA, 1976).
Como destacamos no capítulo anterior, Ptolemais era uma das poucas póleis típicas fundadas no Egito, junto à Alexandria e a antiga colônia grega de Naucrátis. Porém, talvez por estar localizada no interior, a cidade tinha suas particularidades. Enquanto no ambiente cultural de Alexandria e Náucratis se acredita que predominariam os elementos gregos, mantendo-se a vida cívica centrada nos ginásios, teatros e templos característicos, no caso de Ptolemais, é provável que a cultura dos nativos egípcios se manteve com muita força entre os habitantes. David (2011, p. 418) destaca que havia na cidade um importante “culto ao crocodilo, bem como santuários a outras deidades egípcias” que foram adotados por muitos dos gregos residentes.
Entre as estratégias culturais da dinastia ptolomaica, que discutimos no capítulo anterior, estavam incentivos para a expansão de uma educação formal, baseados em uma estrutura de ensino que já existia no período faraônico, centralizada sobretudo nos templos, mas contando também com escolas espalhadas pelo interior do Egito. Embora os alunos do período tivessem lições de astrologia-astronomia apenas em etapas mais avançadas da sua formação, mesmo o ensino mais básico devia contar com algumas noções em torno de concepções astrológicas. O modelo educacional mais típico dos antigos helênicos também sofreu grande influência das escolas e do pensamento aristotélico, em que as ideias sobre os astros já se encontravam difundidas (BARTON, 2003, p. 61). É razoável imaginarmos que, em uma cidade como
Ptolemais, Cláudio Ptolomeu deve ter disfrutado de boas estruturas de ensino para sua época e de uma formação básica na disciplina astrológica.
Não sabemos até que idade Ptolomeu viveu na região da Tebaida antes de migrar para Alexandria, mas é possível que a mudança tenha ocorrido antes dos seus trinta anos de idade, já que em 127 EC ele já registrava observações astronômicas feitas da capital do Egito (BARTON, 2003, p. 60).23 É provável, também, que Ptolomeu tenha chegado a atuar na grande Biblioteca e no Mousêion, onde pôde desenvolver diversos estudos menores, além de obras que se tornaram cânones das ciências por muitos séculos, como o Tetrabiblos, que passou a pautar o conhecimento astrológico desde a sua primeira publicação (STUCKRAD, 2005, p. 135).
Contemporâneo de Ptolomeu, Vécio Valente, que viveu entre 120 e 188 EC, tinha uma origem bastante diferente do primeiro. Valente veio de Antioquia, na província romana da Síria, e é provável que fosse proveniente de uma família mais modesta (STUCKRAD, 2005, p. 137). Antioquia se situava a 17 quilômetros da costa da atual Turquia e havia sido fundada pelo primeiro governante greco-macedônico da região, Seleuco I Nicator, por volta de 300 AEC. No período de vida de Valente, entretanto, a cidade ainda estava em franco desenvolvimento e representava o principal entreposto de cultura grega na região asiática (LASSUS, 1976).
Assim como no caso de Ptolomeu, podemos supor que Valente já conhecia astrologia, porém buscava se especializar na área e via o Egito como o destino mais adequado para isto.24 Ele afirma que migrou buscando conhecimentos místicos e que passou por muitos lugares em sua jornada onde encontrou diversos professores que qualificou como “avarentos”, pois lhe prometiam conhecimentos, mas se preocupavam apenas com o pagamento que recebiam. Antes de se estabelecer na capital do Egito, diz ele: “sofri muito, suportei muito [...] gastei quantias que pareciam inesgotáveis, tudo porque fui persuadido por charlatões e gananciosos” (Antologia, IV 11). Não sabemos ao certo quando Valente se fixou em Alexandria, mas acreditamos que o estudioso tenha administrado sua própria escola de astrologia na cidade, ao invés de atuar em instituições maiores, como Ptolomeu.
É provável que Vécio Valente tenha atendido a pessoas de diversos lugares que chegavam à Alexandria, assim como também deve ter viajado para outros lugares com este intuito. Em um estudo dos horóscopos registrados por Valente em sua obra, realizado por Otto Neugebauer e Henry Van Hoesen (1987), aponta-se para uma área de atuação que inclui
23 Essas observações astronômicas foram realizadas entre 127 e 141 EC e resultaram na obra intitulada Syntaxis
mathematica ou Almagesto, considerada como a maior “suma astronômica” da Antiguidade.
24 Sobre o costume dos escritores gregos em citar o Egito como terra de conhecimento ver HARTOG, F. Les grecques égyptologues. Annales: ESC, Paris, vol. 41, n. 6, 1986, p. 953-967.
Alexandria, Roma, Babilônia, Palestina e Síria.25 Os horóscopos foram coletados por Valente ou por seus alunos, entre as décadas de 140 e 170 EC e cobrem um período que vai de 37 AEC até 188 EC (NEUGEBAUER e VAN HOESEN, 1987, p. 184). Durante sua vida, o próprio Valente coletou e analisou sistematicamente uma grande quantidade de material estatístico contendo dados de nascimentos e histórias de vida e morte de diversas pessoas para atestar suas teorias astrológicas (NEUGEBAUER, 1954, p. 66).
Embora os dois astrólogos aqui estudados tenham sido contemporâneos e migraram e se estabeleceram em Alexandria em um período parecido, não há nenhum indício de qualquer relação ou referência direta entre eles. Entretanto, isso não significa que não tenham se conhecido ou nunca tiveram nenhum contato. A possibilidade maior é que eles tivessem inserções, papéis sociais e fossem recepcionados de formas muito diferentes entre os estudiosos da capital do Egito romano, algo que buscamos compreender melhor a seguir, analisando seus escritos astrológicos.
2.3 OS TEXTOS ASTROLÓGICOS TETRABIBLOS, DE PTOLOMEU, E ANTOLOGIA,