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Cronologicamente, a irmandade de São Pedro erigida no Rio de Janeiro é das pioneiras, posterior apenas à de Salvador. Pioneira é, também, a construção de sua capela intrincada, provavelmente a que de mais longe aponte a

uma tradição construtiva não portuguesa. Seu interior, ao mesmo tempo cruciforme e circular era coroado por uma bela cúpula dividida em gomos por festões e ornamentada com cabeças de anjos e atributos do poder do apóstolo São Pedro. Essa cúpula sobre a nave, porém, era percebida do exterior como uma estrutura cilíndrica coroada por um tambor e um lanternim que permitia a entrada da luz a partir do alto. Embora de planta elaborada, o arranjo geral da fachada resultava, entretanto, algo incômoda e, de certo modo, privada de harmonia. Sua construção deu-se de modo rápido: lançada a pedra fundamental por D. Antônio de Guadalupe em 1733, em cinco anos a obra estava concluída. A autoria do risco da capela é, todavia, controversa:

“O livro de tombo não nos informa, assim como nenhum outro documento encontrado nos arquivos da irmandade, da autoria do projeto da igreja. No entanto, Moreira de Azevedo cita o engenheiro militar Tenente-Coronel José Cardoso Ramalho como o autor do risco , baseando-se, para tanto, na tradição oral e numa informação que teria recebido diretamente de descendentes do referido militar, que teriam afirmado ser dele a autoria da igreja de São Pedro, assim como também a de Nossa Senhora da Glória do Outeiro. Souza Viterbo contestou esta autoria comprovando que o Tenente-Coronel somente teria se instalado na capitania do Rio de janeiro em 1738, portanto ao final já da construção. Apesar disso, constatou-se posteriormente que o tenente-coronel poderia, ainda assim, ter sido o autor do risco, pois durante dez anos antes de ter tomado posse de seu posto no Rio de Janeiro, a serviço do rei, escoltava constantemente as frotas que da metrópole vinham ao Brasil.”163

Mesmo demolida em 1944, a capela da Irmandade de São Pedro dos Clérigos do Rio de Janeiro permaneceu viva, com seu ar de legenda, na produção historiográfica. Seu desmonte e a dispersão das suas peças por coleções particulares e acervos públicos alimentou durante anos o mercado de artes. Pudemos ver, v.g., tomos da sua cúpula, enormes cabeças de anjos acopladas a

terminações de volutas, na exposição O Universo Mágico do Barroco, de 1998. Querubins retirados do corpo da capela fazem parte do acervo do Museu de arte Sacra de São Paulo. A imagem venerada no altar-mor, assim como a portada principal da capela, de fatura excelente, foi trasladada para a nova igreja de São Pedro que se fez construir no Rio Comprido, no Rio de Janeiro.

Um estudo amplo da talha de feições rococó que recobria o interior do edifício foi conduzido pela profa. Dra. Ana Maria Monteiro de Carvalho, que atribui o trabalho ao Mestre Valentim164. Assim também, a análise do programa iconográfico da capela foi empreendido pela autora que faz criteriosa seleção de fontes para a reconstrução da história do monumento.

No altar principal, dedicado a São Pedro, uma bela imagem do santo patrono, representado em trajes pontificiais e assentado em sua cátedra. A mesma atitude pode ser observada na imagem de São Pedro, referida pela profa. Ana Maria Monteiro como sendo de origem portuguesa, que uma vez pertenceu à capela da irmandade paulistana de São Pedro dos Clérigos, hoje parte do acervo de Museu de Arte Sacra de São Paulo. O São Pedro entronizado carioca, porém, após ser transportado para a nova igreja do Rio Comprido, acabou recebendo nova policromia que o torna, infelizmente, quase irreconhecível, desaparecendo a bela e nobre expressão que se pode observar nas fotos dos anos quarenta do século XX por debaixo de espessas camadas de tinta que procuram sugerir o aspecto da pele humana.

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Id. p.60. 164

A esse respeito , é possível consultar CARVALHO, Ana Maria Fausto Monteiro de .Mestre Valentim. São Paulo.Cossac & Naify. 1999, bem como o cuidadoso estudo que acompanha o catálogo da exposição

O coroamento desse retábulo principal traz representação da Santíssima Trindade, organizado de acordo com normatização tradicional que aparece, por exemplo, em Francisco de Holanda:

“A figura do triângulo cabe na semelhança e assi a quadrada e a redonda, que é a mais perfeita. Mas estas deixará o discreto pintor para as diademas da Santíssima Trindade. Mas ao Princípio e ao Padre derão a imagem e a antigüidade de um quietíssimo e fermoso velho. Ao filho e ao Verbo, a imagem de um benigníssimo e pacífico salvador, e ao Spirito Sancto paracleto a imagem da flamma de fogo, e também a pureza da pomba, como foi specia que aparece no batismo do Senhor”165

No que diz respeito aos altares laterais, Ana Maria Monteiro fala de um retábulo dedicado a São Gonçalo, santo amarantino – devoção especial de Frei Antônio de Guadalupe – e outro a Nossa Senhora da Boa Hora166. As respectivas cúpulas apresentavam as decorações que se seguem:

“na de São Gonçalo, a figura da Santíssima Trindade como triângulo (...) em glória e esplendor, na de Nossa Senhora da Boa Hora, a figura do Cordeiro Pascal (simbolizando o Cristo levando a cruz pela redenção da humanidade e pela unidade da igreja – enfatizada a partir do Concílio de Trento), pousando no Livro do Apocalipse, que traz, pendentes, os sete selos: o símbolo das sete visões proféticas da sorte do Império Romano, da Igreja Militante e triunfante no Juízo Final, contidas no livro.”167

O acervo fotográfico do IPHAN nos permitiu a identificação de elementos compartilhados com as demais capelas da irmandade, como o belo cadeiral, a

a partir de comparações com obras remanescentes e de autoria efetivamente atribuída ao Valentim, especialmente de peças para a Igreja de Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte.

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HOLANDA, Francisco. Da Pintura Antiga. Lisboa. Imprensa Nacional - Casa da Moeda. 1983 cap.29. p.145-46.

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As fotografias apresentam um retábulo dedicado ao Senhor da Agonia – o que leva o cordeiro pascal na cúpula, identificado como o de Nossa Senhora da Boa Hora, portanto - e um segundo altar – o de São Gonçalo, com o triângulo da Santíssima Trindade – já vazio .

tradicional imagem de São Pedro Apóstolo no consistório ou na sacristia, ou mesmo o lavabo em pedra, aqui adossado à parede. A Irmandade carioca manteve, a exemplo do que acontecerá com a irmandade do Recife, fôlego suficiente para atravessar os anos da colônia e do Império, chegando ao século XX em funcionamento. Também como no caso do Recife, a capela carioca enriqueceu seu patrimônio durante o século XIX, adquirindo objetos artísticos que complementassem seu programa ou que amplificassem o sentido de magnificência do culto. Obras de douramento continuavam a ser executadas, por exemplo, ainda em 1854, segundo o que se lê na edição de 13/01/1854 de “O Jornal”:

“Aos Srs. Douradores:

A venerável irmandade de São Pedro, tendo que gessar e dourar sua igreja, convida por isso a todos os srs. Mestres douradores, para que apresentem suas propostas ao Rvmo. Provedor na Rua de Santo Antônio n. 18, onde se devem também dirigir para alguns esclarecimentos ao abaixo assinado, na Santa Casa de Misericórdia, até o dia 5 de janeiro de 1854.

O Procurador da Irmandade, Pe. José Domingos Nogueira da Silva”

Uma vez mais, a continuidade, as permanências e as transformações na tradição que se cria ao redor da irmandade e do seu edifício proporcionam uma análise mais enriquecida e instigante de sua história. Sabemos que o acervo dos irmãos incluía duas telas de Pedro Américo expostas em seu interior e integradas ao seu programa iconográfico setecentista. São elas um São Pedro na Prisão e uma Morte de Nossa Senhora. Há, ainda, referências a uma outra tela, um São Pedro de autoria de J. Madeira, datada de 1874. A grande estátua em mármore de

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CARVALHO, Ana Maria Fausto Monteiro de. A talha de Mestre Valentim na Igreja de São Pedro do Rio de Janeiro. In Réquiem pela Igreja de São Pedro. Rio de Janeiro, SPHAN/Fund. Casa de Rui Barbosa. Catálogo. 1987.p. 35.

Despré é, também aquisição informada por um novo gosto, algo como uma nova versão para a magnificência de culto que superpõe à talha do Valentim e às imagens devocionais em madeira a linguagem do mármore.

A forma centralizada e as múltiplas capelas que davam à igreja dos clérigos do Rio de Janeiro feição especial atraiu a atenção de Nelson Porto Ribeiro que, sobre ela – e particularmente acerca da idéia da cúpula - teceu sofisticada rede de hipóteses e linhagens, associando-a a um possível processo de assimilação do ideário neoplatônico pela arte colonial:

“A cúpula deste rtemplo inscreve-se numa tradição maior da própria filiação da planta desta igreja. Em um estudo anterior, observamos como as igrejas de plano centrado remontam não só a uma tradição paloecristã ligada ao Anastasis da Basílica hierosolimita de Constantino como também a uma concepção que o neoplatonismo renascentista reviveu na tradição ocidental e a qual, de certa forma, jamais estevce apagada na tradição da igreja cristã do oriente; a concepção de um Deus pantocreator em oposição ao Deus mártir que vigorou em boa parte da Idade Média. Ora, a melçhor epresentação espacial desta nova concepção – um Deus omnisciente e Todo-Poderoso que criou um mundo uniforme e bem proporcionado, consoante e harmônico era, segundo os artistas e filósofos neoplatônicos, oplano circular ou centrado. “Deus est sphaera infinita, cuius centrum est ubique, circunferência nullibi” (...), afirmava o cardeal-filósofo Nicolau de Cusa.”168

Continua o autor sua demonstração referindo-se á pintura de Manoel Jesus Pinto para o nártex da igreja de São Pedro do Recife como subsídio a sua

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RIBEIRO, Nelson Porto. Aspectos do neoplatonismo na artre colonial brasileira. Rio de

Janeiro.2001.Disponível em:<http://www.cfch.ufrj.br/jor_pesq/Arte2/ribeiro.html> Acessado em 10 setembro 2001. p.2 de 8. O autor vincula de modo claro a Igreja do Rio de Janeiro às demais igrejas de clérigos seculares, sobre elas fazendo a seguinte análise, no que diz respeito á genealogia de sua planta: “São Pedro dos Clérigos do Rio de Janeiro, além de pertencer a umasérie maior que inclui as igrejas da ordem (Recife, Porto e Mariana), pertence também a uma série própria que remonta ao projeto de Bramante para a igreja- mor da cristandade, São Pedro do Vaticano. Projeto este publicado por Serlio em 1547 e que teve ampla divulgação à época. A igreja do Rio tem o programa monumental de Bramante adaptado Às suas dimensões de quase capela através da transição feita pelo plabno da igreja lisboeta de Santa Engrácia.”. Op. cit. p.3 de 8.

interprestação que apresenta nos templos em planta centralizada a ideal representação da verdadeira igreja na Terra. Porto Ribeiro lembra as realizações de Perugino – A entrega das chaves a São Pedro - e Rafael – Apresentação da Virgem no Templo – como antecessores desta solução formal, assim como o templete de Bramante, São Pedro in Montório “no local, onde se acreditava, o santo teria sofrido o seu martírio”. Destaca a clareza da organização narrativa da pintura de Jesus Pinto em recife e sua eficácia em demonstrar a efetiva transmissão da carga de Poder de Jesus a Pedro no episódio do evangelho de Mateus. Lembremos que a cena inclui, no canto superior direito, sobre um monte rochoso, um templo circular figurando a Igreja de Cristo fundada a partir do apostolado de Pedro169. A nós interessa igualmente, as origens deste modelo de templo, como a propõe o autor. Sua genealogia organiza uma série em que o acúmulo simbólico estabelece “faixas” de percepção:

“Todos os artistas mencionados” [ Rafael, Perugino e Jesus Pinto (que,

induzido pelo texto de Fernando Pio Porto Ribeiro chama Luiz Alves Pinto) ]

“utilizaram para represdentar esta igreja ideal um templo circular períptero, absolutamente clássico tal como a Tholos da acrópole de Atenas. E o fizeram não porque estivesses imbuídos de sentimento pagão no que essa palavra possa significar de anti-cristão. Se havia paganismo, este era expresso por uma profunda crença queo neoplatonismo renascentista retomou de Pitágoras de que a forma geométrica mais adequada para expressar a perfeirção divina é o círculo.”170

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As relações desta imagem com a iconografia da Autoridade Espiritual, como a apresenta Cesrae Ripa na Iconologia serão desenvolvidas mais adiante, na segunda e, principalmente, na terceira parte deste estudo, quando comentarmos a decoração do forro da sala de reuniões do palácio capitular do Porto. A alegoria da Autoridade Espiritual aparece, especificamente na edição Hertel da Iconologia (1758-60, prancha 177) aparece associada com a mesma cena de Pedro recebendo as chaves de Jesus. O tema será desenvolvido no momento oportuno.

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RIBEIRO, Nelson Porto. Aspectos do neoplatonismo na artre colonial brasileira. Rio de

Janeiro.2001.Disponível em:<http://www.cfch.ufrj.br/jor_pesq/Arte2/ribeiro.html> Acessado em 10 setembro 2001. p.3 de 8.

A interpretação de Nelson Porto Ribeiro associa-se, de algum modo, àquela que veremos realizar Rudolf Preimesberger171 sobre São Pedro de Roma como local majestático por excelência. A idéia da conexão S Pedro-Constantino aparece nos dois casos, sublinhando a idéia, muito cara a nós, da conexão entre Coroa e Igreja. A cúpula como solução arquitetônica simbólica por excelência é, também, reafirmada pelos dois autores. No caso da Igreja do Rio, Porto Ribeiro lembrará o revestimento da volta interna da cúpula com relevos apresentando os atributos de São Pedro172 distribuídos por oito “gomos” ou segmentos. Oito, nos diz o autor, é o número místico que significa a união entre os âmbitos terreno e celeste. Toda essa simbologia procurava afirmar uma idéia central: a do primado de São Pedro173. Se a adesão total à hipótese de Nelson Porto Ribeiro nem sempre nos parece possível – a atenção às circunstâncias regionais e à cultura artística portuguesa de setecentos matizam ou relativizam essa apropriação tão direta do neoplatonismo três séculos depois – fixamos de seu discurso o esforço de compreensão do sentido da reincidência das igrejas de planta centralizada, construídas ou representadas em pintura.

Também a irmandade do Rio, a exemplo de outros grupos de clérigos seculares no ambiente português, desenvolveu atividade ligada à instrução e a

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PREIMESBERGER Rudolf. Loci maiestas: continuitá e trasformazione in San Pietro in Vaticano, 1623- 1644. palestra proinunciada em 22 e 24 de setembro de 2004, durante o congresso sobre arte religiosa e tradição clássica organizado pelo projeto Cicognara. UNICAMP/USP. Manuscrito ainda não publicado. O texto é analisdo por nós na segunda parte deste estudo.

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“a saber: o templo, a cruz invertida, a palma, o trono papal, a espada, a barca, o galo e as chaves.” RIBEIRO, Nelson Porto. Aspectos do neoplatonismo na artre colonial brasileira. Rio de

Janeiro.2001.Disponível em:<http://www.cfch.ufrj.br/jor_pesq/Arte2/ribeiro.html> Acessado em 10 setembro 2001. p.4 de 8

formação de religiosos. Num segundo momento, inclusive, a instituição expandiu- se e se converteu num dos mais importantes centros de formação do Rio de Janeiro. No Rio-Atlas, publicação dos anos1906/1907, aparece, a esse respeito, a nota que se segue, conservada no arquivo ligado à história da Irmandade no acervo do IPHAN - RJ:

“Próxima à igreja de São Pedro foi estabelecido o antigo Colégio dos mininos órphãos de São Pedro, que depois constituiu o Seminário de São Joaquim, convertido por Bernardo Pereira de Vasconcelos no Imperial Colégio de Pedro Segundo, hoje Ginásio Nacional.”

Essa ligação entre a igreja de São Pedro e o Colégio de órfãos é mencionada, igualemente, por Vivaldo Coroacy. Entretanto, este autor acrescenta a seu texto a transcrição de uma provisão exarada ao tempo de D. Antônio de Guadalupe e que menciona a obra de caridade então particada pelo sacristão da irmandade dos clérigos de São Pedro que, condoído pela sorte dos menos afortunados, recolheu-os em sua residência e recorreu à caridade pública para seu sustento. Sobre a instrução e o auxílio aos órfãos assim dispõe a referida provisão:

“ Terão um sacerdote que nós, ou nossos sucessores escolherem e reputarem de boa vida e costumes, o qual terá o cuiodado de criar os ditos meninos, ensinando-lhes a doutrina cristã e o santo temor de Deus, e, aos que não souberem ler, escrever, contar, e depois disso, os mandará ensinar a língua latina, a rezar o ofício divino e cerimônias da Igreja, como também música, a tocar instrumentos pertencentes a ela, segundo vir a capacidade de cada um. E em tudo

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RIBEIRO, Nelson Porto. Aspectos do neoplatonismo na artre colonial brasileira. Rio de

Janeiro.2001.Disponível em:<http://www.cfch.ufrj.br/jor_pesq/Arte2/ribeiro.html> Acessado em 10 setembro 2001. p.4 de 8.

se conformarão com o que se observa no colégio de meninos órfãos do Porto, exceto na sujeição do dito colégio, que fica pertencendo ao ordinário.”174

A referência ao Porto é mais do que oportuna: uma das confrarias que fundaram a Irmandade de clérigos daquela cidade – a Irmandade de São Felipe Nery, antes Irmandade dos clérigos pobres – iniciou suas atividades justamente na igreja do Colégio dos órfãos daquela cidade, ainda no século XVII175. O exercício da caridade manifestava-se pelo socorro não apenas aos irmãos congregados, mas, igualmente, àqueles privados das condições mínimas de subsistência.

O aspecto extravagante desse templo dos clérigos cariocas, em função de sua planta polilobada e seu exterior rotundo, não passaria desapercebido a Joaquim Manuel de Macedo, que a incluiria em seu Passeio pela cidade do Rio de

Janeiro como elemento de destaque na paisagem urbana. Assim escreve o autor

d’A Moreninha:

“Pelo seu exterior, a Igreja de São Pedro distingue-se de todas as outras

da cidade do Rio de Janeiro.

É uma igreja de planta circular como algumas de Roma, tendo o seu zimbório pequeno, mas proporcionado e elegante. As portadas são em mármore e executadas com talento e gosto(...). Domina em toda a igreja o estilo Barroco da arquitetura do décimo oitavo século.

A igreja tem duas torres e abre o seu pórtico de mármore para um pátio defendido por grades de ferro. Esse pátio, outrora regular, apresenta hoje dimensões mesquinhas e irregulares, porque já foi necessário sacrificar parte dele às justas e retas dimensões da Rua de São Pedro” 176

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COROACY, Vivaldo, Memórias da cidade do Rio de Janeiro, vol III. Rio de Janeiro. José Olympio.1965.p.305.

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INVENTÁRIO Artístico de Portugal, vol.13. Lisboa. Academia Nacional de Belas Artes.1995. p.196. 176

MACEDO, Joaquim Manuel de. Passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. Zélio Valverde ed. 1942. p.206.

Mais tarde, o sacrifício ao desenvolvimento urbano seria completo, levando ao desmonte de todo templo. O registro dos debates estabelecidos ao redor do desmonte deste edifício notável foram preservados pelo IPHAN e incluem as discussões aceca do ambicioso projeto de transporte de todo o edifício para um local ao abrigo da Av. Presidente Vargas. Nada resultou, entretanto, desta acirrada defesa do patrimônio. As portadas de mármore que tanto chamaram a atenção de Macedo - ao menos a principal delas, com certeza - restaram como lembrança do monumento desfeito, trasladada ao novo templo de São Pedro, erigido pela irmandade.