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A quem serve 30 ?

4 CLÍNICA, CIDADE E SUBJETIVIDADE

“Para compreender a psicologia da rua não basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor do sol e o lirismo do luar. É preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosida- des malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos flâneur e praticar o mais interessante dos esportes – a arte de flanar. ” (João do Rio, A alma encantadora das ruas)

A cidade

Ao pensarmos em cidade, logo nos remetemos a uma grande pluralidade de coisas e pessoas, das quais estão dispostas sobre certas logicas dentro de um deter- minado espaço. A cidade em sua essência, funciona como uma “maquina” produtora de subjetividade, atingindo o âmbito coletivo e individual. Ela por meio de seus recur- sos urbanísticos, influí diretamente na vida das pessoas moldando a forma como elas circulam, atuam, vivem, etc. Há um certo devir social da cidade. (GUATTARI, 1992)

Se fragmentarmos a cidade, principalmente as metrópoles urbanas que são o ápice de movimentação humana, nos deparamos com uma diversidade cultural e so- cial, disposta por arranjos urbanísticos que partem de um princípio econômico para sua configuração socioespacial. Por sua vez a produção de um espaço urbano base- ada nas relações econômicas, reflete em dimensões um tanto contraditórias que atra- vessam a vida humana.

A cidade como cenário principal da vida em sociedade, pode ser considerada como um agente que atravessa a vida humana por diversas vias. Ao pensar as rela- ções sociais e a interação delas com o meio, podemos ver a cidade a partir a categoria de análise de território desenvolvida por MAGNANI

Como “sujeito cultural”, sujeito que fala através de suas paisagens, que nos informa sobre o seu longo processo de humanização, sujeito que nos transmite mensagens simbólicas e afetivas, que interfere em nossa identidade, nossa língua, nossa cultura. Assim defendemos que a ideia de que o território é um meio humano, que tem uma identidade de longa duração, que tem profundeza histórica e camadas de histori- cidade, tal como os jovens ele vive ciclos de vida, num permanente

processo de indentização. (2003 apud E. ALMEIDA e M. NAKANO, 2011)

Caracterizando Cidade como território e considerando território como sujeito nos desdobramos ao caráter humano da Cidade. Na contextualização de um espaço dinâmico e empírico, ela se mostra não como mero espaço físico, nem cenário, mas como organismo vivo que pulsa concomitante com a vida humana. Em seus interstí- cios encontra-se o que podemos categorizar como lugar,

O lugar é a base da reprodução da vida e pode ser analisado pela tríade habitante-identidade-lugar. A cidade, por exemplo, produz-se e revela-se no plano da vida e do indivíduo. Este plano é aquele do local. As relações que os indivíduos mantêm como os espaços habitados se exprimem todos os dias nos modos de uso, nas condições mais ba- nais, no secundário, no acidental. (CARLOS, 1996, p. 20 apud E. AL- MEIDA e M. NAKANO, 2011).

O lugar por sua vez aflora com caráter um tanto indenitário, e principalmente afetivo! Afetivo não só no sentido de afeição, mas como um processo de afetamento que influi na forma como os sujeitos sociais se pensam enquanto habitantes/ocupan- tes de certos lugares. Esses lugares por sua vez, seja por aspectos estruturais ou ainda por suas concepções físicas, como o cenário tanto na ótica visual, quanto em outros sentidos como o cheiro e o som, refletem no comportamento social local, e nas formas como são produzidos meios de atuação de vida.

Tais afetamentos perpassam pela questão já citada das contradições sociais que afligem a vida humana, principalmente no meio urbano, advindas das disposições socioespaciais de uma cidade construída em prol de condições monetárias. O espaço urbano nesse contexto “aparece como campo de disputa e luta”, onde há uma articu- lação entre as relações sociais e o território. O espaço como objeto de disputa é con- siderado não somente onde os eventos acontecem, mas como sujeito dotado de agen- cia e historicidade com caráter sociopolítico.

A Cidade, em especial o Rio de Janeiro local onde se desenvolveu essa pes- quisa, enquanto grande metrópole que desde a Reforma Passos38 se modela em prol

de condições socioeconômicas, promove uma urbanização segregadora. Como ci- dade capitalista sua estrutura socioespacial reproduz conflitos de classes urbanas pro- movendo um processo de segregação e periferização (ABREU, Mauricio. 1987), não somente ligada a localização, mas também com a falta de infraestrutura. A produção dos bairros cariocas periféricos como a Cidade de Deus39 que foi construída para re-

alocar os moradores das favelas planas da zona sul que foram removidas em prol de uma urbanização social local são um grande exemplo que refletem essa segregação. O Instituto Municipal Nise da Silveira se localiza no Engenho de Dentro, bairro suburbano do Rio. As demandas de clientes tanto do Centro de Convivência quanto dos outros dispositivos do Instituto atendem indivíduos que moram nessa região e adjacências sendo em sua grande maioria moradores da zona norte carioca40. Como

já mencionados o lugar enquanto agente se insere nesse contexto provendo uma certa marginalização espacial e subjetiva no sentido de circulação e condições de bem-estar social muitas vezes ligada a questões de violência urbana - fato muito co- mum nessas áreas – e a falta de infraestrutura básica como transporte público seguro e abundante, e saneamento básico. A pensar a condição monetária dos clientes – que em grande maioria vem de situações de baixa renda - e a sua socialização na cidade advinda desse fator, a marginalização da vida se torna ainda mais intensa.

Consoante a isso, a própria criação da Colônia das Alienadas do Engenho de Dentro até a transferência do Hospício da Praia Vermelha se estabeleceram pela ló- gica da distribuição socioespacial urbana procurando um afastamento dos indivíduos ditos loucos de uma elite social carioca. O Rio de Janeiro como um território de grande discrepância social, insere como um importante espaço sociopolítico enquanto campo de disputa e luta. Na busca de alcançar a demanda da desinstitucionalização da lou- cura e desmistificação da mesma, habitar espaços onde a loucura em seu histórico

38 A Reforma Passos representa o primeiro grande exemplo de intervenção direta, maciça e abrangente do Es- tado sobre o espaço urbano carioca, intervenção essa que teve dois eixos básicos de sustentação: o controle da circulação e o controle urbanístico. (ABREU, M. A. 2003)

39 Zona Oeste carioca

de isolamento não circula significa em pequenos passos uma potente ferramenta de transformação social.

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