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2 ELEMENTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS PARA A ANÁLISE DA

2.1 CLÍNICA DA ATIVIDADE E ERGONOMIA: PRINCÍPIOS E CONCEITOS-

No âmbito das Ciências do Trabalho, a Clínica da Atividade (doravante CA) surge com o amplo objetivo de compreender e transformar o trabalho pelos próprios trabalhadores; e, para tanto, não propõe um rompimento com outras ramificações do campo, mas procura renovar o rol conceitual das análises do trabalho (CLOT, 2006a). Conserva, assim, um diálogo com a Ergonomia francesa23, para mobilizar e ampliar os objetivos e as noções empreendidas na investigação sobre as atividades profissionais. Um princípio elementar que a CA insere nesse campo é que

a análise e as transformações das atividades profissionais devem ser protagonizadas pelos próprios trabalhadores (CLOT, 2006a). Para isso, não concebe uma separação entre o trabalho e o sujeito, pois “a subjetividade na ação profissional não é um ornamento ou uma decoração da atividade. Ela está no princípio de seu desenvolvimento, configura-se como um recurso interno deste último” (CLOT, 2006a, p. 18). Em outras palavras, o sujeito não tem um trabalho, ele é o seu trabalho (CLOT; FAÏTA, 2000).

Clot (2006a) afirma que um objetivo comum nos campos de análise do trabalho é compreendê-lo como recurso para transformá-lo. Embora a Ergonomia já invista na concretude do trabalho, isto é, o trabalho real, como objeto de análise, as possibilidades de mudanças eram, no decorrer de uma longa tradição, conjecturadas pelos grupos de especialistas em relação exterior ao desenvolvimento da atividade. Em contraposição, a CA defende que nenhuma mudança concreta e duradoura no trabalho pode ser provocada sem a participação dos próprios sujeitos, principais envolvidos e para quem a mudança precisa ser significada. Em vista disso, a CA elabora uma nova abordagem prioritariamente metodológica, oferecendo uma abertura pluridisciplinar para que a atividade profissional seja objeto de pesquisas de diferentes campos de estudo (CLOT; FAÏTA, 2000). Para tanto, alguns conceitos já desenvolvidos na Ergonomia são reelaborados, tais como atividade prescrita, atividade realizada, e novos são colocados no campo, a saber: atividade real, gênero profissional e estilo profissional. Nesse movimento, ao conseguir ressignificar a definição de atividade, o próprio conceito de trabalho se move, como veremos mais adiante.

Os conceitos de atividade realizada e atividade real constituem uma das principais ampliações que a Clínica da Atividade (CA) propõe ao estudo do trabalho. Tradicionalmente, como apontam Clot e Faïta (2000), a análise do trabalho se apoiou na clássica distinção entre o trabalho prescrito e o trabalho realizado. Respectivamente, esses termos equivalem à diferenciação, inicialmente forjada por Leplat e Hoc (1983), entre tarefa e atividade: enquanto a primeira retém as ideias de prescrição e obrigação, designando aquilo que se deve fazer para atingir um objetivo final, a

segunda refere-se ao que, de fato, é feito pelo sujeito para realizar a tarefa anteriormente prescrita e é observável em sua ação.

Para Clot e Faïta (2000, p. 08-09, tradução nossa), é preciso que a análise do trabalho ultrapasse essa tradição, uma vez que “[...] não existe, de um lado, a prescrição social e, do outro, a atividade realizada; de um lado a tarefa e, do outro, a atividade; ou ainda, de um lado, a organização do trabalho e, do outro, a atividade do sujeito”. O que existe entre esses dois elementos frequentemente polarizados é, segundo esses autores da CA, uma reorganização, por parte dos próprios sujeitos, das tarefas inicialmente prescritas.

Assim, a atividade prescrita e a realizada seriam as faces observáveis do trabalho (CLOT, 2006a). Frequentemente, as prescrições tomam forma por meio de documentos oficiais e dos objetivos a serem alcançados em determinada atividade, enquanto a atividade realizada é observada no decorrer da ação. Contudo, Clot (2006a, p. 21) afirma que o realizado é apenas uma parte muito reduzida do que se pode observar da atividade, já que ele “[...] não tem o monopólio do real na vida psicológica”. Nessa perspectiva, o autor busca ampliar o que se entende por atividade, apreendendo também o que não foi efetuado, isto é, o que não é visível, mas que não deixa de existir para o sujeito. Com isso, surge na CA a noção de atividade real como uma síntese que, além da face observável da atividade, compreende:

“[...] também aquilo que não se faz, aquilo que não se pode fazer, aquilo que se busca fazer sem conseguir – os fracassos –, aquilo que se teria querido ou podido fazer, aquilo que se pensa ou que se sonha fazer alhures. É preciso acrescentar a isso – o que é um paradoxo frequente – aquilo que se faz para não fazer aquilo que se tem a fazer ou ainda aquilo que se faz sem querer fazer. Sem contar, aquilo que se tem de refazer. A atividade possui assim uma dimensão que uma abordagem demasiado cognitiva da consciência como representação do objetivo, como intenção mental, priva de seus conflitos vitais”. (CLOT, 2006a, p. 116).

Clot (2006a) defende que o objeto da CA é a atividade real, uma vez que a atividade realizada é apenas uma atualização das demais, que foram

impedidas ou rejeitadas. Nessa esteira, o autor considera que o real da atividade carrega o peso das atividades não realizadas ou ocultadas, incluindo as razões de suas ausências. Portanto, a CA trabalha com um conceito de atividade dilatado que repousa no feito, mas também no não feito, buscando esclarecer os conflitos que se instalam nessa conjunção. No âmago da renovação do conceito de atividade, surge um terceiro termo para ser alocado entre o trabalho prescrito e o trabalho real: o gênero profissional.

Com inspiração no aparato conceitual dos gêneros do discurso, a CA cunha a noção de gênero da atividade profissional, partindo do princípio da existência de um conjunto relativamente estável de pressupostos socialmente compartilhados e acordados que atingem as atividades desenvolvidas pelos membros de determinado grupo profissional (CLOT, 2006a). Heuristicamente apoiada na filosofia da linguagem de Mikhail Bakhtin, que considera a impossibilidade da interação caso fosse necessário criar cada enunciado pela primeira vez, a CA investe na hipótese de que o trabalho seria igualmente impossível se cada atividade precisasse ser concebida pela primeira vez na ação (CLOT, 2006a). Assim, o gênero profissional corresponde a uma

[...] parte subentendida da atividade, é aquilo que os trabalhadores de um meio dado conhecem e veem, esperam e reconhecem, apreciam ou temem; é o que lhes é comum e que os reúne em condições reais da vida; o que eles sabem que devem fazer graças a uma comunidade de avaliações pressupostas, sem que seja necessário re-especificar a tarefa a cada vez que ela se apresenta. É como uma “senha” conhecida apenas por aqueles que pertencem ao mesmo horizonte social e profissional (CLOT, 2006a, p. 41).

Ainda recorrendo aos estudos bakhtinianos, Clot (2006a) considera que os gêneros da atividade formam um corpo de avaliações compartilhadas que, tacitamente, orientam a atividade individual, podendo ser definidos como “a ‘alma social’ da atividade” capaz de carregar a história de um grupo. Apreende, então, tanto a parte visível da atividade, quanto a parte imersa. Por essa razão, suas propriedades não são

necessariamente verbalizadas pelos grupos de sujeitos que o utilizam e, do mesmo modo, elas não se fazem necessariamente presentes no consciente (CLOT; FAÏTA, 2000; CLOT, 2006a).

Enquanto memória histórica e socializada da atividade real, as obrigações impostas ao gênero profissional não podem ser limitadas ao trabalho oficialmente prescrito. Isso porque, para Clot (2006a), há uma série de regulações informais, intrínsecas ao gênero, que são geradas pelos próprios grupos de profissionais. Por outro lado, não se subestima a força das prescrições oficiais na construção do gênero profissional. Entende-se, nesse sentido, que essas duas grandes fontes de prescrição – a oficial e a que circula informalmente entre os próprios profissionais – se conciliam na construção das propriedades do gênero. Por essa razão, o autor entende que o gênero se nutre de uma evolução historicamente impressa por um grupo que desempenha determinada atividade, sempre inserida nos percalços do real. Seria, então, o espaço de “[...] organização do trabalho real por parte dos próprios trabalhadores” (CLOT, 2006a, p 37).

Ainda segundo Clot (2006a), destaca-se a capacidade dos gêneros em promover o pertencimento do sujeito a um dado grupo profissional: é a partir deles que os profissionais avaliam seus pares e se avaliam. Isso porque, conforme o autor, ao mesmo tempo em que o gênero orienta a ação, ele também permite que haja, fora dela, uma forma social que possibilita sua representação e significação. Seria, então, essa propriedade do gênero é que permite o início da atividade, principalmente no caso de profissionais iniciantes em determinado campo, dado que: “a atividade individual não sabe por onde começar quando o sujeito não é capaz de emitir ao menos uma suposição ponderada sobre o gênero a que ela pertence” (CLOT, 2006a, p. 44).

A noção de gênero profissional também permite entender a atividade da ordem do coletivo para o individual. Para Clot (2006a, p. 38), sair totalmente do gênero desencadeia uma desregulação da atividade que pode comprometer a credibilidade de uma comunidade profissional, uma vez que o gênero é um âmbito genérico para a atividade individual, bem como seu principal elemento constitutivo. Contudo, a CA não considera, a

partir de tal atributo do gênero, que ele seja fixo e acabado: “a norma e a ordem que fazem o gênero das atividades requeridas na situação merecem ser vistas mais como movimento que como estado” (CLOT, 2006a, p. 38).

Exposta às dinâmicas do real, a estabilidade do gênero é sempre temporária. É por isso que, paradoxalmente, enquanto ele tem a capacidade de delimitar as regras genéricas da atividade, também opera como sua fonte de renovação (CLOT; FAÏTA, 2000; CLOT, 2006a), uma vez que “quem trabalha age através dos gêneros enquanto responde às exigências da ação” e, por isso, quando necessário, retocam os gêneros por um movimento que implica em “se distanciar, se solidarizar, se confundir, de acordo com contínuas mudanças de distância que podemos considerar como criações estilísticas” (CLOT; FAÏTA, 2000, p. 13, tradução nossa). Chega-se, assim, ao conceito de estilo profissional, que é entendido na CA como fonte de vitalidade do gênero.

O estilo profissional é o espaço em que o sujeito imprime ativamente sua capacidade de agir na atividade que se insere num determinado gênero (CLOT, 2006a). Por essa razão, Clot (2006a) considera o estilo como elemento que suscita a transformação e o desenvolvimento do gênero, que é permanentemente inacabado. Nesse entendimento, a interface subjetiva é admitida na análise da atividade, mas não pode ser isolada ou abordada pelo viés do personalismo, sob o risco de desregulação da atividade, como vimos acima, e da impossibilidade de compreender as demais dimensões implicadas no real. A CA recusa-se, então, a entender o estilo como um atributo estritamente psicológico dos sujeitos, já que “[...] há uma interioridade recíproca de gêneros e estilos profissionais” (CLOT; FAÏTA, 2000, p. 15, tradução nossa). Em outras palavras, a atividade individual está inserida nas regulações genéricas e socializadas do gênero profissional que delimitam algumas fronteiras para a elaboração do estilo.

Contudo, além dessa “política externa” que regula o processo de estilização do gênero, a CA não despreza uma “segunda vida” do estilo, sua “política interna”, pois ao mesmo tempo em que o sujeito está cercado pela memória coletiva do gênero profissional, ele lida com elementos de sua própria história pessoal inscrita no gênero: “instrumentos operatórios,

perceptivos, corporais, emocionais ou ainda relacionais e subjetivos sedimentados ao longo de sua vida” (CLOT; FAÏTA, 2000, p. 17, tradução nossa). Esse conjunto de elementos próprios ao sujeito, que constituem sua experiência, também é capaz de regular e facilitar a elaboração de estilos no gênero. Para os autores, no processo de estilização, os esquemas experienciais do sujeito se conflitam no contato com o real, criando o novo ou retomando o antigo, fazendo com que surjam, no sujeito, as possibilidades e as impossibilidades que ele busca superar. Portanto, o estilo

[...] vive aos confins dos conflitos que agitam as duas memórias da atividade. O estilo é um “misto” que assinala a libertação possível da pessoa diante da sua memória singular, em que ela é sujeito, e da sua memória impessoal e social, em que ela é necessariamente agente. Há, então, uma unidade dinâmica do estilo na interseção de duas linhas em sentidos opostos: na primeira, ele desbloqueia ou libera o sujeito do gênero profissional, sem, para tanto, negar este último, mas pela via do desenvolvimento, forçando-o a renovar-se. Na segunda, ele emancipa a pessoa de suas invariantes subjetivas e operatórias incorporadas, sem, do mesmo modo, recusá-las, mas igualmente pela via do tornar-se possível, inscrevendo-as numa história que as reconverte. Nessa interseção, o desenvolvimento é conflito. (CLOT; FAÏTA, 2000 p. 18, tradução nossa).

Nesse sentido, os autores afirmam que a atividade real desenvolvida em determinado gênero se situa entre duas memórias, uma impessoal e outra pessoal. No encontro delas, a CA acredita que o desenvolvimento profissional ocorre, isto é, “[...] na colisão entre as duas histórias do trabalho: a sua e a de todos” (CLOT; FAÏTA, 2000, p.18). A estilização, portanto, seria um indício do desenvolvimento profissional, o poder de agir que a CA defende que precisa ser ampliado nos grupos de profissionais. Em tal perspectiva, desenvolver-se, nas palavras de Clot (2006a, p. 118), “[...] consiste para o sujeito em pôr o mundo social a seu serviço, em fazer dele ‘um mundo para si’ a fim de integrar-se a ele, ou seja, consiste em reformulá-lo participando da elaboração de novas significações”. Cabe ainda mencionar que, na perspectiva do autor, a estilização e, portanto, o desenvolvimento, é inviável quando o domínio do gênero e de suas variantes é limitado.

Nesse processo de desenvolvimento/estilização, identifica-se a função psicológica que o gênero profissional exerce sobre o sujeito nele inscrito: em sua propriedade impessoal e genérica, o gênero funciona como um aparato protopsicológico (CLOT, 2006a) que indica ao sujeito como se inserir e agir numa atividade, a partir de regras que foram estabelecidas independentemente de sua subjetividade (CLOT; FAÏTA, 2000). Entretanto, no confronto com o real e consigo mesmo, o sujeito precisa mobilizar formas de compensação para agir, se adaptando às urgências da circunstância. Para tanto, ele age ativa e criativamente, adicionando e imprimindo sua história no gênero em questão. Deste modo, para a CA, buscar entender o percurso que dá lugar às estilizações, que, muitas vezes, são simplesmente entendidas como inadequadas, deve ser um pilar das análises do trabalho (CLOT; FAÏTA, 2000).

Entre a atividade do sujeito e a atividade dos outros, um terceiro elemento se insere para completar o conceito de trabalho desenvolvido pela CA: o objeto da atividade. Para Clot (2006a), o trabalho é uma atividade triplamente dirigida, isto é, para o próprio sujeito, para os outros e para o objeto da atividade. Em parte, o objeto é capaz de definir a tarefa prevista para o sujeito e orientar sua atividade, através de uma mediação apriorística de experiências que foram anteriormente compendiadas. Por isso, o autor afirma que ele é o principal elemento de troca entre aqueles que elaboram as prescrições e os trabalhadores. Assim, “[...] trabalhar é sempre enfrentar uma heteronomia do objeto e da tarefa” (CLOT, 2006a, p. 95).

Clot (2006a) também acrescenta que o objeto é atravessado pelo sujeito e pelos outros e que, por si só, ele não é capaz de designar seus próprios sistemas de uso. Dito de outra forma, ele é sempre interpretável pelos sujeitos nos diferentes contextos da atividade. Nesse sentido, o autor afirma que o objeto é indiretamente atingido pelas mediações técnicas e simbólicas disponíveis no gênero: “o objeto é interiorizado graças aos outros e, inversamente, os outros se exteriorizam mediante os objetos” (CLOT, 2006a, p. 101). Podemos, então, afirmar que o objeto da atividade carrega a história de outros sujeitos e, por esta razão, como afirma Clot

(2006a), ele não é passivo e possui um conjunto desarmônico de usos, com várias formas de operacionalização entre as quais o sujeito pode optar por alguma – ou várias, acrescentamos – para atingir seu objetivo em determinada atividade.

Mediada pelo gênero, a atividade, enquanto tríade dirigida – sujeito, outros e objeto – é vista na CA como a unidade de análise, uma vez que ela reforça o conceito de atividade real de trabalho que também “[...] consiste em ultrapassar as contradições existentes no interior desses três polos de determinação, bem como entre eles” (CLOT, 2006a, p. 99). Nessa perspectiva, atingimos o conceito de ação utilizado na CA:

Agir é, apesar de tudo, se impedir de fazer aquilo que requerem isoladamente as pré-ocupações pessoais, a tarefa ou o outro. A ação consiste em se desembaraçar desses pressupostos da atividade separando-se de alguns no momento mesmo em que se recorre a outros como recurso (CLOT, 2006a, p. 100).

Nesse sentido, a CA considera que se tornar sujeito é conseguir lidar com os preconcebidos heterogêneos da atividade, reconhecendo que eles jamais serão esgotados, e é ser capaz de colocá-los a serviço de si na ação, imprimindo seu estilo profissional no gênero da atividade mobilizado. É nesse sentido que Clot (2006a) afirma que o maior domínio do gênero pode “aliviar a carga” que a ação implica. O que a CA propõe, nesse contexto, é que os estilos profissionais sejam “agitados” para que eles, junto com as propriedades genéricas do gênero, venham à tona e, assim, sejam avaliados e validados – ou não – pelos pares, pressionando as limitações do gênero e interrelacionando estilos variados (CLOT, 2006a). Isso porque “é apenas quando se prepara uma reavaliação que a regra não escrita se torna visível, que as regras do gênero aparecem. É no momento em que é perturbado que o gênero é visto” (CLOT, 2006a, p. 40, grifos do autor). A partir desse entendimento, a CA elabora um aparato metodológico para fazer emergir o que está submerso na atividade e ampliar o poder de agir do sujeito. Abordaremos essa questão nas seções seguintes.

2.2. A DOCÊNCIA PELO ÂNGULO DA ERGONOMIA E DA CLÍNICA DA