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4.3 Resultados das entrevistas advindos do Alceste

4.3.2 Bloco: repercussões na vida das mulheres apenadas

4.3.2.4 Classe 4 – Códigos de resistência e elementos para a vida futura

Esta classe foi estruturada com o número mínimo de uce igual a 20, correspondente a 22% do total. A classe 4 está mais relacionada aos elementos de resistência dentro da prisão e projetos para a vida futura, desejo que essas mulheres querem realizar quando estiverem em liberdade, mesmo estando cientes de todas as dificuldades. Esta Classe teve uma variação entre o χ2 = 28 (faz) e o χ2 = 4 (outros).

São situações que envolvem o que querem fazer quando saírem da prisão e com quem querem se relacionar. As variáveis atributo que mais contribuíram para a Classe 4 foram: “escol_4”, “corpele_3”, “m_4” e “m_1”. Estas variáveis remetem ao modo como reagem diante das situações apresentadas na atualidade dentro do presídio. Os tempos verbais no passado e no presente, como “ficou” e “faço”, decorrem como elementos de resistência, expressando o que aconteceu e o que é possível fazer agora para alterar a situação.

Uce n° 25, χ2 = 15

Exemplo. eu amo a mais-do-que os (outros) presos. (sonho) (de) (estudar), (queria) (ser) para_psicologa, eu sempre (estudei) livros sobre a mente do (ser)

humano, sempre me atraiu (muito), sempre (gostei) do (trabalho) do psicologo, psiquiatra, eu admiro, a capacidade do (ser) humano desenvolver a mente dele.

(Mulher 6).

Esta uce indica o desejo de estudar da Mulher 6, indicando também que gostaria de trabalhar dentro das áreas ligadas à psicologia e à psiquiatria. Ela se interessa por essas áreas para saber como funciona a mente humana. Está relacionada à luta, à ação para atingir o futuro que almeja. No dendrograma o radical “gost” aparece com χ2 = 18 e uma frequência de 86%, indicando que os elementos de resistência para não sucumbirem à prisão estão relacionados às atividades que elas pretendem desempenhar no futuro, atividades de que gostam e que sentem prazer em fazer. Esta uce traz códigos de resistência e os planos para o futuro que a apenada possui.

Outro código de resistência apresenta-se quando há identificação das dificuldades, mas sem esmorecimento.

Uce n° 3, χ2 = 10:

eu (vou) sofrer varias critica (la-fora), mas (vou) sair (daqui) (de) (cabeca) erguida. A nao confiar tanto nas (pessoas), (hoje) ate agradeco a deus por estar aqui dentro, me afastou daquela (vida). (Mulher 1).

Demonstra que esta mulher aprendeu a não confiar tanto nas pessoas, que está ciente das dificuldades que encontrará ao sair da prisão, mas também muita vontade de viver uma nova vida. Enquanto a palavra “daqui” com χ2 =7 e frequência de 75%, indica a situação atual e no presente, a palavra “sair” apresentada no dendrograma com χ2 = 4 e com frequência de 50% indica projeções futuras, associadas ao que vivenciou e à demonstração de resistência. Esta uce traz elementos de resistência diante das

dificuldades já encontradas, as dificuldades futuras e a confiança em vencer os obstáculos futuros.

A resistência também consiste em não depender do sistema penitenciário para a reintegração social, como pode ser visto a seguir:

Uce n° 71, χ2 = 5:

se voce nao traficava, (matava), (sai) (daqui) traficando, (matando). (sai) pior do que entrou, cadeia nao(reeduca) ninguem. quando eu sair eu (quero) reencontrar (meus) filhos, abracar eles, beijar e recomecar a (vida), (trabalhar) porque eu (gosto) (muito) (de) (trabalhar). (Mulher 14).

A Mulher 14 diz que o sistema carcerário não recupera nem reeduca ninguém, o esforço em mudar de vida é próprio e particular. Coloca as esperanças do seu futuro na sua força de trabalho e no propósito intrínseco de melhorar de vida social e economicamente. As variáveis que mais contribuíram para a formação da Classe 4 foram estas: “escol_4” com χ2 = 11, “*corpele_3” com χ2 = 8, “m_4” com χ2 = 7,

“*m_14” com χ2 = 7, “m_1” com χ2 = 4. A Mulher 1 apresentou o desejo de estudar e profissionalizar-se e pedir perdão aos filhos, a Mulher 4 deseja viver com o atual companheiro, a Mulher 14 intenciona voltar a frequentar a igreja e rever os filhos. Essas diferentes vontades em reprogramar a vida futura foram associadas pelo ALCESTE no âmbito dos sonhos e desejos a serem realizados quando elas saírem da prisão. Estão relacionadas à família, à profissão, à vida afetiva e à espiritualidade. São mulheres que cometeram diferentes crimes e que a cor da pele ou o grau de escolaridade não arrefecem os ideais para melhorarem de vida futuramente.

A Classe 4 traz alguns elementos importantes: os sonhos que algumas apenadas

possuem para serem realizados assim que ganharem a liberdade; aponta as dificuldades que terão ao saírem do presídio; traz ainda a alegação de que cadeia não reeduca ninguém, não serve para preparar uma pessoa para voltar a viver em sociedade e que um futuro melhor depende do esforço próprio. É uma Classe que aponta a palavra “sonhos”

com χ2 = 4 e o radical “faz”, do verbo fazer, com χ2 = 28. Os sonhos funcionam como códigos de resistência ao período difícil que estão passando e a palavra “fazer” dá sentido de construção, de fazer da vida futura o que imaginam. Esta classe demonstra a luta, a resistência e a busca em compreender como reintegrar-se à sociedade.

4.3.2.5 Classe 5 – A mudança de comportamento e de pensamento dentro da prisão.

Esta classe foi estruturada com o número mínimo de uce igual a 26, correspondente a 29% do total. A classe 5 refere-se mais à mudança no comportamento depois da prisão, ao que apreenderam e à emissão de novos juízos na vida. Retrata mudanças no comportamento e na forma de pensar sobre alguns assuntos. Esta uce está relacionada à influência que a prisão teve na vida das mulheres que hoje cumprem pena.

As variáveis atributo que mais colaboraram com esta quinta Classe foram: “escol_2”,

“idade_3”, “m_6”, “filhos_1” e “escol_3”, indicando que a mudança no comportamento está relacionada com o momento vivido, posteriormente apresenta uma correlação com o fato de terem filhos.

Uce n° 62, χ2 = 21

se alterar (a) voz comigo, nossa (senhora), (ja) perdi (as) contas (das) brigas que tive (aqui) dentro. Hoje (nao) brigo mais. (Mulher 11).

A fala da Mulher 11 nesta uce indica que brigava muito quando entrou na prisão e que agora não briga mais. A frase “nossa senhora” indica força na expressão e um sentimento de que não tinha paciência e que não tolerava certas atitudes das companheiras de cela ou agentes carcerários. Com o passar do tempo ocorreu um ajustamento às regras de conduta, que são reforçadas no dendrograma com a palavra

“aprendi”, cujo χ2 = 10 e apresenta frequência de 70%. Esta uce refere-se a uma mudança de comportamento dentro da prisão.

Outro dado sobre a mudança durante o cárcere está inscrito na uce abaixo, indicando mudança de pensamento:

Uce n° 48, χ2 = 8

eu (nao) vou mais (traficar), mexer com (coisas) (erradas) de especie nenhuma, (aqui) eu (aprendi) que (nao) vale (a) pena. eu (nao) (me) lembro de nada (em) especial. (Mulher 9).

A fala da Mulher 9, nesta uce, indica que ela sopesou o fato de traficar com o fato de ficar presa. A palavra “prisão” foi muito importante na construção desta Classe, demonstrada no dendrograma com χ2 = 8 e frequência de 100%. Esta uce indica que a prisão condicionou-a a pensar em não traficar novamente, ao contrabalancear os custos e os benefícios do tráfico de drogas.

As mudanças de comportamento e de pensamento estão associadas também às pessoas que convivem no cárcere, como pode ser identificado:

Uce n° 43, χ2 = 10

A gente (vem) (aqui) com (alguma) (coisa), mas tem gente (aqui) que (so) tem (a)

maldade, (nao) (aprende) nem (a) se calar, (aqui) tem gente que ainda quer mandar. (Mulher 8).

A Mulher 8 reclama que dentro do presídio existem pessoas muito diferentes.

Indica que uma das coisas que se aprende dentro da prisão é ficar calada e a obedecer e que tem gente que ainda não aprendeu isso. Esta uce indica que quem fica preso tem que obedecer a uma hierarquia e se comportar dentro das regras internas das celas. A palavra “coisa” representada no dendrograma com χ2 = 13 e frequência de 60%, indica a variedade de coisas a serem aprendidas e respeitadas dentro da prisão e que muitas pessoas devem mudar o seu comportamento e se adequar às regras impostas pelas detentas. Uma alteração frequente na maneira de pensar e de comportar dentro está associada às mudanças religiosas.

Uce n° 135, χ2 = 7

um pouco de atencao que dao pra gente. eu (aprendi) tudo (aqui) dentro, (coisas) que eu (nao) sabia. Eu (faco) parte (das) heroinas da fe, uma que saiu (na) revista veja. (Mulher 27).

Nesta uce a Mulher 27 diz que foi importante a atenção que recebeu dentro do presídio, pois foi cumprindo pena que passou a fazer parte de um grupo religioso e lembra-se de uma reportagem que saiu numa revista sobre o assunto. A palavra “todas”

no dendrograma, cujo χ2 = 11 e frequência de 78%, indica que muita coisa que ela não sabia aprendeu dentro da prisão, inclusive o sentimento de fé. Fazer parte de um grupo que é reconhecido socialmente fez bem para esta apenada. As principais mudanças estão relacionadas ao aprendizado religioso.

Noutros instantes os estudos e a profissionalização também aparecem como

dados importantes para a alteração de pensar e agir:

Uce n° 81, χ2 = 6

quero (dar) estudos pros meus filhos. (nao) quero que eles (facam) (coisa) (errada). estudar e ser (policia). (nao), eu (so) acho que deveria soltar (todas) (as) maes da (prisao), (todas) sofrem, mas (as) maes e os filhos sofrem mais, os filhos ficam preso, (as) vezes uns (come) uma (coisa), (a) outra (nao) reparte. (Mulher 17).

Indica que esta mulher deseja que os filhos estudem para ser policiais e que não façam coisa errada na vida. Afirma também que deveriam ser retiradas todas as mães da prisão, porque as crianças sofrem muito com as circunstâncias. As mudanças referentes aos seus pensamentos estão relacionadas aos reflexos que certas circunstâncias podem acarretar aos seus filhos e às demais crianças. A palavra “prisão”, que aparece no dendrograma com χ2 = 8, reitera que o aprisionamento fez com que a Mulher 17 alterasse a sua postura em relação à educação e ao bem-estar das crianças.

As variáveis que colaboraram para a estruturação desta Classe foram: “escol_2”

com χ2 = 7, “idade_3” com χ2 = 6, “*m_6” com χ2 = 5, “*filhos_1” com χ2 = 5,

“escol_3” com χ2 = 4. O nível de escolaridade apresentado está entre médio e superior, todas as apenadas têm filhos, o predomínio da idade está entre 39 a 48 anos e a história mais representativa foi da Mulher 6, que apresentou muitas incertezas em relação à vida futura, mas quer dar continuidade à evangelização. Essas variáveis inferem que, quanto menos perspectivas futuras a mulher encarcerada possui, mais expressivas são as suas referências com a vida espiritual. Como todas são mães, também há indicativo de desejos relacionados à convivência com os filhos e a preocupação com o destino deles.

Nesta classe podemos ver dois pontos principais: o primeiro relacionado ao que aprenderam durante o cumprimento da pena, como o fato de existirem coisas boas e ruins dentro da penitenciária, o aprendizado profissional e religioso, o aprendizado relacionado às regras de convivência entre elas e as lições que tiram para a vida toda.

Traz também alguns questionamentos sobre a permanência de crianças em presídios. A Classe 5 está relacionada diretamente à Classe 4, cujas alterações de comportamento e de pensamento estão associados ao códigos de resistência e aos elementos desejados para a vida futura.