Foto 3 Máquina de braille
5 O ENSINO DE ORTOGRAFIA NAS CLASSES PESQUISADAS
5.3 DESCRIÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS
5.3.3 Classe regular da escola municipal (5º ano do Ensino
A escola municipal, frequentada por Bruna, é considerada de pequeno porte e atende apenas alunos das séries iniciais do Ensino Fundamental. A escola possui
somente um prédio pequeno, com dois pavimentos e localiza-se no subúrbio de Salvador. Segundo as professoras da escola, a instituição atende alguns alunos cujos pais ou irmãos são envolvidos com drogas, ou estão presos, ou foram assassinados. Muitas crianças, segundo as professoras, não têm estímulos para estudar e possuem baixa auto estima devido à esses históricos nas famílias.
A primeira experiência com a cegueira vivenciada nessa escola foi com Bruna, que estuda na instituição desde o 2º ano do Ensino Fundamental, antiga 1ª série. Em 2010, além de Bruna, a escola recebeu mais um aluno cego, matriculado no 1º ano. Por ter um reduzido número de alunos com deficiência, essa escola não possui sala de recursos.
Bruna cursava o 5º ano e a sala destinada para essa turma apresentava um tamanho médio. A sala era equipada com trinta e cinco cadeiras universitárias para os alunos, sendo que a carteira destinada à aluna cega era uma mesa com cadeira, devido à máquina de braille; um armário, um ventilador, um quadro e a mesa com cadeira para a professora.
Jaciete, professora de Bruna, possui magistério completo, está cursando a graduação em História à distância e leciona há 29 anos. Bruna foi a sua primeira experiência com a deficiência visual. No entanto, 2010 não foi seu primeiro ano com a aluna. Jaciete é professora de Bruna há 3 anos (2º, 4º e 5º anos), porque as professoras da escola ficavam inseguras para trabalhar com uma aluna cega e como ela tinha experiência, continuou ensinando na série que Bruna se matriculava.
Jaciete afirmou que pediu à direção da escola a transferência de alguns alunos para o turno da manhã, uma vez que a turma de Bruna era muito cheia e barulhenta, tornando ainda mais difícil a inclusão da aluna cega. A professora considera Bruna uma ótima aluna, pois já sabe ler e escrever, enquanto alguns alunos que enxergam ainda não se alfabetizaram, apenas conseguem copiar o que está escrito no quadro, mas não leem nada, nem mesmo o que copiaram.
A seguir, descrevemos a prática para ensinar ortografia, desenvolvida por Jaciete, na classe com a aluna cega incluída.
Aula 1
A professora pediu que os alunos pegassem o caderno, para fazerem um ditado. Solicitou que Bruna colocasse o papel de braille na máquina e escrevesse o cabeçalho. Jaciete selecionou algumas palavras do hino nacional para ditar para a turma. Abaixo, segue o ditado de Bruna, transcrito pela pesquisadora:
Nome da escola escrito com erros de ortografia Professora Gasete
31 de masu de 2001049
Detado (Ditado)
imagen imagen (imagem) rizonho rizonho (risonho)
resplandesen resplandesen (resplandecem) propia propia (própria)
dezafia dezafia (desafia) linpidu linpidu (límpido) esperansa esperansa (esperança) formozo formozo (formoso) gomqistar comqistar (conquistar) qrozeiro qrozeiro (cruzeiro)
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Embora não seja o foco de nossa pesquisa, identificamos que Bruna possuía dificuldade para registrar numerais com três algarismos ou mais. Por exemplo, para registrar 102 (cento e dois), a menina escrevia 1002 (mil e dois). Tivemos a oportunidade de ver a sequência de numerais, de 100 a 200, escrita por Bruna, e verificamos que os representou incorretamente, exceto o numeral 100 (cem): 100, 1001 (101), 1002 (102), 1003 (103),..., 10010 (110), 10011 (111), etc.. Depois de escrevê-los, Bruna leu para a professora, que não identificou o erro, por não saber braille. O registro 1001, a menina leu cento e um, 1002, leu cento e dois, etc..
Depois de ditar, Jaciete escreveu no quadro as palavras para que os alunos corrigissem e pediu que não apagassem a palavra escrita errada, mas que escrevessem ao lado a palavra com a escrita correta. Para Bruna, a professora solicitou que lesse para ela as palavras que escreveu em braille, porque Jaciete não consegue ler através desse sistema. Bruna leu cada palavra escrita acima para a professora, pronunciou cada uma corretamente (a não ser a palavra “conquistar”, que pronunciou “gonqistar”, conforme seu registro) e Jaciete não percebeu que todas as palavras foram grafadas com erros de ortografia, uma vez que não pediu à aluna para soletrar cada palavra escrita. Baseada somente na pronúncia, sem ter contato com a ortografia produzida por Bruna, a professora disse que estava certo (exceto a palavra “gonqistar”, que a professora esclareceu a pronúncia correta) e pediu que a menina escrevesse todas as palavras novamente, ao lado do que já havia escrito.
Jaciete nos informou que não encaminhava para a instituição especializada as atividades feitas por Bruna para que fossem transcritas de braille para tinta e, desse modo, não tinha acesso à escrita da aluna para identificar os erros de ortografia em sua produção escrita. A professora acrescentou que não enviava, porque no ano anterior havia feito isso e, com a exceção das avaliações, as atividades não retornavam transcritas. Após a correção do ditado, portanto, Jaciete arquivou a atividade de Bruna numa pasta.
Nessa aula, após o ditado, Jaciete poderia ter entregado para Bruna as palavras escritas em braille. Dessa forma, a professora iria auxiliar a memorização tátil da criança cega, assim como contribui para a memorização visual dos demais alunos, ao escrever as palavras no quadro.
Aula 2
A professora Jaciete leu, para toda a turma, o texto Desespero e escuridão, do livro didático e pediu que os alunos videntes respondessem as questões de interpretação. Para Bruna, pediu que escrevesse o que entendeu sobre a leitura. A menina produziu o texto abaixo:
Desesperu e escuritj
Uqui eu entende foi qui ele sperdeu nu camimnho
Andou 15 minutos i não achou nimgei andou mas meia ora i não achou ningei foi pelo camimnho srocura um riachu para troca de agua i quandu qui olho para uriacho iquandu viu sdispero com uqui viu perdeu ainosensas i bateu a cabeja na paredi i caiu num labiritu idismaho
Ao perceber que Bruna havia concluído a produção escrita, a professora pediu que lesse, mas não para a turma toda, apenas para ela. Bruna fez a leitura e a professora perguntou: “Foi isso o que você entendeu, Bruna?”; e a menina respondeu: “Foi.”. Jaciete arquivou o texto em braille junto com as outras atividades feitas pela aluna. Em seguida, iniciou a correção da atividade de interpretação de texto com os demais alunos e Bruna ficou apenas ouvindo, sem participar.
Aula 3
Enquanto os alunos videntes faziam uma atividade do livro didático, Jaciete pediu que Bruna lesse um texto que havia produzido em uma aula anterior, contando o que entendeu sobre a leitura do livro “A menina que queria ser bruxa”, transcrito para braille pela instituição especializada. A aluna produziu o texto abaixo:
Ametina qui queria ser bruxa
Aline falo com sua Mai eu queru se bruxa amai de aline qlandu voãe qrese eupegu iliboto na Escola de Bruxas dis amai eu não queru qlandu eu qrese não ta amanha eu vou limatricula na escola de bruxaí Ialine foi commemora seus irmãus perontaron uqi estava aconteseidu Ialine dis mãi vai mim matricula na escola das bruxas amenha
Durante a leitura, sem ter acesso à escrita da aluna, não foi possível perceber os erros ortográficos presentes em sua escrita. Uma vez que Jaciete não solicitava as transcrições de braille para a escrita “à tinta” para a instituição especializada,
decidimos fazer as transcrições, de modo que assim a professora tivesse contato direto com a escrita da aluna. Ao receber esse texto transcrito, Jaciete afirmou: “estou precisando trabalhar ortografia com Bruna”.
Aula 4
A professora pediu que os alunos lessem um texto do livro didático e respondessem às questões de interpretação. Bruna, no entanto, realizou outra atividade nesse momento.
A menina trouxe da instituição especializada uma lixa de parede e mostrou para a professora que estava aprendendo a assinar o nome. De acordo com a professora, a instituição especializada pediu que Bruna treinasse também na escola a assinatura do nome. Enquanto os colegas de Bruna faziam a atividade do livro, ela tentava escrever o próprio nome, com uma folha de papel para braille por cima da lixa. Ela teve dificuldades, pois tinha começado a aprender a assinar o nome naquela semana. A professora Jaciete, tampouco, sabia orientar. A diretora da escola chegou à sala de aula da professora Jaciete e ficou auxiliando Bruna, incentivando-a a escrever, buscando ajudá-la a fazer o movimento com as mãos para escrever a letra B. A professora Jaciete iniciou a correção da atividade e Bruna continuou treinando a escrita “à tinta” do seu nome. Não participou da aula de português desse dia.
Para ensinar uma pessoa cega a escrever o nome em tinta, é necessária uma técnica específica e a professora da classe regular não conhecia essa técnica. Na verdade, Jaciete nos informou não ter conhecimento que os cegos aprendiam a assinar o próprio nome.
Aula 5
Enquanto os alunos videntes fizeram o exercício abaixo, Bruna ficou fazendo a prova de matemática. Não realizou na data marcada, junto com os demais alunos, porque ainda não estava transcrita para braille.
Atividade no caderno.
O grau diminutivo – exprime o tamanho diminuindo o ser. Ex.: palmeira – palmeirinha
O grau aumentativo – exprime o aumento de tamanho. Ex.: palmeira – palmeirão
1) Reescreve as frases, colocando no aumentativo as palavras destacadas. a) O rapaz comprou um chapéu.
b) O cão fugiu e se escondeu atrás do muro. c) O nariz do palhaço era vermelho.
2) Escreva os substantivos no aumentativo e no diminutivo. a) borracha
b) corpo c) jogo d) homem e) animal
3) Leia as frases completando com g ou j. a) A pá__ina do caderno está su__a. b) A moça foi __entil com o rapaz.
c) __ilberto viu a __ibóia entre as folhas. 4) Complete com g ou j.
estran__eiro __ilete an__inho __irafa dispe__ar al__ema li__eiro __enipapo
Chamamos a atenção para as atividades de língua portuguesa realizadas pelas três professoras participantes da pesquisa, que não contribuíram para que os alunos (cegos e videntes) desenvolvessem a competência comunicativa. Conforme refletimos no primeiro capítulo, a concepção de linguagem que atende aos objetivos do ensino de língua portuguesa é o entendimento da linguagem como processo de interação humana. Partindo dessa perspectiva, o ensino de leitura e escrita é visto como processo de interação autor-leitor-texto. Nesse sentido, é importante considerar o contexto, as condições sociais e históricas de utilização da língua. De um modo geral, observamos o uso de frases descontextualizadas em detrimento do uso de textos, além de palavras pouco frequentes no vocabulário das crianças, ou até mesmo palavras que estão em desuso atualmente.
A seguir, analisaremos os dados a partir das categorias descritas anteriormente.